* Por Felicio Marmo
** Edição e revisão: Flávio Lerner

No dia 31 de outubro, perdemos um dos pioneiros da música eletrônica no Brasil. Ricardo Duarte de Mattos, mais conhecido como Richard Weber, faleceu em Curitiba, aos 42 anos, por complicações em uma cirurgia para corrigir um caso severo de apneia, deixando um legado histórico para a cena nacional: a rádio Dance Paradise, bem como suas ramificações DPmusic e DPmovie.

Do insight no trance ao programa piloto feito em casa, a postura de um líder e sua empatia são marcas registradas do cara que foi de DJ e empreendedor da cena local ao cargo mais atarefado daquele que veio a ser o programa de rádio sobre música eletrônica mais expressivo do país.

+ URGENTE: Fundador da Dance Paradise, Richard Weber morre em Curitiba

A paixão de Richard Weber pela música começou desde cedo, com um pai que ouvia de A-ha a Nat King Cole em casa. Na juventude, sua diversão foi regada aos melhores clubes da região de onde morava com seu irmão e sua família. Em casa, também tinha acesso a equipamentos da Technics. “Escutávamos música todo o santo dia. Richard gostava muito de Red Hot Chili Peppers, no meio dos anos 80”, conta à Phouse o irmão Flavio Noronha, que esteve presente na hora em que os sonhos se misturaram com realidade pelas primeiras vezes na carreira de Richard.

No estúdio da Jovem Pan. Foto: Reprodução

Com o levante da dance music no início dos anos 1990, as coisas mudaram de rumo, do rock para as pistas. “Pra sorte nossa, morávamos muito perto dos maiores clubes que a cidade e o Brasil já tiveram, o Studio 1250 e o Moustache. Naquela época, a música eletrônica dominou o meu irmão. Ele ia todo final de semana e ficava atrás da cabine dos DJs, só observando. Quando dava pra me levar, ele me levava”, lembra, citando que Richard gostava muito de Masterboy, DJ Bobo, Dr Album e Mr. Van, e que chegou a montar uma coleção de discos absurda — “temos até hoje na Dance Paradise”.

A família sempre apoiou os irmãos de dia ou de noite — não tinha tempo ruim. Por alguns anos, era apenas Flavio e Richard correndo atrás do rolê, pegando dinheiro emprestado da mãe pra colocar gasolina pra sair e divulgar as festas, ou contando com ajuda de parentes. “Minha cunhada nos ajudou muito também, comprou um fone v700 da Sony pra ele de Natal”, segue Noronha. “As festas quase não davam lucro, mas sempre bombavam. Fazíamos realmente por amor e para os amigos, e foi isso que fez a Dance Paradise crescer e ser o que é hoje, com certeza.”

O mindset da dupla sempre foi começar pequeno pensando grande, e assim o programa começou como uma web radio caseira, idealizada por Richard. O insight veio importado de uma viagem que os dois irmãos fizeram a um dos países de origem do trance. “A Dance Paradise começou mesmo com uma ideia que eu e ele tivemos em ver a Street Parade na Holanda. Esse evento era anual, rolava nas ruas de dia e os DJs tocavam nas carrocerias dos caminhões. Era uma mini Love Parade, mas só de trance. Aí pensamos: ‘temos que fazer alguma coisa de dia pro povo’”, continua Flavio.

Com Armin van Buuren, em 2011. Foto: Reprodução

Se hoje ainda não é das tarefas mais fáceis, imaginem nos anos 90. Nunca foi simples de trampar com órgãos públicos da cidade, mas a dupla foi bastante insistente, pra sorte do rebolado de muito curitibano. “Mandamos um projeto pra prefeitura e ficamos quase sete meses pra conseguir a resposta. Graça a Deus, a autorização veio. O evento no Barigui rolava das 14h até as 20h no parque, mas foi dureza. A prefeitura exigiu algumas coisas, e eu e meu irmão fomos de casa em casa ao redor do parque pra pegar autorização dos moradores. Foram mais de 50 casas, mais de cem assinaturas, ali foi o verdadeiro boom”, segue.

“Alguns artistas nacionais e internacionais de passagem em Curitiba passavam para dar uma palinha lá por saber que era muito legal. Uma pena que após dois ou três anos a prefeitura mudou tudo. Nunca mais aprovaram o projeto, que chegou a receber de duas mil a três mil pessoas”, explica em detalhes. Na época, Flavio retoma, já existia o evento do Eletrogralha nas ruas de Curitiba. “Era muito legal, mas a nossa ambição era promover algo no parque.”

Curtindo Paris. Foto: Reprodução

Em contato com a natureza, como a ideologia sugere, o som que mexeu com a cabeça dos irmãos na Holanda sempre esteve à tona nesse embrião. Fãs de Tiësto, Paul Oakenfold, Paul van Dyk e Armin van Buuren em um momento em que Curitiba era dominada pelo techno e o psytrance, os DJs educaram o público a gostar do som europeu — e “educar” é mesmo a palavra-chave que esteve presente na veia de Weber.

Nazen Carneiro, relações públicas curitibano que foi amigo do comunicador, o define como a representação do que é, de fato, um DJ. “O Richard representa ser DJ: um apaixonado pela música, um guia para muitos profissionais. Uma pessoa que foi sempre inovadora e líder do seu meio”, explica. Sérgio Maslowsky, relações internacionais, curador musical e cinegrafista, destaca a personalidade bem-humorada do colega:

“O Richard sempre foi uma pessoa de extremos. Ou ele amava muito algo, ou aquilo não prestava. Ele sempre foi muito bom em demonstrar do que ele gostava e do porquê ele gostava de algo, e fazia com que você quisesse fazer parte, viver o mesmo sonho que ele. Participar da magia, como ele gostava de dizer: ‘isso aqui é MAGIA, olha isso aqui lóóórde!’. E sempre era assim, com bom humor, muita piada de mau gosto (risos) e as melhores comparações possíveis: ‘meus deus cara, o que vocês comeram? Tá um cheiro de sela de cavalo aqui na sala!'”.

Com Tony McGuiness, do Above & Beyond. Foto: Reprodução

A apresentadora Juliana Faria, que trabalhou por dez anos ao lado de Weber ajudando no crescimento da Dance Paradise, segue uma linha parecida com a de Nazen, destacando o carinho que Richard tinha pela cultura eletrônica. “Ele sempre foi muito primoroso quando se trata de música eletrônica. Sempre o ouvia sobre reverenciar os clássicos e os mestres, conhecer a história. Em 2012, o programa de rádio estreou para todo o Brasil. Depois dessa conquista, justamente nasceu aí o interesse pelos vídeos, e em 2013 estávamos em quatro pessoas na Bélgica para gravar o Tomorrowland, que veio a ser o primeiro episódio do programa pro Canal BIS da Globosat”, resume.

“O que posso dizer é que o Richard é a cola de tudo. As pessoas muitas vezes projetam a imagem da Dance Paradise em mim, por ser a voz e estar na linha de frente, mas em todos esses anos, a minha voz só projetou a energia e as idealizações dele. Eu sempre fui um canal, mas a mensagem sempre foi dele. Ele realmente fez tudo que dava com a marca que teve na mão, explorou todas as possibilidades, está deixando muita coisa boa pra cena e pra muita gente, e não tem como deixar isso se perder”, continua.

Juliana conclui falando da importância de manter o projeto vivo, em honra ao seu criador. “O time está abalado, mas temos esse compromisso. O Richard esteve no rádio, na TV, nos maiores festivais do Brasil e do mundo, viveu a música, conheceu os seus ídolos, contribuiu com a cena. É muito claro o tanto que a Dance Paradise se tornou um canal relevante. Um dos grandes medos dele era perder tudo isso — o sonho e a magia, como ele falava —, mas ainda bem que, na verdade, ele viveu tudo isso intensamente.” 

No ADE em 2014, com os DJs Dave Clark e Chuckie. Foto: Reprodução

Um projeto que nasceu em Curitiba, e que hoje é transmitido em mais de 60 emissoras por todo o Brasil. Que evoluiu para uma produtora audiovisual e chegou à TV. Que começou voltando ao trance, mas hoje abrange as mais variadas vertentes do cenário nacional. A Dance Paradise perde seu diretor de comunicação, fundador e idealizador, mas o show precisa continuar.

“A família está em luto. Ainda não decidimos o que vai ser sem ele. A DP cresceu demais, tem sócios e faz parte de um grupo grande de uma rede de rádio FM nacional, então tem muita coisa a ser conversada. Mas tenho certeza que tudo vai dar certo, pelo bem do meu irmão”, conclui Noronha.

*Felicio Marmo é colaborador da Phouse.

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