RIP João Gilberto: o que o gênio da bossa nova tem a ver com a música eletrônica

Lendário músico brasileiro faleceu no Rio de Janeiro, aos 88 anos
* Edição e revisão: Flávio Lerner

O músico baiano João Gilberto é uma figura monumental da música ocidental e sua obra levou a cabo uma cisão tão fundamental na música popular ocidental que tentar mensurar sua repercussão é uma tarefa desafiadora logo de cara. Essa contribuição é tão basilar e se espraiou por tantos recônditos dos nossos modos de fazer e apreciar o material musical como um todo, que ver suas ressonâncias em outras musicalidades tão distantes ou diversas como a nossa é que exige atenção, mesmo porque cada uma das transformações radicais que promoveram acabaram diluídas em inúmeras convenções.

Mas ela é recompensada prontamente, pois é justamente nesses mecanismos rítmicos que compõem nosso léxico dançante que esse impacto se fez sentir com maior profundidade, deixando marcas que até hoje podem ser sentidas. Afinal, foi nesse âmbito que as sutilezas de marcação e contraponto revolucionaram a forma como se toca, ao mesmo tempo em que a delicadeza sônica propriamente dita exigiu uma certa sensibilidade, mais cuidadosa e atenta de quem ouve.

A influência do músico, falecido no último dia 06, aos 88 anos, por mais inconspícua que possa parecer atualmente, já pode ser notada desde os primórdios de ambas as tradições que se fundiram para criar o que temos hoje. Tanto pelo lado da música eletrônica e experimental, seja ela europeia ou norte-americana, quanto da imensa paleta de ritmos da diáspora africana, as inovações trazidas pela forma como se capta e dimensiona o som propriamente dito para transformá-lo nesses pequeninos universos de caos organizado que evocam sensações e sentimentos.

Sua música é algo único, isso é inegável e perceptível desde o primeiro acorde e, assim que a comparamos com tudo que havia até então, as mudanças que ela trouxe à baila tornam-se ainda mais evidentes. Seja como o criador de muitos dos métodos de execução musical que são característicos da bossa nova ou como um artesão dos mais exigentes com relação aos recursos disponíveis para sua expressão, seu papel transformador é reconhecido e suas inovações regurgitadas por muitas gerações que povoam e ajudaram a erigir esse enorme edifício em construção que é a música eletrônica dançante.

Tudo isso foi mais que explicitado por luminares do hip hop em muitos dos clássicos da era dourada do gênero. Muitos fãs confessos de sua música, entre eles Madlib e J.Dilla, samplearam e celebraram-no das mais diversas maneiras — sempre pontuando a sincopada, que é essencialmente o que ele trouxe de mais original e cuja importância perdurou por décadas.

Mesmo uma cria mais tardia dessa pedra fundamental da música urbana como o drum’n’bass se fartou avidamente nessas águas e introduziu elementos da bossa mais autêntica à la João Gilberto numa estrutura rítmica bastante robusta e contundente em franco contraste com sua delicadeza aparente, mas extremamente compatível com o tipo de complexidade que ela impõe.

E não só. A house sempre esteve de alguma forma sob a influência dessa musicalidade, algo evidenciado desde seus momentos seminais, mas especialmente daquele mais eclético e de certo modo mais afinado com os formatos livres do jazz que surgiu em Nova Iorque. Posteriormente, isso se tornou um fator distintivo da cepa inglesa do gênero que se desdobrou daí, no interior da qual a melancolia tão intrínseca às composições do genial João encontrou terreno fértil para florescer sob bases mais intensamente dançantes — assim como das versões californianas mais aguadas, mas não menos inventivas, que selos como Hed Kandi e produtores como Miguel Migs galvanizaram em torno de seu som.

O techno, por sua vez, atualizou certos componentes dessa tradição através particularmente do minimalismo que acentuou os contornos de cada peça rítmica e melódica de sua estrutura, chegando a uma microscopia sônica que em muito se pautava naquilo que João Gilberto fizera com a captação de seu violão e da atenção do público, permitindo que cada partícula musical respire e tome o ambiente de forma livre e seja percebida em sua forma mais pura. E é aqui que vemos a semelhança de sua abordagem com aquele de outra figura tão pitoresca quanto ele e não menos crucial para nossos tempos: Ricardo Villalobos.

Enfim, se formos prosseguir com um levantamento desses, ele não seria justo ou tampouco preciso e provavelmente iria irritar o próprio autor dessa obra inestimável cujo temperamento era tão célebre quanto o talento era universalmente conhecido e reconhecido. Ele partiu e, ao fim da vida passava por uma situação de penúria das mais comoventes devido a uma relação predatória com uma gravadora major cujo litígio apenas recentemente foi resolvido, mas independente de nossa perda e de sua tragédia, sua música permanecerá conosco eternamente. 

Pois, ao fim e ao cabo, como muito bem disse nosso flautista predileto, L_cio: “A contribuição dele para a música eletrônica diz respeito à base, a estrutura, a elevação da música como linguagem em seu maior sentido… Sem ele, nossa maneira de receber e posteriormente criar e entregar a música para o mundo seriam completamente diferentes”. 

Desafinado não desengonçado: a influência de João Gilberto na dance music contemporânea

Confira abaixo uma amostra da música eletrônica em que é perceptível a contribuição do notável músico brasileiro:

Chico Cornejo é colaborador eventual da Phouse.

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