O que as mulheres querem transformar na cena eletrônica nacional

Neste Dia Internacional da Mulher, algumas das garotas que atuam no mercado da música eletrônica respondem sobre o que urge mudar no cenário brasileiro. 

Na cena eletrônica global, a questão do gênero é uma das discussões mais presentes há um bom tempo. Tanto aqui na Phouse quanto em outros portais, já tivemos inúmeros artigos, matérias e entrevistas abordando o assunto. Conferências como o BRMC também já promoveram diversos painéis a respeito, assim como iniciativas como o Women’s Music Event, que surgem principalmente para incentivar uma rede de negócios entre as mulheres do mercado musical, que volta e meia se sentem desprestigiadas em um meio que há décadas é predominantemente masculino, apenas por serem mulheres.

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Com toda essa movimentação em relação ao tema, a situação já vem mudando bastante. Cada vez mais as garotas se mexem para reivindicar tratamento de igual pra igual e vão abrindo o seu espaço na marra — sobretudo as DJs/produtoras, que ainda aparecem significantemente em menor número em relação aos colegas homens. Gênero não deveria ser uma questão importante, mas infelizmente, acaba tendo um papel importante na hora de delimitar quem é quem no mercado de trabalho.

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Partindo desse panorama, o que mais incomoda essas minas hoje em dia? Se elas tivessem o poder de transformar ou fazer desparecer, como num toque de mágica, algum hábito ou comportamento nocivo da cena ou do mercado da música eletrônica, qual seria? Quais as principais mudanças que elas reivindicam para esse cenário hoje em dia — seja relacionado à questão do gênero ou não?

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No Dia Internacional da Mulher — um dia tradicionalmente de luta e reflexão —, fizemos a algumas delas essa pergunta. E estas foram as respostas que tivemos:

BLANCAh Hernan Cattaneo
BLANCAh

“Aboliria os valores abusivos nos preços de alguns ingressos, e principalmente a diferença de preço entre ingressos masculinos e femininos” — BLANCAh, DJ e produtora.

Vanessa Schumacher

“Se eu pudesse erradicar algo, seria a forma que as pessoas enxergam o trabalho uns dos outros. Deixaria todas as discussões de lado e focaria apenas na música. Todos temos diferentes gostos e opiniões e devemos respeitar a preferência de cada um.

Para que o nosso mercado desenvolva mais, precisamos de união, até porque quando um se destaca ele acaba atraindo os olhares para todo o cenário, fazendo assim com que todos tenham a oportunidade de crescer. Música é a resposta!” — Vanessa Schumacher, sócia da TheNight!

Tricy

“O fato de termos uma presença tão pequena, muitas vezes nula de mulheres nos festivais e também como residentes nos clubs por aí. Antigamente alegavam que as mulheres não sabiam tocar como os homens, que só estavam na cabine porque ‘apelaram’ para aparência ou porque namoravam o promotor, gerente, dono do club…  Agora é porque, segundo eles, elas não produzem como os homens. A dificuldade em reconhecer o talento da mulher na nossa cena sempre rolou.

Fora do Brasil isso já está mudando, através de uma iniciativa chamada Keychange, na qual 45 festivais já se comprometeram a alcançar uma meta de lineups igualitários até 2022. Atualmente a média global é de 80% homens e 20% mulheres. Por aqui, seguimos com apenas — pasmem — 5% de presença feminina nos grandes eventos” — Tricy, DJ e apresentadora na Energia 97 FM.

Däi Ferrera

“Voto em diminuir os impostos absurdos do governo que dificultam o investimento dos produtores e DJs em equipamentos importados e afins. A arte no Brasil teria outro patamar se tivéssemos desde crianças mais incentivos nas escolas para estudar música! Acredito que a educação musical é a base da real transformação!

E erradicaria também essa diferença colossal na quantidade masculino/feminino de produtores no Brasil. Mulheres, partiu mudar essa estatística?!” — Däi Ferrera, produtora musical no projeto TRIAD inc.

Cinara

“Escolheria que todos os contratantes deixassem de convidar pessoas que não são DJs profissionais de verdade para tocar. Que deixassem de convidar celebridades, amigos e pessoas que só buscam o status e a fama. Isso educa o público de uma forma MUITO ruim e desvaloriza nosso trabalho” — DJ Cinara.

Bruna Calegari

“Obviamente erradicaria todo tipo de ingressos com valores diferentes para os sexos. Já ouvi de vários homens que isso é visto por eles como ‘bônus porque as mulheres gastam mais em aparência’. Não sei o que é mais bizarro: você esperar que uma mulher pague menos para um evento porque é mulher, ou que ela seja um produto do evento — sempre bonita, com cabelo escovadinho e salto alto. Eu não quero apenas o direito de ser igual a um homem, ser tratada da mesma forma na pista e não ter ninguém duvidando que estou ali pela música. Eu também quero ter o direito de usar maquiagem ou salto alto quando EU quiser, e não porque é esperado de mim me ‘portar assim’.

Mulheres não nascem com papéis para atuar, eles nos são dados por pessoas que acreditam nestes papéis. É muito fácil para um homem branco de classe média achar argumentos pra justificar o porquê de certas ‘manias’ do mercado. Difícil é ter a coragem de mudá-las e arcar com as consequências. No meu festival eu não sonharia em cobrar valores diferentes. Já recusei trabalhar para eventos que têm posturas diferentes desta, e não me arrependo” — Bruna Calegari, publicitária e cofundadora do Festival Subtropikal.

Kesia
Kesia

“O primeiro comportamento que eu mudaria seria a desigualdade no mercado. Muitas vezes temos mulheres boas em um lineup, tão boas ou melhores que alguns dos outros DJs, e mesmo assim elas ficam com os horários ruins ou secundários — ou não ganham tão bem, mesmo tendo o mesmo nível de popularidade que os outros DJs. Sei que temos mulheres bem valorizadas no meio, mas são poucas” — Kesia, DJ e produtora.

Camila Giamelaro

“A competição desnecessária entre DJs. Parece que alguns artistas acham que tocar pesado é mostrar trabalho. Eu pude ver inúmeras vezes DJs fazendo um warmup totalmente fora de contexto pra poder desestabilizar o próximo artista a entrar. Além de desnecessário, mostra a índole da pessoa. Cabe a nós fazermos o nosso melhor dentro do contexto em que fomos inseridos e mostrar pra pista como podemos ser versáteis e oferecer a melhor festa possível, independentemente do horário em que tocamos” — Camila Giamelaro, produtora no Binaryh, professora na DJ Ban e CEO da Gig Agency.

Gabriela Loschi

Eu mudaria a necessidade de controle das pessoas e baixaria um pouco o ego delas. Vivemos numa cena sensível em que marcas levam discursos para o pessoal e se sentem ofendidas. Talvez por ser um nicho onde muita gente se conhece, e por ter bastante competição, estamos sempre pisando em ovos. Para o jornalismo isso é muito ruim, pois tira a autonomia da imprensa especializada, deixando a questão plastificada.

É algo que extrapola a questão dos gêneros, PORÉM, não posso deixar de pontuar que, como mulher em cargo de chefia, já senti muitas vezes a dificuldade de alguns homens em aceitar a liderança de uma mulher. É notória a diferença na forma como um ou outro colega fala com profissionais femininas e profissionais masculinos. E sei que muitas vezes eles nem percebem. Então, se temos o problema de ego, do controle e da autoridade, o ideal seria sempre analisarmos nossos comportamentos profundamente, para identificarmos nossas atitudes em relação a diferentes pessoas no mercado” — Gabriela Loschi, jornalista, assessora de imprensa e social media.

* Flávio Lerner é editor na Phouse; leia mais de suas colunas.

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