Como Mezomo elevou o patamar da cena eletrônica em Santa Maria

Em papo com Nazen Carneiro, o DJ, produtor e empreendedor gaúcho fala sobre a carreira e sua marca, Sunset Sessions, que recentemente celebrou sete anos de sucesso

Mezomo e o DJ gaúcho Hencke em edição da Sunset Sessions. Foto: Edu Hohn/Divulgação

* Edição e revisão: Flávio Lerner

Com pouco mais de 280 mil habitantes, Santa Maria não está na lista das grandes metrópoles do país, mas está em outra bem legal: a de cidades que têm um dos eventos de cultura eletrônica mais bacanas do Brasil, e que exporta talentos.

Prova disso é Bruno Soccal Mezomo, o Mezomo. Nome italiano, tradição gaúcha, influência africana, gravadora alemã e um pensamento global. O DJ e produtor musical é também o responsável por colocar sua label, Sunset Sessions, na rota de alguns dos maiores artistas da cena mundial, e ele mesmo é figura entre as mais promissoras dessa indústria tão complexa. 

Após o lançamento de “Zimbabwe” pela Get Physical — que figurou entre as mais tocadas do gênero afro house —, seu remix para a track “Parga”, do dinamarquês Djuma Soundsystem, também entrou entre as mais executadas por DJs no mundo, tendo alcançado a rara posição de número 15 no disputado Top 100 de deep house do Beatport.

Além de diversas gigs pelo país, Mezomo tocou recentemente no Uruguai, para onde levou o showcase da Sunset Sessions, que comemorou sete anos de vida em setembro. O evento aconteceu no Hotel Fazenda Pampas, de Santa Maria, com duas pistas — uma delas assinada pela Cocada Music, nova sublabel da Get Physical

O DJ acaba de estrear no Maranhão, e entre as próximas apresentações confirmadas, estão passagens por São Paulo e no Warung Tour Santa Maria. Para saber mais sobre seu protagonismo no cenário local, a coluna bateu um papo exclusivo com o artista, que você confere abaixo.

Mezomo
Mezomo tocando no Warung. Foto: Divulgação

Recentemente você emplacou dois sucessos na Get Physical Music, com “Zimbabwe” e o remix de “Parga”. Comente o seu trabalho junto da gravadora alemã.

Começou no BRMC 2018, mostrando meu som para a turma da gravadora num painel com diversos A&Rs. Minha faixa foi escolhida para integrar a compilação Cocada, e alcançou o Top 100 do Beatport, o que abriu portas para novos trabalhos. Um deles foi o convite para o remix de “Parga” — que partiu do próprio Djuma Soundsystem — e foi mais um laço criado com a Get Physical. Os próximos passos já estão traçados, e envolvem inclusive um super lançamento pela Cocada Music.

Ambas as faixas circularam em charts do Beatport, sendo que “Parga” alcançou a 15ª posição. O que isso diz sobre a sua música hoje?

Eu fico muito feliz em ver que minha música está circulando nos mesmos níveis dos grandes artistas do cenário internacional. Isso significa que estou conseguindo ler, entender e traduzir o que a cena está ouvindo, e traduzir uma parte disso tudo em minhas próprias produções.

Mostra que, na atualidade, é possível sair de qualquer estúdio no interior, evoluir e estudar com o auxilio da internet e passar a integrar o cenário nacional e até internacional, com muito empenho e profissionalismo!

Existe uma linha de som mais específica criada para esses lançamentos?

Definir uma linha de som é sempre complicado. Faço o som baseado no que gostaria de ouvir e dançar, baseado em tudo que já ouvi e absorvi. No fim sai um compilado disso tudo, traduzido em um novo material, uma nova faixa. Da para dizer que é house e techno com elementos tribais e orgânicos.

A versatilidade do teu som é notável, o que me deixa uma pergunta na mente: Mezomo é mais vinil ou digital?

Mais musical, independentemente do meio. O vinil me alegra pelo capricho, cuidado com o objeto, valorização da obra, nostalgia. O digital me agrada pela escalabilidade, acessível para todos, democrático, quase de graça, sem fronteiras. Ambos têm a sua função primordial no universo da música, que é o que realmente importa.

“Na atualidade, é possível sair de qualquer estúdio no interior, evoluir e passar a integrar o cenário nacional e até internacional, com muito empenho e profissionalismo!”

É nítido no teu som e algo que você sempre comenta: as influências latinas e africanas trazem uma pegada característica ao Mezomo.

Verdade! Fui descobrindo isso aos poucos… Ao estudar e analisar referências percebi que a essência vem da África — do surgimento do ser humano ao ritual de dançar sob uma mesma batida —, e investigando sonoridades, fui me deparando com artistas incríveis como Fela Kuti, Manu Dibango, Dele Sosimi e muito mais.

Além disso, a influência das religiões de matizes latinas e africanas, como Umbanda e Santo Daime, mostra a riqueza cultural que temos aqui, esperando para ser valorizada e disseminada pelo mundo.

Você tem se destacado tanto pelo trabalho musical quanto pela produção da Sunset Sessions, que completou sete anos em setembro. Comente, por gentileza, um pouco sobre as dificuldades de estar à frente de diferentes projetos.

Conciliar a atividade artística com a empreendedora — no caso da produção de eventos — é um desafio dos grandes! Mais pela quantidade de demandas do que qualquer outra coisa. Na verdade, são atividades que se assemelham demais. Ambas exigem paixão pelo que se faz, estudo, análise estratégica, coragem de arriscar e falhar.

É preciso renovação constante, planejamento, mas também improviso. São sempre novos desafios a serem enfrentados e que exigem sair da zona de conforto. O difícil mesmo é manejar o tempo para que a criatividade continue fluindo, em ambas as vias da produção — seja musical ou de eventos.

“Early Man” foi lançado por Mezomo no ano passado, via Not For Us

É um desafio e tanto manter o projeto crescendo e no topo durante esses sete anos. Conta mais pra gente da tua perspectiva desse retrospecto da Sunset Sessions.

A Sunset Sessions nasceu em 2012 para apresentar um formato até então inédito na região de Santa Maria: festas diurnas, ao ar livre, integradas à natureza, som conceitual e avançado para os padrões daquela época. Logo começamos a contratar artistas nacionais e internacionais, trazendo relevância e visibilidade para a marca.

Em 2014, apresentamos um programa semanal na maior rádio local, trazendo música eletrônica mais underground para o grande público. A série de contratações de peso deu ainda mais renome ao projeto, e estão entre eles Agents of Time, Frankey & Sandrino, Aquarius Heaven, Emanuel Satie, Los Suruba, Blond:ish e muito mais. 

No ano seguinte nasceu também o Som & Sol Festival, uma sublabel que proporciona experiências diferentes, mas que tem o DNA Sunset Sessions, através de eventos mais extensos, com mais pistas e mais artistas. Em suas edições, já recebemos nomes como Hyenah, Marco Resmann, Guti, Tiger Stripes, Fur Coat, Sobek e D-Nox, entre outros.

Em 2018, prosseguindo com a ideia de fomentar a cena eletrônica da região, realizamos a primeira edição do Sunset Talks, uma conferência de palestras, debates e networking sobre o universo eletrônico. Foi também o nascimento da SNST.TV, canal de conteúdo e filmagens da Sunset Sessions. Esses são alguns pontos de inovação, e que junto do carinho do público, estão entre as principais características para o sucesso destes sete anos.

Esta é para os DJs e produtores de plantão: são sete anos revolucionando, rompendo barreiras e trazendo artistas inesperados. Como faz para tocar na Sunset Sessions? 

Buscamos artistas que fogem do padrão. Com sonoridades originais, musicalidade aflorada, com a energia positiva para combinar com a marca. Internacionalmente, buscamos aqueles que produzem as tracks que nos encantam na atualidade, e que estão prestes a romper barreiras na cena, prestes a estourar.

Nacionalmente a mesma coisa: monitoramos o Brasil buscando os novos nomes. Regionalmente, garimpamos os potenciais talentos que já demonstram profissionalismo, persistência e devoção ao universo eletrônico.

Como uma festa do interior do Rio Grande do Sul se transformou em uma das principais rotas de artistas internacionais da América Latina?

Apostando e investindo na educação e formação de um público antenado e questionador. Unindo qualidade na produção dos eventos com ousadia nas ideias de comunicação e booking. Trazendo artistas incríveis e em expansão, mas ainda fora da percepção do grande público. Tendo uma visão clara e definida, e trabalhando ano após ano nas estratégias e ações para alcançar a visão.

O vinil me alegra pelo capricho, cuidado com o objeto, valorização da obra, nostalgia. O digital me agrada pela escalabilidade, acessível para todos, democrático, quase de graça, sem fronteiras.

Por falar em América Latina… A Sunset Sessons teve recentemente um showcase no Uruguai. Como que foi isso? 

Os showcases são a oportunidade de levar a atmosfera da Sunset Sessions para outras cidades. Após passar por grandes casas no Brasil, como o D-EDGE em Sampa e Trip To Deep, em Floripa, fomos convidados pela turma de Rivera, no Uruguai, fiel frequentadora dos nossos eventos principais em Santa Maria, para fazer um showcase por lá. A galera é super animada e entendedora de som; o showcase bombou demais e em breve retornaremos.

E agora, qual a próxima?

Estamos empenhados na estreia do Warung Tour em Santa Maria. É uma grande responsabilidade trazer essa marca de renome nacional para a cidade, e estamos trabalhando para ter um evento lindo e inesquecível dia 23 de novembro.

E da tua carreira, para finalizar, o que vem por aí?

Mesmo com isso tudo, eu estou enfurnado no estúdio preparando meu álbum, e o que posso adiantar é que vem coisa boa por aí. Estou muito empolgado com tudo que tem acontecido na minha carreira, e esse álbum vem junto com isso tudo. Espero em breve poder compartilhar tudo com vocês.

* Nazen Carneiro assina a coluna LIFT OFF na Phouse.

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