Guy-J

Magia e evolução; confira como foi o aguardado long set de Guy J no Warung

Um ano depois, o consagrado DJ e produtor israelense voltou ao Inside do Templo — agora com a responsabilidade e o privilégio de fazer um longset. Saiba como foi essa história pelo olhar de Jonas Fachi.

* Fotos por Gustavo Remor

Quase um ano depois de ser um dos retornos mais aguardados dos últimos tempos no Warung, Guy J chegou ao Inside com uma nova responsabilidade. Agora, ele carregava o peso de ter seu nome cravado entre os poucos que podem se orgulhar de dizer que tiveram um set estendido, e com público no limite, em uma das pistas mais místicas de que se tem notícia.

Não, eu não esqueci que ele esteve no carnaval. No review feito para aquela noite de fevereiro, expressei o sentimento de que toda aquela música seria sentida de forma diferente, se assim tivesse sido apresentada no Inside. É lá onde a mágica acontece, e o estilo de música proposto por ele conecta a todos de uma maneira única, por isso aqui vou usar como comparativo sua apresentação do ano passado, quando tocou no referido palco. São contextos mais justos para efeitos como esse, em todos os sentidos. A apresentação do último dia 16 de junho é prova; o próprio Guy J fez questão de falar — através de ondas sonoras, e na maneira que construiu seu set — que sua música funciona melhor ali.

Antes de começar a ativar a memória dos que aqui se dispõem a ler esse review da apresentação do israelense, quero deixar registrado o quanto o eterno Main Room do Warung é especial. Infelizmente a valorização das coisas em nossa cultura social quase sempre se dá quando aquilo deixa de existir. Lugares, pessoas ou feitos recebem a devida reverência quando já não podem mais se fazer presentes. É bem verdade que é sempre mais fácil analisar as coisas depois que elas não vão mais mudar, mas também existe um sentimento de que estas devem ser reconhecidas enquanto ainda estiverem acontecendo.

Vou agora na contramão dessa cultura para expressar todo agradecimento por tantas vezes poder ter entrado na Praia Brava de peito aberto e saído um pouco mais compreensível quanto à dimensão que a música eletrônica tem. Daqui a alguns anos as pessoas irão lembrar-se dos momentos vividos dentro do triangulo de madeira, e se emocionar contando a seus novos amigos ou filhos sobre aquele set de seis horas de determinado artista. Do sol laranja nascendo no horizonte, do chão de madeira que literalmente balançava junto com o público, da acústica entorpecedora, e até dos lustres sendo levados pelo vento dos ventiladores em cima do DJ. E talvez o mais importante de todos: das pessoas ali conhecidas, dos sentimentos divididos, dos abraços dos amigos durante os momentos de euforia e de todos aqueles pedaços de tempo que muitas vezes não damos o devido valor, mesmo que sejam responsáveis por mudar nossa vida.

Entrando um pouco mais tarde do que o comum, logo me dirigi à pista para poder apreciar a última hora de set da debutante da noite. BLANCAh conquistou o direito de tocar antes do artista principal, sem precisar seguir diretamente a lei do warmup. Sua música era alinhada com a proposta da noite naturalmente, e diante de uma pista totalmente cheia, pôde se impor sem ressalvas, com uma mescla de batidas limpas com sintetizadores e acordes que cabiam exatamente com o estilo a seguir. É muito bom ver uma artista do Estado ter tamanha representatividade e tantos aplausos do público, que reconhecia o seu momento. Ao final do set, ela ainda pôde usar sua sutil e tradicional voz musical; uma entrega perfeita, era o que Guy J precisava.

Iniciando uma jornada que, ao meu entender, era um dos momentos mais importantes de sua carreira, Guy J faz sua introdução ser repleta de serenidade e texturas nas primeiras músicas. O mais interessante de se ouvir um artista com tamanha identidade é que você sabe exatamente o que esperar do seu set, só não sabe como as suas perspectivas vão ser atendidas. O israelense se utiliza das linhas de baixo quase sempre com o mesmo timbre, porém quase nunca com a mesma formação. A primeira hora foi com músicas de poucos breaks, ritmo baixo. Então comecei a perceber que, comparado ao ano passado, ele realmente tinha preparado uma construção mais progressiva no que diz respeito à intensidade. Começou a acelerar aos poucos a partir da segunda hora; “Shifter”, de Cid Inc, retrata a evolução. Ao mesmo tempo, deixava sua música cada vez mais obscura — era nítido, estava preparando a pista para algo especial.

Uns dias antes do evento, desejei que ele não hesitasse em mostrar seus lançamentos recentes, já apresentados em fevereiro, ou até mesmo algumas mais clássicas de 2016. Confesso que nunca apreciei ver um artista repetindo faixas, mesmo sendo de propriedade sua. Porém, Guy J tem uma originalidade tão acolhedora dentro do pensamento de quem gosta de suas músicas, que quando ouvi os primeiros elementos de “Melter” chegarem na mixagem, desejei que aquele instante não terminasse mais. Realmente os ouvidos não conseguem negar tracks como essa, seja lá quantas vezes forem ouvidas. Nessa música, ele imprimiu seu lado mais sombrio, e a reação da pista quando ela atingiu seu máximo foi arrepiante.

Após um momento assim, o que fazer? Guy J sempre tem uma saída que considero uma de suas marcas mais impressionantes enquanto DJ. No review do ano passado, comentei como ele consegue sair de momentos obscuros para outros emocionais, desafiando nosso entendimento sobre música. Isso deixa a todos confusos, pois mexe com nossos conceitos mais primitivos: o ser humano não foi preparado para lidar com situações que transitam tão extremamente; somos programados a sempre buscar padrões, a repetir o que aprendemos, alinhar e memorizar tudo. Isso está ligado ao nosso instinto de sobrevivência, desde que os primeiros primatas começaram a ficar de pé em meio à relva, a fim de observar possíveis predadores. Sobrevivência? Guy j não estava preocupado com isso. Sem medo algum, atravessava do submundo para as nuvens em poucos minutos, como se criasse atalhos no espaço para poder viajar mais rápido do que podemos processar.

Passando das 03h, foi assim também que apostou novamente na faixa “MDQ”. Naquele momento eu tive certeza, o pequeno gênio veio para apagar da memória de todos o set do carnaval: “esqueçam, agora é para valer!”. Na hora seguinte, ele subiu o BPM sob o comando de músicas psicodélicas e com buildups um pouco mais explosivos, fazendo todos erguerem as mãos. É fato, dividir cabine com algumas lendas desse estilo nos últimos tempos o fez crescer muito no que diz respeito ao processamento do tempo, sempre linear e progressivo. Com baixos mais curtos e hi-hats de techno, estava até então dando uma aula.

Perto das 04h, outro ponto chave: seu remix de “Drps Classic” é resultado de seus dois lados — trevas e paraíso ao mesmo tempo, uma compressão de tudo o que tinha acontecido até então. Pela segunda vez na noite me perguntei: qual a saída que ele irá encontrar? A resposta veio já na sequência, quando todos perceberam os acordes de “Nirvana” chegando; antes mesmo da melodia entrar, a pista estava em estado de euforia, reconhecendo o som. Pode-se dizer que é seu maior clássico? É possível e discutível, mas o que me ocorreu na hora foi, mais uma vez, perceber o quão rica é a discografia do filho de Israel. Me arrisco a dizer que dentro de todos os estilos da música eletrônica, ele ficaria entre os primeiros, considerando a quantidade de faixas já lançadas com um nível de qualidade e criatividade absurdamente altos.

Em seguida, uma hora que causou divisão. É verdade que é preciso algum momento de maior relaxamento dentro de um long set, e “Once in a Blue Moon” iniciou essa quebra. A questão se centrou na demora em voltar ao ritmo extasiante que tinha sido mostrado até então. Na minha visão, acertada.

Às 05h, sua mão voltou a ficar quente, muito quente. Pela primeira vez eu estava vendo Guy J tocar músicas que fugiam um pouco de sua zona de conforto, e isso era ótimo. Algo lisérgico, tribal e com muitos contratempos — sendo didático, foi uma dose de John Digweed em uma das horas mais difíceis para se tocar no Warung.

Abrindo a última hora — e que última hora! —, balanço e energia levemente dramáticos. Já tinham se passado cinco horas de sonoridades intransponíveis, porém eu ainda estava aguardando por aquele momento que iria ficar gravado para sempre. Eis que surgem alguns drums inquietos sendo levados por uma camada de elementos espaciais, e senti que ouviria algo diferente. Rompe uma voz macia, ecoando conforto: “Remember when you were a child, you’d climb until you reached the Sun. Reality frame doesn’t matter, as long as you can say you’ve won”. Foram alguns minutos no infinito. É clichê falar, mas essa música é o próximo clássico do israelense. Quantos ele pode fazer por ano? Seu retoque para “Climb to the Sun”, de Third Son, foi de longe a música da noite.

Mas ainda tinha mais. “Lost & Found”, quando já não se esperava mais por ela, foi alvejada para extrair o que todos tinham de melhor dentro de si — e eu me via diante da maldição do detetive. Você sabe? A solução de tudo estava ali, aquelas pessoas, aquela pista de dança, aquela música… Porém, não estava dando a atenção necessária. Resolvi então sair e continuar a apreciar os momentos finais olhando de outro ponto.

O Sol pincelou um fundo laranja, aquele mesmo que estará daqui a alguns anos na memória daqueles capazes de entender o que significa. A pista não se iluminava, sensação estranha; estava no horizonte, mas não adentrava a casa da árvore. Alguém lembrou? Nem os raios do astro teriam força para inundar a cadência atmosférica e sideral imprimida sobre uma pista que não parecia querer acordar. Já tinha amanhecido, e o clima ainda era para noite. O alter ego Cornucopia surge para ilustrar a paisagem através de “Pursuit of the Orange Butterfly”. Guy J manipulava sua controladora de forma sublime, e tudo conspirava para um dos fechamentos mais bem-elaborados que já se pôde cultuar no Templo.

“Escape” é o tipo de escolha que ninguém apostaria. Quando chega, percebe-se que não poderia ser outra. Pensando nisso, me dei conta de estar ao lado da mente que dirigiu a todos por horas de algo magnético, como se comandasse uma única música. E, no fim, senti os últimos segundos escorrendo por meus dedos — não podia segurar. “I’m driving to Heaven. Driving to Heaven”. O que estava por trás disso? Apenas continue.

No episódio “A persistência da memória”, da série Cosmos, Carl Sagan fala que a escrita é talvez a maior das invenções humanas. Eu colocaria a música eletrônica junto disso: uma linguagem escrita e sentida de forma diferente. Parafraseando: “A música une pessoas que nunca se conheceram, cidadãos de lugares distantes. A música rompe as amarras do tempo, é a prova do que os seres humanos são capazes de fazer magia”. Um local sagrado e o mago, já temos.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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