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Entrevista

O que as mulheres querem transformar na cena eletrônica nacional

Flávio Lerner

Publicado em

08/03/2018 - 17:47
BLANCAh Hernan Cattaneo
Neste Dia Internacional da Mulher, algumas das garotas que atuam no mercado da música eletrônica respondem sobre o que urge mudar no cenário brasileiro. 

Na cena eletrônica global, a questão do gênero é uma das discussões mais presentes há um bom tempo. Tanto aqui na Phouse quanto em outros portais, já tivemos inúmeros artigos, matérias e entrevistas abordando o assunto. Conferências como o BRMC também já promoveram diversos painéis a respeito, assim como iniciativas como o Women’s Music Event, que surgem principalmente para incentivar uma rede de negócios entre as mulheres do mercado musical, que volta e meia se sentem desprestigiadas em um meio que há décadas é predominantemente masculino, apenas por serem mulheres.

+ Monique Dardenne: abrindo portas pras mulheres na música, sem mimimi 

Com toda essa movimentação em relação ao tema, a situação já vem mudando bastante. Cada vez mais as garotas se mexem para reivindicar tratamento de igual pra igual e vão abrindo o seu espaço na marra — sobretudo as DJs/produtoras, que ainda aparecem significantemente em menor número em relação aos colegas homens. Gênero não deveria ser uma questão importante, mas infelizmente, acaba tendo um papel importante na hora de delimitar quem é quem no mercado de trabalho.

+ Festivais se comprometem à divisão igualitária entre homens e mulheres

Partindo desse panorama, o que mais incomoda essas minas hoje em dia? Se elas tivessem o poder de transformar ou fazer desparecer, como num toque de mágica, algum hábito ou comportamento nocivo da cena ou do mercado da música eletrônica, qual seria? Quais as principais mudanças que elas reivindicam para esse cenário hoje em dia — seja relacionado à questão do gênero ou não?

+ O que o Dia Internacional da Mulher tem a ver com a dance music

No Dia Internacional da Mulher — um dia tradicionalmente de luta e reflexão —, fizemos a algumas delas essa pergunta. E estas foram as respostas que tivemos:

BLANCAh Hernan Cattaneo

BLANCAh

“Aboliria os valores abusivos nos preços de alguns ingressos, e principalmente a diferença de preço entre ingressos masculinos e femininos” — BLANCAh, DJ e produtora.

Vanessa Schumacher

“Se eu pudesse erradicar algo, seria a forma que as pessoas enxergam o trabalho uns dos outros. Deixaria todas as discussões de lado e focaria apenas na música. Todos temos diferentes gostos e opiniões e devemos respeitar a preferência de cada um.

Para que o nosso mercado desenvolva mais, precisamos de união, até porque quando um se destaca ele acaba atraindo os olhares para todo o cenário, fazendo assim com que todos tenham a oportunidade de crescer. Música é a resposta!” — Vanessa Schumacher, sócia da TheNight!

Tricy

“O fato de termos uma presença tão pequena, muitas vezes nula de mulheres nos festivais e também como residentes nos clubs por aí. Antigamente alegavam que as mulheres não sabiam tocar como os homens, que só estavam na cabine porque ‘apelaram’ para aparência ou porque namoravam o promotor, gerente, dono do club…  Agora é porque, segundo eles, elas não produzem como os homens. A dificuldade em reconhecer o talento da mulher na nossa cena sempre rolou.

Fora do Brasil isso já está mudando, através de uma iniciativa chamada Keychange, na qual 45 festivais já se comprometeram a alcançar uma meta de lineups igualitários até 2022. Atualmente a média global é de 80% homens e 20% mulheres. Por aqui, seguimos com apenas — pasmem — 5% de presença feminina nos grandes eventos” — Tricy, DJ e apresentadora na Energia 97 FM.

Däi Ferrera

“Voto em diminuir os impostos absurdos do governo que dificultam o investimento dos produtores e DJs em equipamentos importados e afins. A arte no Brasil teria outro patamar se tivéssemos desde crianças mais incentivos nas escolas para estudar música! Acredito que a educação musical é a base da real transformação!

E erradicaria também essa diferença colossal na quantidade masculino/feminino de produtores no Brasil. Mulheres, partiu mudar essa estatística?!” — Däi Ferrera, produtora musical no projeto TRIAD inc.

Cinara

“Escolheria que todos os contratantes deixassem de convidar pessoas que não são DJs profissionais de verdade para tocar. Que deixassem de convidar celebridades, amigos e pessoas que só buscam o status e a fama. Isso educa o público de uma forma MUITO ruim e desvaloriza nosso trabalho” — DJ Cinara.

Bruna Calegari

“Obviamente erradicaria todo tipo de ingressos com valores diferentes para os sexos. Já ouvi de vários homens que isso é visto por eles como ‘bônus porque as mulheres gastam mais em aparência’. Não sei o que é mais bizarro: você esperar que uma mulher pague menos para um evento porque é mulher, ou que ela seja um produto do evento — sempre bonita, com cabelo escovadinho e salto alto. Eu não quero apenas o direito de ser igual a um homem, ser tratada da mesma forma na pista e não ter ninguém duvidando que estou ali pela música. Eu também quero ter o direito de usar maquiagem ou salto alto quando EU quiser, e não porque é esperado de mim me ‘portar assim’.

Mulheres não nascem com papéis para atuar, eles nos são dados por pessoas que acreditam nestes papéis. É muito fácil para um homem branco de classe média achar argumentos pra justificar o porquê de certas ‘manias’ do mercado. Difícil é ter a coragem de mudá-las e arcar com as consequências. No meu festival eu não sonharia em cobrar valores diferentes. Já recusei trabalhar para eventos que têm posturas diferentes desta, e não me arrependo” — Bruna Calegari, publicitária e cofundadora do Festival Subtropikal.

Kesia

Kesia

“O primeiro comportamento que eu mudaria seria a desigualdade no mercado. Muitas vezes temos mulheres boas em um lineup, tão boas ou melhores que alguns dos outros DJs, e mesmo assim elas ficam com os horários ruins ou secundários — ou não ganham tão bem, mesmo tendo o mesmo nível de popularidade que os outros DJs. Sei que temos mulheres bem valorizadas no meio, mas são poucas” — Kesia, DJ e produtora.

Camila Giamelaro

“A competição desnecessária entre DJs. Parece que alguns artistas acham que tocar pesado é mostrar trabalho. Eu pude ver inúmeras vezes DJs fazendo um warmup totalmente fora de contexto pra poder desestabilizar o próximo artista a entrar. Além de desnecessário, mostra a índole da pessoa. Cabe a nós fazermos o nosso melhor dentro do contexto em que fomos inseridos e mostrar pra pista como podemos ser versáteis e oferecer a melhor festa possível, independentemente do horário em que tocamos” — Camila Giamelaro, produtora no Binaryh, professora na DJ Ban e CEO da Gig Agency.

Gabriela Loschi

Eu mudaria a necessidade de controle das pessoas e baixaria um pouco o ego delas. Vivemos numa cena sensível em que marcas levam discursos para o pessoal e se sentem ofendidas. Talvez por ser um nicho onde muita gente se conhece, e por ter bastante competição, estamos sempre pisando em ovos. Para o jornalismo isso é muito ruim, pois tira a autonomia da imprensa especializada, deixando a questão plastificada.

É algo que extrapola a questão dos gêneros, PORÉM, não posso deixar de pontuar que, como mulher em cargo de chefia, já senti muitas vezes a dificuldade de alguns homens em aceitar a liderança de uma mulher. É notória a diferença na forma como um ou outro colega fala com profissionais femininas e profissionais masculinos. E sei que muitas vezes eles nem percebem. Então, se temos o problema de ego, do controle e da autoridade, o ideal seria sempre analisarmos nossos comportamentos profundamente, para identificarmos nossas atitudes em relação a diferentes pessoas no mercado” — Gabriela Loschi, jornalista, assessora de imprensa e social media.

* Flávio Lerner é editor na Phouse; leia mais de suas colunas.

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Review

“Pedra Preta”, o 1º álbum do Teto Preto, é um grito de resistência

O celebrado grupo do underground paulistano mostra sua maturidade artística em seu primeiro full lenght

Alan Medeiros

Publicado há

Pedra Preta
Foto do clipe de "Pedra Preta": Reprodução/Facebook

Nos últimos anos, São Paulo se transformou em um caldeirão cultural com uma chama multicolorida a iluminar um mar de ideias brilhantes. Nesse cenário, diversas mentes criativas surgiram, mostraram a que vieram e se tornaram referência para uma série de iniciativas que passaram a pipocar pelo país. No olho desse furacão, exercendo posição de protagonismo, lá estava a Mamba Negra e, consequentemente, o Teto Preto.

A relação entre festa e grupo é intrínseca. O Teto Preto nasceu na pista da Mamba e obviamente foi criado por frequentadores e entusiastas da festa. Nesse processo, o grupo foi decisivo para construção do perfil sonoro que tanto marcou a Mamba Negra frente ao seu público. Muito além da música, estamos falando de arte em diferentes camadas — estamos falando de representatividade. A festa representa a banda, a banda representa a festa. Por sua vez, o público se sente fortemente representado por ambos.

Os primeiros trabalhos do Teto Preto foram lançados pelo selo da Mamba, o MAMBA rec, em 2016. O EP Gasolina foi prensado em vinil com duas faixas extremamente marcantes: “Já Deu Pra Sentir” e “Gasolina”. O resultado? Dois hits históricos para jornada do grupo. Na sequência, um hiato de dois anos até “Bate Mais”, single em antecipação ao Pedra Preta, primeiro álbum de estúdio completo da banda, que chegou às plataformas digitais neste mês com oito faixas, sendo sete originais e inéditas.

 

Pedra Preta reflete a atual maturidade artística de seus compositores, mas não deixa a chama da ousadia e irreverência se apagar. Novamente, não se trata apenas de música: Laura Diaz (Carneosso), Loic Koutana, Pedro Zopelar, Savio de Queiroz e William Bica promovem um grito de resistência ao longo de todas as faixas que formam o full lenght. A atmosfera densa do disco dita o ritmo de uma narrativa longa e inteligente, que aborda assuntos como a tragédia do Museu Nacional neste ano.

Por falar em “Pedra Preta”, vale ressaltar que a faixa-título do álbum também ganhou um clipe. Lançado ontem, 22, e com duração de mais de oito minutos, o vídeo dirigido por Rudá Cabral, Laura Diaz e Joana Leonzini traz um storytelling denso e aberto a interpretações, mas com uma clara crítica ao conservadorismo da sociedade brasileira e honrosa menção ao perfil de público da Mamba Negra — o trabalho foi coproduzido pela MAMBA rec em parceria com a Planalto. Sem dúvida alguma, Pedra Preta é uma vitória importante para a sobrevivência da cultura eletrônica de vanguarda no Brasil.

  

Alan Medeiros é colaborador da Phouse.

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ESPECIAL

Tha_guts e o som envolvente que rege o selo da Gop Tun

Produtor gaúcho é uma boa mostra do amadurecimento da Gop Tun Records

Alan Medeiros

Publicado há

Gop Tun Records
Tha_guts. Foto: Divulgação

Neste mês de novembro, o coletivo paulistano Gop Tun celebrou seis anos de uma história construída muito em cima da seriedade com que o coletivo paulistano trata seus projetos artísticos, dentro e fora da pista. Referência na cena house/disco brasileira, o atual patamar do projeto permite que algumas de suas iniciativas sejam encaradas como formadoras de opinião.

Para isso, uma das principais ferramentas do núcleo é a Gop Tun Records, gravadora que possui um catálogo ainda enxuto em número de releases, mas que em 2018 e principalmente 2019, deve ser expandido através de uma intensificada no cronograma. Até então, cada ano tinha entre um e dois lançamentos. Neste ano, foi observado um aumento no fluxo, já que até aqui, três releases ganharam a luz do dia através da plataforma criada pelo coletivo paulistano.

+ Orgânica e ecumênica: uma história oral da Gop Tun

Atualmente, o time de artistas que compõe o quadro de lançamentos do selo é composto por residentes da Gop, por nomes de forte influência frente à indústria nacional (como Renato Cohen) e algumas mentes brilhantes de outras partes do mundo, como HNNY, Prins Thomas e Lauer.

Para os próximos meses, Bruno Protti (aka TYV) e Gui Scott, duas das cabeças pensantes da gravadora, contam que haverá uma expansão no time de artistas, com mais nomes brasileiros e sul-americanos entrando para o casting da label. Sem a pressão de obrigatoriamente pensar em vinil, a Gop Tun Records se mostra mais apta para apostas e ousadias em seu programa de lançamentos.

+ Um papo com os caras da Gop Tun, que estão trazendo o Dekmantel a São Paulo

O último EP da gravadora foi assinado pelo produtor gaúcho Tha_guts, um novo nome frente a geração atual de produtores brasileiros. Guto Pereira, mente por trás do projeto, entregou à Gop um release denso e repleto de referências distintas que se revelam ao longo das cinco faixas originais. O trabalho sucede Plastic Noise, disco que o revelou para o cenário da eletrônica brasileira. Após o full lenght lançado de maneira quase que independente, Guto decidiu se aproximar da música eletrônica de pista em suas jams de estúdio, e o resultado foi esse belíssimo trabalho lançado pelo selo do coletivo.

Ao ouvir as faixas de Mirror, é possível entender essa complexidade envolvente que tange o trabalho do coletivo paulistano em seus mais diversos projetos. Tal fato dá autoridade para que o núcleo e os artistas envolvidos em suas festas e seus releases possam se desenvolver de forma assertiva. Além das cinco faixas originais, Guto também assinou um futuro single com a gravadora, que deve ser trabalhado somente no segundo semestre de 2019. Enquanto isso não acontece, ouça na íntegra o seu mais recente lançamento:

  

Alan Medeiros é colaborador da Phouse.

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LIFT OFF

Psytrance raiz: Mindbenderz lança álbum transcendental pela Iono Music

Review do debut do duo suíço-alemão é o primeiro texto da nova coluna da Phouse

Nazen Carneiro

Publicado há

Mindbenderz
Foto: Reprodução
* Edição e revisão: Flávio Lerner

Instalar foguetes, preparar motores, verificar comunicação, iniciar sequência de lançamento. Cinco, quatro, três, dois, um… LIFT OFF!

Estreamos aqui a coluna LIFT OFF, que, escrita por Nazen Carneiro, traz um olhar sobre a indústria fonográfica psytrance nacional e internacional — estilo da música eletrônica que se manifesta como uma cultura vibrante e com muitos adeptos no Brasil.

De tempos em tempos a cena eletrônica se transforma e, como um organismo vivo, cresce e se reproduz. Um de seus pilares, o psy se reproduziu e está mais presente do que nunca, com “astronautas” consagrados mantendo-se relevantes, assim como novos “cosmonautas” surgem, evidenciando uma realidade produtiva e frutífera para a criação musical.

Com o crescimento do público, as festas também se multiplicaram Brasil adentro, e os produtores passaram a ter mais espaço para caírem no gosto do público da terrinha e de além-mar. Hoje, o psy mantém viva sua cena underground, enquanto estica seus tentáculos a outros nichos, influenciando — e sendo influenciado — até mesmo pela EDM.

Sem mais delongas, confira o primeiro texto abaixo, sobre o novo álbum do Mindbenderz.

 

Formado pelo alemão Matthias Sperlich e o suíço Philip Guillaume, o Mindbenderz traz, sem dúvida, um dos principais lançamentos do ano no cenário psytrance. Os veteranos, que são muito respeitados na cena eletrônica individualmente como Cubixx e Motion Drive, juntos ficam ainda mais fortes. É o que se vê no álbum Tribalism, lançado em 31/10, pela Iono Music.

O álbum conta com nove faixas que somam mais de 75 minutos. A primeira, “A New Dawn”, traz desde o primeiro minuto muita energia e reflexão num som que conduz o ouvinte a outra dimensão. A segunda faixa dá sentido a expressão “lineup” numa ascendente contínua, revelando uma verdadeira jornada ao desconhecido que segue até meados da faixa seis — “Hybrids” —, causando aquele frio na espinha. Nesse momento de percepção cósmica, uma pausa reconecta o corpo e mente à nossa tribo, e há de fato uma sensação híbrida de se estar em ambas as realidades ao mesmo tempo.

A essa altura, o álbum apresenta suas três últimas faixas no ápice de uma jornada espiritual, e nos encontramos num momento épico em que as características sonoras do psytrance alcançam sua maior amplitude, com uma ampla gama de efeitos numa base transcendental. É puro trance. A mente processa essas informações e a energia flui na forma de dança.

Voltamos para a Terra, mas a memória do que acaba de acontecer permanece. Tontura; excitação… O reator psicodélico agora transforma a energia através de instrumentos humanos. A última faixa dá nome ao álbum. “Tribalism” une percussões especiais, agogô, psy, Ayahuasca e vocais de xangô. Todos no mesmo pitch, como uma onda. Algo nos une, nos traz ao dancefloor, tornando-nos verdadeiramente uma tribo.

Tribalism revela uma composição muito bem realizada, fruto de meses de trabalho e muito detalhismo. Cada segundo do álbum revela a ação do Mindbenderz em promover um som extraordinário e comprometido com aquele pegada tribal, sem deixar de lado os elementos mais futuristas.

No momento do fechamento deste artigo, o álbum ocupava a primeira posição no Top 10 de psy do Beatport, o que mostra a força desse som mais ligado às raízes do estilo entre os DJs e produtores.

Nazen Carneiro é colaborador da Phouse.

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