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Plusnetwork, Entourage, Lula, Bolsonaro e a guerra de egos na cena eletrônica

Flávio Lerner

Publicado em

09/05/2017 - 13:30

Muito além de Sven Väth e Tale of Us: a inusitada união entre duas das maiores agências do mercado pode ser um grande passo para o amadurecimento do cenário nacional.

Há dois meses, as duas maiores agências do mercado da música eletrônica no Brasil, Plusnetwork [antiga Plus Talent] e Entourage, pegaram geral no contrapé ao lançar uma parceria momentânea, trazendo Sven Väth e Tale of Us numa mesma noite em São Paulo. O evento foi anunciado na vibe do techno: minimalista e misterioso, sem maiores explicações, o que suscitou muito burburinho e curiosidade sobre essa união tão inusitada — afinal, como duas empresas “inimigas de morte” de repente somam forças?

O Brasil vive um momento de ânimos à flor da pele e rivalidades acirradas, em que tudo é binário, sem muito espaço pra nuances ou debates menos simplistas: se você repudia Bolsonaro, é a favor de Lula; se é a favor de Bolsonaro, é fascista; se é contra Lula e apoia Sérgio Moro, é um coxinha do PSDB; se critica Moro, é um mortadela do PT; se defende o impeachment, é golpista… Não existem possibilidades sofisticadas ou meio termo. Cada um se considera o portador de todas as verdades e virtudes, do bem, e se você não joga no meu time, bom, então você só pode ser do mal. Na música eletrônica não é muito diferente — mesmo em um ambiente artístico, em que música não é competição [ou ao menos não deveria ser], além de uma notável intolerância por parte dos fãs com os gostos musicais alheios [temos o eterno debate underground X mainstream, bem como a discriminação pesada com o funk carioca], vemos uma birra entre os principais nomes do mercado que chega a ser infantil, gerando mais polarizações desnecessárias. Quando lançou a ótima iniciativa Doe Dance, o DJ Ban Schiavon foi certeiro ao afirmar que, além de ajudar instituições de caridade, um dos objetivos era unir a cena e combater essa guerra de egos.

Por isso, a festa que rola nesta sexta-feira, 12, é marcante e, tomara, pode vir a ser um divisor de águas. Trocando uma ideia com representantes das duas agências — falei mais uma vez com Mauricio Soares, diretor de marketing e estratégia da Plusnetwork, e Guga Trevisani, sócio-diretor da Entourage —, é possível ver que elas de fato estão nesse caminho. Em conversas distintas, os dois tocaram na tecla do uso da racionalidade em contraponto à emoção para tomar as decisões mais adequadas.

“Essa ‘faixa de gaza’ que é pintada entre as duas agências é papo de quem não conhece a gente” — Mauricio Soares, diretor de marketing da Plusnetwork.

Embora não tenha sido o objetivo principal do evento — a ideia surgiu meio que por acaso, já que a Plusnetwork trazia o Tale of Us no mesmo fim de semana em que a Entourage trazia o Sven Väth, e por isso acharam que seria mais produtivo somar forças —, o Mauricio Soares concorda que a ideia de união entre dois concorrentes “é um efeito colateral muito bem-vindo”, que serve a passar uma nova imagem desse mercado ao seu público. Soares também destaca que, apesar de já terem rolado alguns atritos entre as duas marcas, a relação entre eles sempre foi saudável. “Eu fui contemporâneo do [sócio-diretor da Entourage] Marcelo Arditti na FGV aqui em São Paulo, fizemos faculdade na mesma época. O Guga também conheço há muito tempo, e a gente se tromba sempre”, diz. “Essa ‘faixa de gaza’ que é pintada entre as duas agências é muito mais papo de social media, de quem não conhece a gente. Já tivemos discordâncias, mas somos todos adultos e sabemos superar. Quando surgiu a oportunidade de fazer esse negócio juntos, não tivemos dúvida. Vimos que era hora de sentar, conversar olho no olho e seguir em frente de mãos dadas, quando faz sentido, e, quando não faz, cada um na sua.”

A visão do Guga Trevisani segue a mesma linha. “Parte do sucesso da indústria internacional é pautado na colaboração entre os players do mercado. Sendo assim, essa movimentação é natural”, declarou. “Nós trabalhamos com nichos que se sobrepõem, com assets semelhantes, o que fez com que nossos caminhos se cruzassem muitas vezes no passado, e vão se cruzar muitas outras vezes no futuro.” Com isso, o diretor da Entourage deixou clara a possibilidade de novas parcerias. “Nossa atuação é a favor de um ambiente corporativo mais profissional e menos emocional, e esse encontro de ideais nos aproximou. Essa é a primeira de algumas iniciativas que estamos trabalhando.”

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Isso significa que os ranços vão sucumbir? Muito provavelmente não — ou ao menos não tão cedo. “Quando você fala em noite, entretenimento, artistas, ego é um componente inseparável nesse contexto”, segue Soares. “Sempre vai ter ego, orgulho ferido, mas não precisa virar algo de vida ou morte. O que eu vejo é que a gente passa por um momento de amadurecimento desses players do mercado, que fazem com que se consiga olhar pra coisa de uma maneira desapaixonada.” O diretor da Plusnetwork conclui o pensamento citando a eterna disputa entre Ayrton Senna e Alain Prost como exemplo de rivalidade saudável: “O que seria do Senna se não fosse o Alain Prost? Um por ser tão bom puxava o outro, e quando teve o enterro do Senna, o Prost tava lá, carregando o caixão. Existia um respeito grande entre eles”.

O evento do dia 12, por si só, não muda nada: vamos ver ainda muito beicinho e #textão de gente contrariada — assim como quem ainda não atinou que Lula é um grande mafioso vai continuar achando que quem o quer preso é coxinha, e quem não se ligou que Bolsonaro é um bronco preconceituoso vai continuar achando que quem o critica é petralha. Faz parte. O brasileiro tem um caminho longo pela frente pra conseguir enxegar para além de dicotomias baratas. Na cena eletrônica também. Mas, assim como o DJ Ban, a Entourage e a Plusnetwork agora estão dando o exemplo, mostrando que as coisas podem [e devem!] ser diferentes. Cabe a nós aderir.

* Este artigo corresponde à visão do colunista Flávio Lerner e as ideias aqui contidas são de inteira responsabilidade do autor.

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Perfil

Entenda a ascensão internacional do DJ e produtor brasileiro Kalil

Lançamentos por grandes labels fazem do paulista um dos principais nomes do techno no Brasil

Alan Medeiros

Publicado há

Kalil
Foto: Divulgação

Nos últimos anos a cena techno brasileira tem servido ao mundo alguns talentos em ascensão, como o caso do talentoso produtor paulista Kalil. O começo de sua carreira foi justamente em um período de grandes inovações relacionadas à forma de consumo de música, e isso foi fundamental para o desenvolvimento não só dele, mas de toda uma geração.

Na virada da última década, a internet passou a representar um capítulo importante na disseminação de conteúdo por parte de artistas independentes, principalmente através de plataformas como SoundCloud e YouTube, que de certa forma reduziram a importância de uma grande gravadora para o start de uma carreira consolidada. Em paralelo com o Facebook e outras redes, colocaram uma ferramenta poderosa na mão de alguns artistas.

      

Kalil claramente soube aproveitar esse momento e foi capaz de construir uma base de fãs engajada, e o mais importante: evoluir seu próprio perfil artístico ao longo dos anos. Desde o começo se comentava que suas produções tinham algo diferenciado, e hoje isso não se trata de uma aposta — estamos falando de algo concreto, especialmente se levarmos em consideração os últimos acontecimentos de sua carreira.

Com uma presença mais forte no mercado nacional, Kalil passou a alçar voos internacionais também, seja através de gigs em países como França, Suíça e Alemanha, ou através de lançamentos por labels como Noir Music, Senso Sounds e Sprout — referências absolutas dentro do techno. Algumas de suas últimas conquistas incluem suportes de nomes como Carl Cox, Maceo Plex, Monika Kruse, Karotte e outros big names da dance music internacional.

     

Ainda é cedo para dizer se Kalil se tornará em breve uma grande estrela do estilo a nível global. Não há como negar, porém, que o brasileiro está mostrando maturidade para guiar sua própria jornada de evolução com sabedoria e inteligência, sempre influenciado pelas batidas inspiradoras de seu próprio coração.

Alan Medeiros é colaborador da Phouse.

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Notícia

Nevoeiro desfalca XXXPERIENCE e TribalTech; entenda o caso

Artistas que iriam de um festival para o outro acabaram não conseguindo viajar

Flávio Lerner

Publicado há

XXXPERIENCE e TribalTech
Foto: Sigma F/Reprodução

Nesse sábado, 22, dois dos mais aguardados festivais da cena eletrônica nacional aconteceram simultaneamente: XXXPERIENCE e TribalTech. Tentando evitar o mau tempo que atrapalhou anos anteriores de ambos os eventos — o que justamente motivou a XXX para transferir sua data de novembro para setembro —, os dois rolaram numa boa, sem temporal nenhum pra acabar com a vibe. Mesmo assim, a zica climática atacou por outro lado, e acabou desfalcando as duas festas.

Por causa do forte nevoeiro que atingiu Curitiba, os dois aeroportos da capital [Afonso Pena e Bacacheri] fecharam, além do Aeroporto Municipal de Ponta Grossa e do Aeroporto Internacional de Navegantes, em Santa Catarina. Com isso, a aeronave particular — contratada em parceria entre os dois festivais — que sairia no começo da madrugada de São Paulo para levar Len Faki, Dubfire e Tessuto ao TribalTech, e posteriormente Ben Klock e Gabe para São Paulo, não conseguiu decolar.

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Além deles, Guy Gerber cancelou anteriormente com os dois festivais, alegando na última quinta-feira que teve sua casa invadida e pertences roubados, incluindo seu passaporte. Já o voo comercial que levava o sueco Gaudium, atração do palco de trance 3DTTRIP, do TribalTech, atrasou, o que fez com o que o artista não chegasse a tempo para tocar. 

A XXX contornou o problema colocando Renato Ratier para estender o seu set, que já encerraria o Union Stage, por quatro horas, assumindo também o horário de Ben Klock, enquanto o Joy Stage, que fecharia com o Gabe, acabou terminando mais cedo; já o Guy Gerber foi substituído por um B2B entre ANNA e Patrice Bäumel, que já eram atrações do Union. 

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No TribalTech, Len Faki e Dubfire, que seriam as últimas atrações do TribalTech Stage, foram substituídos por Ben Klock [que estendeu seu set em meia hora] e Anthony Parasole, que originalmente tocaria no Timetech [e acabou sendo substituído por um segundo set do alemão Sammy Dee]. Já no Secret Stage, um B2B entre Renato Cohen e RHR fechou o palco, no lugar de Tessuto. O festival acabou sendo encerrado uma hora antes do programado.

Em contato com a Phouse, a assessoria do TT afirmou que já está em contato com as agências dos artistas para tentar trazê-los novamente a Curitiba. Enquanto isso, a produção da XXX afirma também ter a intenção de trazer Ben Klock para a edição do ano que vem.

Antes, ambas as labels já haviam pedido desculpas ao público e explicado o problema em suas respectivas redes sociais.

NOTA OFICIAL.

Posted by Tribaltech on Sunday, September 23, 2018

Flávio Lerner é editor da Phouse.

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Notícia

Marisco Festival tem programação diversa na próxima semana

Flávio Lerner

Publicado há

Marisco Festival
Em 2017, o Marisco Festival rolou no Colégio do Jockey Club. Foto: Reprodução/Facebook
Terceira edição do festival mescla música, conversas e oportunidade para produtores

Organizado pela label Mareh Music, de Guga Roselli, o Marisco Festival traz uma programação bastante diversa para este ano, em São Paulo. A terceira edição do evento foi dividida em quatro datas: um show especial que rolou nessa última quarta [30], com banda em tributo ao lendário maestro brasileiro Lincoln Olivetti; dois dias da chamada “Talks”, que traz painéis, conversas e até juri para avaliar produtores brasileiros [dias 06 e 07]; e o festival em si, no dia 09, que traz Ed Motta como principal atração, além de DJs e produtores como Nuts, Selvagem, Edu Corelli e Roger Weekes e Ashley Beedle [Inglaterra].

Um dos destaques da Talks é uma grande oportunidade para novos talentos nacionais que produzem sons que casam com a proposta da Mareh — isto é, música eletrônica groovada e tropical, mais voltada à disco music, disco house, sons baleáricos e brasilidades. A mesa “New kids on the block” vai trazer dez músicas de produtores brasileiros para serem tocadas e julgadas ao vivo por três DJs experientes: Caio Taborda [Gop Tun], Mari Rossi [We Sounds] e Benjamin Ferreira [Stay Free].

+ Um mergulho na rica discoteca de Chaves e Chapolin

As faixas serão selecionadas mediante seleção prévia do DJ Camilo Rocha, um dos curadores do evento. Para participar, basta enviar até as 18h do dia 05 sua faixa em 320 kbps para o camilorocha68@gmail.com e ficar na torcida. Os dez escolhidos serão convidados a participar do evento — segundo o Camilo, quem não estiver em Sampa poderá assistir posteriormente à sessão em vídeo.

Além da mesa, haverá ainda inúmeros outros painéis com grandes expoentes da cena nacional, como Tessuto, Claudia Assef, L_cio, Carrot Green e Sonia Abreu.

Expoente do groove nacional, Marcos Valle foi atração em 2017. Foto: Reprodução/Site oficial

Confira a programação completa da Talks e do Festival:

Marisco Talks: Conversas e escutas sobre música

Local: Cobertura do Excelsior Hotel — Av. Ipiranga 770, Centro

QUARTA – 6 de junho

A cidade e a música 17h – 18h

Pena Schmidt, consultor de produção musical, Fabiana Batistela, diretora do SIM São Paulo, e Paulo Tessuto (DJ e fundador da festa Capslock) falam sobre desafios e oportunidades nas relações entre as cidades e a música que é vivenciada nelas.

Futuro do pretérito 18h15 – 19h15

Os produtores musicais L_cio e Carrot Green falam sobre os passos da criação do edit/remix, da recriação ao licenciamento, a partir de suas experiências nessa área.

Os discos mais raros do Brasil pt. 1 19h30 – 20h30

Os DJs Nuts e Paulão tocam e comentam raridades nacionais das suas coleções enquanto conversam com o público sobre música brasileira, colecionismo e garimpagem de discos. Mediação de Renata Simões.

Dancing queens: as mulheres da disco brasileira 20h45 – 21h45

Duas mulheres icônicas da disco music brasileira, a DJ Sonia Abreu e Vivian Costa Manso (Harmony Cats) falam sobre suas experiência como artistas femininas na indústria musical e na noite dos anos 70. Mediação de Claudia Assef.

QUINTA – 7 de junho

Disquecidos 16h – 17h

Há quatro anos a Vice Brasil vem contando as histórias por trás de discos que não estouraram em seus lançamentos, mas que se tornaram referências musicais, fetiches de colecionadores e raridades no mercado de vinis. O repórter Peu Araújo fala sobre os bastidores desses papos.

New kids on the block 17h15 – 18h15

Diante do público e um júri, novos produtores exibem faixas para julgamento ao vivo de três DJs com tarimba de anos de pista: Caio Taborda, Mari Rossi e Benjamin Ferreira.

REGRAS:

1) Cada produtor pode enviar apenas uma música

2) A música tem de ser em arquivo MP3 320 kbps. Para a seleção final, que será executada no evento, pediremos uma versão em WAV.

3) Preferimos que o estilo musical esteja coerente com a proposta do Marisco Festival, que fica no meio do caminho entre disco music, house e música brasileira.

4) Só serão aceitas músicas enviadas até 5 de junho às 18h.

5) Envie música ou link para camilorocha68@gmail.com

6) Os produtores selecionados serão avisados individualmente e convidados a ir ao evento.

Qual é a cara desse som? 18h30 – 19h30

Por que é importante construir uma identidade musical? E como se faz e não se faz isso? Venha ouvir as experiências e opiniões de três artistas sobre o tema: os DJs Max Underson, da Coletividade Namíbia e Capslock, Luanda Baldijão e Mauricio Fleury, do Bixiga 70.

Os discos mais raros do Brasil pt. 2 19h45 – 20h45

Augusto Olivani, da Selvagem, e Tata Ogan falam sobre pérolas da música brasileira da sua coleção, tocando discos e conversando com a plateia sobre coleção, pesquisa e recantos obscuros da música do país. Mediação de Guilherme Menegon.

Entrevista no palco – Ashley Beedle 21h00 – 22h00

Protagonista da música e pista britânica desde a acid house, participante de projetos históricos da house music como X-Press 2 e Black Science Orchestra, Beedle vai falar sobre história e carreira com Camilo Rocha. Uma oportunidade única de conhecer de perto os saberes e experiências de um dos mais celebrados veteranos da cena eletrônica.

Marisco Festival: Sábado, 09 de junho

Local: ainda a ser anunciado

Atrações:

Ed Motta (Baile do FlashBack)

Lincoln Olivetti BAND

Ashley Beedle

DJ Nuts

Selvagem

Edu Corelli 

Roger Weekes

Benjamin Ferreira

Vitor Kurc

DJ Paulão

Tata Ogan

Marcelo Dionisio

+ Mais nomes a serem anunciados

Os ingressos estão disponíveis via Event Brite. Mais informações podem ser encontradas no site oficial.

Flávio Lerner é editor da Phouse.

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