Marcio S: 10 discos de Chicago e Detroit para ouvir em 2020

Um dos nomes mais tradicionais da cena house/techno brasileira selecionou cinco indicações de obras de produtores oriundos de cada uma das cidades-chave

A cena underground brasileira possui muitos heróis conhecidos pelo público, mas ainda assim existem alguns personagens que também contribuíram para o crescimento da house e do techno no país e que podem acabar passando despercebidos aos olhos de alguns.

Marcio S, por exemplo, começou a construir seu perfil artístico na década de 90 vendo caras como Mau Mau, Renato Lopes, Magal e Marky, o resultado não poderia ser diferente: adquiriu um repertório musical apurado e hoje consegue flutuar pelas sonoridades old school dos dois gêneros inserindo seu toque contemporâneo com extrema inteligência na construção dos sets.

Atualmente fazendo parte do casting da D.AGENCY e mantendo uma longa residência na noite Mothership do D-EDGE, Marcio encara qualquer desafio sem pensar muito, e nós propomos um para ele: indicar cinco artistas de Detroit e outros cinco de Chicago presentes no seu case. Abaixo ele nos entregou com uma pequena parte de seu rico background musical; uma lista com dicas de obras lançadas por ótimos produtores.

Detroit

John Beltran – Hallo Androiden (álbum) [Delsin Records]

Nascido em 1969 em Lansing, capital do estado de Michigan, John Beltran veio de uma família bastante musical, sendo introduzido ao ofício através do piano. Ele trabalhou com Derrick May (através do nome Indio) e acumula lançamentos na Retroactive, gravadora de Carl Craig.

Este álbum lançado pela excelente label holandesa Delsin Records em formato 12” 180 gramas, com cem cópias coloridas somente. John nos mostra sua versatilidade como compositor, produzindo nove faixas com lindas texturas, ambiências e melodias marcantes. Destaque para “Himmelszelt”.

Kelvin Larkin – Tell Me [Art of Dance]

Art of Dance é o selo fundado em 1990 por Kelvin Larkin, um dos mais respeitados produtores de Detroit. O selo foi relançado recentemente para dar vazão não apenas às suas produções, mas também as de seu irmão. Neste disco, as duas faixas têm o blend perfeito entre house e techno. Destaque para “The Force”: bassline marcante, snares e stabs pulsantes.

Waajeed – Hocus Pocus (EP) [Dirt Tech Reck]

Waajeed veio de Conant Gardens, um bairro no nordeste de Detroit que historicamente foi o bairro negro mais próspero da cidade. O artista construiu sua carreira produzindo músicas que desafiavam os gêneros e, em 2012, lançou o selo Dirt Tech Reck

Hocus Pocus é um disco com o mais puro e clássico “Detroit soulful house”. Synths, trombones e melodias percorrem por toda a música pelas mãos de DeSean Jones e Khristian Foreman, músicos incríveis, alternando com um lindo vocal da cantora Ideeah em “Let Your Love”.

Jon Dixon – Want It (EP) [4EVR 4WRD Records]

Em sua biografia no Resident Advisor, um breve parágrafo descreve muito bem a identidade de Jon Dixon: “Junte o mestre do Detroit jazz, Marcus Belgrave, e o pioneiro do techno Mike Banks, e você terá um músico que entende a teoria e os estilos de cada um, enquanto ele impulsiona os dois gêneros sempre para frente”.

Tanto que lançou sua própria label com a mesma ideia: “Forever Forward” (para sempre em frente), estilizada como 4EVR 4WRD. O EP Want It traz a faixa principal de modo super suave, com vocais do trio Dames Brown que, de certa forma, te abraçam e não largam.

Há ainda uma versão dub do Waajeed e outra de Darrius Quince numa pegada bem elegante. O lançamento, inclusive, saiu no mesmo momento que aconteceu o Movement Electronic Music Festival, de Detroit.

Reggie Dokes – From Detroit To Madrid III [Mate Spain]

Reggie Dokes toca desde quando era adolescente, e acabou se tornando um dos mais procurados em Detroit. Em 2011, fundou a Psychostasia Recordings, gravadora que ficou off por alguns anos e voltou em 2017 com o EP Fall.

Já o EP From Detroit To Madrid III é o terceiro lançamento da label baseada em Madri, Mate Spain. Tem três faixas de Reggie, e minha preferida é “Boogie Down”. Melodias, acordes muito bem explorados e uma linha de baixo matadora dão o tom desse disco, que conta ainda com Manuel Costela e Rafa Santos apresentando outras duas tracks incríveis no lado B.

Javonntte – Drumma (EP) [Waella’s Choice]

Outro artista que produz música e discoteca desde o início dos anos 90. Com o tempo, Javonntte se transformou também em cantor, compositor, produtor e até dançarino independente — uma vez fez turnê com a trupe da Aretha Franklin.

Em junho de 2019, depois de lançar seu debut álbum Primetime Voyage, pela Ele Records, Javonntte nos presenteou com este EP que traz duas faixas originais e dois remixes para a segunda track, “Jazzpianodance” — produções com uma profundidade bem emocionante.

Chicago

Steve Poindexter – Back To The Future (EP) [Factory Music Chicago]

Steve Poindexter nasceu em 1963 e iniciou a carreira em 1975, sendo mais um da velha guarda. Cofundador da gravadora Muzique Records, ficou conhecido pra valer por sua faixa de 1989, “Work That Mutha Fucker”, considerada uma das primeiras faixas do movimento Chicago Ghetto House.

Este é o primeiro lançamento da gravadora de Steve ao lado de Traxman. Aqui claramente os BPMs já entram em cena. São faixas bem pista, e a segunda ainda traz uma collab com o lendário Armando Gallop. É uma aventura pelas ruas de Chicago, com diversas texturas e elementos unidos de forma criativa e inesperada.

Tevo Howard – Post Modern Chicago (EP) [Chiwax]

Tevo Howard também começou a tocar ainda na adolescência, lá por seus 13, 14 anos. Sofreu uma lesão no joelho andando de skate e se viu sentado em casa, entediado. O irmão tinha alguns equipamentos e uma mesa de som, então ele foi até a Gramaphone Records, a uns dez quarteirões de distância, e comprou um disco. Mal sabia ele o que estava prestes a acontecer…

Esse trabalho que separei tem um toque mais futurista, como o próprio nome já entrega. Possui traços mais voltados ao indie, principalmente em “Trying To Yesterday”. Um super EP que celebra o som histórico de Chicago e reflete a energia da cidade.

Gemini – Welcome to the Future (EP) [Anotherday Records]

Mais uma ótima mistura de house e techno — não é à toa que Spencer Kincy, aka Gemini, é um dos personagens mais misteriosos e reverenciados de Chicago.

Ele lançou umas 200 faixas de 1994 a 1999, e depois simplesmente desapareceu. Esse EP foi originalmente lançado em 1995 pela Relief — o que você ouve acima é o disco brilhantemente remasterizado e relançado pela Anotherday.

DJ Skull – Country Air EP [Shift Imprint]

Alguns dizem que o lendário DJ Skull possui uma das identidades mais fortes diante do som vanguardista do underground de Chicago, muito por sua capacidade de fluir entre o techno mais forte e a alma da house music.

Nesse EP com quatro originais, minha faixa preferida é a “Triumph”, uma daquelas que eu chamo de “carta na manga”, forte, bassline envolvente, hi-hats marcantes e synths viajantes.

Mike Dunn – My House From All Angles (álbum) [Classic Music Company]

Mike Dunn pode ser chamado de lenda da Chicago house sem pensar duas vezes. Ele veio do bairro Englewood e começou a discotecar nas festas locais que aconteciam tocando disco, funk, soul e um protótipo do estilo.

Selecionei esse álbum para apresentar o artista porque ele tem um pé nos anos 80 e outro nos anos 90; é um coração pulsante de pura house music. Tem muitas linhas de acid e baterias eletrônicas bem marcantes.

Ron Trent, Lono Brazil – Manchild (In The Promised Land)

Ron é muito conhecido pela faixa  “Altered States”, que se tornou um sucesso dos clubs de techno — apesar da presença dele no cenário da Chicago house. Foi assim que ele fez contato com muitos produtores de Detroit. Lono Brazil, apesar do nome, também é americano. Além de DJ e produtor, trabalhou como apresentador de rádio e produtor executivo de muitos projetos de hip-hop e R&B.

Essa track dos dois é mágica, atemporal, traz aquela vibe soulful house misturada com uma linha deep incrível. Tem uma mensagem poderosa através da letra, e é daquelas que arrepia até a alma.

[BÔNUS] Traxman, Fast Eddie – Tha Westsiders [Factory Music Chicago]

EP com cinco faixas de pura Chicago house. Cornelius Ferguson, o Traxman, consegue fazer uma mistura de estilos inigualável, resultado em produções sempre muito versáteis. Fast Eddie estourou entre os anos de 86 e 88, época do boom do estilo.

Gosto como um todo deste EP, mas a primeira faixa, “Eddie’s House”, realmente é impressionante. Foi gravada em 1987 e tem um caráter totalmente atemporal. “Ain’t It Funk” também está entre as minhas favoritas, faz um estrago no dance floor. Ácida, percussiva e viajante com vocalises repetitivos que demonstram a essência da pura house de Chicago.

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