Gop Tun

Orgânica e ecumênica: uma história oral da Gop Tun

Eclética e ousada, a festa se tornou uma das marcas mais destacadas da cena conceitual em SP

Parece um ato de puro solipsismo imaginar que algo tão particular quanto gosto musical possa se tornar o germe de um projeto tão comunal como uma festa. Afinal, desde tempos imemoriais essa euforia coletiva, seja ela ritual ou trivial, extática ou anímica, existe através da comunicação, manutenção e celebração de elementos compartilhados por toda a comunidade, e não apenas um indivíduo ou um grupo deles. Contudo, se prestarmos atenção às origens e notarmos a força atual da Gop Tun, se torna claro que seus integrantes conseguiram atingir um ponto crucial no qual o melhor desses dois mundos parece se encontrar.

Reza a lenda que tudo se iniciou naqueles recônditos da internet em que aficionados por música costumavam compartilhar feitos e achados com seus pares, o interior de redes como o Soulseek. Um bazar turco de raridades fonográficas que conseguiram chegar ao mundo virtual e ali eram circuladas, descobertas, discutidas e avaliadas entre aqueles que mais prezam seu valor. Em meio a esses ávidos garimpeiros musicais estavam os membros do coletivo, e foi nos ambientes de cultivo desse conhecimento que suas afinidades comuns vieram a uni-los para que, posteriormente, formassem um projeto com uma missão bem definida de disseminar essa riqueza.

Foto: Felipe Gabriel/Divulgação

Ela surgiu naquele contexto de renovação da cena paulistana, na qual diversos núcleos lideraram o êxodo dos clubs em direção a paisagens sonoras mais ricas, cenários mais diversos e pistas mais inclusivas. Mas, mesmo em meio a iniciativas aparentadas, ela conseguiu alcançar uma poderosa sinergia que uniu escolhas artísticas ousadas (estética e financeiramente), aquele ímpeto de exploração urbana que então se cristalizava no interior dessa cena e uma inquebrantável confiança enraizada num público que foi cultivado cuidadosa e carinhosamente no decorrer de seu trajeto. Estes pontos podem parecer banais ou naturais expostos de modo tão simples, mas a alquimia exigida para harmonizá-los e depois galvanizá-los em torno de algo muito maior que uma simples marca foi fruto de um desenvolvimento orgânico que culminou em algo sui generis naquela conjuntura.

Esse processo não foi linear e encontrou obstáculos. Havia certa resistência dos convidados em abraçar o impulso exploratório cidade adentro que procurava levá-los às franjas de uma metrópole gigante — até chegarem ao ABC ou mesmo ao Jaguaré —, e que propunha trocar o conforto próximo das áreas centrais por partes pitorescas da cidade, bem como os percalços que acompanham esse tipo de aventura numa cidade extremamente burocratizada e segregada como São Paulo. Além disso, por vezes houve momentos nos quais o aumento de popularidade cobrou seu tributo, convertendo intimidade em magnitude e criando dilemas inéditos que exigiram soluções inovadoras.

Foto: Felipe Gabriel/Divulgação

O crescimento, mesmo que compassado, exige ajustes e eles foram feitos durante o percurso. Se observamos a vibração do gigante aniversário de cinco anos em 2017, no qual Black Madonna e Anthony Parasole conduziram cada ambiente do evento a universos totalmente diferentes e igualmente dançantes, ela difere radicalmente daquela que conduziu cada uma das celebrações de aniversário que até então tinham sido realizadas com um ecletismo similar, com Mano Le Tough ao lado de Jacques Renault, Four Tet ao lado de Floating Points, Lauer ao lado de Tim Sweeney, por exemplo. Ainda assim, nada se comparava em dimensões e impacto como a parceria que estabeleceram com o selo holandês Dekmantel.

A trajetória de ambos se assemelhava em diversos aspectos, principalmente no desenvolvimento progressivo escorado na confiança e estima entre seu público cativo. Essa afinidade se materializou em um showcase inicial que prenunciou aquilo que, um ano depois, viria a ser considerado um dos festivais mais emblemáticos da década na América do Sul.

Foto: Felipe Gabriel/Divulgação

O quesito curatorial era o ponto de maior afinidade e se manifestou em escolhas que desafiaram e agradaram o público na mesma medida, recompensando a curiosidade ao mesmo tempo em que superaram as inevitáveis expectativas. Ademais, não é casual que o palco do festival que leva seu nome seja aquele que mais prima pelo ecletismo e enfatize uma musicalidade mais orgânica, colocando cada um dos membros como anfitriões de ídolos seus, como Marcos Valle, Azymuth e Os Mulheres Negras ao lado de nomes como Carrot Green, Barbara Boeing, San Proper, Palms Trax, John Gomez e tantos outros aventureiros sonoros como eles.

A primeira edição estabeleceu um patamar assustadoramente elevado de aclamação entre uma faixa ampla do público não apenas local, como também nacional e até internacional. Não obstante, a segunda conseguiu provocar uma reação igualmente uníssona de apreço enquanto ampliou consideravelmente seu alcance. Um feito nada modesto, já que este salto qualitativo e quantitativo põe à prova qualquer tipo de conceito e identidade, seja de um núcleo de eventos ou um restaurante.

Foto: Felipe Gabriel/Divulgação

Entretanto, a expansão também abrigou pontos de inflexão, nos quais algumas festas foram feitas prescindindo de headliners internacionais, tendo “apenas” os Goppers como atração e com capacidade reduzida. Tudo para que aquela energia inicial, a faísca que aparece num ambiente mais intimista, não se dissipasse e o fervor da pista — seja na energia despendida ou na fé depositada — que ela alimenta permanecesse intacto.

Esses esforços foram reconhecidos, principalmente entre os seguidores de longa data que, afinal de contas, são os protagonistas nessa narrativa desde o início ao lado da música. Também houve um projeto paralelo, chamado Tentáculo, inicialmente pensado como um laboratório de ideias a serem testadas para depois serem aplicadas e replicadas nos eventos principais, mas que acabou se tornando mais bem-sucedido que o esperado e atualmente encontra-se em repouso.

Foto: Felipe Gabriel/Divulgação

Outro elemento fundamental que é parte intrínseca do que a Gop se tornou em sua evolução é a simbiose que desenvolveram com a talentosa dupla da Sala 28. Os ambientes que criam a cada oportunidade são espetaculares, um mundo de luzes e cores, de envolventes estímulos sensoriais extrassônicos e geniais soluções cenográficas que acompanham cada direção musical tomada, tornando as jornadas noite adentro numa experiência sinestésica quase cinematográfica — fruto de uma relação de cumplicidade que tornou seu trabalho parte integral da experiência de cada evento, desde as Gopinhas até o Dekmantel, assim como a turnê nacional recém-completada pela trupe.

E aqui conseguimos vislumbrar com mais clareza um percurso de tantas anedotas quanto conquistas, no decorrer do qual nem tudo foram flores, muitas lições foram aprendidas e riscos foram corridos, mas que complementam perfeitamente a trajetória rica em momentos que entraram para o cânone da noite paulistana. E são esses elementos que eles agora colocam na estrada no intuito de levar pelo Brasil afora um pouco do que faz dos eventos da Gop algo tão querido em sua cidade natal. Afinal, os cinco anos que marcam até aqui revelam o fato de que cada escolha estética, da música à cenografia, das amenidades ao serviço, foi marcada pelo que compartilham desde o início como disseminadores e, sobretudo, consumidores do que amam.

Chico Cornejo é colaborador eventual da Phouse.

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