Monique Dardenne: abrindo portas pras mulheres na música, sem mimimi

Depois de representar projetos como Skol Music e Boiler Room, ela toca iniciativa de inclusão feminina, e defende: chega de conversar sobre mulheres na música — agora é a hora de fazer.

Monique Dardenne não é DJ nem produtora musical, mas não é exagero falar que é uma protagonista do mercado da música no Brasil. Com 33 anos, a moça que sonhava em ser delegada acabou caindo nos bastidores da música eletrônica, sendo responsável por gerir projetos de alto calibre: além da sua agência MD/A, que já foi responsável por bookings de nomes como ANNA, Wehbba e Joyce Muniz, a Monique foi label manager da extinta Skol Music por dois anos, e foi “apenas” a primeira representante do Boiler Room no Brasil. Sua participação à frente do BR durou três anos, encerrando-se com o que ela considera ter sido o ápice do projeto no país: o fantástico Boiler Room de Recife.

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Dardenne saiu da produção do Boiler Room justamente pra focar na sua nova menina dos olhos [além, é, claro, da filha Malu, de dois anos]: o Women’s Music Event, empreitada lançada neste ano com a jornalista Claudia Assef. Dividindo-se em quatro pilares — conteúdo digital, banco de dados, agenda e conferência —, o WME vem chamando muita atenção por se configurar como uma das principais iniciativas para abrir as portas para as mulheres no mercado brasileiro da música; portas estas que, segundo Monique, historicamente se mantiveram fechadas por uma série de fatores.

Ao contrário do que muitos podem pensar, a ideia não é dividir e estigmatizar — pelo contrário. Contando com uma rede de mais de 400 profissionais cadastradas e uma conferência que em sua primeira edição atraiu cerca de 600 pessoas no Centro Cultural São Paulo, o WME já vem fazendo bastante diferença. Como vocês podem conferir abaixo no papo que bati com ela, infelizmente ainda se faz necessário colocar uma lupa sobre a questão de gênero — justamente para que, no futuro, não o seja.

Claudia Assef e Monique Dardenne, as fundadoras do WME

Monique, como é exatamente sua rotina de trabalho?

Home office. Divido o dia entre filha e várias coisas… Meu escritório é em casa, ela tá sempre por perto, sempre pode aparecer [risos]! Moro numa casa grande, onde faço as gravações do WME Sessions. A parte da manhã é mais família, mas a Malu sempre tá comigo, o dia inteiro. Dá pra separar bem. Só quando eu trabalhei no Skol Music que eu tinha que sair de casa; foi um período em que eu consegui levar a MD/A, que representava o Boiler Room e o Skol Music, e grávida. A gente não sabe como faz tanta coisa ao mesmo tempo, mas faz [risos]!

E hoje o seu projeto principal é o WME, certo?

Sim. Meu e da Claudia Assef. Nós nos encontrávamos em conferências, e sempre nos colocavam num espaço sobre “Mulheres na Música”. Participamos do Projeto Pulso, na Red Bull, em que eu dei uma consultoria pros artistas. No último dia a Claudia fechou mediando um painel com todas as mulheres que estavam lá, com o tema “Mulheres na Música”, e todas ficaram comovidas, porque tinha muita artista, várias minas de vários ramos. Aí a Claudia virou pra mim e perguntou por que era difícil de achar mulheres no mercado. Veio na minha cabeça: cara, eu já fiz dez sessões do Boiler Room e coloquei duas mulheres pra tocar. Por que, não existe mais? Foi um clique. A partir dali eu criei o grupo [no Facebook] Mulheres na Música, que virou uma rede de conexões de mulheres do mercado, pra se conhecer engenheiras de áudio, advogadas de direitos autorais, designers, VJs… O grupo cresceu, e então veio a ideia de criar um evento. Foi assim que surgiu o WME, a princípio só como uma conferência, depois como uma plataforma de conteúdo também. Criamos o site, que tem quatro pilares: começa com as notícias, não somente sobre artistas, mas sobre todo o universo da música…

Monique trabalhando na transmissão do Boiler Room de Recife

Com foco em mulheres que fazem?

Sim, mas não sobre “mundo feminino”, sobre business. Tem uma coluna que é a Meu Estúdio. Pegamos produtoras e fazemos perguntas sobre equipamento, workflow, e dá a palavra pra mulher falar sobre o que ela sabe. Porque, principalmente na música eletrônica, tem ainda muito preconceito com a mulher que produz, do tipo: “Ah, não é a Miss Kittin que produz, é o The Hacker; não é a ANNA que produz, é o Wehbba…”. Isso é muito feio, coloca a mulher como se ela sempre precisasse ter um cara por trás.

A mulher é vista sempre como um bibelô, um rostinho bonito, mas quem faz é o cara…

É, exatamente. Então a ideia da Meu Estúdio tem a Nina Kraviz, tem a ANNA, tem a Shanti Celeste falando… E a plataforma não é só música eletrônica, abrange todos os estilos. Ainda nessa parte de conteúdo, além de matérias e colunas, tem o WME Sessions, um programa de web TV, com episódios que a gente grava na minha casa. Nossa intenção é descobrir artistas novas. Isso é um pilar. Outro pilar é um banco de dados, com mais de trinta profissões do mercado da música: DJ, engenheira de áudio, MC, advogada de direitos autorais… A profissional se cadastra e monta seu perfil. Já tem mais de 400 cadastradas — aí você entra e pode fazer uma busca por profissão ou por Estado. É uma ferramenta incrível.

“40% do nosso público nas redes sociais é masculino; eles entendem que é um movimento que não é agressivo.”

Essa ferramenta é meio que uma extensão do Mulheres na Música então, né?

Sim, mas é mais profissional, porque o Mulheres na Música eu fazia tudo na mão, mandava inbox, fazia as perguntas… Mas agora a gente tem um perfil de cada uma, com foto, links, e aberto pra todo mundo. Mas então, te falei de dois pilares; a gente tem uma outra parte de agenda: colocamos ali todos os eventos no Brasil que acontecem com mulheres. A gente cria assim uma agenda global, em que atuamos como um hub, pra todo mundo se comunicar. E o nosso quarto pilar é a conferência, que é nosso maior evento. Neste ano aconteceu agora, entre 17 e 18 de marco, no CCSP.

Como vocês avaliam essa primeira experiência?

Foi muito além das nossas expectativas, porque uma conferencia no Brasil demora pra ter público: a gente não tá acostumado a sentar e ouvir, não temos essa cultura. O RMC, que tá aí ha dez anos, passou a ter um volume de pessoas maior de uns anos pra cá. É algo que vem crescendo. O que fizemos? Uma conferencia com dez painéis de discussão, com temas variados e com profissionais muito gabaritadas; nomes grandes, desde o rap e a música eletrônica à música brasileira. Tivemos grandes CEOs, empresárias de rappers, artistas como Tiê, Mahmundi, Karina Buhr, Negra Li, a homenageada Marina Lima… Juntamos gente do mercado inteiro, com assuntos acessíveis, e todas as voluntárias e a parte técnica foram feitas por mulheres. Desde o primeiro painel, às 13h de uma sexta-feira chuvosa, já tava cheio — isso foi uma surpresa. Deram 600 pessoas, e o que mais me impressionou foram os workshops, sempre lotados.

Com o DJ Marky, na gravação do Boiler Room na casa do artista

O principal objetivo do WME é combater o preconceito?

É a abertura do mercado de trabalho pras mulheres. A gente quer fazer conexões, e que novas profissionais entrem no mercado mais assertivas. As mulheres da parte técnica, o quanto elas não sofrem de preconceito? Muitos pensam: “Essa aí que vai ser a técnica de PA? Sei não…”.

Parece que o trabalho de bastidores sempre teve mais mulheres, mas nos trabalhos mais técnicos que há menos. É pelo machismo?

Historicamente falando, não tem como ter muitas mulheres no mercado. Os homens tão há muito tempo fazendo isso, estudando. São poucas que há quinze anos tinham coragem pra se dedicar, e a menina que era mais corajosa e tava ali, muitas vezes era zoada. De uns anos pra cá, com essa independência feminina, essa coragem vindo… você vai ver, daqui a dez anos, quantas mulheres vão ter na parte técnica, porque agora tá se dando essa abertura, de que a mulher pode ser o que ela quiser.

Entendo que o objetivo de vocês é chegar em um ponto em que não se precise mais falar em gênero, certo?

Sim, com certeza. Mas isso vai demorar muito; a gente ainda tem que correr muito atrás pra igualar as coisas. Quem sabe a minha filha, que tem dois anos, consiga pegar uma melhora? Tem gente que não consegue enxergar [o preconceito], acha exagero. Eu não tenho muito o que lamentar, porque eu fui criada por homens, então sempre tive que ter uma postura mais firme — se um cara falasse algo pra mim, eu já mandava praquele lugar. Todo mundo sempre me respeitou porque eu era vista como igual. Só que não acontece isso normalmente.

No Women’s Music Event, com Claudia e o grupo Rimas & Melodias

A mulher é criada pra ser mais submissa…

Óbvio, olha a sociedade machista em que a gente vive, o Brasil é o quinto país que mais mata mulher no mundo. A situação é muito grave, a gente tá em outra realidade, em que as pessoas não enxergam a profundidade do assunto — mas temos que mudar o mundo no ambiente em que estamos, e o que eu e a Claudia conseguimos é o mínimo: criar uma rede de conexões, abraçar essas mulheres e falar: aqui vocês têm esse espaço. E a gente não exclui homem; óbvio que não, justamente porque queremos que no futuro os profissionais sejam vistos como humanos, não como homens ou mulheres.

É engraçado que até uma menina chegou [na conferência]: “Mas tem muito homem aqui!”. Claro que tem, não queremos excluir, mas somar! Se a gente não quer que os homens tenham preconceito com a gente, a gente não pode ter com ninguém. Todos são bem-vindos; 40% do nosso público nas redes sociais é masculino. Eles comentam, dão share, convidam amigas, entendem que é um movimento que não é agressivo — a gente tem um jeito de falar que é amor, sabe?

Lembrei de uma entrevista da Annie Mac ao THUMP, em 2014. Ela dizia: “Parem de perguntar o que é ser uma mulher na indústria da música”. Você acha que já tá chato falar sobre isso?

Nossa, acho que já passou, sim. A gente tem que ir pro próximo passo: valorizar a mulher no trabalho dela. A gente fez a curadoria de alguns painéis do RMC, e um foi sobre produtoras musicais. A Claudia foi mediadora e falou que foi um papo superinteligente. Então por que insistir no “Mulheres na Música”? Isso já tá dois anos atrás!

Nas conferências ou no site do WME, você não vai ver nenhuma entrevista sobre como é ser mulher no mercado da música. Agora é hora de mostrar trabalho. Eu não sou mulher de mimimi: “Ai, nossa, já aconteceu isso comigo”… Não! Se a gente realmente quer que as pessoas nos olhem como mulheres de negócio, a gente já pode pular essa parte da sofrência.

* Flávio Lerner é editor-assistente na Phouse; leia mais de suas colunas.

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