O Moby trollou os “comedores de carne” em nova campanha contra a seca

Moby

Ativista pelos direitos dos animais, Moby é uma figura importante para ajudar a disseminar o veganismo; em campanha irônica contra a seca, contudo, pode ter feito um “gol contra”.

DJ veterano e nome importante da cena há décadas, uma das coisas mais legais do Moby é o seu ativismo pelos direitos dos animais. Sendo uma pessoa pública influente e com muita grana, Moby pode fazer gordas doações pela causa, já contribuiu em inúmeras campanhas — um vídeo de Almost Home, por exemplo, foi feito em parceria com a Best Friends Animal Society, para incentivar a adoção de cães e gatos abandonados — e, principalmente, pode ajudar a disseminar o veganismo, que é uma filosofia de vida que prega o fim da exploração humana para com os animais.

O veganismo é uma tendência cada vez mais forte globalmente, mas ainda esbarra em diversos preconceitos e falácias fáceis, principalmente pela questão da dieta vegetariana, que para muitas pessoas é difícil de ser adotada. Somos uma sociedade que cresceu e está acostumada a consumir produtos oriundos da crueldade, e assumir isso e abdicar de privilégios pode ser muito difícil para muita gente. Portanto, quando mais recentemente o Moby lançou um vídeo apoiando a campanha Skip Showerings For Beef [Pulando banhos pela carne], ele pode ter cometido um gol contra.

A trilha melodramática e a mensagem que prega uma “carne sustentável” e “sem culpa” dão o tom da ironia da campanha

A campanha se trata de um website irônico, que apresenta uma alternativa “simples” para lutar contra a seca que ameaça a Califórnia e tantos outros lugares no mundo [alô, São Paulo!]. Isso porque o agronegócio hoje é uma das maiores fontes de desperdício de água: para a produção de apenas um filé, por exemplo, são necessários 1.800 galões d’água [aproximadamente 7 mil litros]. Satiricamente, portanto, Moby e o Skip Showerings For Beef alegam ter a solução: para combater a seca sem precisar abrir mão de comer carne, basta pular a quantia de banhos correspondente à utilizada pela indústria. Por exemplo, para comer um bife e combater o desperdício de água que a sua produção demandou, basta pular os próximos 105 banhos. Simples!

Skip Showers

Tabela do skipshoweringsforbeef.com mostra, em unidades norte-americanas, quantos banhos precisam ser evitados para consumir determinada quantia de carne

Apesar de Moby ter razão e de que, de fato, o agronegócio e o consumo de produtos de origem animal causem malefícios enormes à sociedade — como questões de saúde pública, fome e economia —, o foco do veganismo é os animais. Dificilmente vira-se vegano para lutar contra a seca ou mesmo por saúde pessoal, mas para acabar com a crueldade arcaica e desnecessária que é imposta a bilhões de seres sensíveis por ano em nome de indústrias variadas. Ademais, a maioria das pessoas reage na defensiva e desconsidera o veganismo veementemente mesmo frente a argumentos lógicos e racionais; criticar as ações de pessoas não-veganas através de ironia e deboche só as deixa putas.

Por isso, entendo que a campanha, apesar de coerente, pode acabar fomentando a raiva das pessoas para com a causa e passando uma mensagem errada, quando poderia mostrar, educacionalmente e sem a indução de culpa, como as grandes corporações torturam e assassinam animais das maneiras mais bárbaras; e em como estamos acostumados a sustentar esse tipo de exploração sem sequer percebermos. Moby, eu concordo com você e defendo o que você defende, mas nessa você mandou mal.

* O veganismo é um tema complexo que requer muito estudo, mas, como estamos em um site sobre cultura DJ, não entrei em detalhes. No entanto, se você quer saber mais sobre o assunto, estou disposto a ajudar pessoalmente. :)

Flávio Lerner

Autor: Flávio Lerner

Editor da Phouse desde maio de 2017. Colunista desde maio de 2015. Twitter: @flavio_lerner