Daniel Kuhnen e Leo Piovezani, os catarinenses do Elekfantz, conversam com Flávio Lerner sobre suas referências, seus lives e o mercado musical.

Os músicos catarinenses Daniel Kuhnen e Leo Piovezani são amigos há mais de duas décadas, quando tocavam em uma banda de blues. Depois trilharem caminhos individuais— Daniel tornou-se DJ e Leo seguiu como bateirista —, se encontraram novamente no duo Elekfantz, formado há poucos anos. Em 2012, já se destacaram com o primeiro single, Wish, e em pouco tempo foram apadrinhados por ninguém menos que Gui Boratto, tornando-se os primeiros artistas de seu selo D.O.C — uma ramificação da lendária Kompact.

Nesses três anos, os caras vêm nadando de braçada; lançaram em 2014 seu primeiro álbum, o ótimo Dark Tales and Love Songs, tendo destaque pela originalidade em condensar diversas musicalidades, como synth pop, blues, jazz, soul e techno, e por suas apresentações em formato live. A partir de então, tocaram nos maiores e mais variados festivais entre Brasil, Europa e América do Norte, consolidando-se como um dos nomes mais interessantes da dance music nacional.

Abaixo, você lê o papo que batemos com os caras sobre sua música e suas influências sonoras, seus shows e os grandes festivais, o mercado musical, a relação com o Gui Boratto e os contrastes entre música pop e underground.

Dark Tales and Love Songs é o primeiro e até então único álbum da dupla

Vocês se conheceram tocando blues, mas essa não é uma referência óbvia no som do Elekfantz; é mais fácil perceber influências de pós-punk e synth pop dos anos 1980, como New Order e Depeche Mode — estou certo? Fora o fato de Wish samplear Muddy Waters, como o apreço por blues e jazz aparece nas suas composições?

Leo Piovezani: Ótima pergunta, você esta certo, sem dúvida! Eu comecei cedo na música, aos 11 anos, e aos 15 já tocava na noite. Eu e o Dani tínhamos o mesmo professor e sempre tocávamos blues nas festas de nossos amigos. Aos 17 fui para a Berklee College of Music estudar jazz como baterista, e passei a consumir muito jazz, fusion e blues. Então mesmo você escutando influencias dos anos 1980 nas nossas músicas, temos muitas melodias e timbres de soul e blues americano como referência. Posso citar exemplos práticos como Pharaoh’s Dance — inclusive esse nome coloquei em homenagem ao grande Miles Davis —, que tem alguns poucos acordes de Fender Rhodes que me remetem ao famoso disco Bitches Brew.

Daniel Kuhnen: Outro caso seria Teasing Me, com guitarras Fender pontiagudas, lembrando caras do rock/blues dos anos 1950 e as trilhas sonoras de spaghetti western. A própria Diggin’ On You tem muito soul e blues envolvido também. Wish foi o pontapé inicial que levantou essa bandeira do blues em nosso som, em especial na construção dos timbres, que são mais orgânicos do que no synth pop.

O Elekfantz faz tracks com estrutura típica de house/techno, como Diggin’ On You e a própria Wish, mas o álbum Dark Tales and Love Songs está repleto de faixas moldadas em estruturas pop, como She Knows, So Damn Classy e Cryptographic Love. Há muita diferença nos processos de composição dessas músicas? E vocês se consideram um projeto de música de pista ou mais um ato de synth pop?

DK: Nosso maior desafio, quando começamos a trabalhar juntos, foi encontrar nosso som, não fazer mais do mesmo ou seguir alguma tendência. Foi o que nos uniu: a vontade de jogar todas as nossas influências e experiências no liquidificador e tentar tirar alguma coisa que nos espelhasse ou que nos dissesse algo. Não quisemos nos limitar à pista, mas nem pensávamos em tocar no rádio ou na novela; simplesmente produzimos o que sentimos e tentamos ser honestos com nós mesmos. Como nos definir? Acho que não cabe a nós, mas a pessoas como você, e especialmente ao público.

LP: Não existe diferença quando estou compondo. Na verdade, eu sempre gostei de pop e é lógico que o jeito de compor entrega muitas vezes as influências de cada artista. Meu método é totalmente espontâneo. Dark Tales… foi composto quase inteiramente em um laptop, com um pequeno controlador Akai e um fone de ouvido, e depois finalizado em estúdio com a produção de áudio do Gui Boratto. O Elekfantz tem esses dois lados, pode soar bem pop e tocar no radio, outras vezes soar mais sombrio e com um os dois pés na pista.

O Gui Boratto, como vocês já disseram, é o “quinto Beatle” do Elekfantz; ajuda na produção musical, executiva, direção artística e atua como uma espécie de manager de vocês. Como funciona o lance de transformar a arte num business? Rola uma pressão pra fazer a música mais acessível, pra emplacar um som nos charts ou algo do tipo?

DK: O Gui realmente é nosso manager, mas não tem nada a ver com marketing, ele é arquiteto de formação. E desde o início do selo sentimos que ele só quer lançar músicas boas, coisas que ele goste de verdade, independe do estilo ou apelo comercial. Temos muita liberdade e nos sentimos muito à vontade trabalhando juntos.

LP: O Gui veio de um background muito parecido com o meu, e temos um pensamento musical muito parecido. Nunca houve pressão, mas lógico que o próprio público gera essa expectativa depois de se identificar com nosso som. Tem gente que me pergunta: “E aí? Quando vai sair a próxima She Knows, ou Wish?”. O Elekfantz virou um business à medida que a música foi se consagrando, mas desde o começo nossa preocupação foi apenas com o som.

Recentemente vocês emplacaram a faixa Diggin’ on You em uma novela global. Isso seria um sinal de que vocês irão seguir uma linha mais acessível para rádios e TVs nos próximos trabalhos?

LP: Nós não esperávamos isso, até porque Diggin’… já tinha tocado muito lá fora, ficou entre as mais vendidas do Beatport por meses e saiu em mais de uma dezena de compilações, de Pacha Ibiza a Global Underground. Foi uma surpresa maior ainda, pois o nosso som do momento é She Knows, que aconteceu sozinha. Uma música na novela abre um leque para um novo público, gente que não tinha o mínimo interesse por música eletrônica se identificando por causa de um personagem, por exemplo. Importante abrirmos mais esse espaço. Já pensou se todo programa ou novela tivesse músicas de artistas brasileiros da cena eletrônica?

DK: O fato de Diggin’… estar tocando na novela não significa que vamos pensar em compor algo para determinado mercado. Não mudou nada, continuo acreditando no som que fazemos e cada vez me sinto mais agradecido por receber tanto carinho do público, não só no Brasil.

Diggin’ On You chegou a ser remixada por grandes nomes da dance music mundial, como o Solomun

A dance music hoje em dia parece estar trilhando um rumo em que lives ganham cada vez mais o espaço dos DJs sets. Por que vocês acreditam que isso vem acontecendo?

LP: Eu acredito que isso é uma mudança natural, acho que o público gosta da performance e as pessoas procuram isso quando vão a um festival ou até mesmo quando conhecem algum artista novo. No fundo, acho que um live aproxima mais as pessoas da música, principalmente pelo compositor poder se expressar de maneira diferente em cada canção, em cada apresentação… Fora o fato de você correr riscos fazendo um live, o que lança uma adrenalina no ar. O público percebe isso!

DK: Acredito que é um caminho natural para quem tem um trabalho autoral, apresentar suas músicas ao vivo de uma forma mais autêntica. Ouvir um ótimo DJ construir seu set com músicas de diversos produtores nunca vai deixar de ser uma grande experiência, mas ouvir seu artista preferido construindo ou desconstruindo ao vivo suas próprias composições, músicas que marcaram de alguma forma sua vida, vai muito além. E o público no Brasil está começando a diferenciar e valorizar isso.

E vocês acham que a musicalidade presente em uma track pra pista indica, necessariamente, quão perecível essa música vai ser?

LP: Acredito que todas as músicas que ficam eternizadas possuem sempre algum elemento orgânico, algo palpável. Pode ser uma linha de baixo, um piano, ou até mesmo uma simples bateria. Um elemento orgânico ajuda.

DK: Uma música de pista sem musicalidade pode envelhecer bem rápido se usar só os timbres do momento ou se for tão previsível quanto a maioria. Os maiores clássicos das pistas têm belas e marcantes melodias.

Elekfantz live na íntegra, em 2013

Um dos temas corriqueiros de artigos na Phouse tem sido justamente essa relação mainstream/EDM X underground na dance music. Como vocês enxergam essa questão?

LP: Como já disse meu amigo Frank, do Âme: o underground é superestimado. Música não é competição, é arte, é um jeito de você entender o mundo, de você lidar com seus demônios, de você poder ser quem você quiser. E o mais legal de tudo é o respeito entre as diferenças musicais, você ter discernimento pra poder entender essas diferenças. Pra falar a verdade eu escuto varios sons do mainstream, eu gosto de tentar entender como as pessoas consomem, ou melhor, o que elas conseguem assimilar de determinado hit, ou o que mantém alguém interessado por determinada faixa. Importante todos estarem sempre com a antena ligada, você pode colher muitas coisas boas em todos os estilos possíveis no mundo da arte.

DK: “Underground de boutique” versus “EDM-eu-quero-ser-famoso”? Discussão cansada, próxima pergunta.

Ano passado vocês chegaram a abrir pro Disclosure em uma festa do Lollapalloza. Como foi a experiência e como vocês entendem que a arte dos dois duos se inter-relaciona?

DK: Eles são bem mais jovens e as influências são bem diferentes. Gosto deles, mas não vejo muitos paralelos além dessa coisa de fazer música eletrônica com estrutura pop, que pode funcionar na pista, mas também fora dela.

LP: O Lollapalooza foi bem legal, muita gente chegou cedo para nos ver. Ficamos surpresos na época com tantos feedbacks positivos. Tocamos no festival e saímos cedo para passar o som no after oficial onde abrimos pro Disclosure, mas nessa festa eles fizeram só um DJ set.

elekfantz live

Daniel e Leo no Clash Club, em São Paulo, poucos dias depois do show no Rock in Rio 2015

É curioso que vocês tocam em festivais diferentes entre si: alguns mais voltados ao rock, como o Lolla e o RiR, outros à música eletrônica, como o Tribaltech, e até mesmo eventos muito pop e juvenis, como o Planeta Atlântida. Vocês planejam lives diferentes de acordo com cada proposta? Quais as melhores e as piores experiências que já tiveram nesses eventos?

LP: Sim, verdade, isso é uma coisa que não esperávamos, e percebemos que estamos conquistando até um público que não gostava de música eletrônica. Muita gente me fala no backstage: “Comecei a curtir música eletrônica depois de escutar o disco de vocês”. Acho isso muito legal. Já aconteceram coisas ruins também, como um stage manager péssimo, despreparado e mal educado, ou um DJ gringo supermetido, estrelando… Tudo isso no mesmo festival! Esse tipo de coisa que nem vale comentar, mas quem está na estrada sabe bem como é.

DK: Temos alguns setlists diferentes e normalmente decidimos isso minutos antes de subirmos no palco. Também conseguimos improvisar em alguns momentos ou estender o show quando a coisa esquenta demais. Uma coisa legal aconteceu ano passado no Melt! Festival, na Alemanha: apesar de tocarmos no palco das bandas e acharmos que não éramos nem um pouco conhecidos, logo que acabamos o show algumas pessoas que estavam bem na frente contaram que tinham nos assistido em Berlim uma semana antes e foram nos ver no festival porque adoraram o nosso som.

E os planos para o resto de 2015 e 2016? Algum disco novo no horizonte?

LP: Agora em outubro ainda vamos voltar pra Europa pela terceira vez neste ano, onde vamos tocar no DOC Showcase em Paris e Amsterdam. Inclusive, essa foi a primeira festa a esgotar os ingressos no ADE deste ano! Ainda em 2015 vamos lançar dois clipes: Why So Bad, gravado ao vivo em Amsterdam, e Surrender, produzido na Polônia.

DK: Em 2016 devemos ir mais algumas vezes para a Europa, retornar aos EUA e ir pela primeira vez à Ásia e Oceania. Apesar da agenda intensa já temos umas 30 músicas encaminhadas para o próximo disco, que deve sair também ano que vem. E algumas surpresas bem legais pra quem acompanha nossos shows, além de um live set completamente novo.

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