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Em long set de 7 horas no Warung, Guy J encontrou sua melhor versão como DJ

Jonas Fachi

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Guy J Warung
Na segunda noite de 2018 do clube de Itajaí, o produtor israelense dá indícios de estar cada vez mais perto de se tornar uma lenda do house progressivo
* Fotos por Gustavo Remor e Ebraim Martini

A data ainda era 04 de janeiro de 2018, porém já se tratava da segunda noite do ano no Templo sul-americano da música eletrônica. Durante a temporada de verão, o Warung sempre acelera a quantidade de eventos a partir do Natal, abrindo os portões a cada dois dias nos últimos e primeiros do ano e semanalmente até o Carnaval. Tantos eventos em um club considerado de porte grande têm um motivo: atender a uma demanda enorme de turistas vindo passar férias no maravilhoso e atrativo litoral do Estado. Ir ao Templo já faz parte do roteiro dos viajantes, é um cartão postal e uma experiência que se leva para a vida — até mesmo para aqueles que não estão em busca de música conceitual do mais alto nível.

Guy J foi anunciado como atração máxima após duas apresentações em 2017 muito comentadas. Agora, porém, ele subiria outro degrau ao receber a pista principal desde a meia-noite. Chegando ao club às 22h30, a primeira impressão foi de que estava eu mesmo abrindo a casa. Subi ao Inside para assistir a Conti e Mandi, e me deparei com um solitário clubber tendo a sorte de ter a pista só para si. Juntei-me a ele e aos poucos o ambiente foi ganhando vida — ainda assim, menos do que deveria.

É normal, devido à quantidade de eventos — ainda era em uma quinta-feira — ter algumas noites do calendário da temporada não estando tão cheias. Para o público é excelente, pois se trata de mais espaço para dançar e menos calor. A dupla da casa tem uma sintonia fina tocando; fazem o B2B tradicional — uma faixa para cada e fone pro lado, sem enfeitar muito. A linha sonora conjunta também ganhou uma identidade mais firme nos últimos dois anos, então o público já sabe o que esperar. Dificilmente você ouvirá coisas óbvias e raramente terá alguma faixa destoando da ideia musical; house, deep tech, momentos mais dançantes, outros com alguma profundidade.

Quando percebi, já eram 23h30 e ainda não se tinha 300 pessoas na pista. Por um momento me veio à mente a já famosa meia pista com Sven Väth em pleno aniversário de dez anos do club (um dia ainda farei um artigo somente sobre este fato — foi marcante). Nessa última meia hora, a pista chegou à metade, e conforme prometido, Guy J iniciou seu set pontualmente à meia-noite. As primeiras impressões foram uma mistura de “ele está fazendo um excelente warmup dentro do seu estilo” com “o sound system não esta 100%” — felicidade sendo cortada por saber que poderia estar mais alto.

É fato: quando um artista usa controlador, como é o caso do israelense, ou se apresenta em live act, o sistema de som tem uma leve queda que precisa ser compensada. Entretanto, não era nada que comprometesse sua apresentação, somente um detalhe que é sempre válido mencionar. Na primeira hora, o destaque fica por “The Strange Silence Open”, de John Talabot; uma faixa em que Guy J demonstra o quão distante se pode ir para achar elementos que lhe pertencem.

Após muitos comentários positivos, somado a meu particular interesse em conhecer o duo Bedouin, deixei a pista em direção ao Garden para assisti-los por algum tempo. Da 01h às 01h45, confirmei as expectativas com a identidade marcante que propõem. Estavam tranquilos e tocando da mesma maneira: deixavam cada faixa correr o máximo de tempo possível, em um ritmo bem cadenciado, inteligente, estratégico.

Porém, minha essência sonora me chamava para cima novamente, e quando voltei, senti como se os meus pulmões se preenchessem de ar novamente. Agora tinha vindo para a pista principal para não mais deixá-la até o último instante. Ah, e a sensação do público baixo também estava resolvida: o Inside estava com pessoas ocupando todo o seu ambiente. Guy J mostrava alguma evolução em sua estrutura sonora, ainda que estivesse segurando sua música na ponta dos dedos. O feeling comum a todos era de que ele estava novamente mostrando o quão grande DJ tem que se tornado. Por isso, não se esperava por músicas conhecidas, e sim por seu set. Ao mesmo tempo, ele também deixou claro que confiava plenamente no público que estava ali verdadeiramente para lhe assistir.

Essa relação é importante, pois tocar pelas três primeiras horas sem grandes momentos de explosão, apenas empurrando excelência musical e principalmente ambientando todos para uma sequência avassaladora, é algo com o qual o DJ precisa se sentir tranquilo para fazer, sabendo que a pista a sua frente é madura o suficiente para isso e espera que a noite transcorra exatamente assim. Com todos imersos por suas camadas de linhas de baixo, elementos viajantes e ritmos dançantes, ele começou a mostrar músicas que fazem a memória recordar.

“Airborne”, um de seus clássicos recentes, veio após quase dez minutos de algo super obscuro e compactado, servindo como uma válvula de escape após uma tempestade sonora. Definitivamente, o primeiro grande momento da noite. Foi o único gostinho de suas produções mais conhecidas, pois no restante do set ele não mais iria recorrer para sua discografia — o que achei excelente, afinal, havia apresentado todas as suas mais famosas nos últimos dois anos por aqui. Entretanto, muitas obras suas ainda não lançadas, desconhecidas e famosas como “IDs”, estavam invariavelmente fazendo parte de tudo. Desse horário em diante se podia sentir o ritmo tomando velocidade cada vez mais alta.

Outro ponto de destaque nesse set é que ele parece ter encontrado o “time” ideal para a utilização de efeitos — tendo o seu efeito favorito, que quando aplicado em breaks e mixagens, ajuda a potencializar a sensação já estonteante dos elementos que costuma trabalhar. É como se por aqueles segundos de aplicação, pudesse acelerar o BPM da música juntamente com a energia dos presentes.

Até às 04 horas, jogou toda profundidade possível de músicas. Então, a sua já tradicional baixa de ritmo por meia hora entra em cena. Aqui também mostrou maior controle do que em sua última apresentação, fazendo essa quebra sem perder a pista, de forma sutil e natural. Após esse descanso para as pernas, a parte mais intensa e explosiva da noite começa a dar as caras. Ritmos altos, menos profundidade, quase nada de melodia, apenas alguns aspectos obscuros flertando com techno, e mais uma vez, pegando alguma referência de John Digweed.

Durante essa, digamos, “segunda fase” do set após um break às 04h, Guy J obteve uma pista completamente entregue a cada nova mixagem. Em meio a isso tudo, ouço uma linha de baixo que é reconhecível desde o primeiro instante: sensação de surpresa e ao mesmo tempo contemplação. “Hale Bopp”, composta por Der Dritte Raum (que promete vir a o Brasil neste ano) completa em 2018 20 anos de lançamento. J não perdeu a oportunidade de ser o primeiro de provavelmente muitos que irão jogá-la no Templo no decorrer do ano. Nesse momento, todos estavam balançando e tentando transmitir de volta a ele toda energia da homenagem. É uma música que sempre vai cair bem, e você sabe quando se trata de um verdadeiro clássico quando DJs distintos conseguem encaixá-la em seus sets — desde Ben Klock e Hernan Cattaneo (ambos no Warung) até Sasha (podcast LNOE 33).

No entanto, talvez a música que mais simbolize essa parte da noite seja “Pistolwhip”, de Joshua Ryan, um trance marcante de 2003, que já recebeu remixes de nomes do calibre de Way Out West e James Holden. Porém, a versão apresentada pelo israelense era bem mais feroz que a dos citados. Eu apostaria as fichas em um rework dele mesmo, afinal, não é a primeira vez que resgata faixas do trance para seu mundo, a exemplo de “Shaiva”, de Chab e DJ Nukem — um de seus melhores remixes, nunca lançado.

Abrindo o amanhecer, após um momento viajante, surge um dos vocais mais famosos da história da dance music. Era outra homenagem, desta vez marcando dez anos de lançamento de “Alright”, de Red Carpet, em um excelente remix progressivo de Kamilo Sanclemente e Golan Zocher, não oficial. “It’s gonna be alright, oh yeah, come baby, the sun is gonna  keep on shining, on brighter days, on the horizon.” A letra fala por si só: não poderia entrar em momento melhor. Nem mesmo o pequeno comandante da cidade branca de Tel Aviv se conteve e abriu um sorriso diante da paisagem a sua frente. Para continuar na mesma sensação ainda sem baixar a guarda e o ritmo incontrolável, uma faixa com um toque mais celestial através de “Equilibrium feat. Liu”, de Martin Eyerer & Ackermann com remix de Paul Ursin.

Entrando na última meia hora, toques emotivos para deixar a mensagem final já eram aguardados. Ele estendeu até onde poderia a velocidade, porém, como manda a cartilha, cadenciou tudo novamente para fazer o fechamento de um set que beirava a perfeição. Os últimos minutos foram como se tivéssemos viajado por todo universo em um instante, mantidos por uma leve brisa sonora carregando sentimentos por todos os lados. Ou, como ele mesmo postou dias mais tarde, a “eletricidade no ar”, junto de uma imagem do Warung com palavras de agradecimento. Parecia realmente que após a música parar, as ondas ainda estavam atravessando nosso peito e entorpecendo nossas mentes.

Guy J já havia se estabelecido há alguns anos como um dos maiores produtores de house progressivo de todos dos tempos. Porém, agora, o israelense parece querer ir mais longe. Definitivamente, a cada nova apresentação demonstra que está chegando, quase abrindo a porta por onde até hoje só passaram nomes como Sasha, John Digweed, Hernan Cattaneo, Danny Howells, entre outras lendas. Muitos já chegaram perto, mas atravessar não é fácil, demanda muitos anos de experiência e um elevado nível de sensibilidade. Anos que ele tem cruzado com extrema destreza, através de exibições de controle de pista fenomenais.

Parece que sim, ele tem poder suficiente para um dia receber um titulo de “Mestre”, e enfim se colocar também entre os maiores DJs do estilo que a cena já produziu. Alguém duvida disso? Sua graduação recebida através de long sets com o maestro argentino tem lhe concedido um entendimento amplo de como se deve construir um set. Assumir a pista do Templo desde a meia-noite foi um de seus maiores testes. Pode-se dizer que saiu de lá com uma mão na fechadura.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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Hernán Cattaneo estreia concerto sinfônico com clássicos da dance music

Jonas Fachi

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Concerto
Foto: Hernán Zenteno/La Nación
Performance inédita será no teatro Colón, em Buenos Aires

Nunca antes a música eletrônica esteve exposta em um palco tão importante. Hoje (22), às 19h e às 22h, o lendário DJ argentino Hernán Cattaneo desembarca, juntamente de artistas convidados e uma orquestra com 50 músicos, no teatro Colón de Buenos Aires.

O projeto foi anunciado há alguns meses como parte do festival “Únicos”. Automaticamente, o movimento de seus fãs em toda América do Sul foi intenso por mais informações. Em dezembro as vendas foram abertas, e em poucas horas os dois horários tiveram ingressos esgotados.

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Vale lembrar que o Colón possui espaço para mais de duas mil pessoas sentadas. Com a demanda muito superior ao esperado, a organização do festival cedeu a Hernán mais um horário no dia 23, às 19h. Novamente, com os tickets esgotados, outro horário foi colocado à disposição no dia 26.

Com tamanho sucesso, a imprensa argentina ficou simplesmente de boca aberta, buscando saber um pouco mais do que havia por trás do nome que fez ter quatro funções esgotadas no icônico e respeitado teatro. Jornais como La Nación e canais de TV procuraram Hernán para entender melhor do que se tratava. Imagine no Brasil Gui Boratto sendo entrevistado pelo Fantástico. É mais ou menos isso que Hernán tem vivido nos últimos dias em Buenos Aires, sendo o centro das atenções na mídia da cidade.

Entrevista para o canal Telenoche

Para os argentinos, o Colón é uma espécie de Maracanã cultural, com mais de cem anos de construção e arquitetura que remete à história da cidade. É um cartão postal e um espaço de muito orgulho para o país, pois é considerando internacionalmente como um dos cinco mais importantes do planeta. Após o anúncio, algumas pessoas de perfil mais conservador se mostraram intrigadas sobre o que iria se passar com um DJ e “música eletrônica” no templo que é dedicado à música clássica, ballet e peças líricas.

Hernán, porém, em todos os momentos deixou claro que se trata de um concerto sinfônico, não de um show de música eletrônica comum. Nas suas palavras, “o que difere de um concerto de Mozart ou Beethoven é apenas que os músicos da orquestra irão reinterpretar faixas da dance music, que fazem parte de minha história enquanto artista”. Entre as escolhidas, terão clássicos de bandas e DJs como Depeche Mode, Chemical Brothers, Massive Attack, Underworld, Way out West (com Nick Warren como convidado), Moby e Frankie Knuckles — que foi o DJ que inspirou Hernán a tocar —, além de músicas autorais não divulgadas. Haverá ainda uma quinta apresentação gratuita ao ar livre no dia 3 de março, no famoso parque destinado a shows da avenida Figueroa Alcorta y Pampa, bairro de Palermo.

Mural feito por um artista da cidade com imagem do DJ argentino em Palermo (Foto: Seba Cener/La Nación)

O festival Únicos conta com apoio do poder público da cidade. O novo ministro da cultura portenã, Enrique Avogadro, declarou que “a abertura de Colón a novos públicos é um debate interessante e que precisa ser feito”. Comentou também, em matéria trazida pelo La Nación, que “hoje se vive um ciclo em que já não existe mais a lógica de uma cultura superior à outra”.

O festival reúne diferentes gêneros para propor sinfônicas de música popular. Uma das preocupações dos guardiões da sala maior do teatro e artistas do ambiente lírico foi em nome da famosa acústica do teatro, em que ofereceram resistência quanto ao uso de amplificadores. Sobre isso, Hernán explicou ao La Nación suas intenções:

Hernán Cattaneo se apresentou na Catedral de Liverpool em setembro de 2012 (Foto: Hernán Zenteno/La Nación)

“Me contaram que no Twitter estavam falando que eu queria ultrapassar o limite de 90 decibéis [permitido no local]. As pessoas de Colón falaram que há um nível de decibéis. Não vi nenhum contrato, mas se falarem 70, serão 70, e se decidirem 90, serão 90. Como que vou querer impor minhas regras ao teatro? Não sou um herege, não venho profanar um cenário. Isso é uma vez na minha carreira, uma oportunidade, um convite impossível de recusar e estou feliz. Não vejo a hora de chegar esse dia”.

Em outro momento da entrevista, Hernán conta como tudo começou: “Darío Lopérfido nos contatou, conversamos sobre as opções de apresentações e começamos a trabalhar. Depois ele saiu do Colón, e o projeto não deu em nada, mas eu já tinha a programação na cabeça, com Oliverio Sofía e Paul Baunder [produtores que trabalham com Hernán], e já havíamos avançado. Então em meados do ano passado, Gerardo Gardelín, o diretor da orquestra, nos contou sobre a possibilidade de participar do festival Únicos, um contexto bastante lógico para nós. Então seguimos: por um lado, Gerardo fazendo as versões sinfônicas de todas as canções, e Oliverio, Baunder e eu com as versões eletrônicas. Tudo ia e voltava constantemente”.

Vale lembrar que após as cinco mortes durante o festival Time Warp, em Buenos Aires, em que foi declarado que houve negligencia por parte dos organizadores pela superlotação e poucos espaços para descanso e hidratação, o governo da cidade, fortemente pressionado pela grande mídia, resolveu cancelar todos os alvarás para grandes festivais. Eventos importantes para a economia, como o tradicional Creamfields, não foram mais realizados desde então. De certa forma, apenas três anos depois de sofrer uma grande discriminação, a música eletrônica parece estar dando a volta por cima.

Chegar com tamanha representatividade em um palco tão importante culturalmente é um passo enorme para fazer a mídia e o poder público começarem a ter um olhar diferente sobre o gênero. Todo o respaldo da carreira exemplar de Hernán em mais de 30 anos, sendo o maior DJ que a America do Sul já produziu, ajuda a tudo convergir para anos de maior integração e evolução da cena pioneira da cidade e do país. Hernán, desde os 15 anos de idade, fez sua escolha. Foi o primeiro DJ sul-americano a se tornar verdadeiramente global, e hoje continua a quebrar barreiras que pareciam inatingíveis — só poderia ser ele.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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Na Inglaterra, Sasha retorna com seu aclamado live orquestrado

Jonas Fachi

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re-Fracted
O lendário DJ e produtor galês volta com seu aclamado re-Fracted: Live em três shows na Inglaterra.

Sasha, juntamente de diversos músicos e uma orquestra independente, desembarca hoje para mais uma rodada do re-Fracted: Live, em parceria com a label Late Night Tales. A segunda temporada é uma resposta a uma demanda esmagadora após o sucesso de seus shows em maio de 2017, no emblemático Barbican de Londres, quando quase quatro mil ingressos foram vendidos em 90 minutos — um recorde na história do teatro.

Hoje (16) e amanhã (17), as apresentações serão realizadas no também londrino Roundhouse, originalmente construído em 1847 pela London & North Western Railway. No domingo (18), como um show extra devido à grande procura por cadeiras, o live vai a Manchester no Bridgewater Hall.

Imagem do último ensaio, nesta semana

re-Fracted: Live é um show eletrônico realizado por Sasha e músicos convidados, juntamente com cordas e vocais ao vivo, proporcionando uma experiência imersiva apaixonante de algumas de suas produções mais famosas. O produtor galês toca ao vivo, em piano e teclado, partes de arranjos das músicas ao lado de sua principal equipe de produção, composta por colaboradores de longa data como Charlie May (Involver e Invol2vr), Spooky, Dennis White, Thermal Bear e Dave Gardner — além de um conjunto de cordas de oito peças, um percussionista e vocalistas ao vivo.

Em 2017, o produtor John Graham, aka Quivver, subiu ao palco para cantar “Rooms”, faixa que fez parte do álbum Scene Delete, último de Sasha, lançado em 2016. Outras faixas que fizeram parte da tracklist foram “Wavy Gravy” (Airdrawndagger, 2002), “Battleships” (Involv3r, 2013) — em que subiu ao palco a cantora Abigail Wyles —, e a mais aguardada de todas, apresentada no encerramento: “Xpander”, single de 1999 que marcou a carreira do produtor e é considerado uma das dez maiores músicas eletrônicas de todos os tempos, segundo votação popular da revista Mixmag.

“No momento em que descemos do palco no Barbican, estávamos dizendo: temos que fazer isso novamente”, disse o DJ em um comunicado para a imprensa. “Nós não tínhamos realmente um plano na hora. Não tínhamos ideia de que a resposta a esses shows seria tão incrível. Então, esta é a segunda rodada, estamos começando a tocar em dois lugares dos mais emblemáticos do Reino Unido. Nós estamos pensando em mudar o show um pouco para incorporar algumas músicas novas e fazê-los tão especiais e únicos quanto os de Barbican em maio. Mal podemos esperar!”

Em Manchester, será uma volta na história para Sasha, pois foi onde iniciou sua carreira ainda nos anos 80. Na época, a cidade respirava a cultura underground eletrônica, pós o movimento punk. O Bridgewater Hall, que fica no centro da cidade, recebe em média 250 apresentações por ano e é considerado um dos mais modernos da Europa. Com um custo total de 42 milhões de libras, o teatro realizou seu primeiro concerto em 11 de setembro de 1996, sendo inaugurado oficialmente em 04 de dezembro pela Rainha Elizabeth II, ao lado do Duque de Edimburgo.

O Hall foi uma das várias estruturas construídas na década de 90 que simbolizavam a transição para uma Manchester nova e moderna. Apenas alguns meses após a abertura, a sala de concertos ganhou o prêmio RIBA North West.  Em 1998, ganhou o Civic Trust Special Award, que é dado a um edifício que melhorou a aparência de um centro de cidade.

Levar música eletrônica a um espaço como esse é uma grande conquista para a cultura eletrônica, além de mais uma mostra de todo o pioneirismo de Sasha. Artistas como Pete Tong e Jeff Mils também já se apresentaram em teatros, porém receber datas em alguns dos maiores espaços para concertos do Reino Unido é algo único.

Os shows no Barbican viraram Blu-Ray com vendas esgotadas de todos os CDs pela Late Night Tales, e os ingressos para os três shows deste final de semana estão esgotados. Ainda não há previsão para novos shows. Existem pedidos para uma tour pela Europa, porém no momento não há nada anunciado para os próximos anos.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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Sete anos para rever o mestre; como foi a volta de Laurent Garnier no Warung

Jonas Fachi

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Laurent Garnier
Um set do mais alto nível para um time de clubbers do mais alto nível
* Fotos por Gustavo Remor e Ebraim Martini

16 de novembro de 2017. Um dia após a data que marcava os 15 anos de vida do Warung, o Instagram oficial do beach club anunciava a sequência de sua programação com um calendário para janeiro repleto de grandes artistas. Entretanto, em cima de um deles parecia haver um brilho especial, aquele nome que quando anunciado, os mais experientes já sabiam que seria a noite do verão. Porém, talvez os anos de hiato em nossa cena tivessem apagado um pouco da memória que, se tratando de Laurent Garnier, no mínimo deveria ser aguardado como uma das melhores noites dos últimos anos — o que de fato viria a acontecer.

Foi difícil esperar tanto tempo por seu retorno. A maioria dos que se fariam presentes, mesmo aqueles com alguns anos de pista, ainda não tinham recebido uma experiência musical com o francês. A meu exemplo, ter perdido seu live em 2011 foi um golpe duro. Sua primeira passagem havia sido em 2008, quando se apresentou no Templo em pleno aniversário de seis anos — portanto, não havia chances de deixar passar novamente o momento de receber a condecoração máxima.

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Mesmo quando se vive na era da internet e da corrida desenfreada pelo marketing a todo custo — em que seria obrigação de qualquer um que frequente uma cena conceitual e tenha o mínimo de interesse, saber em qual prateleira o nome de Laurent Garnier deve ser colocado —, ficar sem dar as caras em nosso país por sete anos foi suficiente para o público se renovar várias vezes. E se tratando de uma cena ainda em formação, muitos não conseguiam ter a verdadeira dimensão de quem e do que estavam por presenciar. Nesse ponto, vale destacar a quantidade de pessoas que são influenciadoras no cenário ajudando os mais novos através de matérias, vídeos e postagens, a entenderem a importância de se fazer presente em uma noite como essa.

Na semana do evento, Laurent havia cumprido datas no Rio e em São Paulo. No anúncio dos horários, a primeira surpresa: ele assumiria o Inside somente às 03 horas. Mesmo com vários comentários solicitando por pelo menos uma hora de antecipação, não houve mudança. Nessas situações, visto que por parte do club quase sempre há interesse em deixar a atração principal tocar o máximo de tempo possível, só poderia se tratar de um pedido do próprio francês. De qualquer forma, nada iria atrapalhar a felicidade de assistir ao artista que considero um dos cinco maiores que a cena eletrônica já produziu. Então, esperar por sua aparição ao palco foi algo extremamente gratificante.

Para abrir a casa e construir um set capaz de ser digno do warmup para Garnier, a curadoria depositou todas as fichas em um de seus melhores residentes. Paulinho Boghosian é detentor de uma vasta experiência, já dividiu cabine com grandes nomes e entre os residentes, possuía o perfil que mais poderia fazer a pista ficar bem ambientada até o momento mais aguardado. Antes disso, assisti à última meia hora do debutante da noite, Nezello. O Garden estava com ótimo público e o DJ estava aplicando uma sonoridade extremamente dançante e tribal. Esses adjetivos são comuns, porém o tipo de música que ele apresentava com essas caracteristicas não se ouve com frequência. É sempre bom ver novos artistas de nossa cena mostrando personalidade musical.

Após um tempo para rever e conversar com amigos, subi as escadas do Templo determinado a não mais descer. À 01h, Paulinho já havia ultrapassado o sempre difícil momento de receber o público e controlava com certa tranquilidade uma pista repleta de clubbers do mais alto nível. Com sua tradicional classe variando de house a techno, Boghosian era rápido até onde poderia ir. Cada minuto que passava, mais aumentava aquele sentimento de finalmente poder ver o francês surgir à frente do dragão e da bandeira de nosso país. Um sentimento de ter a certeza de que tudo estaria bem com a sua presença. E foi justamente assim que me senti quando o ícone surgiu na cabine.

Garnier é a personificação do artista completo, que é quando a genialidade está presente tanto no estúdio quanto no comando de uma pista de dança — dois mundos distintos, criação e execução sublime da mesma arte por um mesmo ser. Pontualmente, ele inicia seu set abrindo uma porta por onde se passava uma enorme quantidade de energia. Não havia espaço para alguma introdução; o ótimo warmup lhe permitia impor ritmo intenso junto de sua musicalidade única. Na primeira hora, já se percebia o ambiente completamente envolvido e entusiasmado. Minha atenção ficou em evidência quando ouvi uma das faixas do momento: “Singularity”, novo single de Sasha, encaixou perfeitamente no contexto inicial, formado por algo meio nebuloso e levemente viajante.

A pista não estava completamente lotada. Estava quase na medida para se apreciar sem incômodos a construção musical de Garnier. Não demorou muito para eu notar ao meu redor todos somando energias para mostrar-lhe a força da alma latina; sim, nós poderíamos estar à sua altura. Em contrapartida, Laurent atuava como se tentasse extrair sua melhor versão, de dentro para fora, onde cada música antes de passar pelos cabos, tivesse de dar uma volta por dentro de suas veias para então chegar nas caixas de som e reverberar em ondas sonoras a ponto de fusão.

Mesmo sendo um exímio DJ de longsets, após a segunda hora entendi que não havia mais qualquer motivo para queixar-me de ele não ter entrado mais cedo. Claro que vê-lo tocando mais devagar seria maravilhoso, porém sua musicalidade era estarrecedora em diversas frentes, indo direto ao ponto. Comentei antes que havia clubbers do mais alto nível porque nunca havia visto um ambiente com tamanha diversidade de gostos dentro da cena conceitual, reunidos na mesma sintonia. Talvez nenhum outro artista tenha tamanho poder para isso, apenas um verdadeiro diplomata da música eletrônica global seria capaz de juntar gostos advindos de variadas frentes ou estilos conceituais. Desde o seguidor do techno de Berlim, passando pelo balanço da house de Chicago, até os gostos pelo progressivo do Reino Unido poderiam se identificar com sua música. Ao longo dos anos, de alguma forma Garnier alinhou seu estilo a uma identidade própria capaz de beber de todas essas fontes, sendo impossível de classificá-lo. A quem gosta de introspecção, ele entrega; a quem gosta de movimentos lineares e intensidade, ele propõe.

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“Domino” de Oxia, uma faixa muito tocada nos últimos dois anos, e considerada já ultrapassada em seu momento “clássico”, surge às 05 horas, entretanto, ganhando nova oxigenação e soando tão interessante como se fosse ouvida pela primeira vez. Acelerando o tempo, Garnier liderava de olhos fechados sua sinfonia, fazendo-nos vibrar como nos velhos tempos, resgatando uma energia do Templo que parecia haver diminuído ao longo dos anos, mesmo o club vivendo, no quesito quantidade de público e reconhecimento, seu melhor momento.

Sua música estava calibrada até o limite, marcada por momentos de pura acidez até outros repletos de introspecção, e assim ele continuou até próximo ao amanhecer, quando nas duas últimas horas iria nos mostrar toda sua capacidade técnica e sonora. Quando todos já estavam extasiados, ele ainda traria um algo a mais. Tudo começa às 06h30: “Wir Reitem Durch Die Nacth”, do DJ Hell, em remix de Coyu atravessou a todos. O que mais havia no jogo? Sua discografia poderia ser colocada à mostra por muitas horas. “Jacques In The Box”, delirante, o que mais? Vamos, não parem, o que vocês querem? Ah, sim, não poderia faltar “1-4 Doctor C’Est Chouette” de seu aclamado EP Tribute para a Kompakt — que momento!

Tanta inspiração era de certa forma até constrangedora, pois seu amor pela música é algo tão profundo que te faz sentir que ainda não sabe de nada. Por dentro de seu transe sonoro, demonstrava uma conexão sem fim para o que vem se dispondo a fazer desde a metade dos anos 80, quando deixou Paris para fazer história na efervescente cena pós-punk de Manchester.  “Our Futur” me fez lembrar o icônico vídeo de sua performance no Templo em 2008, quando de forma bilateral mixou “Chinasse Massage”, de Rocket & Ponies, com “Everything in Its Right Place”, do Radiohead, em pleno amanhecer. Dois clássicos distintos unidos de forma tão singular que seria um pecado algum dia tentar-se repetir. Os olhares para o lado de incredulidade — “você também está presenciando isso?” — eram constantes, e claro, antes de tudo não poderia acabar sem sua maior obra prima, a música que se fosse um quadro, estaria certamente exposto na sala mais nobre do Musée du Louvre: “The Man With a Red Face” parecia estar sendo tocada ao vivo diante de nossos olhos.

Para finalizar, chegando próximo das 08 horas, em uma virada desconcertante, ele libera uma espécie de samba eletrônico, introduzindo as boas vindas ao famoso Carnaval brasileiro. Por mais que o Sul não tenha qualquer ligação com esse tipo de música, àquela altura, vindo de suas mãos, tudo parecia fazer sentido.

Os aplausos emotivos para sua performance e seu sorriso de volta nos davam a sensação de que Garnier parecia alguém muito próximo. Cada indivíduo na pista de dança sentia-se compelido a se conectar com sua personalidade, sua forma de agir e tocar; entretanto, talvez sua maior mensagem seja a de que não se pode querer ser como ele. Seria muita ousadia. Seu recado à frente da cabine é justamente o contrário — sem mestres, sem líderes, apenas dê tudo o que puder de si; seja você mesmo, construa sua própria história.

Assistir a Laurent Garnier é como obter uma das últimas graduações que se pode receber enquanto ouvinte em uma pista de dança.  Assistir a Laurent Garnier ao menos uma vez na vida é a passagem para o lado dos profissionais, o entendimento supremo do que é a verdadeira arte da discotecagem.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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