O britânico cancelou todas as suas gigs em 2016 para se tratar da doença; infelizmente, ele não foi o primeiro e nem será o último da indústria a passar pelo problema.

O DJ e produtor de techno Ben Pearce é uma nova vítima da depressão. Na segunda-feira, o artista afirmou, através da sua página no Facebook, que está cancelando todas as suas datas para o resto deste ano para poder tratar o problema.

“É com muita tristeza que estou cancelando todos meus shows em 2016. Tenho lutado contra a depressão nos últimos anos e, mesmo com ajuda profissional, acabei chegando num ponto em que percebi que essa é a única opção que me restou”, escreveu o DJ inglês, salientando não estar encerrando a carreira, mas dando um tempo para tentar recuperar um estado mental saudável. “[A depressão] É um problema real, que não é debatido o suficiente na nossa sociedade ou na indústria musical, e eu espero que meus fãs e colegas entendam a minha decisão. Pode parecer fácil se esconder atrás de redes sociais e drogas e fingir que nada está acontecendo, mas isso não se sustenta no longo prazo.”

Apesar de muita gente desdenhar e considerar um problema menor, “falta de laço” ou frescura, a depressão é uma doença extremamente grave e perigosa, que sem a devida ajuda profissional pode arruinar vidas, carreiras, relacionamentos e até levar ao suicídio — como esquecer do lendário Fausto Fanti, do Hermes & Renato, que nos deixou tragicamente em 2014? Não à toa, o universo dos artistas, sobretudo dos DJs e músicos, é um terreno bastante fértil pra desencadear a depressão e outros tipos de complicações mentais. Ainda assim, o assunto é tabu, e como Pearce falou, não é debatido o suficiente. Neste caso, temos que salientar o bom trabalho que a editoria da VICE tem feito sobre esse tema.

No começo deste mês, Nick Jarvis escreveu para o THUMP [canal de dance music da VICE] a matéria “Como o trabalho de DJ pode ser péssimo para a saúde mental”, que aborda justamente como a rotina quebrada causada por turnês, falta de sono e exercícios físicos, alimentação inadequada e o consumo excessivo de drogas podem levar os DJs a problemas muito graves. O exemplo de Avicii — que teve que ser hospitalizado algumas vezes e neste ano decidiu encerrar a carreira de DJ — é um dos mais notáveis, mas Jarvis também citou Erick Morillo, Benga e deadmau5 como artistas famosos do cenário que enfrentaram problemas semelhantes. A produtora Louisahhh e o italiano Crookers também revelaram ao autor que tiveram que escolher a sobriedade total para conseguir manter suas carreiras em pé.

“A Victoria University publicou um relatório no ano passado, ligando a prevalência de problemas de saúde mental entre os profissionais da arte a baixos salários, excesso de horas extras e problemas de segurança nas condições de trabalho. E 60% dos músicos pequisados pela instituição beneficente inglesa Help Musicians afirmaram já ter sofrido de depressão”, escreveu o autor. “Mas mesmo aqueles que surfam a onda do sucesso correm risco de sofrer com a saúde mental. Sono defasado, isolamento na estrada e longos meses longe das redes de apoio proporcionadas por família e amigos, um círculo de colegas em que a competição é forte e as críticas comem soltas, haters de internet, e um trabalho caracterizado tanto por auges estonteantes quanto por pontos baixos devastadores: tudo isso pode trabalhar em conjunto para tornar muito ruim a vida até mesmo do artista de maior sucesso. Some-se a essa equação também um estilo de vida repetitivo, que muito provavelmente funciona na base de fast food, nenhum exercício físico e consumo exagerado de drogas e álcool, e não falta mais nenhum componente para o desespero.”

Antes desse texto, porém, a VICE já tinha diversas outras publicações a respeito. O NOISEY, sua outra plataforma sobre música, mantém desde 2015 a coluna “The NOISEY Guide To Music and Mental Health” [“O Guia NOISEY Sobre Música e Saúde Mental”], que reúne cerca de 20 publicações sobre o tema, incluindo entrevistas e depoimentos de artistas que enfrentam ou enfrentaram os mais diversos tipos de problemas psicológicos, como ansiedade, bipolaridade, TDA, e a famigerada depressão. No ano passado, Ryan Bassil defendeu que “A indústria da música precisa acordar e apoiar artistas com problemas de saúde mental”.

Já neste ano, a VICE dedicou a terceira semana de maio para ser a “Semana da Conscientização da Saúde Mental”, focando na indústria da música. A partir daí, eles produziram o minidocumentário A Light Went Out: A Short Film About Mental Health in the Music Industry [veja acima], que traz dois músicos independentes e seus relatos sobre problemas de ansiedade, deslocamento social e depressão na infância e juventude, e como a música pode ajudar com essas questões, mas também servir de escape, junto com as drogas.

Um mês antes, em abril, o jornalista e músico John Doran escreveu sobre como a indústria musical está repleta de gente completamente despirocada das ideias — pessoas que provavelmente não prosperariam em outros mercados, mas que mesmo lunáticas, conseguem certo sucesso. O próprio Doran é autor do livro autobiográfico Jolly Lad, no qual conta como se recuperou de alcoolismo, problemas com drogas e transtornos psíquicos.

O fato é que Ben Pearce não foi o primeiro e não será o último artista a ter que interromper a carreira por problemas psicológicos — e não podemos esquecer de casos emblemáticos dentro da música, como Ian Curtis, do Joy Division, e Kurt Cobain, do Nirvana, que cometeram suicídio e se transformaram em espécie de mártires, ou outros como Amy Winehouse e Michael Jackson, que possuíam vidas e psiques completamente problemáticas e turbulentas, o que também eventualmente os levou à morte. De fato, o mundo da música é um prato mais do que cheio para Freud.

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