Não, não há nada de novo no vídeo que “revela” os samples do Daft Punk

Fake News? Um “novo” vídeo que lista os samples usados em músicas do Daft Punk bombou nesta semana, mas tem um pequeno problema: é notícia requentada, e contada pela metade.

Viralizou nesta semana um vídeo publicado em 11 de fevereiro por um canal do Youtube de um fã do Daft Punk, chamado Daftworld [atualizado: conversei com o Rafael Silva, do Arcade Fighters, que também é adm no Daft Punk Brasil, que me revelou que o tal Daftworld não é nada bem-visto em seu meio]. Nos últimos dias, os grandes portais de música eletrônica da gringa começaram a publicá-lo alucinadamente, em efeito cascata, como se fosse grande novidade. Naturalmente, por mérito da construção da imagem da dupla, tudo que cerca o universo do Daft Punk é carregado de muito misticismo e tende a ser hiperdimensionado — em bom português, qualquer peidinho sobre os caras vira estardalhaço. O problema é a imprensa não fazer direito o seu Homework [hehe] e tratar figurinha repetida como nova.

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O famigerado vídeo é este que você vê acima. Portais como a DJ Mag chegaram a escrever que “um novo vídeo do Youtube criado pelo Daftworld documenta as fontes dos lançamentos mais famosos do duo”. Acontece que há uma série de erros aí:

O vídeo não é novo: os portais caíram no conto do vigário porque o Daftworld simplesmente escreveu em seu título “Official Daftworld Video”. Eles simplesmente colaram dois vídeos do canal Tuneid Records: um de 2013, feito originalmente por Mike Flangerus; outro lançado — vejam só! — no dia 11 de fevereiro [veja ambos abaixo]. Não precisa ser nenhum Xeroque Rolmes pra sacar que o pessoal do Daftworld viu o novo lançamento da Tuneid, misturou com o vídeo antigo e, no mesmo dia, kibou na cara dura, ganhando os créditos por ter mais assinantes;

Os dois vídeos da Tuneid, que geraram o que tem sido divulgado como grande novidade

– Mesmo que o material em questão não fosse kibado, existem outras dezenas de vídeos, alguns ainda anteriores a 2013, mostrando diversos supostos samples usados pelo Daft Punk. O assunto é antigo, bem antigo, e também controverso. Do mesmo ano, The Sampling of Daft Punk [veja abaixo] tem 24 minutos e, além de trazer mais material, praticamente prova como a dupla construiu suas faixas a partir desses samples, ao simulá-los. Mesmo assim, não podemos cravar nada;

– Isso porque, como já expliquei em artigo de março do ano passado, em que analisei boa parte desses samples, a grande maioria deles não foi confirmada pela dupla — e esta é uma informação crucial que os portais gringos também deixaram passar batido. Como escrevi em 2016: “A controvérsia que ainda pega é que, oficialmente, no encarte do Discovery [álbum a que pertencem quase todas as músicas listadas], o Daft Punk só creditou o uso de quatro samples [em ‘Digital Love’, ‘Harder, Better…’, ‘Crescendolls’ e ‘Superheroes’]; o Thomas Bangalter chegou a declarar que os outros samples apontados por diversas fontes na internet [inclusive pelo aclamado Who Sampled] não são verdadeiros, e que boa parte do que foi sampleado no Discovery teria sido gravado ao vivo pela dupla”. Isso fica ainda mais estranho quando observamos que, ouvindo boa parte dos casos não oficializados, o uso desses samples é cristalino. No entanto, nada mais parece ter sido dito pela dupla a respeito nesses anos todos, tampouco ficamos sabendo de qualquer ação judicial dos donos dos direitos das supostas músicas que renderam os samples — algo que seria lógico se eles tivessem sido roubados. Esse parece ser um mistério não esclarecido até hoje.


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Claro, é sempre bacana relembrar esse conteúdo e redescobrir faixas antigas incríveis, pelas quais os franceses teriam tirado material bruto pra lapidar brilhantemente algo novo, e por isso esse compartilhamento é válido — mas os jornais têm a obrigação de passar a informação apurada, ou então ficaremos num eterno loop de redescobrir a roda a cada ano. Também infelizmente, a cada vez que esses vídeos ressurgem lemos alguns comentários de pessoas que não compreendem a produção de música contemporânea, e tendem a se dizer desapontadas pelo Daft Punk ter “copiado música dos outros e assumido o crédito”. Não, amiguinhos; tudo é um remix, e Guy-Man e Thomas apenas usaram material do passado pra recriá-lo de uma forma tão criativa e genial que nenhum de nós conseguiria. O ladrão de ideia dos outros aqui foi o Daftworld mesmo.

* O Discovery completou 16 anos no último dia 26. Se você quer sacar mais sobre o segundo LP do Daft Punk, entender melhor o caso dos samples e conferir as referidas músicas na íntegra, não deixe de ler: O que o Daft Punk sampleou [ou não] pra fazer um dos álbuns mais importantes da história.

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