Frankie Knuckles

Conhecer o passado é essencial pra projetar o futuro.

Ontem falamos do fundamental dia da mulher e mal deu tempo de respirar: hoje já temos outra data importante, o dia do DJ. Assim como o dia de ontem — e guardadas as devidas proporções que a comparação exige —, hoje não é apenas um dia pra mandar parabéns pros amigos DJs e celebrar seus heróis; é muito mais. O dia do DJ existe também por causa de muita luta e quebra de preconceitos. Vamos lembrar que até não muito tempo atrás ser DJ era pejorativo, a sua arte era incompreendida e os músicos não admitiam os dejotas no time. O dia do DJ é um marco que representa essa batalha pelo reconhecimento e contra a discriminação.

Comecei a escrever sobre cultura DJ, em setembro de 2014, a partir do site que fundei e sigo administrando, o LOFT55. Uma das molas propulsoras dessa iniciativa era a de fomentar e tentar resgatar os valores dessa cultura no Brasil, em uma época em que ela se encontrava bastante desvirtuada — fosse pelo fato de a EDM ter cooptado e esvaziado seus valores originais, fosse pelo fato de a arte da construção de set ser ignorada em muitos Estados e cidades do Brasil. Era o famoso movimento de banalização em que qualquer um era DJ, ao mesmo tempo em que quase ninguém era, na verdade.

“O Brasil, país do pluralismo cultural, do samba, da ginga e do carnaval, salvo uma gama riquíssima de exceções brilhantes, nunca foi o País da dance music. Em regiões menores, distantes dos principais centros urbanos, DJ, no imaginário popular, remete a puro e simples entretenimento”; foi o que escrevi no primeiro texto de LOFT55, há quase um ano e meio atrás. Hoje, o cenário felizmente já é outro, e tanto no mainstream quanto no underground as coisas têm evoluído bastante. Mas ainda existe uma carência em particular muito grande por aqui: a falta de conhecimento sobre a história dessa cultura DJ.

Temos cada vez mais uma molecada frequentando os mais diversos festivais no Brasil todo, curtindo música feita em computadores e, naturalmente, querendo ser DJ ou produtor. Essa gurizada pode ser autodidata, aprendendo em tutoriais na internet, ou achando bons cursos de mixagem e de produção. Esses cursos, porém, não costumam enfatizar a história e o significado do que é ser DJ, e em um País com um índice de educação tão baixa e com um analfabetismo funcional que parece cada vez mais alto, o ato de ir atrás de informação sobre as origens dessa cultura sequer é considerado. Essa informação ainda está bastante fragmentada por aí, entre bons sites na internet, livros e documentários, e a maior parte desse conteúdo especializado está em inglês, o que acaba dificultando ainda mais.

Seja no LOFT55 ou aqui na Phouse, temos essa preocupação em educar, sim, por mais que isso possa soar pretencioso a alguns. Mas não deveria: educar diz respeito a trazer a informação a  um grande grupo de pessoas que dificilmente teria acesso a ela. E é uma das coisas que venho martelando por aqui: me incomoda bastante a falta do conhecimento básico de como nasceu e se desenvolveu a cultura de pista, no mundo e no Brasil, por parte dos fãs de EDM. E isso acaba produzindo uma cultura superficial, em que os seus fãs e os seus próprios astros carecem de conteúdo pra produzir algo com mais substância. Conhecer as origens não é apenas saber uma história bacana; é algo fundamental que vai te dar a sustentação pra tudo o que você fizer daí pra frente. Descobrir o passado é essencial pra projetar o futuro — e é por isso que as escolas de DJs erram em focar na técnica e ignorar a essência. Quem não tem a referência dos pioneiros vai fazer um som igual ao dos anos 80 e achar que está inventando a roda; ou vai fazer o som da moda e ficar na vala comum, porque tem uma visão limitada. Entrevistas que fizemos com lendas brasileiras, como o DJ Meme, vão justamente nesse sentido de resgate da nossa história.

Concordando ou não com o polêmico desabafo do Vintage Culture sobre o Tomorrowland, uma coisa ali me chamou a atenção positivamente. O produtor falou assim: “[…] as pessoas com quem eu trabalho são pessoas alinhadas por uma mesma visão, um mesmo ideal. Esse ideal vem lá dos primórdios da cultura da música eletrônica e carrega basicamente os valores da liberdade, da igualdade e da união, ou seja, é piegas mas é isso mesmo”. Isso mostra que um dos artistas que, gostando ou não, é hoje um dos maiores nomes da dance music no Brasil, conhece a sua história. Não deve ser por acaso.

Sim, a cultura DJ se consolidou nos anos 70, nas mãos de pioneiros como os ítalo-americanos Francis Grasso — o primeiro DJ a chamar atenção pela técnica, mixando incrivelmente disco music, soul e rock em toca-discos que sequer tinham controle de pitch — e David Mancuso, que fundou o famigerado The Loft, em Nova Iorque. O Loft era a própria residência do DJ, que recebia apenas convidados em sua casa/balada ao passo que discotecava a mais fina seleção de disco music. Foi ali, reunindo um pot-pourri harmônico de brancos, negros, latinos, judeus, italianos, gays e heteros que esses ideais de fraternidade, igualdade e amor começaram a se propagar, e o Loft foi o embrião para os clubs que viriam depois nos EUA, como a Paradise Garage de Larry Levan e a Warehouse de Frankie Knuckles, onde a house music se estabeleceria. A house influenciaria o techno e invadiria a Inglaterra no fim dos anos 80 pra se juntar ao ecstasy e formar o segundo verão do amor e a cultura raver.  Vê? Ao contrário do que muitos pensam, a cultura DJ surgiu antes da própria música eletrônica — e ainda tem toda uma conexão com cenas mais antigas dos anos 60, como a Northern Soul britânica e a cultura jamaicana de soundsystems urbanos e dubs. É muita história, e obviamente não dá pra gente contar tudo aqui de uma vez só. Isso fica pra ser mais bem apresentado em outros textos, em outras ocasiões.

Feliz dia do DJ!

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