Documentário sobre os perigos de se fazer música eletrônica no Irã debuta em Londres, com sessão de perguntas e respostas com os DJs protagonistas; e por que não no Brasil?

Em 1979, o Irã se tornou uma República Islâmica — uma teocracia em que os preceitos do islã e da Sharia se misturam às leis civis, comumente submetendo as pessoas a um Estado totalitário em que elas não têm liberdade prática de fazer boa parte do que, para nós, ocidentais, é meramente trivial.

Uma dessas proibições diz respeito à música. Para os muçulmanos fundamentalistas, quaisquer músicas ou mesmo instrumentos ocidentais são hereges e devem ser queimados — como de fato o fez o Estado Islâmico com sintetizadores, em 2015. A música pagã é banida dos canais de comunicação oficiais. Como a Fact Mag bem lembra, em 2014 seis jovens iranianos foram condenados à cadeia e a 91 chibatadas por entrarem na onda dos vídeos de “Happy”, hit do Pharrell Williams; no ano passado, três homens foram presos e torturados por distribuir música “política” na internet, clandestinamente. O que dizer então de se fazer uma festa de música eletrônica por lá? Se mesmo em boa parte dos países ocidentais a cultura clubber é atacada, estigmatizada e marginalizada, na República Islâmica do Irã, abraçá-la significa correr o sério risco de execução.

Anoosh: “Uma vez eles me pegaram e quase me espancaram até a morte”

É disso que trata o documentário Raving Iran — filme que foi bastante comentado no ano passado, quando foi lançado. Com direção da cineasta alemã/suíça Susanne Regina Meures, o doc aborda um pouco dos dilemas dos DJs iranianos Anoosh e Arash, também conhecidos como Blade&Beard, que, residentes da capital Teerã, se apaixonaram pelas batidas da house e do techno graças a um amigo estadunidense, que trazia a eles discos de Sasha e John Digweed. A dupla, então, assumiu o risco e produziu música e baladas ilegais no deserto do seu país — isso antes de partirem para Zurique, na Suíça, onde foram convidados a tocar em um festival, e acabaram se refugiando.

Raving Iran tem rolado em festivais de cinema pelo mundo há um ano, e agora voltou em voga por causa de evento do Resident Advisor, que realiza sua première em Londres, no Village Underground, em 27 de abril, com direito a sessão de perguntas e respostas e DJ set da dupla protagonista. Metade da renda será destinada às ONGs Amnistia Internacional e Crisis [que auxilia moradores de rua].

Sim, é bem verdade que o documentário já passou pelo Brasil: no fim de outubro, integrou a 40ª Mostra Internacional de Cinema, em São Paulo. Mesmo assim, seria fantástico um evento do tipo como vai rolar em Londres, mais voltado ao universo da dance music e com direito a presença de Anoosh e Arash. Eu enxergo perfeitamente um lance desses rolando numa das ambiências do Sónar São Paulo, por exemplo, mas infelizmente o festival não tem previsão de voltar ao nosso país tão cedo. De qualquer forma, existem diversos outros festivais, eventos ou conferências que facilmente poderiam realizar uma sessão do filme com direito a bate-papo com esses caras. Seria, sem dúvida nenhuma, uma experiência muito enriquecedora — e por isso deixo aqui a sugestão aos produtores executivos da nossa cena.

Pra quem se interessar em saber mais, recomendo esta entrevista de Anoosh e Arash ao Electronic Beats.

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