Dillon Francis

Há muito mais por trás de uma orgia louca no novo clipe do Dillon Francis [NSFW] [XXX]

Todo mundo sabe há pelo menos 50 anos que sexo vende — tanto é que você vai clicar para ler este artigo.

Não sou grande admirador da música do Dillon Francis; o electro house pesado e estridente não faz minha cabeça, apesar de eu curtir as colaborações dele com o TEED e com o A-Track. Vejo no produtor, entretanto, alguém muito importante pro cenário da dance music atual. O cara notavelmente moldou o seu som, nos últimos anos, ao que o mercado demanda — se vendeu, pré-julgariam alguns. Ainda assim, ele se posiciona distante de caras como David Guetta ou Calvin Harris [que mudaram drasticamente quando perceberam seus potenciais de encher os próprios rabos de grana]; Francis, ao mesmo tempo que está inserido no cenário EDM, é periférico a ele — um cara pop, mas alternativo dentro do pop.

Nesse contexto, ele conseguiu muito bem achar o seu espaço, aliando a sua música extrovertida à sua personalidade megazuêra — e é essa personalidade que permite que ele tire sarro de tudo e de todos, incluindo a si mesmo e à própria indústria à qual ele se moldou. O seu novíssimo vídeo para Not Butter talvez seja o retrato mais preciso do papel importante que Dillon Francis exerce enquanto um denunciador interno, que na superfície pode parecer apenas um bobalhão, mas que expõe ao mundo a crueza desse mercado.

Logo no início do clipe, a tiração de sarro já aparece com o logo da agência fictícia Titanium Meadows: A Branding Agency [o nome e o slogan entregam sutilmente que se trata de um deboche, mas eu dei uma conferida por descargo de consciência e vi que foi o próprio Dillon que criou o site]. Em Not Butter, portanto, Dillon Francis é o cliente dessa agência de branding, que traçou objetivos e estratégias bem claras, como toda agência de publicidade que se preze: “reposicionar Francis no mercado”, “estabelecer uma narrativa engraçada para seu público alvo”, “atingir o mainstream”, “promover uma marca de cerveja”, “vender sexo ‘seguro’” e “construir uma atmosfera EDM divertida”. Aí não está claro se Francis ironiza a si mesmo ou aos críticos que afirmam que ele justamente passou por esse processo de reposicionamento — provavelmente ambos.

A partir de então, temos o desenvolvimento dos takes da produção audiovisual da agência para o seu cliente: um vídeo besta com um casal chegando ao que parece ser uma típica festa colegial americana. Ao final de cada tomada, comentários internos dão conta do que precisa ser corrigido para que o vídeo funcione melhor: “mais garotas bêbadas”; “mais momentos EDM”; “mais riscos”; “MAIS SEXO”. A putaria vai aumentando a cada nova tentativa, até cair no mais explícito e absurdo possível: uma orgia selvagem com todo mundo peladão, até o grand finale com a mulher do casal protagonista gozando um oceano na cara do namorado.

Para bom entendedor, meia rodagem basta: o clipe é uma clara crítica, em forma de humor escrachado, ao funcionamento da cultura EDM/pop em geral: artistas criam produtos perfeitamente adequados ao mercado, para vender mais — e todo mundo sabe há pelo menos 50 anos que sexo é a maneira mais fácil de se vender qualquer coisa [não à toa eu marquei as palavras transarinas em negrito pra vocês lerem o texto todo]. Basta olhar como exemplo clipes recentes dos já mencionados Guetta e Harris para confirmar; estes são artistas geniais que já foram autênticos, mas que em nome da fama e da grana jogam o jogo estabelecido pela indústria. Dillon, por outro lado, é mais contestador e transgressor, mostrando o dedo do meio a algumas dessas regras, debochando delas.

Reparem que David Guetta é o único corredor do mundo com uma pole position formada por minas gostosas semi-nuas

Claro que, no mundo capitalista, de certa forma todos nós somos produtos a ser vendidos, mas há uma diferença crucial entre o que é utilizado como meio e o que é utilizado como fim: você pode usar o marketing para vender a sua arte ou usar a arte a serviço do marketing; o resultado é uma linha tênue entre o que é, de fato, artístico, e o que é uma commodity descartável, encomendada para o adolescente punheteiro que vive dentro de cada um de nós. E tudo leva a crer que, apesar dos pesares, o Dillon Francis está mais perto da primeira opção.

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