Dia da Música Eletrônica

O SP na Rua foi um dos festivais mais importantes do mundo em 2015

Muito além do entretenimento de grandes festivais como Tomorrowland e EDC, há eventos da cultura de pista que atuam social e politicamente, fazendo história sem muito alarde.

O ano de 2014 foi fundamental para consolidar o movimento dos coletivos que fazem festas na rua. Cansados da falta de diversidade — de público e de sonoridades — e de certa postura elitista dos grandes clubs [mesmo os ditos “underground”], essa galera foi à luta e consolidou uma das coisas mais lindas que a cultura de pista brasileira já viu em toda sua trajetória — e essa história está muito bem documentada no filme O QUE É NOSSO, sobre o qual falei em julho aqui na Phouse.

O semiótico neozelandês Jezmo Clode, um dos diretores do filme, já morou em uma cacetada de países [hoje está na China], chegou a viver o nascimento das eras disco e house nos EUA, o Segundo Verão do Amor em Londres e a cultura clubber florescendo em Berlim, mas há um ano, quando o entrevistei há um ano para o LOFT55, defendeu que a cena em Sampa era ainda mais especial. “A música virou uma ferramenta para juntar as pessoas, mas as festas têm objetivos políticos e filosóficos mais amplos […]. Graças aos coletivos, São Paulo tem hoje uma das melhores cenas underground do mundo, se não a melhor”, disse o Jezmo à época. “Os movimentos dos Estados Unidos e do UK eram movimentos de classe média e em países desenvolvidos. Pessoas pobres não foram incluídas por causa dos preços das drogas e dos lugares em que as raves e festas aconteciam. Em São Paulo, a dinâmica é completamente diferente — existem problemas cruciais e que os movimentos encrencaram, como o acesso de espaços públicos, a desigualdade social e o elitismo do governo, que não investiu nos bairros marginais onde famílias pobres vivem.”

Esse movimento paulistano viveu seu apogeu, de fato, no ano passado, com coletivos como a VOODOOHOP, Capslock, Mamba Negra, Metanol FM, Free Beats e tantos outros que foram surgindo fora dos clubs, com sonoridades eletrônicas mais quebradas e étnicas, indo muito além do hegemônico house/techno. Em 2015, como o THUMP já havia relatado, o rolê das festas de rua deu uma caída por ser financeiramente pouco viável, mas já havia deixado seu legado. Além de começarem a pipocar pelo Brasil diversos coletivos como Arruaça [POA] e Sounds in Da City [Floripa] se propondo a ocupar o espaço público com a mensagem da cultura de pista, tivemos neste ano uma nova edição do SP na Rua, que nada mais é do que um festival urbano de livre acesso promovido pela prefeitura de São Paulo — que, na gestão Haddad, é uma das raras no País a se preocupar com cultura, sustentabilidade e qualidade de vida dos seus cidadãos.

Intervenção artística com bons DJs, projeções, performances, decoração e diversidade dão o tom nas festas de rua

Não à toa, o festival de rua figura numa lista recente do THUMP que, através dos editores de suas diversas filiais pelo mundo, elenca “os 11 festivais que mudaram a cena em 2015”. Com uma maioria de eventos norte-americanos [como Decibel, em Washington, Desert Hearts e Symbiosis Gathering, na Califórnia, e Unsound, no Canadá], o SP na Rua aparece ao lado do colombiano Freedom Festival, de Medellín, como os únicos representantes da América do Sul. Como escreveu Eduardo Roberto, editor-chefe do THUMP brasileiro, “o SP na Rua é uma ótima forma de manter o fogo aceso na cidade mais importante do Brasil, onde a cena de clubes está passando por uma séria crise de identidade, política e financeira”.

É bom demais ver nossa cena cultural se destacando mundialmente não somente no quesito de bons produtores, DJs, clubs e grandes festivais, mas — em uma época em que a dance music está tão comercializada e esvaziada —, ver que o Brasil está ajudando a resgatar os valores originais da cultura de pista [democracia, fraternidade, igualdade, comunhão] a partir de um movimento absolutamente genuíno, feito do povo para o povo, mesmo que passe despercebido pela maioria das pessoas. Que em 2016 essa cena volte a crescer em São Paulo, e siga se espalhando com cada vez mais força nos outros Estados brasileiros.

Como sabiamente escreveu e cantou Gil Scott-Heron em 1970, “a revolução não será televisionada”

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