Plusnetwork, Entourage, Lula, Bolsonaro e a guerra de egos na cena eletrônica

Muito além de Sven Väth e Tale of Us: a inusitada união entre duas das maiores agências do mercado pode ser um grande passo para o amadurecimento do cenário nacional.

Há dois meses, as duas maiores agências do mercado da música eletrônica no Brasil, Plusnetwork [antiga Plus Talent] e Entourage, pegaram geral no contrapé ao lançar uma parceria momentânea, trazendo Sven Väth e Tale of Us numa mesma noite em São Paulo. O evento foi anunciado na vibe do techno: minimalista e misterioso, sem maiores explicações, o que suscitou muito burburinho e curiosidade sobre essa união tão inusitada — afinal, como duas empresas “inimigas de morte” de repente somam forças?

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O Brasil vive um momento de ânimos à flor da pele e rivalidades acirradas, em que tudo é binário, sem muito espaço pra nuances ou debates menos simplistas: se você repudia Bolsonaro, é a favor de Lula; se é a favor de Bolsonaro, é fascista; se é contra Lula e apoia Sérgio Moro, é um coxinha do PSDB; se critica Moro, é um mortadela do PT; se defende o impeachment, é golpista… Não existem possibilidades sofisticadas ou meio termo. Cada um se considera o portador de todas as verdades e virtudes, do bem, e se você não joga no meu time, bom, então você só pode ser do mal. Na música eletrônica não é muito diferente — mesmo em um ambiente artístico, em que música não é competição [ou ao menos não deveria ser], além de uma notável intolerância por parte dos fãs com os gostos musicais alheios [temos o eterno debate underground X mainstream, bem como a discriminação pesada com o funk carioca], vemos uma birra entre os principais nomes do mercado que chega a ser infantil, gerando mais polarizações desnecessárias. Quando lançou a ótima iniciativa Doe Dance, o DJ Ban Schiavon foi certeiro ao afirmar que, além de ajudar instituições de caridade, um dos objetivos era unir a cena e combater essa guerra de egos.

Por isso, a festa que rola nesta sexta-feira, 12, é marcante e, tomara, pode vir a ser um divisor de águas. Trocando uma ideia com representantes das duas agências — falei mais uma vez com Mauricio Soares, diretor de marketing e estratégia da Plusnetwork, e Guga Trevisani, sócio-diretor da Entourage —, é possível ver que elas de fato estão nesse caminho. Em conversas distintas, os dois tocaram na tecla do uso da racionalidade em contraponto à emoção para tomar as decisões mais adequadas.

“Essa ‘faixa de gaza’ que é pintada entre as duas agências é papo de quem não conhece a gente” — Mauricio Soares, diretor de marketing da Plusnetwork.

Embora não tenha sido o objetivo principal do evento — a ideia surgiu meio que por acaso, já que a Plusnetwork trazia o Tale of Us no mesmo fim de semana em que a Entourage trazia o Sven Väth, e por isso acharam que seria mais produtivo somar forças —, o Mauricio Soares concorda que a ideia de união entre dois concorrentes “é um efeito colateral muito bem-vindo”, que serve a passar uma nova imagem desse mercado ao seu público. Soares também destaca que, apesar de já terem rolado alguns atritos entre as duas marcas, a relação entre eles sempre foi saudável. “Eu fui contemporâneo do [sócio-diretor da Entourage] Marcelo Arditti na FGV aqui em São Paulo, fizemos faculdade na mesma época. O Guga também conheço há muito tempo, e a gente se tromba sempre”, diz. “Essa ‘faixa de gaza’ que é pintada entre as duas agências é muito mais papo de social media, de quem não conhece a gente. Já tivemos discordâncias, mas somos todos adultos e sabemos superar. Quando surgiu a oportunidade de fazer esse negócio juntos, não tivemos dúvida. Vimos que era hora de sentar, conversar olho no olho e seguir em frente de mãos dadas, quando faz sentido, e, quando não faz, cada um na sua.”

A visão do Guga Trevisani segue a mesma linha. “Parte do sucesso da indústria internacional é pautado na colaboração entre os players do mercado. Sendo assim, essa movimentação é natural”, declarou. “Nós trabalhamos com nichos que se sobrepõem, com assets semelhantes, o que fez com que nossos caminhos se cruzassem muitas vezes no passado, e vão se cruzar muitas outras vezes no futuro.” Com isso, o diretor da Entourage deixou clara a possibilidade de novas parcerias. “Nossa atuação é a favor de um ambiente corporativo mais profissional e menos emocional, e esse encontro de ideais nos aproximou. Essa é a primeira de algumas iniciativas que estamos trabalhando.”

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Isso significa que os ranços vão sucumbir? Muito provavelmente não — ou ao menos não tão cedo. “Quando você fala em noite, entretenimento, artistas, ego é um componente inseparável nesse contexto”, segue Soares. “Sempre vai ter ego, orgulho ferido, mas não precisa virar algo de vida ou morte. O que eu vejo é que a gente passa por um momento de amadurecimento desses players do mercado, que fazem com que se consiga olhar pra coisa de uma maneira desapaixonada.” O diretor da Plusnetwork conclui o pensamento citando a eterna disputa entre Ayrton Senna e Alain Prost como exemplo de rivalidade saudável: “O que seria do Senna se não fosse o Alain Prost? Um por ser tão bom puxava o outro, e quando teve o enterro do Senna, o Prost tava lá, carregando o caixão. Existia um respeito grande entre eles”.

O evento do dia 12, por si só, não muda nada: vamos ver ainda muito beicinho e #textão de gente contrariada — assim como quem ainda não atinou que Lula é um grande mafioso vai continuar achando que quem o quer preso é coxinha, e quem não se ligou que Bolsonaro é um bronco preconceituoso vai continuar achando que quem o critica é petralha. Faz parte. O brasileiro tem um caminho longo pela frente pra conseguir enxegar para além de dicotomias baratas. Na cena eletrônica também. Mas, assim como o DJ Ban, a Entourage e a Plusnetwork agora estão dando o exemplo, mostrando que as coisas podem [e devem!] ser diferentes. Cabe a nós aderir.

* Este artigo corresponde à visão do colunista Flávio Lerner e as ideias aqui contidas são de inteira responsabilidade do autor.

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