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Review

Hernan Cattaneo faz história com o primeiro “All Night Long” do Warung

Jonas Fachi

Publicado em

10/01/2018 - 18:29
Hernan Cattaneo All Night Long
Em seu tradicional set de fim de ano, El Maestro rompeu novas barreiras e se tornou o primeiro artista dos 15 anos de Warung a tocar pela noite inteira
* Fotos por Gustavo Remor e Ebraim Martini
* Vídeos por Fernando Hauenstein e Sebastian Tallon

Não existe data mais simbólica do que o dia 28 de dezembro no Warung Beach Club. O dia é reservado e sinônimo do desembarque de Hernan Cattaneo à Praia Brava. É fácil entender o porquê. Devido a sua consistência ao longo dos anos, o maestro argentino se tornou um embaixador da música que ajudou a criar. Aqui, sua ligação se fez por sua “experiência musical” se tratar de nada menos do que a identidade sonora que mais se enquadra com as expectativas do club, se tornando assim uma noite imprescindível para qualquer um que esteja em busca da famosa “mágica do Templo”.

O final de ano é estratégico porque consegue reunir elementos importantes: primeiro pelo verão no Hemisfério Sul ser uma das marcas do beach club. Segundo, pela quantidade de argentinos que estão de férias no litoral catarinense, somando-se aos fãs brasileiros que moram longe e que podem estar presentes. Para finalizar, turistas e público novo buscando conhecimento. Tudo isso forma uma das pistas mais divertidas e democráticas do ano na casa.

Após se apresentar no feriado de Independência do Brasil — data que tem se tornado sua referência também —, Hernan retornava sob expectativas que nunca diminuem. Neste review, como sempre, tentarei desvendar as ideias musicais e sua construção de set a fim de que todos possam ao mesmo tempo relembrar momentos marcantes, mas também entender a proposta musical para a noite. Ainda, buscarei mostrar a importância que ambos, artista e club, têm um para o outro. Veremos que é algo único.

O maior destaque dos meses pré-evento foi o pedido exclusivo de Cattaneo para ter a noite só para si, desde a abertura até o final. Todos sabem que a forma como conduz a pista de dança por longas horas é uma de suas marcas registradas, e ele estaria vindo do embalo de um back to back de espantosas 20 horas com Guy J no Canadá, em um club que mencionarei mais à frente.

Hernan Cattaneo All Night Long

Seu longset no Warung é considerado um clássico, porém para que tantas horas de música sejam bem-sucedidas, deve-se passar fundamentalmente por quão ambientado está o público antes de o artista principal iniciar. Hernan sabe tão bem disso que ele mesmo se propôs ao warmup dessa noite.

Tocar nesse ritmo de abertura é algo que ele adora, e fazia esse modelo de apresentação no início da carreira, quando a música eletrônica mal existia na América do Sul. Ao longo dos anos o Warung proporcionou ótimas aberturas a ele; nomes como Daniel Kuhnen, Leozinho e Danee são constantemente elogiados. Porém, Catta busca sempre ir além, se dispondo a fazer o que ninguém faria, e isso tem um motivo que entenderemos adiante.

Hernan Cattaneo All Night Long

Acertadamente, o club previu a abertura dos portões para as 21h, podendo assim deixar os mais interessados chegarem, se ambientarem e esperá-lo da melhor forma possível. Entretanto, o protocolo imaginado foi quebrado por volta das 21h25, quando ao chegar no club e ver que já havia pessoas a sua espera (cerca de 30), Hernan não hesitou e resolveu antecipar os trabalhos, sendo a primeira boa surpresa da noite.

O sistema de som ainda era tímido; ele propôs uma levada de deep house dançante com BPM bem baixo. Foi recebendo o público aos poucos, como se estivesse tocando na sala de casa. Que honra! Nesse começo, é impossível não destacar duas musicas de duas bandas eletrônicas icônicas. A primeira é “Damage Done” de Moderat, em um remix que não consegui descobrir, mas que seria algo aproximado com o do produtor Silinder. A segunda é nada menos que “Dream On”, do Depeche Mode — daquelas que você lembra pelo vocal inconfundível, em mais um remix não identificado. A partir das 23h, o sistema de som ganha seu devido ganho, e a pista que já estava cheia reage com a primeira euforia da noite. Agora era pra valer! Tocar desde o início é uma atitude que o público do Warung jamais esquecerá por duas razões: era algo que nunca havia ocorrido com um artista em 15 anos, e porque ficou evidente que o título de melhor warmup para o maestro já feito no club só poderia ser dele mesmo.

Hernan Cattaneo All Night Long

Se você está se perguntando se existe um motivo maior para esse pedido e desejo em abrir a própria noite, está correto. Vamos a ele. Existem certos clubs e eventos especiais na extensa carreira do argentino, alguns já extintos, outros ainda em atividade. A Stereo em Montreal, o Woodstock 69 em Amsterdã, a Moonpark e o Clubland (seu club formador) em Buenos Aires, o Cream de Liverpool e o Yellow de Tóquio são alguns dos quais Hernan tem registros de longsets históricos — como o de 12 horas no encerramento do club japonês em 2008.

Nesses “clubs para clubbers profissionais”, como ele costuma falar, criou laços mais profundos do que apenas apresentações marcantes de um DJ internacional para o público local. Porém, quando falamos de Warung, que é um desses lugares onde o frequentador recebe uma graduação musical, parece existir algo que transcende a todos e que honestamente não sei explicar.

+ Retrospectiva: 10 momentos marcantes de Hernan Cattaneo no Warung

+ Uma nova experiência: Como foi o extended set de Hernan Cattaneo no Warung

Pode parecer imprudência alguém fazer tamanha afirmação sem ter experimentado experiências musicais com ele nos lugares citados. Porém, olhando através de seu comportamento quando está dissipando o que tem de melhor na pista do Templo, arrisco dizer que em nenhum outro lugar sua música foi e tem sido recebida por um período tão extenso com tanta singularidade. Hernan tem sua figura tão em conformidade com a cabine, que a sensação de todos ao vê-lo ali em cima sob completa sintonia, repetindo os mesmos movimentos corporais e mentais necessários para se colocar músicas em sequência, é de que estamos diante algo mítico. O DJ que vemos no Warung parece ser daquele jeito somente ali.

Toda essa conexão ao longo do tempo gerou um resultado que poucos alcançaram dentro de toda indústria musical eletrônica: ser a figura central da criação de uma comunidade em torno do estilo musical que acredita e propaga desde quando ainda só ouvia discos de bandas de rock progressivo que suas irmãs colocavam para rodar. É claro que no final de tudo estamos tratando de entretenimento, porém com um nível de interação que é capaz de moldar ideias e visões das pessoas que decidem participar, e então colocá-las em união. Esse seu interesse em fazer o algo a mais, em tocar o máximo de tempo possível, é um tipo de realização que não se apaga tão fácil — ao contrário, se perpetua nas lembranças mais profundas dos participantes.

Hernan Cattaneo All Night Long

Considerações feitas, voltamos à música, e ela estava se desenvolvendo com toques viajantes moderados, temas com pequenos recortes emotivos e tribais, tudo bem cadenciado, sem exagero. Após a 01h, tive a sensação de que tínhamos atingido a velocidade de cruzeiro. Em navegação, é comum se falar sobre a relação da velocidade ideal e o perfeito equilíbrio do motor com o casco, ou seja, máximo desempenho aliado a maior economia. Hernan é especialista em estabelecer uma faixa sonora dentro da qual não se força a pista de dança, mas que nela atua naturalmente e em perfeito desempenho. O “ponto de cruzeiro” dessa relação é quando a música inserida pelas mãos do artista é capaz de extrair o máximo de cada individuo, mas sem que eles se desgastem antes do término.

Estava esperando mais alguma faixa para reconhecer, e então ouço uma melodia inconfundível para meus ouvidos. Procuro alguém para compartilhar a emoção de estar ouvindo “Take My Away”, de Fefo e Dario Arcas —  um dos melhores lançamentos da Sudbeat já feitos. Em 2010, ela marcou o décimo lançamento da gravadora de Hernan, recebendo inclusive um remix esplêndido do boss com Soundelixe. A faixa ainda fez parte de sua compilação The Masters Series – Parallel, para a Renaissance no mesmo ano. Novamente, se tratava de um edit que não consegui identificar.

Após isso, a construção musical começa a ganhar sua verdadeira cara, entrando em um tom mais dramático e infernal. Menos elementos, mais intensidade, e claro, as indispensáveis linhas de baixo aterrorizantes cortando e balançando toda a pista. No vídeo abaixo, que capturou momento próximo das 03h, está um daqueles sons que eu provavelmente não esquecerei até encontrar. Analisando o set inteiro, essa faixa seria uma espécie de previsão do que ele iria jogar nas horas que viriam.

Para mim, sempre foi impressionante como Hernan consegue ter amplitude musical dentro do seu estilo particular. Você pode dizer que esse é um dos papéis fundamentais de um DJ, porém conseguir executá-lo sem perder a essência é um dos grandes desafios da atualidade. Seguindo, outra faixa impressionante: “Robot Funk”, com remix de Phuture Phunk, fez todos entrarem em imersão. Essa música nada mais é que um ripping de “On The Run”, da banda Pink Floyd, adicionada a um baixo poderoso, um arranjo de bateria e um kick forte. Trata-se na verdade de um excelente remix, podendo ter sido apresentado pelo produtor Framewerk como tal, mesmo que não pudesse comercializá-lo.

Às 04h, entrou em ação “Strand”, de Stephan Bodzin — uma faixa com efeito progressivo e hipnótico, espécie de ponto de amostragem do que ele estava apresentando. A intensidade aumentava mais do que de costume. Comecei a imaginar que ele estava tocando por um bom tempo no mesmo ritmo para chegar em algo especial. Em meia-hora houve a quebra, não de ritmo, mas de sintonia. “Sirens”, remixada magistralmente por Patrice Bäumel, foi a escolhida para esse momento clássico dos sets de Hernan. Ele cantava sua maravilhosa letra tranquilamente enquanto todos ainda estavam se dando conta de que era um momento de pôr os pés no chão, mas só por uns minutos.

Hernan Cattaneo All Night Long

A partir das 05h, a sonoridade estava reta e nivelada, caracterizada pela maior altitude possível de energia e velocidade rítmica que El Maestro gosta de trabalhar, entregando para a pista de dança a melhor relação entre pessoas, ambiente e música. Sempre comento sobre esse momento do set até as 06h, que mostra o quão bem pensada e elaborada é sua construção. Havia nesse momento alguns aspectos mais obscuros, e sequência sem descanso.

Entramos na fase do amanhecer e era hora de algum clássico. A escolha foi por um que eu aguardava desde quando assisti ao vídeo dele o soltando no club Mamacas, em Atenas 2012. Tratava-se de “Eterna”, de Slam; uma faixa atemporal, produzida em 1991, e que recebeu um remix fantástico de John Digweed e Nick Muir 21 anos depois.

Próximo de chegar à fase da última hora, uma daquelas músicas que parecem já nascer clássicas. Seu vocal emitido como um mantra lembrou-me de um momento especial que tive em 2010, quando quase no mesmo horário, Hernan soltou “Love Stimulation”, de Humate, em remix de Tom Middleton — um momento que guardo até hoje de minha primeira experiência com o maestro. De alguma forma, isso surgiu em minha mente e tudo parecia ter voltado no tempo, reavivado por “Chanjira”, de Stuart King em remix de Mongo. Que momento!

Essa última hora é uma mistura de sentimentos. A já tradicional paradinha das 07h20 foi calculada com um lindo trabalho de um dos melhores produtores argentinos da atualidade: Kevin Di Serna, com “Horizons” — um arranjo limpo de piano, leves baterias e uma mensagem no vocal do break. Depois da calmaria, a volta é novamente cheia de intensidade, o sprint final para esgotar as últimas energias. A finaleira voltou-se novamente para o lado emocional com “Sofia” remixada por Guy Mantzur e, para minha maior surpresa, o encerramento veio com uma música que me fez pôr as mãos no rosto e apreciar sem querer que acabasse.

Eu já perdi as contas de quantas vezes assisti ao filme Inception. Além de elenco e direção brilhantes, ele tem uma das melhores trilhas sonoras da última década. E quando se fala em trilha sonora, hoje ninguém está no nível de Hans Zimmer. Sua composição chamada “Time” para o longa é algo que não se deve colocar em palavras. Felizmente, ela recebeu uma versão à altura para as pistas de dança, por Deeparture. A saudação mútua de agradecimento estava acontecendo junto do sentimento de maratona musical mais do que cumprida.

Hernan Cattaneo All Night Long

Escrevendo este review, pesquisando e relembrando faixas que foram apresentadas, notei que havia outras dezenas de detalhes especiais ainda para serem mencionados. Dar-me conta de que eu poderia simplesmente excluir tudo que tinha escrito e mesmo assim teria outras tantas coisas incríveis para contar, foi como uma cortina que se abriu em minha frente. Até onde vai a dedicação e o interesse de um artista para trazer ao seu público uma narrativa musical tão rica? Minha saída foi aceitar que algumas coisas vão e devem ficar apenas na lembrança.

Em 28 de dezembro, Hernan Cattaneo fez uma espécie de volta para casa, como quando ainda jogava no extinto Clubland de Buenos Aires. Agora, contudo, essa outra casa que ele descobriu e ajudou a formar tem um sentido diferente — afinal, seria como voltar, mas ainda estar jogando em um dos maiores palcos do planeta, um Camp Nou brasileiro, com sua grama (soundsystem) lisa, molhada, e um fundo de campo que parece não ter fim (mar). Seu conjunto musical estava nos dizendo isso o tempo todo: o Warung é um palco vivendo seu melhor momento, moldado por anos de uma identidade sonora inconfundível, onde, claro, só existe um camisa 10.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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Review

“Pedra Preta”, o 1º álbum do Teto Preto, é um grito de resistência

O celebrado grupo do underground paulistano mostra sua maturidade artística em seu primeiro full lenght

Alan Medeiros

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Pedra Preta
Foto do clipe de "Pedra Preta": Reprodução/Facebook

Nos últimos anos, São Paulo se transformou em um caldeirão cultural com uma chama multicolorida a iluminar um mar de ideias brilhantes. Nesse cenário, diversas mentes criativas surgiram, mostraram a que vieram e se tornaram referência para uma série de iniciativas que passaram a pipocar pelo país. No olho desse furacão, exercendo posição de protagonismo, lá estava a Mamba Negra e, consequentemente, o Teto Preto.

A relação entre festa e grupo é intrínseca. O Teto Preto nasceu na pista da Mamba e obviamente foi criado por frequentadores e entusiastas da festa. Nesse processo, o grupo foi decisivo para construção do perfil sonoro que tanto marcou a Mamba Negra frente ao seu público. Muito além da música, estamos falando de arte em diferentes camadas — estamos falando de representatividade. A festa representa a banda, a banda representa a festa. Por sua vez, o público se sente fortemente representado por ambos.

Os primeiros trabalhos do Teto Preto foram lançados pelo selo da Mamba, o MAMBA rec, em 2016. O EP Gasolina foi prensado em vinil com duas faixas extremamente marcantes: “Já Deu Pra Sentir” e “Gasolina”. O resultado? Dois hits históricos para jornada do grupo. Na sequência, um hiato de dois anos até “Bate Mais”, single em antecipação ao Pedra Preta, primeiro álbum de estúdio completo da banda, que chegou às plataformas digitais neste mês com oito faixas, sendo sete originais e inéditas.

 

Pedra Preta reflete a atual maturidade artística de seus compositores, mas não deixa a chama da ousadia e irreverência se apagar. Novamente, não se trata apenas de música: Laura Diaz (Carneosso), Loic Koutana, Pedro Zopelar, Savio de Queiroz e William Bica promovem um grito de resistência ao longo de todas as faixas que formam o full lenght. A atmosfera densa do disco dita o ritmo de uma narrativa longa e inteligente, que aborda assuntos como a tragédia do Museu Nacional neste ano.

Por falar em “Pedra Preta”, vale ressaltar que a faixa-título do álbum também ganhou um clipe. Lançado ontem, 22, e com duração de mais de oito minutos, o vídeo dirigido por Rudá Cabral, Laura Diaz e Joana Leonzini traz um storytelling denso e aberto a interpretações, mas com uma clara crítica ao conservadorismo da sociedade brasileira e honrosa menção ao perfil de público da Mamba Negra — o trabalho foi coproduzido pela MAMBA rec em parceria com a Planalto. Sem dúvida alguma, Pedra Preta é uma vitória importante para a sobrevivência da cultura eletrônica de vanguarda no Brasil.

  

Alan Medeiros é colaborador da Phouse.

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ESPECIAL

Tha_guts e o som envolvente que rege o selo da Gop Tun

Produtor gaúcho é uma boa mostra do amadurecimento da Gop Tun Records

Alan Medeiros

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Gop Tun Records
Tha_guts. Foto: Divulgação

Neste mês de novembro, o coletivo paulistano Gop Tun celebrou seis anos de uma história construída muito em cima da seriedade com que o coletivo paulistano trata seus projetos artísticos, dentro e fora da pista. Referência na cena house/disco brasileira, o atual patamar do projeto permite que algumas de suas iniciativas sejam encaradas como formadoras de opinião.

Para isso, uma das principais ferramentas do núcleo é a Gop Tun Records, gravadora que possui um catálogo ainda enxuto em número de releases, mas que em 2018 e principalmente 2019, deve ser expandido através de uma intensificada no cronograma. Até então, cada ano tinha entre um e dois lançamentos. Neste ano, foi observado um aumento no fluxo, já que até aqui, três releases ganharam a luz do dia através da plataforma criada pelo coletivo paulistano.

+ Orgânica e ecumênica: uma história oral da Gop Tun

Atualmente, o time de artistas que compõe o quadro de lançamentos do selo é composto por residentes da Gop, por nomes de forte influência frente à indústria nacional (como Renato Cohen) e algumas mentes brilhantes de outras partes do mundo, como HNNY, Prins Thomas e Lauer.

Para os próximos meses, Bruno Protti (aka TYV) e Gui Scott, duas das cabeças pensantes da gravadora, contam que haverá uma expansão no time de artistas, com mais nomes brasileiros e sul-americanos entrando para o casting da label. Sem a pressão de obrigatoriamente pensar em vinil, a Gop Tun Records se mostra mais apta para apostas e ousadias em seu programa de lançamentos.

+ Um papo com os caras da Gop Tun, que estão trazendo o Dekmantel a São Paulo

O último EP da gravadora foi assinado pelo produtor gaúcho Tha_guts, um novo nome frente a geração atual de produtores brasileiros. Guto Pereira, mente por trás do projeto, entregou à Gop um release denso e repleto de referências distintas que se revelam ao longo das cinco faixas originais. O trabalho sucede Plastic Noise, disco que o revelou para o cenário da eletrônica brasileira. Após o full lenght lançado de maneira quase que independente, Guto decidiu se aproximar da música eletrônica de pista em suas jams de estúdio, e o resultado foi esse belíssimo trabalho lançado pelo selo do coletivo.

Ao ouvir as faixas de Mirror, é possível entender essa complexidade envolvente que tange o trabalho do coletivo paulistano em seus mais diversos projetos. Tal fato dá autoridade para que o núcleo e os artistas envolvidos em suas festas e seus releases possam se desenvolver de forma assertiva. Além das cinco faixas originais, Guto também assinou um futuro single com a gravadora, que deve ser trabalhado somente no segundo semestre de 2019. Enquanto isso não acontece, ouça na íntegra o seu mais recente lançamento:

  

Alan Medeiros é colaborador da Phouse.

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LIFT OFF

Psytrance raiz: Mindbenderz lança álbum transcendental pela Iono Music

Review do debut do duo suíço-alemão é o primeiro texto da nova coluna da Phouse

Nazen Carneiro

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Mindbenderz
Foto: Reprodução
* Edição e revisão: Flávio Lerner

Instalar foguetes, preparar motores, verificar comunicação, iniciar sequência de lançamento. Cinco, quatro, três, dois, um… LIFT OFF!

Estreamos aqui a coluna LIFT OFF, que, escrita por Nazen Carneiro, traz um olhar sobre a indústria fonográfica psytrance nacional e internacional — estilo da música eletrônica que se manifesta como uma cultura vibrante e com muitos adeptos no Brasil.

De tempos em tempos a cena eletrônica se transforma e, como um organismo vivo, cresce e se reproduz. Um de seus pilares, o psy se reproduziu e está mais presente do que nunca, com “astronautas” consagrados mantendo-se relevantes, assim como novos “cosmonautas” surgem, evidenciando uma realidade produtiva e frutífera para a criação musical.

Com o crescimento do público, as festas também se multiplicaram Brasil adentro, e os produtores passaram a ter mais espaço para caírem no gosto do público da terrinha e de além-mar. Hoje, o psy mantém viva sua cena underground, enquanto estica seus tentáculos a outros nichos, influenciando — e sendo influenciado — até mesmo pela EDM.

Sem mais delongas, confira o primeiro texto abaixo, sobre o novo álbum do Mindbenderz.

 

Formado pelo alemão Matthias Sperlich e o suíço Philip Guillaume, o Mindbenderz traz, sem dúvida, um dos principais lançamentos do ano no cenário psytrance. Os veteranos, que são muito respeitados na cena eletrônica individualmente como Cubixx e Motion Drive, juntos ficam ainda mais fortes. É o que se vê no álbum Tribalism, lançado em 31/10, pela Iono Music.

O álbum conta com nove faixas que somam mais de 75 minutos. A primeira, “A New Dawn”, traz desde o primeiro minuto muita energia e reflexão num som que conduz o ouvinte a outra dimensão. A segunda faixa dá sentido a expressão “lineup” numa ascendente contínua, revelando uma verdadeira jornada ao desconhecido que segue até meados da faixa seis — “Hybrids” —, causando aquele frio na espinha. Nesse momento de percepção cósmica, uma pausa reconecta o corpo e mente à nossa tribo, e há de fato uma sensação híbrida de se estar em ambas as realidades ao mesmo tempo.

A essa altura, o álbum apresenta suas três últimas faixas no ápice de uma jornada espiritual, e nos encontramos num momento épico em que as características sonoras do psytrance alcançam sua maior amplitude, com uma ampla gama de efeitos numa base transcendental. É puro trance. A mente processa essas informações e a energia flui na forma de dança.

Voltamos para a Terra, mas a memória do que acaba de acontecer permanece. Tontura; excitação… O reator psicodélico agora transforma a energia através de instrumentos humanos. A última faixa dá nome ao álbum. “Tribalism” une percussões especiais, agogô, psy, Ayahuasca e vocais de xangô. Todos no mesmo pitch, como uma onda. Algo nos une, nos traz ao dancefloor, tornando-nos verdadeiramente uma tribo.

Tribalism revela uma composição muito bem realizada, fruto de meses de trabalho e muito detalhismo. Cada segundo do álbum revela a ação do Mindbenderz em promover um som extraordinário e comprometido com aquele pegada tribal, sem deixar de lado os elementos mais futuristas.

No momento do fechamento deste artigo, o álbum ocupava a primeira posição no Top 10 de psy do Beatport, o que mostra a força desse som mais ligado às raízes do estilo entre os DJs e produtores.

Nazen Carneiro é colaborador da Phouse.

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