Opinião

O Seth Troxler profanou o Templo com um loop de funk; queimem o herege!

A celeuma provocada por causa de um vocal de funk carioca no Warung prova que o público da música eletrônica ainda não entendeu nada.

Tem três coisas que eu gostaria de dizer pra quem ficou de mimimi com o Seth Troxler mandando uma acapella de funk no Warung: [1] O mundo é cíclico; [2] Gostar de um estilo musical não te faz melhor do que ninguém; [3] O techno não é sagrado.

Pois bem: se você não sabe do que estou falando, nessa última sexta, 12, o Seth Troxler foi uma das atrações do Warung. Num long set de seis horas na pista principal, o DJ teve a AUDÁCIA de PROFANAR O TEMPLO SAGRADO com alguns segundos de um loopzinho de um vocal de funk. Sim, meio minuto de “Essa mina é um perigo” em cima dum beat de tech house foi o suficiente pra estragar a noite de uma galera numa das maiores e mais conceituadas casas noturnas de house e techno do Brasil — o que revela, mais uma vez, como ainda temos muito o que amadurecer enquanto cena. A reação na pista aparentemente foi amena, mas a repercussão durante a semana nas redes sociais foi estrondosa; parecia que o DJ havia mostrado o saco e cuspido na plateia.

O herege profanou o Templo; fogueira pra ele!

O mundo é cíclico

Não há nenhum movimento musical ou cultural de vanguarda que não tenha incomodado o status quo, a hegemonia cultural de sua época, antes de se consolidar. O processo, como já expliquei aqui há dois anos, é muito simples: nichos criam algo novo e desafiador, que cresce organicamente e atrai cada vez mais novos adeptos; essa nova ideia, que encontra muita resistência da maioria, vai se popularizando; explode, é cooptada pelo mainstream, e vira o novo padrão.

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Quem ainda tem medo da música eletrônica?

O jazz era muito malvisto pela turma da música erudita; o rock, que surgiu revolucionário, incomodava a geração do jazz, que o via como pobre e ultrajante. Com o passar dos anos, o roqueiro contestador descambou pro “tio reaça”, reproduzindo a mesma estigmatização da qual foi vítima: se você não curte rock, não curte “música de verdade”; disco music é “som de bicha”; música eletrônica não tem alma; e por aí vai. Moral da história: ao considerar o techno, a house ou seja lá o que você curta “mais música” do que, digamos, funk carioca, você só está perpetuando o círculo vicioso de preconceito. Cresça!

Gostar de um estilo musical não te faz melhor que ninguém

É natural que na adolescência — e até na pós-adolescência — a gente seja imaturo e preconceituoso mesmo. Nessa idade, identidade é uma parada muito forte, e a música é um dos elementos principais dessa construção de autoimagem. Depois disso, porém, não se tem mais muita desculpa pra ficar se achando melhor do que o outro por gostar de a) ou b). Eu detesto ser repetitivo, mas haja vista a perseguição que o funk segue enfrentando no seu próprio país de origem, se faz necessário martelar na tecla: o funk brazuca é a vertente da dance music mais original e autoral feita no nosso país, goste você ou não — e vejam bem, eu não sou nem um pouco fã do gênero, mas sou menos fã ainda de ranço elitista, complexo de vira-latas e desconhecimento da própria história. Como bem disseram muitas pessoas nas redes sobre o caso: se Troxler tivesse tocado o mesmo vocal sobre a mesma batida, mas com uma letra em inglês, não teria havido polêmica nenhuma. Está na hora de geral refletir por que odeia tanto assim o funk carioca. Uma dica: tem pouco a ver com o som.

O techno não é sagrado

Parafraseando mais uma vez o grande Giorgio Moroder, em entrevista à Electronic Beats, nada é sagrado. Em 2015, falando sobre o tema, escrevi: “Nenhuma religião, nenhum ser humano, nenhum estilo musical é sacro ou especial; é da nossa natureza querer criar ídolos e elevar objetos, físicos ou metafísicos, a pedestais. Esse tipo de purismo é o que cria preconceitos e fanatismos, que por sua vez levam a conflitos de intolerância”.

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O techno, a house, o rock, a camisa do seu time, a bandeira do seu país, seu crucifixo; nada é intocável, imaculado, detentor de um suposto direito natural de ser isento de crítica, apropriação ou contestação. Voltemos ao ponto anterior: o mundo é mutante, as coisas se fundem, erodem, e assim surgem as inovações e quebras de paradigmas — essa é a beleza da vida e da criação humana. Se assim não o fosse, o próprio techno sequer teria chegado perto de existir. É evidente que você tem o direito de amar ou odiar o que quiser, ou de ter achado o set do Seth uma merda, mas crer que o som que você curte tem que ser puro, virgem, insolúvel, a ponto de considerar um desrespeito quando não o for, só vai te trazer raiva e sofrimento.

Artistas como Seth Troxler são especiais por causa disso: não se levam a sério, não têm medo de inovar, e subvertem, levando ao escracho, o estereótipo do DJ de roupa preta que não sorri e não dança. Causar discórdia, desconforto, é também papel de um verdadeiro artista. E o pessoal que se ofendeu com uma pitadinha mínima de “um estilo xexelento”, “comercial”, no seu “beat 4×4 conceito” precisa repensar algumas coisas. No mínimo, estão levando essa parada de “Templo” a sério demais.

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