Ou: por que o Justice falhou em ser o Daft Punk.

Woman, o terceiro e novíssimo álbum de estúdio do Justice, foi lançado 18 de novembro, via Ed Banger Records e Because Music, mas eu preferi esperar e dar uma digerida com calma pra poder falar sobre ele, sem precipitações ou conclusões apressadas. Ontem, tivemos o lançamento do novo clipe oficial para o quarto single do LP — “Fire”, que sucede “Safe and Sound”, “Randy” e “Alakazam !”, que infamemente separa o ponto de exclamação do corpo do texto, como tem sido convencionado em conversas de whatsapp e posts raivosos no Facebook.

Fire: legal, mas nada demais

O vídeo traz os franceses Gaspard Augé e Xavier de Rosnay lavando um carro e depois pegando um carona com ninguém menos que a Susan Sarandon em uma estrada no meio do deserto estadunidense. É bacana, mas provavelmente passaria batido sem a presença da atriz famosa. Primeiro, porque de todos os singles, “Fire” é o mais fraquinho — ou o menos bom. Depois, porque o clipe reflete muito bem o momento pelo qual o Justice e passa com seu novo disco: tenta causar furor, mas falta substância.

A dupla tem sido bastante comparada com o Daft Punk desde que surgiu, não apenas por beber diretamente do legado destes, mas também por tentar adotar uma postura semelhante, de ficar a maior parte do tempo ausente dos holofotes e então buscar ressurgir com algo épico e revolucionário. O Daft Punk tem trilhado esse caminho com maestria; dificilmente seus lançamentos e discos não mudam o jogo e marcam uma época. Por outro lado, se o Justice teve êxito em fazê-lo [2007] e, discutivelmente, em Audio, Video, Disco [2011], agora está bem longe disso — tanto que Woman foi lançado há duas semanas e ninguém parece ter ligado muito.

O disco, assim como o novo videoclipe, são bacanas; só. Em um momento em que o conceito de álbum é cada vez menos valorizado na dance music — em que predominam faixas sazonais, descartáveis, para bombar nas pistas por um curto período de tempo —, Woman é acima da média. Seus singles são de razoáveis a bons, e sustentados ainda por faixas excelentes como “Chorus” e “Heavy Metal”. Por outro lado, outras como “Pleasure”, “Fire” e “Stop”, soam como fillers [em bom português, “encheção de linguiça”].

Além disso, por melhores que sejam, as músicas parecem figurinhas repetidas: vimos do mesmo, e melhor, não somente no álbum anterior, mas também em muitas bandas de indie pop/indie no começo desta década, como Friendly Fires e Toro y Moi. “Alakazam !” podia perfeitamente ser uma música do Cut Copy; “Fire”, do Chromeo. E quando vi seu videoclipe, me veio imediatamente a lembrança de “Fallout”, do Neon Indian [assista abaixo]. O clipe, de 2012, em uma parceria com o Adult Swim, tem uma estética bastante similar [apesar de ser um cartoon], porque resgata esse imaginário vintage oitentista que chegou ao ápice em filmes como Drive, de 2011. O vídeo do Neon Indian, porém, é muito mais marcante e rico; ele não se limita a apenas saudar e reproduzir uma imagem, mas também brinca com ela. Já em “Fire”, temos apenas a estética pela estética, o hype pelo hype. É legal, mas esquecível — exatamente como o álbum ao qual faz parte.

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