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Matador recebe licenciamento para remixar um dos maiores clássicos da música eletrônica

Jonas Fachi

Publicado em

06/10/2015 - 13:55

‘’You Are Sleeping’’ marcou toda uma geração de Djs e clubbers que paravam de dançar por mais de um minuto e ficavam anestesiados diante de uma voz grave e séria em um break que contava a bizarra história de um cara que tinha perdido e vendido tudo para ajudar uma prostituta viciada em Heroína. Se você ainda não está familiarizado com a música, ouça enquanto eu tento desmembrar as raízes dessa obra única.

Descrita como um típico House Tribal, ela foi originalmente lançada em 2002 com 3 versões pela Yoshitoshi Records, gravadora do lendário projeto Deep Dish, hoje administrada apenas por Sharam. Um Bonus track Dub, uma acapella do vocal em loop e a versão mais conhecida e voltada pra pista ‘’PQM’s deephead Pass’’. Em 2003 já com enorme sucesso, a label lança mais um vinil com remixes de Luke Chable e Dave From Dallas & DJ Redeye com versões Dub e Vocal mix.

Se hoje nós vivemos em uma época em que as músicas tem apenas alguns meses de validade até serem descartadas tanto pelos artistas, quanto pelo público, se imagine no início da década passada, onde o acesso a informação era limitado e os djs acabavam valorizando muito e tocando as vezes por anos, alguma música diferenciada. You are sleeping foi licenciada e se destacou em algumas das mais vendidas compilações até hoje. Podemos citar os icônicos álbuns de Deep Dish’s Global Underground: Toronto DJ mix, James Holden’s Balance 005, e Hernan Cattaneo’s Perfecto; South America.

Manuel Napuri aka PQM (Quick Mix Príncipe) é um nativo Nova Iorquino Dj e produtor que foi uma das figuras mais relevantes da Yoshitoshi, ele também é parte integrante do duo/group de Hip Hop ‘’Nubian Crackers’’ que vem lançando trabalhos desde 1993 por gravadoras como Mobile Mondays, e a consagrada Atlantic records que foi responsável por álbuns de nomes como ABBA, AC/DC e Gilberto Gil, só pra você se situar.

PQM também é reconhecido por trabalhar em trilhas de games como ‘’The Crazy Frog’’ e ‘’Moto GP 2006’’, além de participar do filme Notorius B.I.G (Aka Christopher Wallace).

Fazer recortes em fitas e vinyls de vocais advindos de músicas de outros estilos ou discursos é uma pratica comum desde os primórdios da música eletrônica, na verdade, foi assim que tudo começou. No caso de PQM não foi apenas um recorte, ele usou um texto inteiro de forma magistral e como poucos se atreveram até hoje (existe a preocupação com direitos autorais). Por anos pessoas ligadas à música e o público em geral perguntaram-se de onde ele havia retirado esse áudio, pois no primeiro momento que você ouve, já saca que não é cantado, e sim declarado;

“You pick up this working girl,
who’s hooked on smack,
who hustles and scores.
“That’s all I do,” she says.

She says, “ten bucks for head, fifteen for half and half.”
She says, “three hits a day at thirty-five per.”
You say, “that’s seven tricks a day at least.”
“But,” she says, “sometimes I get lucky.”
“Once this guy gives me a bill and a half just to eat me.
Only time I ever came.”

You figure you can save her.

You sell your color TV.
That keeps her off the streets a whole day.
You hock your typewriter for one jolt.
Then your shotgun, your watch.

A week later, you say, “listen, I’m a little short.”
But she says, “no scratch, no snatch.”
You say, “look, it is better to give.”
“But,” she says, “beat off, creep.”

One night they spot you on the street in your skivvies,
trying to sell your shoes.
You tell them who you are,
but they nail you.

Then she happens by,
and she says, “Christ, you look fucked.”
She says, “hang tough.”

But you don’t say anything.
You just think, what a bum rap for a nice, sensitive guy like me.”

É flagrante que esse pequeno texto não é algo muito racional e compreensível, se trata mesmo é de um poema. Em 2013, Darren Abramson, professor de filosofia e ciências cognitivas da Universidade de DALHOUSIE intrigado com o mistério que envolvia o vocal da música que já era vista como um clássico, resolveu investigar e tentar descobrir a sua origem, neste link você pode conferir bem detalhado como ele trilhou até conseguir.

Em resumo, Darren começou a vasculhar na internet, levantar evidencias e perguntar a pessoas em blogs e sites de música, inclusive mandando uma mensagem a PQM, sem sucesso na resposta. Algumas observações apontavam para Bukowski, os fãs dele sugeriram que, por sua vez, poderia ser Jesse Bernstein ou Burroughs. Era possível ainda que PQM tenha encontrado em um velho pedaço de vinyl na época e que isso tenha se perdido depois, e nem ele saiba de quem era a emblemática voz. Depois de muitos dias de googling, Darren teve a grande sacada observando que PQM tinha usado um pedaço em outra produção chamada ‘’Insane Poema’’.

A amostra incluía a seguinte frase;

‘’ I know who’s free and I know who’s a slave,

and I’m waiting for the world to admit it’s insane’’.

Buscando essas palavras em torno de ligações sobre poemas, ele acabou achando uma fonte de um poema escrito por Michael C. Ford, dedicada a Henry Rollins. O título é ‘munição’. Essa fonte não dizia nada sobre uma gravação de áudio dele, no entanto quando buscou  por ‘Michael C Ford “e” Munições “, alguns links muito úteis surgiram no topo: eles se referem a um vinil duplo de 1984 com gravações de voz falada, incluindo o poema supracitado dedicado a Henry Rollins. Buscando por essas referências ele chegou a um blog de ‘’ Neighborhood Rhythms (Patter Traffic)’’ onde ali estavam disponíveis algumas faixas de áudio para dowload, como uma compilação, entre elas o áudio do poeta Californiano John Harris, a amostra omitia ainda a seguinte introdução;

‘’Ok. This is a poem that could only happen in Venice.

It’s called ‘The Gospel According To John.”

Então se iniciava a parte que PQM recortou para sua música, o mistério estava resolvido. A partir disso não foi difícil encontrar um vídeo no youtube do próprio Harris declamando seu poema, acompanhe;

Indo além, encontrei outro vídeo dele apresentando diversos outros trabalhos próprios, é impossível não reconhecer sua voz marcante;

Ainda não satisfeito Darren entrou em contato com John Harris e lhe contou todo seu esforço para encontra-lo. Surpreendentemente ou não, Harris nunca se quer tinha imaginado e ficado sabendo que sua voz tinha sido sequer gravada ainda os anos 80. Muito menos que tinha sido introduzida em uma música eletrônica, que por sua vez tinha se tornado um hino em pistas de todo mundo, ajudando a vender milhares de discos e compilações.

Lembra da menção sobre os direitos autorais anteriormente? Pois é, seria justo ou viável agora depois de tantos anos Harris receber algo referente ao uso de sua voz comercialmente? Ainda que agora a indústria fonográfica dos EUA tem apertado o cerco a sites como beatport e soundcloud para fazer valer o trabalho dos artistas. O Irlandês Matador e Shiba San receberam a licença da Yoshitoshi records, que em tese tem os direitos sobre a faixa para remixarem e repagina-la, a música acabou de ser lançada e ainda conta com uma versão remasterizada de Luke Chable.

https://pro.beatport.com/release/you-are-sleeping-remixes/1623834

O jovem produtor que tem seu nome atrelado a gigante Minus, trouxe com clareza e entusiasmo a música paro seu lado do Techno. Ao meu ponto de vista, Harris não irá se incomodar em buscar algo referente a isso (mesmo tendo o total direito), porém, o fato é que ele merece todo o reconhecimento possível, pois sua voz está eternizada como uma das maiores letras já escritas para uma canção de música eletrônica e palavras já ditas em uma pista de dança, ao lado de Underworld Born Slippy.

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Review

“Pedra Preta”, o 1º álbum do Teto Preto, é um grito de resistência

O celebrado grupo do underground paulistano mostra sua maturidade artística em seu primeiro full lenght

Alan Medeiros

Publicado há

Pedra Preta
Foto do clipe de "Pedra Preta": Reprodução/Facebook

Nos últimos anos, São Paulo se transformou em um caldeirão cultural com uma chama multicolorida a iluminar um mar de ideias brilhantes. Nesse cenário, diversas mentes criativas surgiram, mostraram a que vieram e se tornaram referência para uma série de iniciativas que passaram a pipocar pelo país. No olho desse furacão, exercendo posição de protagonismo, lá estava a Mamba Negra e, consequentemente, o Teto Preto.

A relação entre festa e grupo é intrínseca. O Teto Preto nasceu na pista da Mamba e obviamente foi criado por frequentadores e entusiastas da festa. Nesse processo, o grupo foi decisivo para construção do perfil sonoro que tanto marcou a Mamba Negra frente ao seu público. Muito além da música, estamos falando de arte em diferentes camadas — estamos falando de representatividade. A festa representa a banda, a banda representa a festa. Por sua vez, o público se sente fortemente representado por ambos.

Os primeiros trabalhos do Teto Preto foram lançados pelo selo da Mamba, o MAMBA rec, em 2016. O EP Gasolina foi prensado em vinil com duas faixas extremamente marcantes: “Já Deu Pra Sentir” e “Gasolina”. O resultado? Dois hits históricos para jornada do grupo. Na sequência, um hiato de dois anos até “Bate Mais”, single em antecipação ao Pedra Preta, primeiro álbum de estúdio completo da banda, que chegou às plataformas digitais neste mês com oito faixas, sendo sete originais e inéditas.

 

Pedra Preta reflete a atual maturidade artística de seus compositores, mas não deixa a chama da ousadia e irreverência se apagar. Novamente, não se trata apenas de música: Laura Diaz (Carneosso), Loic Koutana, Pedro Zopelar, Savio de Queiroz e William Bica promovem um grito de resistência ao longo de todas as faixas que formam o full lenght. A atmosfera densa do disco dita o ritmo de uma narrativa longa e inteligente, que aborda assuntos como a tragédia do Museu Nacional neste ano.

Por falar em “Pedra Preta”, vale ressaltar que a faixa-título do álbum também ganhou um clipe. Lançado ontem, 22, e com duração de mais de oito minutos, o vídeo dirigido por Rudá Cabral, Laura Diaz e Joana Leonzini traz um storytelling denso e aberto a interpretações, mas com uma clara crítica ao conservadorismo da sociedade brasileira e honrosa menção ao perfil de público da Mamba Negra — o trabalho foi coproduzido pela MAMBA rec em parceria com a Planalto. Sem dúvida alguma, Pedra Preta é uma vitória importante para a sobrevivência da cultura eletrônica de vanguarda no Brasil.

  

Alan Medeiros é colaborador da Phouse.

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ESPECIAL

Tha_guts e o som envolvente que rege o selo da Gop Tun

Produtor gaúcho é uma boa mostra do amadurecimento da Gop Tun Records

Alan Medeiros

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Gop Tun Records
Tha_guts. Foto: Divulgação

Neste mês de novembro, o coletivo paulistano Gop Tun celebrou seis anos de uma história construída muito em cima da seriedade com que o coletivo paulistano trata seus projetos artísticos, dentro e fora da pista. Referência na cena house/disco brasileira, o atual patamar do projeto permite que algumas de suas iniciativas sejam encaradas como formadoras de opinião.

Para isso, uma das principais ferramentas do núcleo é a Gop Tun Records, gravadora que possui um catálogo ainda enxuto em número de releases, mas que em 2018 e principalmente 2019, deve ser expandido através de uma intensificada no cronograma. Até então, cada ano tinha entre um e dois lançamentos. Neste ano, foi observado um aumento no fluxo, já que até aqui, três releases ganharam a luz do dia através da plataforma criada pelo coletivo paulistano.

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Atualmente, o time de artistas que compõe o quadro de lançamentos do selo é composto por residentes da Gop, por nomes de forte influência frente à indústria nacional (como Renato Cohen) e algumas mentes brilhantes de outras partes do mundo, como HNNY, Prins Thomas e Lauer.

Para os próximos meses, Bruno Protti (aka TYV) e Gui Scott, duas das cabeças pensantes da gravadora, contam que haverá uma expansão no time de artistas, com mais nomes brasileiros e sul-americanos entrando para o casting da label. Sem a pressão de obrigatoriamente pensar em vinil, a Gop Tun Records se mostra mais apta para apostas e ousadias em seu programa de lançamentos.

+ Um papo com os caras da Gop Tun, que estão trazendo o Dekmantel a São Paulo

O último EP da gravadora foi assinado pelo produtor gaúcho Tha_guts, um novo nome frente a geração atual de produtores brasileiros. Guto Pereira, mente por trás do projeto, entregou à Gop um release denso e repleto de referências distintas que se revelam ao longo das cinco faixas originais. O trabalho sucede Plastic Noise, disco que o revelou para o cenário da eletrônica brasileira. Após o full lenght lançado de maneira quase que independente, Guto decidiu se aproximar da música eletrônica de pista em suas jams de estúdio, e o resultado foi esse belíssimo trabalho lançado pelo selo do coletivo.

Ao ouvir as faixas de Mirror, é possível entender essa complexidade envolvente que tange o trabalho do coletivo paulistano em seus mais diversos projetos. Tal fato dá autoridade para que o núcleo e os artistas envolvidos em suas festas e seus releases possam se desenvolver de forma assertiva. Além das cinco faixas originais, Guto também assinou um futuro single com a gravadora, que deve ser trabalhado somente no segundo semestre de 2019. Enquanto isso não acontece, ouça na íntegra o seu mais recente lançamento:

  

Alan Medeiros é colaborador da Phouse.

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LIFT OFF

Psytrance raiz: Mindbenderz lança álbum transcendental pela Iono Music

Review do debut do duo suíço-alemão é o primeiro texto da nova coluna da Phouse

Nazen Carneiro

Publicado há

Mindbenderz
Foto: Reprodução
* Edição e revisão: Flávio Lerner

Instalar foguetes, preparar motores, verificar comunicação, iniciar sequência de lançamento. Cinco, quatro, três, dois, um… LIFT OFF!

Estreamos aqui a coluna LIFT OFF, que, escrita por Nazen Carneiro, traz um olhar sobre a indústria fonográfica psytrance nacional e internacional — estilo da música eletrônica que se manifesta como uma cultura vibrante e com muitos adeptos no Brasil.

De tempos em tempos a cena eletrônica se transforma e, como um organismo vivo, cresce e se reproduz. Um de seus pilares, o psy se reproduziu e está mais presente do que nunca, com “astronautas” consagrados mantendo-se relevantes, assim como novos “cosmonautas” surgem, evidenciando uma realidade produtiva e frutífera para a criação musical.

Com o crescimento do público, as festas também se multiplicaram Brasil adentro, e os produtores passaram a ter mais espaço para caírem no gosto do público da terrinha e de além-mar. Hoje, o psy mantém viva sua cena underground, enquanto estica seus tentáculos a outros nichos, influenciando — e sendo influenciado — até mesmo pela EDM.

Sem mais delongas, confira o primeiro texto abaixo, sobre o novo álbum do Mindbenderz.

 

Formado pelo alemão Matthias Sperlich e o suíço Philip Guillaume, o Mindbenderz traz, sem dúvida, um dos principais lançamentos do ano no cenário psytrance. Os veteranos, que são muito respeitados na cena eletrônica individualmente como Cubixx e Motion Drive, juntos ficam ainda mais fortes. É o que se vê no álbum Tribalism, lançado em 31/10, pela Iono Music.

O álbum conta com nove faixas que somam mais de 75 minutos. A primeira, “A New Dawn”, traz desde o primeiro minuto muita energia e reflexão num som que conduz o ouvinte a outra dimensão. A segunda faixa dá sentido a expressão “lineup” numa ascendente contínua, revelando uma verdadeira jornada ao desconhecido que segue até meados da faixa seis — “Hybrids” —, causando aquele frio na espinha. Nesse momento de percepção cósmica, uma pausa reconecta o corpo e mente à nossa tribo, e há de fato uma sensação híbrida de se estar em ambas as realidades ao mesmo tempo.

A essa altura, o álbum apresenta suas três últimas faixas no ápice de uma jornada espiritual, e nos encontramos num momento épico em que as características sonoras do psytrance alcançam sua maior amplitude, com uma ampla gama de efeitos numa base transcendental. É puro trance. A mente processa essas informações e a energia flui na forma de dança.

Voltamos para a Terra, mas a memória do que acaba de acontecer permanece. Tontura; excitação… O reator psicodélico agora transforma a energia através de instrumentos humanos. A última faixa dá nome ao álbum. “Tribalism” une percussões especiais, agogô, psy, Ayahuasca e vocais de xangô. Todos no mesmo pitch, como uma onda. Algo nos une, nos traz ao dancefloor, tornando-nos verdadeiramente uma tribo.

Tribalism revela uma composição muito bem realizada, fruto de meses de trabalho e muito detalhismo. Cada segundo do álbum revela a ação do Mindbenderz em promover um som extraordinário e comprometido com aquele pegada tribal, sem deixar de lado os elementos mais futuristas.

No momento do fechamento deste artigo, o álbum ocupava a primeira posição no Top 10 de psy do Beatport, o que mostra a força desse som mais ligado às raízes do estilo entre os DJs e produtores.

Nazen Carneiro é colaborador da Phouse.

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