Alok e SELVA

Parece que diversão e cultura incomodam pra caramba os “cidadãos de bem”.

Não foi à toa que a redação do Beatport elegeu Curitiba a cidade com o terceiro potencial de emergência pra dominar a dance music no mundo todo. A cena da capital paranaense cresce em um ritmo tão intenso que, na sua segunda edição anual consecutiva, o Pré-Carnaval Eletrônico [chamado no ano passado de CarnaVibe] praticamente dobrou o seu número de participantes. As contagens oficiais do evento que trouxe Alok, Illusionize, Repow, Rafael Araujo e companhia pro meio do centro da cidade variam entre 70 a 100 mil: é uma cacetada de gente, que mostra que a cultura clubber curitibana pode estar atraindo tantos adeptos quanto os nichos mais populares — afinal, o registro é de que esse foi o carnaval de rua mais popular da história da cidade.

Não é necessário enfatizar o quanto isso tudo é relevante pro nosso País. Guardadas as proporções e diferenças estéticas e políticas, esse carnaval é a resposta paranaense ao SP na Rua, que surgiu quando a prefeitura de São Paulo percebeu a relevância dos coletivos de festa de rua que estavam revolucionando a cidade, e os abraçou. É muito importante que essa cultura saia do ambiente dos clubs e vá pras ruas, no meio do povo todo, pra arejar; enquanto ela se recicla e expande os seus horizontes, o povo ganha um festão lindo de graça, na rua.

Mas aí vêm as tretas. Em um país tão grande e com tantos problemas sociais e de educação, é natural que eventos massivos de rua deem merda. No SP na Rua já se discutiu muito a questão dos arrastões, que eventualmente acontecem. Em Porto Alegre, o coletivo Arruaça, que também traz a cultura DJ pra rua, está refletindo sobre como solucionar o problema dos assaltos sem abrir mão de seus ideais anarquistas. O carnaval de Curitiba é majoritariamente financiado pela iniciativa privada, o que é bom por um lado — diminui significativamente o custo público —, mas ruim por outro: elimina parte do ideal de ocupação genuína do espaço público, já que traz regras do mundo corporativo [proibida entrada de bebidas, você tem que comprar da marca patrocinadora por preços abusivos, etc.]. Com esse caráter, ele pode contar com uma estrutura foderenga de segurança, que também tem seus ônus e seus bônus, mas que em meio a uma sociedade violenta e individualista, se faz necessária.

Mesmo assim, é difícil evitar a confusão. Algumas versões de testemunhos dão conta de que tudo teria começado com um sujeito atirando uma garrafa num carro da Rotam. Aí a PM reage daquele jeitinho meigo que a gente já conhece: bombas de efeito moral, balas de borracha, e o pau come solto. O fato é que tanto a prefeitura quanto as autoridades reconheceram que foram atos isolados, de poucos minutos e com no máximo cem pessoas arranjando confusão — nada comparado, por exemplo, ao caos generalizado promovido por torcidas organizadas em jogos pontuais do Coritiba ou do Atlético PR. O curioso, é claro, é que focar no 1% que deu errado [aquele 1% safado] é bem sedutor pra alguns jornais — seja por clickbait, seja por questões políticas.

Você, então, acessa os veículos mais tradicionais que estão falando no evento e quando vê cai no maravilhoso mundo dos comentaristas de portal — esses seres tão tolerantes, educados, progressistas e cultos — e se depara com citações brilhantes como estas:

ATENÇÃO: CENAS FORTES — É ALTAMENTE RECOMENDADO VESTIR SUA MÁSCARA ANTICHORUME PARA LER OS COMENTÁRIOS A SEGUIR

1

Bando de malacos!

2

“Pessoas de bem e famílias” “Essa temática eletrônica atrai esse tipo de público”

3

Esse daí com certeza usa termos como “Bolsomito”

4

“Você está apoiando esses baderneiros, vagais???”

5

Vamos, tesouro! Não se junte a essa gentalha!

6

“Se fossem como eu teriam passado o dia em casa cuidando de seus assuntos!” Tá certo, cultura, diversão e rua é coisa de vagabundo

7

Ela demorou, mas chegou: a xenofobia!

8

Só melhora…

9

Sim, P.L.U.R na verdade significa “Porrada, Larica, Urucubaca e Rapinagem”

10

Esse cidadão de bem certamente se engaja pra resolver todos esses problemas

11

Tem ainda páginas e páginas de ressonância no mesmo tom, mas no fundo tudo isso é positivo: quando estamos incomodando aqueles que acham que investir em cultura é supérfluo — pessoas que usam termos como “cidadão de bem” e “gente de família” e depois vão fazer festinha em aeroporto pra recepcionar aquele Donald Trump brasileiro —, é porque estamos no caminho certo.

Que mais prefeituras tenham o bom senso das de São Paulo e Curitiba, mas não se enganem: as tretas só vão ser erradicadas quando vivermos em uma sociedade mais justa e educada. Que cada um faça a sua parte.

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