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A Jovem Pan e o “jornalismo” que atrasa a música eletrônica no Brasil

Flávio Lerner

Publicado em

06/02/2017 - 16:31

É 2017, mas a grande imprensa nacional ainda tem sérios problemas com a cultura de pista de dança.

Saiu nessa sexta-feira, 3, e repercutiu demais entre a comunidade da música eletrônica brasileira uma “reportagem” de Daniel Lian para a Jovem Pan sobre o Dekmantel São Paulo, que rolou no fim de semana. E coloco “reportagem” entre aspas porque o texto não merece ser chamado de tal forma: é enviesado e tendencioso, carregado de adjetivações sem cabimento — muito mais um artigo, isto é, um texto de opinião [como este que escrevo], travestido de apuração jornalística, com o intuito de demonizar e colocar a população contra o festival. E por isso repercutiu tanto entre nós.

Colocar o Dekmantel, um evento conceituadíssimo mundialmente, que trouxe diversos expoentes da house, do techno, da disco e da música brasileira e experimental sob a pecha [negativa, óbvio] de “festa rave” mostra, de cara, uma má vontade e um desconhecimento atroz sobre o que se está falando — a mesma ignorância que ouvimos de Boechat e sua equipe da rádio Band News quando também demonizaram o Ultra Brasil, em outubro. A Jovem Pan, contudo, conseguiu superar por larga vantagem a Band News em termos de proliferação de chorume — não só porque o Dekmantel é mais conceitual e musicalmente diverso [esses jornalistas não devem ter ideia do micão que tão passando em colocar Hermeto Pascoal e Azymuth sob o guarda-chuva de “rave”], mas porque a argumentação chega a ser caricata. Temos declarações que poderíamos esperar talvez de nossos avós sobre o “barulho”, a “algazarra” que seria ocasionada pelo evento, com seus frequentadores que “urinam nas ruas, usam todos os tipos de drogas indiscriminadamente”, e, pasmem, que até “praticam sexo na rua, sem se importar com […] crianças ou idosos”. Só faltou Lian chamar o público do Dekmantel de satanistas que fazem sacrifícios com animais — como quando o Boechat comparou a produção do Ultra Brasil com assassinos de coelhos.

“A Jovem Pan agiu no melhor estilo sensacionalista, como vemos em tantos canais de política por aí que se passam por jornalismo, mas na verdade são panfleto ideológico.”

No restante da “matéria”, vemos a maquiagem, a tentativa de se passar por um jornalismo investigativo e isento, quando o repórter, a fim de justificar seus argumentos, revela apurações com o diretor do sindicato dos hípicos [pra mostrar que o Jockey Club não poderia receber o Dekmantel], com a Companhia de Engenharia de Tráfego e com a Prefeitura Regional do Butantã, chegando à conclusão de que, às vésperas do festival, ele não tinha alvará: “O evento está irregular”. Será mesmo? Lian também relata terem tentado contato com a direção do Jockey, sem resposta. Pergunto: por que diabos não contataram a produção do Dekmantel — os PRINCIPAIS nomes envolvidos, os protagonistas do “outro lado”, tão essencial de ser ouvido? Simples: porque não querem. Tenho convicção de que se o fizessem, poderiam checar todos os documentos e conferir que tudo estaria dentro dos conformes, mas aí a campanha difamatória perderia o sentido. A Jovem Pan agiu no melhor estilo sensacionalista, como vemos em tantos canais de política por aí que se passam por jornalismo, mas na verdade são panfleto ideológico, deformando os fatos e transmitindo apenas a narrativa que convém.

Sim, alguns festivais encontram problemas e muitas vezes não estão com tudo dentro dos conformes para procederem causando o mínimo de impacto aos moradores de uma cidade [o que não parece ter sido o caso do Dekmantel], afinal, estamos no Brasil; e sim, esse tema merece — e precisa — ser melhor discutido. Mas uma discussão madura, saudável, com empatia e respeito por parte de todos os envolvidos, para achar a solução que melhor sirva a todas as partes. Não é o que vemos aqui, e não é o que vemos em geral — e com posturas infames como essa, não veremos tão cedo.

Era exatamente esse o tema quando falei com Pedro Nonato, diretor do Ultra Brasil, para o artigo sobre o preconceito que a música de pista ainda encontra no nosso país. Naquela ocasião, a prefeitura do Rio de Janeiro e a grande imprensa claramente perseguiram um evento que, com investimento de fora, gerava emprego, cultura e entretenimento, movimentando o turismo e a economia, sem nenhum centavo de dinheiro público, num país mergulhado em crise. Porém, quando outros eventos foram autorizados nos locais vetados para o Ultra, para um número maior de pessoas, sem estrutura adequada, com dinheiro público ou com patrocínio de parceiros, ninguém falou nada. Com o Dekmantel, festival que acaba de enriquecer a bagagem cultural e trazer uma experiência inesquecível para dezenas de milhares de pessoas, não houve tamanho boicote do poder público, mas o combate midiático e a seletividade foram muito semelhantes — como vocês podem ver no print acima de Mohamad Hajar Neto, jornalista do detroitbr.

O umbiguismo, a falta de vontade de entender uma realidade diferente da sua, faz parte do estereotipo do “conservador bundão”, o pior tipo de conservador que temos: o que “não viu e não gostou”; que luta com unhas e dentes contra a inovação; que não estuda, não se informa e se fundamenta em preconceitos. No jornalismo, não deveria haver espaço para tipos assim, mas infelizmente há bastante — grandes pedras que teremos que passar por cima no caminho de consolidação de nosso mercado.

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LIFT OFF

Psytrance raiz: Mindbenderz lança álbum transcendental pela Iono Music

Review do debut do duo suíço-alemão é o primeiro texto da nova coluna da Phouse

Nazen Carneiro

Publicado há

Mindbenderz
Foto: Reprodução
* Edição e revisão: Flávio Lerner

Instalar foguetes, preparar motores, verificar comunicação, iniciar sequência de lançamento. Cinco, quatro, três, dois, um… LIFT OFF!

Estreamos aqui a coluna LIFT OFF, que, escrita por Nazen Carneiro, traz um olhar sobre a indústria fonográfica psytrance nacional e internacional — estilo da música eletrônica que se manifesta como uma cultura vibrante e com muitos adeptos no Brasil.

De tempos em tempos a cena eletrônica se transforma e, como um organismo vivo, cresce e se reproduz. Um de seus pilares, o psy se reproduziu e está mais presente do que nunca, com “astronautas” consagrados mantendo-se relevantes, assim como novos “cosmonautas” surgem, evidenciando uma realidade produtiva e frutífera para a criação musical.

Com o crescimento do público, as festas também se multiplicaram Brasil adentro, e os produtores passaram a ter mais espaço para caírem no gosto do público da terrinha e de além-mar. Hoje, o psy mantém viva sua cena underground, enquanto estica seus tentáculos a outros nichos, influenciando — e sendo influenciado — até mesmo pela EDM.

Sem mais delongas, confira o primeiro texto abaixo, sobre o novo álbum do Mindbenderz.

 

Formado pelo alemão Matthias Sperlich e o suíço Philip Guillaume, o Mindbenderz traz, sem dúvida, um dos principais lançamentos do ano no cenário psytrance. Os veteranos, que são muito respeitados na cena eletrônica individualmente como Cubixx e Motion Drive, juntos ficam ainda mais fortes. É o que se vê no álbum Tribalism, lançado em 31/10, pela Iono Music.

O álbum conta com nove faixas que somam mais de 75 minutos. A primeira, “A New Dawn”, traz desde o primeiro minuto muita energia e reflexão num som que conduz o ouvinte a outra dimensão. A segunda faixa dá sentido a expressão “lineup” numa ascendente contínua, revelando uma verdadeira jornada ao desconhecido que segue até meados da faixa seis — “Hybrids” —, causando aquele frio na espinha. Nesse momento de percepção cósmica, uma pausa reconecta o corpo e mente à nossa tribo, e há de fato uma sensação híbrida de se estar em ambas as realidades ao mesmo tempo.

A essa altura, o álbum apresenta suas três últimas faixas no ápice de uma jornada espiritual, e nos encontramos num momento épico em que as características sonoras do psytrance alcançam sua maior amplitude, com uma ampla gama de efeitos numa base transcendental. É puro trance. A mente processa essas informações e a energia flui na forma de dança.

Voltamos para a Terra, mas a memória do que acaba de acontecer permanece. Tontura; excitação… O reator psicodélico agora transforma a energia através de instrumentos humanos. A última faixa dá nome ao álbum. “Tribalism” une percussões especiais, agogô, psy, Ayahuasca e vocais de xangô. Todos no mesmo pitch, como uma onda. Algo nos une, nos traz ao dancefloor, tornando-nos verdadeiramente uma tribo.

Tribalism revela uma composição muito bem realizada, fruto de meses de trabalho e muito detalhismo. Cada segundo do álbum revela a ação do Mindbenderz em promover um som extraordinário e comprometido com aquele pegada tribal, sem deixar de lado os elementos mais futuristas.

No momento do fechamento deste artigo, o álbum ocupava a primeira posição no Top 10 de psy do Beatport, o que mostra a força desse som mais ligado às raízes do estilo entre os DJs e produtores.

Nazen Carneiro é colaborador da Phouse.

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Perfil

Entenda a ascensão internacional do DJ e produtor brasileiro Kalil

Lançamentos por grandes labels fazem do paulista um dos principais nomes do techno no Brasil

Alan Medeiros

Publicado há

Kalil
Foto: Divulgação

Nos últimos anos a cena techno brasileira tem servido ao mundo alguns talentos em ascensão, como o caso do talentoso produtor paulista Kalil. O começo de sua carreira foi justamente em um período de grandes inovações relacionadas à forma de consumo de música, e isso foi fundamental para o desenvolvimento não só dele, mas de toda uma geração.

Na virada da última década, a internet passou a representar um capítulo importante na disseminação de conteúdo por parte de artistas independentes, principalmente através de plataformas como SoundCloud e YouTube, que de certa forma reduziram a importância de uma grande gravadora para o start de uma carreira consolidada. Em paralelo com o Facebook e outras redes, colocaram uma ferramenta poderosa na mão de alguns artistas.

      

Kalil claramente soube aproveitar esse momento e foi capaz de construir uma base de fãs engajada, e o mais importante: evoluir seu próprio perfil artístico ao longo dos anos. Desde o começo se comentava que suas produções tinham algo diferenciado, e hoje isso não se trata de uma aposta — estamos falando de algo concreto, especialmente se levarmos em consideração os últimos acontecimentos de sua carreira.

Com uma presença mais forte no mercado nacional, Kalil passou a alçar voos internacionais também, seja através de gigs em países como França, Suíça e Alemanha, ou através de lançamentos por labels como Noir Music, Senso Sounds e Sprout — referências absolutas dentro do techno. Algumas de suas últimas conquistas incluem suportes de nomes como Carl Cox, Maceo Plex, Monika Kruse, Karotte e outros big names da dance music internacional.

     

Ainda é cedo para dizer se Kalil se tornará em breve uma grande estrela do estilo a nível global. Não há como negar, porém, que o brasileiro está mostrando maturidade para guiar sua própria jornada de evolução com sabedoria e inteligência, sempre influenciado pelas batidas inspiradoras de seu próprio coração.

Alan Medeiros é colaborador da Phouse.

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Notícia

Nevoeiro desfalca XXXPERIENCE e TribalTech; entenda o caso

Artistas que iriam de um festival para o outro acabaram não conseguindo viajar

Flávio Lerner

Publicado há

XXXPERIENCE e TribalTech
Foto: Sigma F/Reprodução

Nesse sábado, 22, dois dos mais aguardados festivais da cena eletrônica nacional aconteceram simultaneamente: XXXPERIENCE e TribalTech. Tentando evitar o mau tempo que atrapalhou anos anteriores de ambos os eventos — o que justamente motivou a XXX para transferir sua data de novembro para setembro —, os dois rolaram numa boa, sem temporal nenhum pra acabar com a vibe. Mesmo assim, a zica climática atacou por outro lado, e acabou desfalcando as duas festas.

Por causa do forte nevoeiro que atingiu Curitiba, os dois aeroportos da capital [Afonso Pena e Bacacheri] fecharam, além do Aeroporto Municipal de Ponta Grossa e do Aeroporto Internacional de Navegantes, em Santa Catarina. Com isso, a aeronave particular — contratada em parceria entre os dois festivais — que sairia no começo da madrugada de São Paulo para levar Len Faki, Dubfire e Tessuto ao TribalTech, e posteriormente Ben Klock e Gabe para São Paulo, não conseguiu decolar.

+ “O festival vai ficar muito mais interativo”; Erick Dias fala sobre a #XXX22

Além deles, Guy Gerber cancelou anteriormente com os dois festivais, alegando na última quinta-feira que teve sua casa invadida e pertences roubados, incluindo seu passaporte. Já o voo comercial que levava o sueco Gaudium, atração do palco de trance 3DTTRIP, do TribalTech, atrasou, o que fez com o que o artista não chegasse a tempo para tocar. 

A XXX contornou o problema colocando Renato Ratier para estender o seu set, que já encerraria o Union Stage, por quatro horas, assumindo também o horário de Ben Klock, enquanto o Joy Stage, que fecharia com o Gabe, acabou terminando mais cedo; já o Guy Gerber foi substituído por um B2B entre ANNA e Patrice Bäumel, que já eram atrações do Union. 

+ TribalTech Enlighten: confira detalhes da próxima edição do festival

No TribalTech, Len Faki e Dubfire, que seriam as últimas atrações do TribalTech Stage, foram substituídos por Ben Klock [que estendeu seu set em meia hora] e Anthony Parasole, que originalmente tocaria no Timetech [e acabou sendo substituído por um segundo set do alemão Sammy Dee]. Já no Secret Stage, um B2B entre Renato Cohen e RHR fechou o palco, no lugar de Tessuto. O festival acabou sendo encerrado uma hora antes do programado.

Em contato com a Phouse, a assessoria do TT afirmou que já está em contato com as agências dos artistas para tentar trazê-los novamente a Curitiba. Enquanto isso, a produção da XXX afirma também ter a intenção de trazer Ben Klock para a edição do ano que vem.

Antes, ambas as labels já haviam pedido desculpas ao público e explicado o problema em suas respectivas redes sociais.

NOTA OFICIAL.

Posted by Tribaltech on Sunday, September 23, 2018

Flávio Lerner é editor da Phouse.

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