O pioneiro do techno Juan Atkins acusou um ranking de DJs de racismo

O pioneiro do techno Juan Atkins acusou um ranking de DJs de racismo

O DJ veterano chama atenção pra falta de diversidade da cultura EDM.

Depois do infame Top 100 da DJ Mag e do menos infame Top 100 do Resident Advisor, me deparei recentemente com mais um desnecessário chart de DJs. Chamado The DJ List, esse catálogo [que na verdade faz parte de um portal homônimo dos EUA] tem algumas peculiaridades, como o fato de não ser estático — é atualizado constantemente — e de conter atualmente 25,699 nomes. Esses DJs estão classificados, segundo o site, por voto popular, relevância nas redes sociais e um algoritmo próprio que não sabemos como funciona. Por causa disso, eles mesmos se consideram o provável melhor ranking de DJs do mundo [ideia genial: por que não criam um ranking com os melhores rankings de DJs do planeta?].

A DJ List é apenas outra ferramenta que insiste em transformar seres humanos em números e que, como o Top 100 da DJ Mag, funciona como joguete mercadológico pra inflacionar os cachês dos figurões da EDM. Por que então jogar holofotes nesses caras? Porque como de praxe, essa lista foi motivo de polêmica — mas desta vez, por outras razões.

Assim como a controvérsia que ressurgiu com força a partir do último Oscar — quando, pelo segundo ano consecutivo, todos os atores indicados eram brancos, o que motivou debates e boicotes de figuras da indústria do cinema, como Spike Lee, Michael Moore, Will Smith e sua esposa Jada Pinkett Smith —, a DJ List vem sendo acusada de racismo. O acusador é ninguém menos que o lendário Juan Atkins, que formou ao lado de Derrick May e Kevin Saunderson o Belleville Three, o tripé fundador do techno em Detroit.

“Descobri recentemente a DJ List, e para o meu desgosto, do #1 ao #98 são todos brancos. Os únicos DJs negros [entre os 100 primeiros] são os #99 e #100”, disse Atkins em sua fanpage. “Estamos em 2016 e não há mais espaço pra racismo […], então eu anuncio que liderarei uma cruzada para que a DJ List seja destruída, desmontada, deletada e substituída. […] Todos sabem que os DJs negros estão entre os melhores e são os responsáveis pelo desenvolvimento da dance music e da cultura DJ.”

O Juan ainda soltou outros posts sob o tema. “Eu entendo o que vocês estão dizendo sobre essa lista [não valer nada] e eu concordo, mas o fato é que se meu nome fosse o #1 em qualquer um desses rankings, eu poderia provavelmente quadruplicar meu cachê. […] Parece que eu nunca vou ter essa oportunidade, não por causa de falta de talento ou técnica, mas por causa da minha raça. E isso é injusto”, disse, em um deles. Em outro, aproveitou pra rebater o sempre cretino argumento de inveja/recalque/“reclama porque está de fora”: “Por favor, entendam que não se trata de eu querer estar em uma lista cafona, se trata de um embate econômico”.

Embora atualmente a lista traga Carl Cox na 47ª posição [mas sem nenhum outro negro entre os cem primeiros — depois de Cox temos Jamie Jones (#103), The Green Velvet (#142) e Seth Troxler (#146)] —, o discurso de Atkins é bastante pertinente, mas parece que mira o alvo errado: a DJ List é apenas uma consequência de um problema maior. O Juan Atkins não está de fora dela por ser negro, mas por não ser mainstream. A questão verdadeira é: por que o cenário EDM tem tão pouca diversidade?

A cultura de pista foi estabelecida em grande parte não só por negros, como disse o Atkins, mas também por latinos e gays, e hoje sua faceta mais popular corresponde a um catálogo de homens brancos, atléticos e heterossexuais — figuras muito mais vendáveis para o grande público, que não aceita tão bem quem foge desse padrão novela das oito. Como provoquei em um dos meus primeiros textos aqui pra Phouse, que fala justamente sobre essas apropriações: quantos DJs de EDM negros ou assumidamente gays você consegue elencar?

A DJ List, por focar nos nomes mais populares dessa cultura, acaba sendo um espelho que reflete essa disparidade — exatamente como o Oscar; exatamente como o ranking da DJ Mag, que chamou atenção também para ausência das mulheres. É extremamente irônico que uma cultura que foi fundada sobre os alicerces da igualdade e que surgiu como afirmação dessas minorias [que nos anos 1970 eram ainda muito mais discriminadas] tenha seguido esse caminho, mas esse é justamente o modus operandi da nossa sociedade do consumo. Aos poucos, vamos progredindo nessas questões éticas, mas ainda falta um longo caminho pela frente, e por isso mesmo é sempre importante que figuras como o Juan Atkins [ou o Will Smith, ou o Spike Lee] não se calem.

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