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Uma nova experiência: Como foi o extended set de Hernan Cattaneo no Warung

Jonas Fachi

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Hernan Cattaneo Warung Review

Em oito horas de música, Hernan Cattaneo trouxe talvez o seu set mais desafiador já feito em dez anos de apresentações no clube catarinense.

* Fotos por Gustavo Remor e vídeos por Fernando Hauenstein e José Alonso Ponse

Como você define experiência? Algumas literaturas falam em algo como “qualquer conhecimento obtido por meio dos sentidos”. Empirismo, prática de vida, ensaio, quando a pessoa é capaz de experimentar, reconstruir e modificar algo. Todas essas colocações serão usadas em breve para ajudar-nos a compreender que uma simples ideia pode transformar as percepções de um grupo de pessoas de forma definitiva.

Foram dias tentando encontrar um formato ideal para colocar os pensamentos no papel sobre o último dia 08 de setembro no Warung Beach Club. Antes de começar a escrever, eu estava cheio de questionamentos, e isso era ótimo. Ao mesmo tempo, busquei ouvir o máximo de pessoas possíveis quanto à apresentação do maestro argentino no Inside do club. Percebi durante uma madrugada que todas as mensagens que tinha lido e recebido, de alguma maneira se assemelhavam a um conceito muito simples, e que também estava de acordo com minhas percepções: Hernan Cattaneo trouxe talvez seu set mais desafiador já feito no Templo Sul-Americano”.

O sentimento comum de praticamente todos que se fizeram presentes era de êxtase na semana pós-festa. Perguntei-me se realmente seria necessário fazer um review sobre o evento, pois cada indivíduo na pista de dança poderia contar sua experiência vivida ao longo de oito horas de set do seu jeito, por meio de linguagens e formatos mais livres e criativos. Para que serve relatar algo? Uma de suas maiores funções é revelar enfrentamentos ou dificuldades. É importante também para entender um todo, um plano ou uma proposta pensada para um determinado período de tempo. Este, por sua vez, capaz de se tornar irreversível na vida de um conjunto de corpos e mentes que participaram dessa experiência. Em nosso caso, eles estiveram flutuantes e compactados sobre uma extensa armação de madeira em frente ao mar do litoral norte catarinense.

Responder à pergunta de abertura do texto serviu como base, pois senti que necessitava ir além de relembrar diversos momentos de destaque e ocorridos. E ainda, o plano ou a proposta que Hernan decidiu executar durante uma extensa noite em pleno feriadão de Independência do Brasil exigia um algo a mais. Aos poucos, veremos que quanto mais olharmos para esse conceito ou ideia de desafio, mais caminhos poderão ser descobertos, e assim nos ajudarem a subir um degrau a mais no entendimento de algo que vai muito além da música.

Hernan Cattaneo Warung Review

Em sua postagem no Facebook de meu artigo que saiu aqui na Phouse um dia antes da festa, Hernan colocou ao final um recado que fez as expectativas de todos aflorarem de vez: “From midnight ’till very late”. Acredito que, assim como eu, todos os frequentadores do Warung anteriores a 2011 começaram a lembrar-se das manhãs sem fim no Templo, e do quanto elas fazem diferença no entendimento da alma do club. A resposta do quão tarde poderia ir, teríamos apenas após a música parar.

Sexta-feira, 22h30min. Cheguei e fui ouvir um pouco do set de Leo Janeiro no Garden. Leo, além de ser uma das figuras mais importantes no que tange ao desenvolvimento de nossa cena nacional, é um artista de extrema personalidade. Capaz de se adaptar conforme o local inserido, ele estava jogando músicas que eu não imaginava virem de suas mãos. Dançante e ao mesmo tempo com seriedade, receptivo ao enorme público que aos poucos estava chegando. Quando me dei conta, já estava no horário de subir. Enquanto conseguia achar meu espaço na pista, Hernan já estava trabalhando na primeira música. Eu estava ansioso por descobrir o que ele tinha pensado para seu set — minhas expectativas giravam em torno do tipo de música que ele vinha apresentando em seus últimos programas de rádio.

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Gostaria de deixar um parêntese quanto ao “tipo” de música que ele poderia apresentar. Isso não quer dizer que jogaria algo fora de seu mundo musical. Um dos segredos de ser um artista tão admirado por tantos anos é que Hernan sempre foi capaz de ser abrangente no tipo de som que toca, mas nunca mudou seu estilo — este é muito próprio, particular e inimitável. Contrário ao ano passado, desde a meia noite o soundsytem já estava trabalhando em alto nível, não existia espaço para desperdiçar qualquer segundo. Em sua primeira hora, vale destacar duas faixas que mostram perfeitamente um cuidado acima da média no alinhamento musical (mais à frente falarei mais sobre isso). Dois dos meus artistas favoritos, passado e presente com estilos parecidos, Audiofly & Patrice Baumel em “Atacama” na primeira meia hora, e na outra metade “Khaya”, de Jonathan Kaspar compondo baixos alongados e baterias muito parecidas.

Na segunda hora, até antes do esperado, linhas de baixo que pressionavam a pista começaram a surgir, um pouco mais de atmosfera também. O começo da intensidade estava apresentado com o excelente remix de “Hold”, por Luiz Kiverling & Diego Berrondo. Chegando à terceira hora, percebi que algo estava diferente. Relutei em usar essa palavra até agora, pois ela é muito importante para entendermos o que vem a seguir. Depois de duas horas de set, não só eu como a grande maioria de seus fãs começou a se perguntar: onde estão as melodias? Quero dizer, até então o estilo dele estava ali, baterias com contratempos, atmosfera, linhas de baixo que nos abraçavam por completo. Porém ainda precisávamos assimilar tudo, era como se as ideias estivessem todas circundando nossos pensamentos, mas faltava um momento para tudo se encaixar.

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Então, como se estivesse lendo nossas mentes, Catta renasce com nada menos que uma das faixas do ano: o lendário duo Way Out West em “Tuesday Maybe”, com remix de Guy J — uma faixa capaz de setar um novo ritmo para a pista, além de trazer maior profundidade e interação com o público. O grande destaque das três primeiras horas, entretanto, veio após mais meia hora de sonoridades flertando com aspectos obscuros. Hernan é especialista nesse quesito, cria momentos de tensão e cadência que se fecham em si mesmos, para depois, em uma virada sorrateira, chegar com algum toque inconfundível e surpreendente. Nesse caso, se tratava de “Airborne”, mais uma do pequeno israelense. Eu ainda me impressiono com esses movimentos de seu set como se fosse à primeira vez; o quanto Hernan consegue elevar o nível das músicas que toca, independentemente de ser um produtor consagrado ou de alguém ainda em formação. Sua maneira de entender onde e como cada uma de suas escolhas deve entrar faz com que elas soem muito mais interessantes.

Marti Perarnau conta em seu livro Guardiola – Confidencial que Pep é incapaz de passar mais do que 32 minutos sem deixar de pensar em futebol. Após esse tempo, ele já está novamente planejando sozinho alguma solução tática nova. Não à toa, o técnico espanhol foi responsável por uma das quatro revoluções do futebol nos últimos 40 anos. Lembrei-me disso na marcação que Hernan preparou dentro da construção de seu set. A cada período pré-determinado de tempo, ele jogava algo mais profundo e melódico; em seguida, porém, voltava a sua proposta para a noite. Na quarta hora, as demonstrações do quão conectados todos podiam estar se fizeram em faixas como “Spaceless”, de Ezequiel Arias. Às duas da manhã eu tinha recebido a seguinte mensagem no whatsapp: “dezembro confirmado”. Porém, confesso que somente às quatro é que percebi que a volta para seu clássico set de final do ano estava estritamente relacionada com a música que ele estava jogando ali, naquele momento. As duas datas são próximas, e o maestro já estava planejando seu próximo set.

Hernan carregava sua música com mixagens encaixadas como um entrelace das mãos, fechadas em uma síntese sonora que fundia produções e balançava a todos o mais próximo do chamado “ritmo ideal”, que é quando o ambiente inteiro está na mesma frequência — quando ninguém está se movendo mais ou menos rápido, não há dissonância. Eu já mencionei que essa fase do set é minha favorita, as reações das pessoas acontecem em momentos menos usuais, as explosões são brandas e inconscientes. A faixa “Smyrna”, de Nightboy, com remix de Alec Araujo, surge após o começo da quinta hora, em uma demonstração simbólica do “tipo” de música que representa uma noite inteira.

Hernan entra na sexta hora de set sem olhar para trás. Há espaço para um ritmo ainda mais intenso, e ele o faz. A sensação do amanhecer ainda com a pista escura é maravilhosa, e toques um pouco mais anestesiantes como em “Netherworld”, de L.S.G, em remix de Rise and Fall entram em cena. Nessas duas horas finais preciso mencionar um aprendizado que sem dúvidas foi um dos mais marcantes para mim em todos esses anos ouvindo música eletrônica. Às sete horas, Hernan corre com músicas bastante rápidas; ainda era cedo pra baixar a intensidade. Percebo em uma de suas mixagens desconcertantes que ele estava baixando o pitch — ou seja, diminuindo a quantidade de batidas por minuto a um número que, para os padrões normais de horário e tipo de música, eram extremamente baixos.

Então, ele se vira para mim, caminha lentamente e comenta com um entusiasmo de quem estava em um parque de diversões: “Estou tocando a 122 BPM somente aqui no Warung! Depois de tantas horas, jogar a 122 BPMs, somente aqui!”. Eu estava sem chão. Qual a intenção? Passei o resto daquela hora imaginando, e conforme a pista foi ficando ainda mais quente e explosiva, entendi que ele na verdade estava desafiando o senso corporal e rítmico de todos na pista de dança — e a si próprio também. Hernan nunca foi adepto de BPMs altos, mas sua busca de equilíbrio com a ideia do “quanto mais rápida a música, mais baixarei o BPM” era uma das demonstrações de controle de pista mais interessantes e incríveis que já vivenciei. Para você ter ideia, qualquer outro artista estaria tocando a 126, 127 ou mais. De fato, no meio da noite, quando as músicas ainda não tinham tanta velocidade, ele subiu o BPM até 126, e com o entrar da manhã, aos poucos foi descendo sem que ninguém percebesse.

Em meio a isso tudo, por volta das 07h20, joga uma faixa ainda desconhecida (não precisamos saber de tudo), que fez a todos levantarem as mãos de uma só vez. Era isso, uma noite inteira trabalhando e construindo um set tão meticuloso e bem pensado, para nos momentos finais entregar aquilo que todos esperavam. Em seguida, entra um dos vocais mais famosos da dance music: “Age of Love”, através do novo remix de Solomun. Que momento! As escolhas finais ficaram por “Cover Me”, da banda Depeche Mode em remix de Ben Pearce. Após a clássica pausa para aplausos, uma de minhas faixas favoritas nos últimos anos, e nunca esperada para um encerramento de Warung: “Epikur”, de David August, com edit do próprio Mestre.

Hernan Cattaneo Warung Review

Olhando para os produtores que compõem o tracklist, podemos notar que em grande maioria são os mesmos que ele sempre deu suporte. Mas então, como explicar uma proposta diferente, menos emotiva, mais fria, com baixos por vezes mais secos e com momentos emocionais extremamente bem colocados, se eram os mesmos nomes que já compuseram noites super emotivas, tribais ou obscuras? Poderia simplificar falando que ele apenas ajustou o set, os mesmos produtores apresentados de maneira diferente, buscando deles outras ideias musicais.

Em psicologia da Gestalt, fala-se que “o todo é maior do que a soma das partes”. Talvez nunca antes essa afirmação seja tão verdadeira e apropriada quanto à construção de set de Hernan no Warung. Vejamos: se você pegar todas as faixas escolhidas por ele e ouvir separadas ou aleatoriamente, não conseguirá captar qual foi sua proposta nesse 8 de setembro. Você só consegue entender ouvindo-as durante um único ensaio. Por mais que as partes estejam todas dentro, o todo que se cria com a soma delas é maior e com verdadeiro significado. Esse conceito tem muito poder e pode ser aplicado a inúmeras situações em nossa vida, as fazendo terem um sentido mais amplo. Hoje, servirá apenas para buscarmos o entendimento de sua experiência apresentada no Templo. Quando conseguimos criar um todo, a nossa maneira, nós estamos fazendo algo realmente diferente, pois às partes, todos têm acesso; qualquer um pode ter, mas o que fazer com elas é o segredo. Hernan sabe disso, é algo que vai muito além da música.

Hernan Cattaneo Warung Review

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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Análise

O indie dance original respira com a volta do Friendly Fires

Flávio Lerner

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Friendly Fires
Foto: Reprodução
Depois de mais de seis anos sem lançamentos, o trio britânico que marcou os anos 2000 está de volta

Fundado em 2006, o trio britânico de dance-rock/indie danceFriendly Fires foi importantíssimo para uma guinada mais eletrônica e dançante à cena indie da década passada, que encontrava-se em sua era de ouro com a ascensão de bandas como The Killers, Franz Ferdinand, The Strokes e Bloc Party. Seu surgimento — somado à ascensão de grupos como Klaxons, Chromeo, Cut CopyMetronomy e o brasileiro Cansei de Ser Sexy — fez com que aquele cenário mais centrado nas guitarras passasse a ter um foco maior nos sintetizadores e nas batidas. O LCD Soundsystem não estava mais sozinho.

Comandando pelo carismático e rebolativo Ed Macfarlane — com suas dancinhas impagáveis ao vivo e nos videoclipes —, o Friendly Fires explodiu mesmo em 2008, com o primeiro e homônimo álbum, e desde então acumulou milhões de fãs no mundo inteiro. Nunca fizeram exatamente música eletrônica de pista, mas bebiam claramente de fontes como a house e o synth pop de grupos como New Order e Depeche Mode. E não só isso: a batida e a vibe ensolarada das músicas trazia muito da música brasileira. Singles como “Jump in the Pool” e “Kiss of Life” surgiram com fortes elementos de percussão de samba — e em 2008 e 2009, o grupo chegou a realizar apresentações em conjunto com uma escola de samba.

Em 2011, às vésperas do lançamento do segundo álbum, Pala, que se afastava ainda mais do indie rock, foram capa da conceituada revista inglesa NME, e tiveram a ousadia de dizer que preferiam escutar Justin Timberlake do que Morrissey — antigo líder do grupo The Smiths, que dominou a cena indie nos anos 80. Pra roqueiros britânicos que levam esse tipo de comparação muito a sério [o que, arrisco dizer, seja boa parte do público da revista], uma declaração do tipo soava como heresia.

O trio seguiu sua vida muito bem, obrigado. Pala também fez sucesso, e o FF seguiu apresentando-se em shows lotados no mundo inteiro nos próximos anos. Mas pararam de fazer música. Em 2014, deram um tempo de vez, e só foram voltar agora, quatro anos depois, com shows de retorno na Inglaterra realizados nas últimas semanas. E claro, novo single — o primeiro em mais de seis anos.

“Love Like Waves” foi lançada no último dia 05, e segue a linha do Friendly Fires que já estamos acostumados, sem grandes alterações na estrutura sonora. É uma canção boa e agradável, que resgata o saudosismo dos fãs e empolga pelas novas possibilidades, mas também não chega a ser dos melhores sons já feitos pelo trio.

Novos singles devem surgir nas próximas semanas, culminando, em breve, com o aguardadíssimo terceiro álbum. Se mantiver a qualidade dos LPs do passado, tem tudo para ser um dos grandes lançamentos de 2018.

Bóra relembrar outros grandes singles do grupo:

* Nota do Autor: Indie dance/nu disco, assim como progressive house e deep house, foi mais um dos estilos que caiu naquela salada de tags do Beatport, na década passada, e acabou passando a ser usado para se referir a uma sonoridade completamente diferente. Aqui, evidentemente, falo sobre o indie dance original, que vai de bandas como o Cut Copy a produtores como o Tensnake.

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Opinião

Carta aberta aos fãs de progressive house

Flávio Lerner

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Aos fãs de progressive house
Oi gente, tudo certo? Vamos conversar? Os ânimos tão meio exaltados por aqui.

Seguinte: o DJ e produtor Leo Lauretti assistiu à volta do Swedish House Mafia in loco e nos escreveu um texto com algumas reflexões. Quando eu vi que ele falou em progressive house para se referir ao estilo do trio sueco, minha reação imeadita foi a de substituir o termo. Isso porque aqui na Phouse — ao menos desde maio de 2017, quando assumi como editor —  usamos essa tag para falar sobre o gênero original: esse mesmo que vocês curtem, o de Sasha, Digweed, Hernán e companhia.

Sempre que eu recebia para editar qualquer texto usando o termo “progressive house” para se referir ao “prog house mainstream”, eu o substituia por algum outro nome — geralmente, big room ou EDM, para evitar a confusão que existe há cerca de dez anos, desde a época em que o Beatport permitia que as gravadoras se apropriassem das tags que quisessem. Mas no texto de Lauretti percebemos que nem big room e muito menos EDM serviriam para rotular o tipo de som a que ele estava se referindo. Os dois nomes se tornaram genéricos demais para caracterizar essa estética mais particular, que sim, traz elementos progressivos, mas em uma roupagem bastante pop e acessível às massas. A melhor solução encontrada foi aparentemente simples: vamos manter o nome “prog house” [evidentemente sem a intenção de ofender ninguém] que é como os fãs se acostumaram a rotular o som, e colocar uma nota ao final explicando o caso.

Apesar de o artigo ter tido ampla aceitação entre os fãs de Swedish House Mafia, nunca imaginei que fosse causar um desconforto desse tamanho nos fãs do progressive clássico. Ora, através do nosso colunista Jonas Fachi, sustentamos uma cobertura bastante rica dessa cena. Incontáveis reviews sobre apresentações de nomes como Hernán Cattaneo e Guy J, matérias sobre projetos novos que vêm impulsionando a cena prog nacional… Vocês o conhecem, não conhecem? Se não, leiam os textos dele. Vocês vão curtir. Agora, tudo isso passa a não valer mais nada porque usamos o mesmo termo para nos referir, em um momento específico, a outro gênero musical?

Certo ou errado, com boas ou más intenções, a confusão do passado entre as nomenclaturas dos gêneros já foi feita. Não é culpa nossa. Mundialmente, o estilo que consagrou o Swedish House Mafia é ainda fortemente referido por seus entusiastas como progressive house. Isso passou a pertencer a eles também, gostemos ou não. Aprendamos a dividir. Assim como o dubstep se transformou em algo diferente a partir da onda do Skrillex, no começo desta década. Assim como o deep house hoje é um termo guarda-chuva tão grande que já não tem praticamente nada a ver com o deep house clássico. Os fãs sempre chiam, mas é em vão. E a própria EDM não é unanimidade. Na Phouse, convencionamos o uso da sigla para nos referirmos ao som do mainstream, mas volta e meia alguém reclama que “EDM engloba todo o cenário da dance music”. Não está errado. O termo pode ser usado em mais de um sentido. É tão difícil aceitar isso?

Por um lado eu entendo vocês. Há alguns anos eu discotecava um estilo que gostava de classificar como nu disco ou indie dance. Graças à mesma confusão no Beatport, hoje indie dance/nu disco se tornou algo completamente diferente. O importantíssimo movimento acid house no Reino Unido não tocava apenas acid house. Entre Estados Unidos e Inglaterra, “garage” significa duas coisas diferentes. No Brasil, funk tem um sentido completamente diferente do que nos EUA. Vocês acreditam que o James Brown se importaria? Eu não. Em meu primeiro artigo aqui na Phouse, há três anos, já tinha escrito argumentação parecida: a cooptação é inevitável.

No fundo, é apenas um nome. Uma referência. Mas nunca uma verdade absoluta, objetiva, imutável, escrita em pedra. A música é o que segue importando. A comunhão na pista de dança. Dentro do contexto, todo mundo sabe quem é quem. Ninguém confude a cidade de São Paulo com o Estado de São Paulo, com o santo ou com o time. A palavra “lance” pode ser utilizada para descrever uma jogada em uma partida de futebol, um trecho de uma escadaria ou uma investida em um leilão. E creio que ninguém aqui corre o risco de tentar bater um suco com um mixer da Pioneer. Nem de ir numa noite do Warung esperando ver o Avicii.

Talvez, no artigo de ontem, a gente pudesse ter chamado o estilo de progressive house mainstream. Parece fazer bastante sentido. Mas vamos combinar que fica um nome feio e comprido demais. E talvez não fosse o bastante pra evitar as vaias. Não posso deixar de suspeitar que toda essa raiva que uma galera pegou pelo fato de Lauretti ter usado o termo “prog house” tenha a ver com um ranço, algum tipo de elitismo ou soberba cultural. “Como ousam usar o nome do MEU gênero para descrever essa reles música de playba?” Não consigo não lembrar imediatamente de toda a celeuma causada quando o Seth Troxler tocou um vocal de funk. Vejo muita semelhança entre os casos: uma histeria porque “profanaram minha casa”, “mancharam meu som impoluto”. Vamos lembrar que cada nicho e história tem seu valor para o seu público, e ninguém é melhor que ninguém por aqui — mesmo que, tecnicamente, um som possa até ser mais refinado que o outro.

A gente respeita muito o progressive house. Qualquer um deles. Assim como todos os outros gêneros musicais que dizem respeito ao universo da música eletrônica. E vocês são sempre muito bem-vindos aqui. Vamos combinar que tem espaço pra todo mundo, sem confusão? Sem ódio? Sem precisar diminuir ninguém?

Vamos mirar nossa indignação em coisas mais importantes?

* Flávio Lerner é editor da Phouse.

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Opinião

A volta do Swedish House Mafia e o retorno do prog house

Phouse Staff

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Swedish House Mafia progressive house
Um dos eventos mais importantes dos últimos anos no cenário eletrônico deve trazer consequências marcantes
* Artigo por Leo Lauretti

Swedish House Mafia fechou o Ultra Music Festival 2018, a 20ª edição de um dos maiores festivais de música eletrônica do mundo, e algumas coisas importantes vieram à tona. Durante o show, acompanhei a reação das pessoas nas redes sociais, e muitos falando bem da apresentação em si.

Primeiramente, me chamou a atenção todo o hype que foi levantado para essa performance, e deixo uma pergunta: será que a EDM/prog house* morreu mesmo, ou será que estamos vivendo um retorno desse estilo? Não acho que viveremos algo semelhante ao passado em questão de estrutura musical, mas me arrisco a dizer que algo novo pode surgir com moldes similares aos do passado. Adoraria saber o que vem por aí, e digo isso desde quando descobri, há 30 dias, que o Swedish House Mafia voltaria.

+ Swedish House Mafia “de volta pra valer”

Outro fato curioso é que o trio não tocou nenhuma música nova deles, senão as que fizeram até se separarem. Mesmo assim, as reações têm sido muito boas, o que me leva a questionar: por que músicas de seis, sete anos atrás continuam com o mesmo peso e força, enquanto vemos outras se perdendo em menos de meses? Temos aqui a resposta do que “matou a EDM” há uns anos. Hoje em dia, existem poucas músicas que emocionam como “Don’t You Worry Child”, que marcaram época. Seja agora, seja daqui a dez anos, esses sons continuarão a representar muito para quem vivia ouvindo a track durante o seu auge (2013/14). O low BPM surgiu como uma outra proposta de música para festivais, porém vejo muita saturação e “plasticidade” nos dias de hoje, e, por isso, um alerta.

Por último, o que acontecerá daqui pra frente? Como amante desse estilo do Swedish House Mafia, torço muito pela volta dele, mas muito mesmo. Isso significa que o low vai morrer? Vejo que PODE perder força, mas acho que não morrerá, uma vez que existe um público muito mais conscientizado sobre o assunto, o que possibilita ao gênero se manter em uma constante, ou com apenas uma pequena queda. Quanto ao prog, o futuro está nas mãos dos produtores, meios de mídia, público, e principalmente dos DJs que animam as festas acolherem esse “novo” estilo. Se alguém quiser mudar algo, são estes que podem começar!

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* Nota do Editor: Em face da confusão instaurada nesses últimos dez anos quanto ao termo progressive house — originalmente um estilo bem diferente deste capitaneado pelo Swedish House Mafia —, continuaremos chamando aquele de “progressive house”, enquanto este passa a ser referido como “prog house”, evitando o uso de um mesmo termo para se designar a gêneros diferentes.

** Leo Lauretti é colaborador eventual da Phouse.

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