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“Música não é competição, é arte”; uma entrevista exclusiva com o duo Elekfantz

Flávio Lerner

Publicado em

01/10/2015 - 18:50

Daniel Kuhnen e Leo Piovezani, os catarinenses do Elekfantz, conversam com Flávio Lerner sobre suas referências, seus lives e o mercado musical.

Os músicos catarinenses Daniel Kuhnen e Leo Piovezani são amigos há mais de duas décadas, quando tocavam em uma banda de blues. Depois trilharem caminhos individuais— Daniel tornou-se DJ e Leo seguiu como bateirista —, se encontraram novamente no duo Elekfantz, formado há poucos anos. Em 2012, já se destacaram com o primeiro single, Wish, e em pouco tempo foram apadrinhados por ninguém menos que Gui Boratto, tornando-se os primeiros artistas de seu selo D.O.C — uma ramificação da lendária Kompact.

Nesses três anos, os caras vêm nadando de braçada; lançaram em 2014 seu primeiro álbum, o ótimo Dark Tales and Love Songs, tendo destaque pela originalidade em condensar diversas musicalidades, como synth pop, blues, jazz, soul e techno, e por suas apresentações em formato live. A partir de então, tocaram nos maiores e mais variados festivais entre Brasil, Europa e América do Norte, consolidando-se como um dos nomes mais interessantes da dance music nacional.

Abaixo, você lê o papo que batemos com os caras sobre sua música e suas influências sonoras, seus shows e os grandes festivais, o mercado musical, a relação com o Gui Boratto e os contrastes entre música pop e underground.

Dark Tales and Love Songs é o primeiro e até então único álbum da dupla

Vocês se conheceram tocando blues, mas essa não é uma referência óbvia no som do Elekfantz; é mais fácil perceber influências de pós-punk e synth pop dos anos 1980, como New Order e Depeche Mode — estou certo? Fora o fato de Wish samplear Muddy Waters, como o apreço por blues e jazz aparece nas suas composições?

Leo Piovezani: Ótima pergunta, você esta certo, sem dúvida! Eu comecei cedo na música, aos 11 anos, e aos 15 já tocava na noite. Eu e o Dani tínhamos o mesmo professor e sempre tocávamos blues nas festas de nossos amigos. Aos 17 fui para a Berklee College of Music estudar jazz como baterista, e passei a consumir muito jazz, fusion e blues. Então mesmo você escutando influencias dos anos 1980 nas nossas músicas, temos muitas melodias e timbres de soul e blues americano como referência. Posso citar exemplos práticos como Pharaoh’s Dance — inclusive esse nome coloquei em homenagem ao grande Miles Davis —, que tem alguns poucos acordes de Fender Rhodes que me remetem ao famoso disco Bitches Brew.

Daniel Kuhnen: Outro caso seria Teasing Me, com guitarras Fender pontiagudas, lembrando caras do rock/blues dos anos 1950 e as trilhas sonoras de spaghetti western. A própria Diggin’ On You tem muito soul e blues envolvido também. Wish foi o pontapé inicial que levantou essa bandeira do blues em nosso som, em especial na construção dos timbres, que são mais orgânicos do que no synth pop.

O Elekfantz faz tracks com estrutura típica de house/techno, como Diggin’ On You e a própria Wish, mas o álbum Dark Tales and Love Songs está repleto de faixas moldadas em estruturas pop, como She Knows, So Damn Classy e Cryptographic Love. Há muita diferença nos processos de composição dessas músicas? E vocês se consideram um projeto de música de pista ou mais um ato de synth pop?

DK: Nosso maior desafio, quando começamos a trabalhar juntos, foi encontrar nosso som, não fazer mais do mesmo ou seguir alguma tendência. Foi o que nos uniu: a vontade de jogar todas as nossas influências e experiências no liquidificador e tentar tirar alguma coisa que nos espelhasse ou que nos dissesse algo. Não quisemos nos limitar à pista, mas nem pensávamos em tocar no rádio ou na novela; simplesmente produzimos o que sentimos e tentamos ser honestos com nós mesmos. Como nos definir? Acho que não cabe a nós, mas a pessoas como você, e especialmente ao público.

LP: Não existe diferença quando estou compondo. Na verdade, eu sempre gostei de pop e é lógico que o jeito de compor entrega muitas vezes as influências de cada artista. Meu método é totalmente espontâneo. Dark Tales… foi composto quase inteiramente em um laptop, com um pequeno controlador Akai e um fone de ouvido, e depois finalizado em estúdio com a produção de áudio do Gui Boratto. O Elekfantz tem esses dois lados, pode soar bem pop e tocar no radio, outras vezes soar mais sombrio e com um os dois pés na pista.

O Gui Boratto, como vocês já disseram, é o “quinto Beatle” do Elekfantz; ajuda na produção musical, executiva, direção artística e atua como uma espécie de manager de vocês. Como funciona o lance de transformar a arte num business? Rola uma pressão pra fazer a música mais acessível, pra emplacar um som nos charts ou algo do tipo?

DK: O Gui realmente é nosso manager, mas não tem nada a ver com marketing, ele é arquiteto de formação. E desde o início do selo sentimos que ele só quer lançar músicas boas, coisas que ele goste de verdade, independe do estilo ou apelo comercial. Temos muita liberdade e nos sentimos muito à vontade trabalhando juntos.

LP: O Gui veio de um background muito parecido com o meu, e temos um pensamento musical muito parecido. Nunca houve pressão, mas lógico que o próprio público gera essa expectativa depois de se identificar com nosso som. Tem gente que me pergunta: “E aí? Quando vai sair a próxima She Knows, ou Wish?”. O Elekfantz virou um business à medida que a música foi se consagrando, mas desde o começo nossa preocupação foi apenas com o som.

Recentemente vocês emplacaram a faixa Diggin’ on You em uma novela global. Isso seria um sinal de que vocês irão seguir uma linha mais acessível para rádios e TVs nos próximos trabalhos?

LP: Nós não esperávamos isso, até porque Diggin’… já tinha tocado muito lá fora, ficou entre as mais vendidas do Beatport por meses e saiu em mais de uma dezena de compilações, de Pacha Ibiza a Global Underground. Foi uma surpresa maior ainda, pois o nosso som do momento é She Knows, que aconteceu sozinha. Uma música na novela abre um leque para um novo público, gente que não tinha o mínimo interesse por música eletrônica se identificando por causa de um personagem, por exemplo. Importante abrirmos mais esse espaço. Já pensou se todo programa ou novela tivesse músicas de artistas brasileiros da cena eletrônica?

DK: O fato de Diggin’… estar tocando na novela não significa que vamos pensar em compor algo para determinado mercado. Não mudou nada, continuo acreditando no som que fazemos e cada vez me sinto mais agradecido por receber tanto carinho do público, não só no Brasil.

Diggin’ On You chegou a ser remixada por grandes nomes da dance music mundial, como o Solomun

A dance music hoje em dia parece estar trilhando um rumo em que lives ganham cada vez mais o espaço dos DJs sets. Por que vocês acreditam que isso vem acontecendo?

LP: Eu acredito que isso é uma mudança natural, acho que o público gosta da performance e as pessoas procuram isso quando vão a um festival ou até mesmo quando conhecem algum artista novo. No fundo, acho que um live aproxima mais as pessoas da música, principalmente pelo compositor poder se expressar de maneira diferente em cada canção, em cada apresentação… Fora o fato de você correr riscos fazendo um live, o que lança uma adrenalina no ar. O público percebe isso!

DK: Acredito que é um caminho natural para quem tem um trabalho autoral, apresentar suas músicas ao vivo de uma forma mais autêntica. Ouvir um ótimo DJ construir seu set com músicas de diversos produtores nunca vai deixar de ser uma grande experiência, mas ouvir seu artista preferido construindo ou desconstruindo ao vivo suas próprias composições, músicas que marcaram de alguma forma sua vida, vai muito além. E o público no Brasil está começando a diferenciar e valorizar isso.

E vocês acham que a musicalidade presente em uma track pra pista indica, necessariamente, quão perecível essa música vai ser?

LP: Acredito que todas as músicas que ficam eternizadas possuem sempre algum elemento orgânico, algo palpável. Pode ser uma linha de baixo, um piano, ou até mesmo uma simples bateria. Um elemento orgânico ajuda.

DK: Uma música de pista sem musicalidade pode envelhecer bem rápido se usar só os timbres do momento ou se for tão previsível quanto a maioria. Os maiores clássicos das pistas têm belas e marcantes melodias.

Elekfantz live na íntegra, em 2013

Um dos temas corriqueiros de artigos na Phouse tem sido justamente essa relação mainstream/EDM X underground na dance music. Como vocês enxergam essa questão?

LP: Como já disse meu amigo Frank, do Âme: o underground é superestimado. Música não é competição, é arte, é um jeito de você entender o mundo, de você lidar com seus demônios, de você poder ser quem você quiser. E o mais legal de tudo é o respeito entre as diferenças musicais, você ter discernimento pra poder entender essas diferenças. Pra falar a verdade eu escuto varios sons do mainstream, eu gosto de tentar entender como as pessoas consomem, ou melhor, o que elas conseguem assimilar de determinado hit, ou o que mantém alguém interessado por determinada faixa. Importante todos estarem sempre com a antena ligada, você pode colher muitas coisas boas em todos os estilos possíveis no mundo da arte.

DK: “Underground de boutique” versus “EDM-eu-quero-ser-famoso”? Discussão cansada, próxima pergunta.

Ano passado vocês chegaram a abrir pro Disclosure em uma festa do Lollapalloza. Como foi a experiência e como vocês entendem que a arte dos dois duos se inter-relaciona?

DK: Eles são bem mais jovens e as influências são bem diferentes. Gosto deles, mas não vejo muitos paralelos além dessa coisa de fazer música eletrônica com estrutura pop, que pode funcionar na pista, mas também fora dela.

LP: O Lollapalooza foi bem legal, muita gente chegou cedo para nos ver. Ficamos surpresos na época com tantos feedbacks positivos. Tocamos no festival e saímos cedo para passar o som no after oficial onde abrimos pro Disclosure, mas nessa festa eles fizeram só um DJ set.

elekfantz live

Daniel e Leo no Clash Club, em São Paulo, poucos dias depois do show no Rock in Rio 2015

É curioso que vocês tocam em festivais diferentes entre si: alguns mais voltados ao rock, como o Lolla e o RiR, outros à música eletrônica, como o Tribaltech, e até mesmo eventos muito pop e juvenis, como o Planeta Atlântida. Vocês planejam lives diferentes de acordo com cada proposta? Quais as melhores e as piores experiências que já tiveram nesses eventos?

LP: Sim, verdade, isso é uma coisa que não esperávamos, e percebemos que estamos conquistando até um público que não gostava de música eletrônica. Muita gente me fala no backstage: “Comecei a curtir música eletrônica depois de escutar o disco de vocês”. Acho isso muito legal. Já aconteceram coisas ruins também, como um stage manager péssimo, despreparado e mal educado, ou um DJ gringo supermetido, estrelando… Tudo isso no mesmo festival! Esse tipo de coisa que nem vale comentar, mas quem está na estrada sabe bem como é.

DK: Temos alguns setlists diferentes e normalmente decidimos isso minutos antes de subirmos no palco. Também conseguimos improvisar em alguns momentos ou estender o show quando a coisa esquenta demais. Uma coisa legal aconteceu ano passado no Melt! Festival, na Alemanha: apesar de tocarmos no palco das bandas e acharmos que não éramos nem um pouco conhecidos, logo que acabamos o show algumas pessoas que estavam bem na frente contaram que tinham nos assistido em Berlim uma semana antes e foram nos ver no festival porque adoraram o nosso som.

E os planos para o resto de 2015 e 2016? Algum disco novo no horizonte?

LP: Agora em outubro ainda vamos voltar pra Europa pela terceira vez neste ano, onde vamos tocar no DOC Showcase em Paris e Amsterdam. Inclusive, essa foi a primeira festa a esgotar os ingressos no ADE deste ano! Ainda em 2015 vamos lançar dois clipes: Why So Bad, gravado ao vivo em Amsterdam, e Surrender, produzido na Polônia.

DK: Em 2016 devemos ir mais algumas vezes para a Europa, retornar aos EUA e ir pela primeira vez à Ásia e Oceania. Apesar da agenda intensa já temos umas 30 músicas encaminhadas para o próximo disco, que deve sair também ano que vem. E algumas surpresas bem legais pra quem acompanha nossos shows, além de um live set completamente novo.

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Entrevista

Conquistando a Ásia: DJs brasileiros falam sobre o novo polo da música eletrônica

Nayara Storquio

Publicado há

Ásia
O jovem Liu estreia na Ásia nesta semana. Foto: Rafael Oliveira/Divulgação
Bhaskar, Liu, FELGUK e Cat Dealers relatam suas experiências no continente
* Com a colaboração, revisão e edição de Flávio Lerner

Quando falamos de dance music no contexto internacional, os primeiros destinos que vêm na nossa cabeça são Europa e Estados Unidos. Não se iluda; este é apenas mais um reflexo da influência musical e cultural que esses lugares têm sobre nós. A verdade é que o novo oásis da indústria da música eletrônica está bem mais longe do que imaginamos: na Ásia. E é pensando nisso que não só os Top DJs mundiais como também os brasileiros estão se aventurando em terras orientais e fazendo muito sucesso.

Que a Ásia vem roubando a atenção do mercado não é de hoje. É evidente que o continente proporciona condições ideais para realização de festivais, por exemplo. Se avaliarmos o clima, o público, as paisagens e o custo, fica fácil saber o porquê. Ainda em 2015, o CGA Strategy divulgou um ranking dos 250 melhores festivais do planeta, e a Ásia, com apenas dez concorrentes, emplacou cinco: o Sunburn, na Índia; o Zoukout, em Singapura; e Clockenflap e Storm Electronic Festival, na China. De lá pra cá, a cena só cresceu.

Sabendo da mina de ouro que se tornou o “mundo oriental”, os nossos DJs também resolveram desbravar o continente. Alok, FELGUK, Cat Dealers, Sevenn, Liu, Bhaskar, D-Stroyer, Gaby Endo, Wav3motion, Renato Cohen, Gui Boratto e André Pulse são alguns dos que se destacam nessa aventura, e a Phouse entrevistou alguns dessa lista que só aumenta.

Ásia

Foto: Divulgação

Neste sábado, dia 04, a label UP Club desembarca no Half Moon Festival, em Koh Phangan, Tailândia. O showcase do selo de Alok vai levar muita brasilidade consigo com Liu, Bhaskar, Shapeless, Ekanta, Logica (antigo projeto de Bhaskar e Alok) e o Tripical (o único artista que não é brasileiro) fechando o line. Alok já deixou suas marcas no Oriente, e é visto como um dos nomes que “puxou o carro” para os seus colegas terem mais espaço no outro lado do planeta. O DJ mais popular do Brasil faz várias turnês no continente asiático desde 2016, tocando em países como China, Indonésia, Vietnã e Filipinas.

Seu irmão, Bhaskar, também tem experiência no continente. O DJ já tocou no SKY Garden, em Bali, no 1900 Le Theatre, no Vietnã, além do próprio Half Moon Festival, e nos contou sobre suas impressões. “[Os asiáticos são] Um povo muito evoluído mentalmente. O que sinto é que é mais difícil perder a pista na Ásia. Todos estão super envolvidos do começo ao fim da apresentação, e parecem não se cansar nunca!”, complementa o DJ. O artista comentou também sobre as limitações da cena e sua crescente evolução. “Como a música eletrônica não tem barreiras, era de se esperar que chegasse aqui [na Ásia], e esse crescimento tem sido constante. Cada vez que eu volto eu noto a diferença. A única parte chata é que vários clubs têm limites de horários bem restritos, então se torna difícil fazer sets mais longos.”

Já o jovem Liu, que inclusive tem descendência chinesa, está chegando agora na cena oriental, e entende que o mercado asiático é promissor. “A Ásia é um dos maiores novos polos de música eletrônica do mundo, pois é um continente massivamente populoso e que está em constante expansão econômica”, argumentou. Ele defendeu ainda o “up” que tocar no continente pode dar na carreira.

“Acredito que exista uma grande relevância e respeito na carreira dos artistas em atingirem a Ásia, já que é um mercado fechado e difícil de chegar”. Liu revelou que já foi até convidado para participar de um reality show sobre DJs na China. “Foi uma grande honra em saber que represento os DJs chineses no Ocidente. Não sei se vou poder participar devido às minhas datas no Brasil”. O garoto toca nesta semana em dois showcases da UP Club (Vietnã, no dia 03, e Tailândia, no dia 04).

Os caras do Sevenn também podem ser considerados parte dessa história. Americanos de nascimento, mas brazucas de coração, os dois têm a maior parte da sua agenda hoje em dia voltada para o nosso país, sendo inclusive representados pela Artist Factory — agência de São Paulo que cuida da carreira de muitos dos nomes aqui citados. O Sevenn está com uma turnê recheada de destinos asiáticos para 2018. Só neste mês de agosto eles vão tocar no Japão, na Índia, na Tailândia e na Coreia no Sul. A Phouse tentou contato com o duo e o Alok para mais detalhes de suas experiências orientais, mas não recebemos resposta até o fechamento desta matéria.

Enquanto para uns a Ásia ainda parece ser “outro planeta”, para outros ela já faz parte da vida profissional. É o caso do FELGUK. Os brasileiros já tocam por lá há quatro anos, e revelaram pra gente que a presença eletrônica no continente só cresce. “Quando falamos da Ásia, falamos da maior população do mundo, a velocidade com que a música eletrônica cresce lá é impressionante. Os menores festivais são quase do tamanho dos maiores daqui. Acredito que nos próximos anos a Ásia será o novo polo da música eletrônica, se já não é”, comentam.

Os dois acrescentam que antes deles, o Wrecked Machines, antigo projeto do Gabe, já havia passado por lá. Ainda segundo os DJs, a vertente mais popular era o psytrance, e a maioria das festas e festivais aconteciam no Japão. Outra característica de destaque no cenário asiático de dance music é a estrutura. “São extremamente inovadores quando o assunto é produção de eventos. Os níveis de produção e tecnologia usados nos clubs e festivais, é de ficar de boca aberta”, lembrou o duo, que já tocou no M2 Club, em Shanghai, e V2Tokyo, no Japão.

“A música como um todo, inclusive a EDM, tem a capacidade de unir as pessoas, independentemente da cultura, do credo e da filosofia” — FELGUK.

Outra dupla que chegou na empreitada oriental recentemente é o Cat Dealers, cujos integrantes destacaram que grande parte da cena de lá é influenciada por padrões ocidentais. “O Top 100 da DJ Mag é bastante influente entre o público asiático. Vários países do continente têm acesso restrito a sites e redes sociais ocidentais, portanto países como a China usam o ranking para saber quem são os DJs em alta pelo mundo”, disseram, indo ao encontro da carta aberta ao público que 3LAU escreveu sobre a relação entre o Top 100 e a Ásia, em 2016.

Para os Dealers, a chegada ao continente asiático também foi proporcionada pela popularização de uma de suas produções mais recentes. Eles revelaram que “depois de ‘Sunshine’, que fez bastante sucesso na Rússia”, foi possível pôr a Ásia na agenda. A turnê incluiu shows na China, Hong Kong, Vietnã e Coreia do Sul, em julho deste ano. Apesar do crescimento do mercado, eles confessam que chegar na Ásia ainda é um “feito inusitado” para alguns. “Os outros DJs sempre nos perguntam como são os detalhes, como é a vibe do público, como são os clubs… Rola curiosidade demais, parece que fomos tocar na Lua”, brincam.

Os números não mentem: tanto os exemplos da exportação dos nossos DJs quanto as pesquisas evidenciam a Ásia como um potente mercado para o setor. Divulgado em maio, o IMS Business Report 2018 já tinha apontado a música eletrônica como o gênero que mais cresceu em popularidade no continente. O estudo revela que 64% da China e do Taiwan escutam dance music, chegando a 74% na Coreia do Sul. Dá pra apostar, então, que vai ter muito DJ indo pra lá nos próximos anos — e, tomara, cada vez mais brasileiros espalhando a sua arte.

Nayara Storquio é redatora da Phouse.

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Entrevista

Federal Music aposta em racionalidade e “pés no chão” para seguir bombando no Brasil

Nayara Storquio

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Federal Music
Raul Mendes no Federal Music. Foto: Filipe Miranda/Reprodução
Raul Mendes explica como driblou o desânimo e os obstáculos para seguir firme com seu festival

O nosso país não passa por um dos melhores momentos econômicos já há algum tempo, e isso afeta vários setores da dance music nacional, entre eles os festivais. Em tempos de vacas magras, o Federal Music Festival vem procurando se reinventar para se manter na agenda, driblando as adversidades impostas pelo momento, pelo público e pelo mercado.

Em 2015, depois de uma intensa campanha publicitária que atraiu pessoas de todas as partes do país, o Brasil conheceu o Federal Music. O festival surgiu em 2011, com o intuito de tornar Brasília uma das cidades referência em música eletrônica, e nesses sete anos acumulou mais de 190 mil frequentadores, virando tradição na capital nacional.

“É muito triste apostar em tendências e as pessoas quererem somente o ‘feijão com arroz’. Meus sócios me fizeram enxergar o evento mais como business: fazer só o que o público quer” — Raul Mendes

O “Federal”, como os brasilienses o apelidaram, é hoje o maior evento de música eletrônica da sua região. “Criamos a maior marca de música eletrônica do Centro-Oeste do país e temos grande parte nisso, pois não medimos esforços até então para trazer o que há de melhor no mundo para cá”, comenta o DJ e produtor Raul Mendes — sócio-fundador do evento ao lado do DJ Raff —, em contato com a Phouse.

Mesmo com os grandes resultados da popularização do gênero no Planalto Central, nem tudo foram flores na trajetória do evento. Com a chegada da crise, que forçou cancelamentos de festivais ao redor do país nos últimos anos, o Federal teve que remar para não desaparecer. “Brasília é uma cidade que anda para trás. Fica cada vez fica mais difícil empreender no mercado de entretenimento. É a comunidade batendo de um lado, a gente tentando resolver de outro, e o público criticando. Difícil equalizar essa vibe. Se tivéssemos mais incentivo e mais tolerância, seria o ideal”, segue Mendes.

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As dificuldades chegaram a um ponto crítico no ano passado, quando Raul chegou a anunciar seu afastamento, alegando desmotivação. “É muito triste apostar em tendências, investir pesado e as pessoas quererem somente o ‘feijão com arroz’ comercial que toca toda hora”, explica. “Em 2015, 2016 e 2017 foi assim, e cada vez piorando, então tomei a decisão de sair. Porém, o negócio não anda 100% sem a minha presença, e meus sócios me fizeram enxergar o evento mais como business: fazer só o que o público quer realmente ouvir, e pronto.”

A partir de agora, o Federal se planeja para driblar os imprevistos, contratempos e dificuldades impostas pelo macroambiente com “pé no chão, pouca emoção e trabalhando mais dentro do racional”. A edição de 2018 segue dentro dos conformes, e já tem algumas atrações confirmadas. Infected Mushroom, SKAZI, Astrix, Paranormal Attack, Reality Test, Trindade B2B Dimitri Nakov, Freakaholics e Hi-Profile são os nomes para o palco de psytrance em destaque até agora, enquanto os brasileiros Felguk, Liu, Devochka, Cat Dealers, Evokings, KVSH e VINNE, além do italiano Jude & Frank, são os DJs já escalados para o segundo palco, de low BPM/brazilian bass. Diversos outros nomes ainda serão anunciados.

Primeira fase, anunciada no começo do mês, já tem acréscimos

“No psytrance, os heróis são os artistas internacionais. Na house, deixamos de priorizar os gringos e estamos consumindo mais cena nacional. Analisamos quem está mais em evidência no momento em nossa cena — os artistas mais pedidos e os eventos que estão mais bombando”, explica o boss do Federal Music. Além dos dois palcos, em que prometem “cenografia inédita”, o evento trará novidades para este ano. Em primeira a mão, Raul nos adiantou que desta vez o festival terá sua primeira edição “que adentrará o dia”, em vez de se encerrar na madrugada, como de praxe. A produção ainda promete elevar as expectativas em qualidade: “Vamos ter uma entrega jamais vista. Nesta edição teremos muito a nível de experiência, fora o lineup”, concluiu.

Em local inédito, ainda mantido em segredo, a oitava edição do Federal Music vai rolar no dia 11 de outubro. Em lote promocional, os ingressos já disponíveis via Sympla.

Nayara Storquio é colaboradora da Phouse.

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Premiere

PREMIÈRE: Gezender, Moebiius – Samadhi (BLANCAh Remix)

Phouse Staff

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BLANCAh Hernan Cattaneo
Foto: Reprodução
Faixa será lançada em EP pela Neurom Records

Hoje tem lançamento de faixa exclusivo aqui pela Phouse. Trata-se do remix de BLANCAh para “Samadhi”, collab entre os produtores brasileiros Gezender e Moebius. A faixa faz parte do EP Tantra, que será lançado oficialmente no próximo dia 26, pelo selo berlinense Neurom Records. Além da original e da produção da BLANCAh, o disco traz remixes dos projetos paulistanos TessutoTeto Preto.

“A BLANCAh é nossa amiga há muitos anos. Ela é de Florianópolis, de onde eu vim, e onde o Moebiius mora, e nosso trabalho tem muitas coisas em comum”, explicou Gezender à imprensa. “Eu mostrei a música para ela, que adorou e topou fazer o remix.” Em contato com a Phouse, a artista complementou: 

“Geralmente quando eu aceito fazer remixes para outros artistas, tenho uma tendência de colocar muito da minha identidade, a ponto de quase parecer outra música. No caso desse remix específico, foi diferente. Foi o trabalho mais generoso que eu fiz porque fiz pensando no Tiago Franco [Gezender]. Pelo carinho que eu tenho por ele, pelo fato de eu já conhecê-lo há um tempão, por conhecer um pouquinho do gosto musical dele, da cena que ele criou em Floripa…”, declarou a BLANCAh. “Então eu tentei usar os sintetizadores um pouco mais rasgadinhos, alguns momentos lembrando de leve um electro, pensando bastante nas lembranças que eu tinha dele. Eu não criei muitas viagens etéreas nele, fui mais específica e direto ao ponto.”

E apesar de o EP só chegar daqui a sete dias, é nesta noite de quinta que vai rolar a festa de lançamento do EP. O rolê é no Tokyo, em São Paulo, a partir das 23h. O lineup traz os autores de Samadhi e dois dos remixers do EP: BLANCAh e Tessuto.

“Convidamos dois dos artistas que fizeram remixes para a ‘Samadhi’, com sets que passeiam entre house, electro e techno”, complementa Gezender. “As influências japonesas presentes no Tokyo, onde acontece a festa, passeiam também pelas nossas produções, e o local escolhido pra este lançamento vem muito a calhar. Vai ter pista fervendo até as 6h da manhã!”

Você pode conferir mais informações na página do evento.

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