“Não existia status nem dinheiro, era pura arte”; um papo com o pioneiro Fabrício Peçanha

O cenário eletrônico brasileiro tem revelado novos talentos a cada dia, e hoje, apesar do caminho árduo, já é possível dizer que você sonha seguir a carreira de DJ sem enfartar seus pais. Ainda assim, a galera mais nova precisa sempre ter em vista o exemplo dos pioneiros, que foram na cara dura teimar em ser DJs em um mercado quase inexistente.

É o caso do gaúcho Fabrício Peçanha, que partiu do underground porto-alegrense — sim, isso um dia existiu — para virar referência absoluta no Brasil. Atualmente na terceira década de sua carreira, o DJ segue muito-bem-obrigado; mora em Floripa, que considera o Polo brasileiro da dance music, produz suas tracks, agita com seu novo selo, New.Wav, e se apresenta solo e com o Life is a Loop — trio formado com o DJ Leozinho e o percussionista Rodrigo Paciornik.

Abaixo, você confere o papo que batemos com Peçanha sobre esses e outras temas tão presentes em sua trajetória.

Set recente do DJ no club catarinense

Você é um cara que começou a carreira nos anos 1990, quando a acid house bombava na Europa e a dance music saia das fraldas no Brasil. O que você mais percebe de diferente entre aquela época e os dias de hoje no cenário brasileiro?

A popularidade da música eletrônica é o que mais me impressiona. Nos anos 1990 existiam poucas pessoas na sua cidade com quem você pudesse falar sobre esse estilo de som. A cena era muito pequena, rolava só no underground.

Atualmente, quais os pontos mais fortes e os mais fracos no nosso cenário?

Os mais fortes são os talentos que temos aqui, a popularidade crescente da dance music no País e a qualidade dos eventos. É impressionante como o brasileiro se vira bem em situações caóticas como a que vivemos! Os mais fracos, certa imaturidade da cena — normal, por ainda estar em evolução — e a corrupção política, que acaba dificultando o trabalho de todos por aqui.

Sei que você gosta muito de música desde criança e acabou caindo na cultura de pista a partir de DJs que tocavam em clubs underground em Porto Alegre. Mas em uma época pré-internet, como você se mantinha informado sobre o assunto?

Realmente, a internet mudou a vida de todos pra melhor. Lá nos anos 1990 não tínhamos informações do que rolava nos Estados Unidos e na Europa, então quando um amigo vinha de viagem, nos trazia discos e revistas de música. 

Eu acompanhava sempre os trabalhados de bandas como Depeche Mode, Daft Punk, Chemical Brothers, The Prodigy, Kraftwerk… E entre os DJs eu curtia Carl Cox, Little Louie Vega, Green Velvet, Armand Van Helden, Jeff Mills, entre outros.

Seguir carreira como DJ no Brasil ainda é complicado. Imagino que tenha sido muito difícil pra você tomar essa decisão naquela época, quando o mercado era muito menos desenvolvido, não?

Sim, foi bem difícil. DJs no Brasil não ganhavam grana, era uma profissão meio obscura, mas o bacana é que quem estava nessa era porque gostava; não existia status nem dinheiro, era pura arte. Então, tudo era válido pra tocar nas festas: paletear caixas de discos por quadras, levar elas no busão, ir pra faculdade virado porque tocou na noite anterior… A gente fazia isso tudo rindo.

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Como você fez pra se destacar tanto como DJ já naquela época? Ouvi falar que você usava muito redes de bate-papo da época, como o mIRC…

Eu sempre fui um cara bem ativo na cena. Ia a todas as baladas, fazia festas, dava cursos, escrevia em blogs e inclusive participava de grupos de música eletrônica no mIRC, mas fazia isso porque curtia, nunca com segundas intenções. 

Chegou uma época em que criei uma produtora de eventos chamada Re:Existência, responsável por eventos como a Fulltronic, que fazia festas trimestrais com seis a nove mil pessoas. Como eu já curtia computadores, comecei a cuidar do site da produtora, do mailing… Isso tudo acabou me gerando interesse em redes sociais. Quando comecei a tocar mais e ficar com o tempo mais curto, chamei um amigo que era formado em marketing pra me ajudar no meu site e meu Orkut. De lá pra cá eu venho sempre acompanhando o trabalho feito em minhas redes e debatendo com profissionais e com minha equipe para acharmos a melhor maneira de manter contato com o público.

Como se dá a gerência profissional da sua carreira atualmente?

Atualmente eu trabalho com a agência Entourage, baseada em São Paulo. Mantenho contato direto com o Rodrigo Moita, meu agente, e esporadicamente com o Marcelo Ardit, sócio da agência. Conversamos sempre sobre datas, ofertas e posicionamento de carreira.

Também trabalho com a Analog Management, onde o Rassi e o Jota ajudam a cuidar da minha carreira; analisamos as datas, falamos sobre tracks, lançamentos, agenda em geral, gigs e tudo mais.

Junto disso tem duas pessoas na equipe que me ajudam bastante: o Marco Meirelles, que cuida do meu marketing e das minhas redes sociais, e o Rafael Maes, responsável pela parte jurídica do meu negócio. Os dois me aconselham muito e me ajudam a achar a direção certa nas decisões.

Recentemente, escrevi uma matéria sobre a história do Fim de Século Club, onde você começou a carreira. O que você mais sente saudades dessa época e quão importante foi o FDSC para a sua formação?

O Fim de Século foi importantíssimo na minha carreira porque foi onde amadureci muito. O público lá era muito exigente, foi um dos meus grandes laboratórios e me ensinou a ser um DJ de verdade. Sinto muita falta da galera que ia no club — 80% do público ia lá todo final de semana, então éramos como uma grande família. Foi uma época muito boa. 

Desde o encerramento do FDSC, além da Fulltronic e da Spin — marcas que você ajudou a construir —, a cultura de pista de Porto Alegre retrocedeu. Nos últimos anos, ela tem voltado a crescer, mas é consenso que ainda falta um club dedicado aos valores da cultura DJ. Por que você acha que Porto Alegre foi vanguarda apenas na época em que a dance music era menor?

Porto Alegre sempre foi uma cidade de vanguarda, de personalidade forte. Uma cidade rockeira, underground, que nunca se rendeu a modismos. Mas precisa alguém fazer algo pro público ir. Na época da Spin, da Fulltronic ou até mesmo do FDSC, tinha gente fazendo as festas por amor à música, tocando sons diferentes dos top 10 das rádios.

Há alguns anos vejo a maioria dos empresários da noite de POA se preocupando somente com o lucro, com o retorno rápido, e dessa maneira os sons fáceis caem como uma luva. A cultura da música eletrônica não funciona assim, é muito mais amor que grana. É um trabalho longo até chegar a um resultado bacana, mas apesar de ver a cena ultimamente meio parada por lá, predominando o comercial, fiquei feliz em saber que já estão rolando algumas festas bacanas e com público expressivo. Pelo que sei, as festas vêm das redondezas de POA — fato curioso, já que capital sempre exportou moda.

Waiting For You, um dos hits do álbum Silver Lining, de 2013

Você escolheu Florianópolis como casa, e também declarou recentemente que o polo mais forte de música eletrônica no Brasil é a região Sul. Você vê Santa Catarina e o Sul mais fortes do que São Paulo? Por que acha que essa região se desenvolveu tanto, e por que apenas o Rio Grande do Sul não desfruta dessa festa?

Eu vejo SC como um polo da música eletrônica, não só porque aqui tem clubs e festivais gigantescos, mas porque a dance music está entranhada na cultura jovem — de centros como Camboriú e Floripa ao interior. Quando se fala de Sul, aí a coisa aumenta porque entra o Paraná, que tem uma cena bacana também.  Muitos fatores ajudaram a cena a crescer na região: clubs como Warung, Green Valley, El Fortin e Pacha, o turismo, os festivais…

No RS temos algumas cidades como Caxias do Sul e Passo Fundo, que vêm se destacando na cena por estar em crescimento constante, mas também acredito que falta um club do estilo em Porto Alegre.

Fabrício, você já foi considerado o maior DJ do Brasil por diversas vezes, sem a necessidade de lançar uma track até 2010. Você acha que se começasse a sua carreira hoje em dia, seria mais difícil para você ser o expoente que sempre foi? E se você não produzisse música, ficaria para trás?

Eu não sei como seria minha vida se começasse a tocar hoje, mas acredito que teria mais ferramentas pra construir minha carreira. Eu produzo há bastante tempo já, mas no começo levava como hobby. De alguns anos pra cá eu comecei a me dedicar mais seriamente à produção, mas não acho que esse seja o fator essencial de eu tocar até hoje. Minha carreira tem uma base de anos trabalhando com ética, seriedade e amor pelo que faço.

Fala-se muito em você ser reverenciado na Argentina, quando os fãs do País empunharam bandeiras do Brasil com seu nome no lugar de “Ordem e Progresso”. O que você acha que faz um DJ provocar um nível tão alto de devoção?

Foi superbacana a maneira que os argentinos me receberam nas vezes que toquei por lá, realmente foram demonstrações de carinho incríveis. Acredito que o som que eu fazia bateu com o gosto da galera, e, além disso, há alguns anos vinham vários argentinos pro Brasil, principalmente no verão. Isso deve ter ajudado a aumentar minha popularidade por lá.

No Life is a Loop, vocês exploram uma faceta mais pop da música eletrônica. Ao mesmo tempo, você é um cara que representa o underground e já declarou ser a favor de “quem luta pela boa música”, “por amor”. Como é pra você conciliar esses projetos? Você não teme ser mal visto pelos fãs mais puristas?

O Life is a Loop foi projetado pra grandes públicos, por isso acabamos fazendo um som mais forte, mesclando electro, techno e progressive. Apesar de curtir um som mais club, eu sou um cara eclético — se a musica é boa e tem como encaixá-la no set, eu faço. Meus sets sempre foram assim, curto aquela quebrada de estilo, mas que se enquadre no andamento.

Com o Life is a Loop, tocamos um som up, mas fugindo do padrão. Colocamos algumas acapellas clássicas no set em vez de tocar som de rádio, e fazemos uma mescla que fica diferente do que a galera tem tocado nos festivais. 

Quanto aos fãs, 95% entendem bem os diferentes formatos, mas é aquilo… Mesmo que eu faça tudo perfeito, não vou agradar a todos.

Você conhece muitos DJs que colocam o dinheiro acima da “boa música”?

Sim, muitos… Já tive que escutar coisas como “eu toco apenas pra ganhar dinheiro” ou “eu virei DJ pra pegar mulher”. Essas declarações me agridem, já que isso pra mim é arte e cultura.

E quanto ao Fabrício Peçanha Live, você não tem mais tocado com esse projeto?

Esse projeto ficou incrível, mas foi um passo grande, já que pra montar ele acabou ficando muito custoso. Mas o projeto está pronto e no momento estamos em busca de patrocinadores pra viabilizarmos aos clubs.

Recentemente você lançou sua nova label, a New.Wav. Você declarou ao Portal Underground que a ideia principal do selo é juntar grandes talentos que têm poucas oportunidades e reunir diversos grupos que trabalham separados. Quem seriam esses talentos e grupos?

Nossa ideia é ser um grupo que possa reunir outros grupos. Aqui em Santa Catarina temos várias pessoas que fazem projetos interessantíssimos, mas muitas vezes falta um empurrão pra coisa decolar. Outras vezes é um DJ que tem talento, mas que às vezes precisa de um conselho ou uma oportunidade. Nós queremos ajudar nesse sentido. Quem estiver ativo e a fim de fazer projetos legais, por amor à música, pode nos procurar.

O que você acha de toda essa dicotomia mainstream X underground e o polêmico cenário EDM?

Eu penso que se alguém tiver o gosto diferente do meu ele não é pior ou melhor, ele só tem uma visão diferente, e isso não o torna meu inimigo. O caráter sim, isso me importa. Acredito que podemos conviver todos em harmonia e sempre se respeitando; o que é bom pra um não é pro outro, e temos que aceitar esse fato. Além disso, a música comercial, que engloba muitas tracks de EDM, é uma porta de entrada para novos amantes de música eletrônica.

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