* Edição e revisão: Flávio Lerner

Há quatro anos surgia a Liminal, uma agência que, como toda empreitada independente que se lança num mercado pouco estruturado, possuía uma proposta tão singela quanto ambiciosa: oferecer algo mais que um serviço à nova safra de talentos que então vinha ganhando espaço num alvissareiro cenário nacional — e também algo além de oportunidades de negócios para os clubs, festas e festivais que grassavam nele.

O que se pretendia era estabelecer um novo tipo de relação propriamente dita, uma que transcendesse meros trâmites comerciais e simples planos de carreira e se baseasse num relacionamento mais orgânico e abrangente. A simplicidade original parece ter vingado e a ambição inicial aparenta ter rendido bons frutos, já que a empresa cresceu e manteve seu empuxo inicial a ponto de se estabelecer entre as principais iniciativas que movem o mercado regional atualmente.

Atualmente, a agência é responsável pela curadoria artística do DGTL São Paulo, e ainda booka alguns dos maiores nomes do cenário house/techno mundial. Ben Klock, Ellen Allien, Etap Kyle, Julianna, Len Faki, Marcel Dettmann, Modeselektor, Recondite, Rødhåd e Roman Flügel, por exemplo — além dos brasileiros Davis (a quem também faz management), Vermelho e Zopelar —, são nomes exclusivos da Liminal no Brasil (alguns deles, em toda a América do Sul).

Tudo isso é encabeçado por sua fundadora, uma brasileira que já acumula uma bagagem invejável de experiências que a colocaram em praticamente todo lugar, exceto atrás dos controles numa cabine. Aqui, Larissa Correia explica um pouco mais o que, como e por que faz tudo que faz no âmbito da curadoria do DGTL, e também como empreitadas como esta colocaram a Liminal numa posição em que já granjeou admiração crítica, sucesso comercial e apoio artístico em relativamente pouco tempo.

Desde 2017, o festival holandês DGTL rola em São Paulo com curadoria da Liminal

Cuidar de um aspecto tão central para um evento do porte do DGTL envolve muitas apostas, ainda mais quando se trabalha tão de perto com a circulação de artistas que são a parte central dele. É tão complexo lidar ao mesmo tempo com esferas que, por vezes, parecem até contraditórias?

Meu trabalho sempre envolveu todas essas dimensões das relações entre artista e evento, então fica mais fácil lidar com possíveis fricções. Mesmo assim, pela minha experiência, eles só surgem se você deixá-los aparecer.

Assim, basta evitar nutrir as condições que criam atritos ou conflitos que os riscos envolvidos nessas apostas são reduzidos, especialmente os desnecessários. Claro que isso parece simples dito assim, mas de fato quando você atenta para as necessidades dos artistas e dos clientes de uma forma direta e franca, fica realmente mais fácil. Não tem como agradar a todo mundo e frustrações são algo esperado, mas neutralizar expectativas é a essência de tudo.

Dá para dizer que mesmo não fazendo diretamente a curadoria das outras edições do DGTL, a Liminal ajudou a montar as escalações através da de São Paulo?

Sem dúvida alguma, mas principalmente porque eles foram cases de sucesso que estabeleceram um benchmark a ser seguido.

E, quais os fatores determinantes desse êxito?

Claro que fundamentalmente é uma questão de curadoria quando se faz um evento musicalmente nichado como esse na periferia do mapa global dos gêneros que ele engloba, mas não é tanto uma questão do que, mas do como.

E aqui isso envolve um uma mistura coerente de estilos que gere uma certa expectativa num público que, afinal de contas, é exigente justamente porque tem uma melhor noção do que quer, porque conhece a música.

Também aqui os horários contam muito… É tudo parte de uma alquimia bem delicada.  

Você falou da sua experiência como um trunfo, cabe pergutar: do que ela é feita de fato no decorrer dos anos em que já atua na área?

Aos 20 anos de idade eu já estava no comando de um club de relativo sucesso no Rio de Janeiro numa época bem mais ingênua da cena, com um mercado bem menos estruturado e uma conjuntura até mais árida que esta na qual nos encontramos hoje. Cuidava da programação, administração e do marketing da casa enquanto tentava conciliar tudo com duas faculdades. Depois que pude me dedicar em tempo integral, fui aprendendo de forma exponencial e ganhando meu espaço no ramo.

Daí fui para a Europa, trabalhei por lá em uma gravadora. Retornei ao Brasil e fiquei no D-EDGE, cuidando da recém-criada D.Agency; me envolvi com os projetos da Innervisions/Lost In A Moment; assumi os bookings internacionais da ODD, quando então resolvi fundar a agência e cheguei a este momento com a Liminal.

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Essa trajetória gerou uma formação muito mais prática que é curioso ver ainda prevalecer, sendo que a Liminal pode ser enquadrada numa terceira geração de agências no mercado, não? A falta de mão de obra qualificada ainda é um problema?

Já não dá nem mais para chamar de carência, pois já pode ser considerada um problema estrutural do nosso mercado por ter perdurado já por tanto tempo. E, se considerarmos que ele nem é tão jovem ou incipiente assim e as pessoas ainda são cruas…

Fica ainda mais alarmante quando se pensa que não há uma escola de formação de agentes na área. E aqui me refiro à de ENTRETENIMENTO, o que é algo um tanto curioso num país como o Brasil, cuja vocação festeira é celebrada e há uma reputação global por conta de nossas festividades sazonais.

Tem também alguns fatores adicionais que dificultaram o desenvolvimento de gerações de profissionais devidamente treinados, como o monopólio prevalente em estágios anteriores que se refletiu nesse cenário atual, em que os bookers bons acabam sendo donos de sua própria agência. Antigamente não havia muito espaço para as pessoas se aventurarem e resultou nesse engessamento.

Qual seria um conselho pertinente a aspirantes a essa profissão?

Acho que vale a pena estarem dispostos a se tornarem alunos de fato, entrando e se mantendo abertos a uma infinidade de experiências e aprendizados que nem sempre serão agradáveis, mas que garanto, serão todos positivos. Caso falte esse elemento essencial, recomendo escolherem outra área…

E para os DJs e produtores pretendentes a se aventurarem nesse meio de modo profissional?

Acho que é fundamental estar ciente da elevada competitividade do mercado e, com isso, procurar oferecer algo novo. Há uma falta de diversidade oriunda de um exército de artistas que são social, cultural, étnica e sexualmente tão homogêneos que acabam fazendo coisas mais semelhantes ainda, então vale sempre tentar trazer algo que, no mínimo, destoe dessa vasta maioria.

Aqui vale ter consciência e ousadia suficientes para escapar de fórmulas de sucesso que, afinal, acabam sempre sendo muito ultrapassadas quando são adotadas nesse estado já banalizado e rotineiro que funciona para uma massa, mas não são duradouras.

Chico Cornejo é colaborador eventual da Phouse.

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