O Top 100 do Resident Advisor é melhor que o da DJ Mag?

Rankings continuam não combinando com a arte e a cultura DJ, mas é preciso ter em vista algumas diferenças básicas do que cada um propõe e representa.

* Por Flávio Lerner

Se você leu meu artigo com a proposta de boicote ao Top 100 da DJ Mag, não há muito mais a ser dito sobre o tema: rankings de DJs não fazem sentido, música não é competição, e traduzir o resultado final de uma votação pública como “os melhores DJs do mundo” é de uma cretinice sem tamanho. Tudo não passa de um grande circo pra fomentar o desejo humano por listas, guerras de ego e, sobretudo, inflacionar cachês — no referido texto eu discorri bastante sobre como o Top 100 da DJ Mag passou a representar basicamente tudo o que há de errado na indústria EDM à medida que se consolidou como um jogo antiético em que ficam nas primeiras posições aqueles que pagam mais.

Baixada a poeira, uma nova — mas exponencialmente menor — polêmica foi acendida nesta semana, com um novo Top 100 de DJs, o do famoso portal de dance music Resident Advisor. Pau que bate em Chico bate em Francisco? Em partes. Precisamos considerar algumas diferenças fundamentais entre as duas listas, mas sim, rankings de DJs continuam sendo algo que vai na contramão do ethos da cultura de pista, ao segregar em vez de unificar; ao colocar alguns humanos em pedestais, quando eles são apenas parte de um contexto maior, tão importantes quanto qualquer outro mortal que está na pista de dança. Por mim, esses Top Tops não existiriam; não há como determinar um melhor ou um pior em algo tão subjetivo quanto a arte, cada músico com suas peculiaridades, propostas estéticas e pontos fortes e fracos. O Daniel Avery pode ser um produtor mais completo que a Nina Kraviz, mas ela pode fazer sets mais intensos e bem elaborados, enquanto o Seth Troxler pode ter mais carisma. E como comparar a arte experimental e quebrada do Four Tet com a pegada tradicional do Solomun, ou a representatividade do Jeff Mills? Deixemos as tabelas classificatórias pros esportes.

Dito isto, temos que levar em conta que há um enorme abismo entre as duas listas; o Top 100 do RA é inofensivo perto do da DJ Mag. Você não vê o hype, a pompa, o investimento em marketing para divulgá-lo; você não vê o portal posicionando a sua lista como a verdade definitiva da música eletrônica, como “aqui estão os melhores DJs do mundo”. Entre no site e veja o que estão dizendo: “Os leitores do RA elegem os melhores DJs do ano”, acima de um texto de dois parágrafos que explica os possíveis critérios que levaram aos votos do público. Claro, o grande apelo desse tipo de ação é que, além de atrair muitos cliques, é uma mão na roda para produtores de eventos; é muito mais fácil de vender e economiza muito mais caracteres, num release qualquer, dizer que se está trazendo o artista #1 do mundo na lista tal do que descrever a subjetividade de sua arte.

Agora, se olharmos pra metade cheia do copo, esse tipo de ranking serve como um interessante balanço geral dos artistas que mais se destacaram mundialmente em determinado nicho. Nos ajuda a entender, ainda que de maneira simplista, quem tem mais prestígio e trabalhou mais [seja em sets, produções ou em redes sociais]. Do Top 100 da DJ Mag — como já escrevi anteriormente — se poderia dizer a mesma coisa não fosse a postura pretenciosa e o evidente viés comercial que assumiu nos últimos anos; aparentemente, [ainda] não há ninguém contratando um time de moças sexualmente atraentes para angariar votos de transeuntes para a lista do RA — mesmo que boas posições certamente aumentem o prestígio, a fama, o número de procura por gigs e, consequentemente, os cachês.

Mainstream X Underground

Em uma visão geral, o ranking da DJ Mag representa a faceta mainstream da dance music, e o do Resident Advisor, a underground. Isso é claro como água, mas não deixa de ser outra leitura simplória. Primeiro porque a noção de underground já está completamente corrompida, cooptada, banalizada. Segundo, porque a lista do RA é homogênea. Dê uma olhada rápida no Top 100 e me diga quantos artistas representam outro estilo que não poucas variações do house e, sobretudo, do techno. Quantos ali tocam disco house, IDM, rap, dubstep, future beats, drum’n’bass, batidas étnicas ou qualquer outra coisa que fuja um pouco do tradicional 4×4? Pouquíssimos. Isso ajuda a corroborar uma visão restrita que, na música de pista, só existem duas possibilidades: EDM [big room/electro house] ou “underground” [deep/tech house/techno]. E aí dá pra entender a problemática; dá uma olhada nos lines do último Creamfields, do próximo BPM Festival e da programação de verão do Warung, e depois compara com o ranking do RA. Vê? Tal qual rola nos festivais EDM, são sempre os mesmos malditos nomes, em um mundo com zilhões de DJs e produtores profissionais e altamente qualificados dos mais variados estilos musicais! Underground mesmo é quem não está ali.

E o Brasil?

O Luckas Wagg, chefão aqui da Phouse, me chamou atenção pro fato de o Top 100 do RA não ter nenhum nome brasileiro. É realmente curioso, visto que temos a percepção geral, corroborada por pesquisas, de o Brasil estar cada vez maior na música de pista, com artistas cada vez mais destacados. Um Gui Boratto, Wehbba, Anna ou um Renato Ratier caberiam perfeitamente ali, mas se olharmos com mais calma, não é apenas o Brasil que está desfalcado. A lista é quase que toda eurocêntrica, o que é natural, se formos ver o público do RA e o fato de a Europa vir de uma tradição muito mais antiga nesse cenário. Agora, infelizmente, é mais um retrato da falta de diversidade presente nessa amostra mainstream do underground — por mais paradoxal que soe, é basicamente isso que o ranking representa.

Confira aqui a lista completa:

100. Nicole Moudaber
99. Answer Code Request
98. Omar-S
97. Margaret Dygas
96. Ryan Elliott
95. Carl Craig
94. Barnt
93. Dusky
92. Steve Lawler
91. Tama Sumo
90. Mike Servito
89. Barac
88. Unction
87. Hernan Cattaneo
86. Richy Ahmed
85. George FitzGerald
84. Kolsch
83. wAFF
82. Fur Coat
81. Jasper James
80. Luciano
79. Sonja Moonear
78. Petre Inspirescu
77. DJ Harvey
76. Donato Dozzy
75. Maya Jane Coles
74. Blawan
73. tINI
72. Kerri Chandler
71. Alan Fitzpatrick
70. Len Faki
69. Chris Liebing
68. Dubfire
67. Levon Vincent
66. Midland
65. Objekt
64. Move D
63. Claude VonStroke
62. Enzo Siragusa
61. Robert Hood
60. Jamie xx
59. Carl Cox
58. Lee Burridge
57. Sasha
56. Adriatique
55. Scuba
54. Helena Hauff
53. Black Coffee
52. Roman Flügel
51. Joy Orbison
50. DJ Tennis
49. Pan-Pot
48. Patrick Topping
47. Rhadoo
46. Daniel Avery
45. Jeremy Underground
44. Jeff Mills
43. John Digweed
42. DVS1
41. Skream
40. Apollonia
39. Hot Since 82
38. Joseph Capriati
37. The Black Madonna
36. Floating Points
35. Gerd Janson
34. Zip
33. Eats Everything
32. Loco Dice
31. Joris Voorn
30. DJ Koze
29. Sven Vath
28. Job Jobse
27. The Martinez Brothers
26. Hunee
25. John Talabot
24. Marcel Dettmann
23. Marco Carola
22. Raresh
21. Richie Hawtin
20. Nina Kraviz
19. Adam Beyer
18. Mind Against
17. Bicep
16. Jamie Jones
15. Mano Le Tough
14. Motor City Drum Ensemble
13.Solomun
12. Laurent Garnier
11. Four Tet
10. Rødhåd
9. Âme
8. Ben Klock
7. Seth Troxler
6. Ricardo Villalobos
5. Jackmaster
4. Ben UFO
3. Tale Of Us
2. Maceo Plex
1. Dixon

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