Por que Guy J pode ajudar a escrever uma nova página na cena gaúcha

Jonas Fachi traça uma análise histórica da cena eletrônica do Rio Grande do Sul para defender que a vinda de Guy J pode vir a ser um divisor de águas ao Estado.

Neste sábado, 17, o clube Beehive, de Passo Fundo (a aproximadamente 290km de Porto Alegre), irá receber uma das principais figuras do cenário eletrônico na atualidade. Guy J não só é apontado como líder de toda uma nova geração de DJs e produtores de house progressivo, como também um dos principais responsáveis pelo início da retomada do estilo, que passou a ser um dos mais desejados entre clubbers de todo o mundo. Vale destacar que desta vez o Brasil não está ficando para trás — estamos no mesmo passo dos “trends” cíclicos que têm feito parte da evolução da música eletrônica.

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A tour do israelense ainda tem passagem por São Paulo no D-EDGE, clube historicamente voltado a artistas de techno e minimal, mas que nos últimos tempos tem cedido espaço para propostas sonoras de maior profundidade. Guy J também se apresenta em Campos do Jordão em uma edição do Warung Tour, antes de chegar para um extendend set no “Templo da Praia Brava” em Itajaí; por fim, aterrissa no interior do Estado gaúcho para um set — ainda com tempo indefinido — que pode ajudar a escrever uma nova página na cena eletrônica do Estado.

Mas que história é essa de nova página? A música eletrônica não é tradicional por lá também? Não só tem tradição, como a cena gaúcha foi uma das pioneiras no país. Porém, na última década, eles têm sofrido quando se trata de opções de clubes e festas. Porto Alegre não tem nenhum clube específico voltado à cultura underground, com presença de DJs internacionais. Se por um lado a maioria dos Estados do nosso país passam por essa situação — excetuando Santa Catarina, São Paulo e Paraná —, o RS viveu anos dourados, em que não só não devia em nada pra ninguém, como lançava alguns dos melhores DJs e produtores brasileiros, além de receber grandes nomes com frequência. Então o que aconteceu?

Guy J toca neste sábado, na Beehive

É bem verdade que Passo Fundo tem sido um ponto fora da curva; de alguma maneira, a cidade tem conseguido ter gerações de frequentadores se renovando e transmitindo conhecimento adiante. A Beehive teve entre seus fundadores o DJ e produtor Juan Rodrigues, um dos primeiros a acreditar que era possível existir uma cena desenvolvida no interior do Estado. Mesmo quando novas pessoas assumem a cena de um local, é possivel manter o conceito e a identidade, e por isso o clube está há dez anos em funcionamento. Essa estabilidade proporcionou a vinda de artistas como Guy Gerber, Seth Troxler, Mano Le Tough e o até então produtor conceitual deadmau5, em 2008.

Set do deadmau5 na Beehive, em 2008

Para entendermos por que a ida de Guy J ao RS pode ser um ponto de inflexão, primeiramente devemos fazer uma imersão na história — sem saudosismo — e compreender a força e o pioneirismo da região. Isso pode muito bem estar relacionado com a colonização europeia que o Sul sofreu no final do século XIX e início do século XX. Os três estados do Sul têm semelhanças inegáveis. A personalidade das pessoas somada à distância de onde surgiram os estilos musicais que são reconhecidos como “brasileiros” fez com que quando a música eletrônica ganhasse o mundo nos anos 90, o Sul já começasse a fazer sua própria cena. No final dos anos 80, um lugar deu o pontapé inicial para uma cena que cresceria sem parar até meados de 2010: o clube Fim de Século (FDSC) foi um reduto underground que recebia todo tipo de pessoa disposta a fugir dos padrões sociais e aberta a novas experiências — e convenhamos, música eletrônica clubber nos anos 90 era uma nova experiência e tanto.

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Lá — como podemos ler melhor na matéria de 2015 de Flávio Lerner —, os primeiros DJs do Estado a se destacar nacionalmente mantinham residência: Fabricio Peçanha, Mozart Riggi, Double S e Eduardo Herrera aprenderam como se fazia uma pista vibrar. Traçando um paralelo da época, enquanto São Paulo tinha o Madame Satã, Curitiba o Club Rave e Balneário Camboriú o Baturité, em POA o FDSC esquentava as noites com momentos que agora são lembrados com reverência.

Em 2001, a casa recebeu um novo nome, NEO (New Eletronic Order), e teve residentes como Marcelo Nunes, integrante de uma das primeiras agencias de DJs no Brasil, a Sold Out. Nesse período, pode-se dizer que a capital e várias outras cidades viveram o apogeu da cultura eletrônica, com diversas casas noturnas e eventos pelo Estado. O Fabricio Peçanha, que já era reconhecido como um dos melhores DJs do país, iniciou a Fulltronic, evento trimestral que recebia mais de cinco mil pessoas por edição. O cenário gaúcho começou a ser moldado por grupos de amigos com interesses em comum, e que apenas aspiravam fazer as coisas acontecerem.

Raridade: flyer da Off Side de 2007 que trouxe Guy J pela primeira vez ao RS (via acervo pessoal de Alec Araujo)

Em Canoas, o núcleo Fusion teve entre seus residentes o DJ APOENA, hoje um dos produtores brasileiros mais reconhecidos lá fora. O projeto ganhou espaço em locais de Porto Alegre como o Garagem Hermética. Depois, surgiu o lendário clube Spin, que começou a receber grandes artistas internacionais como Richie Hawtin, Layo & Bushwacka, Oxia e Joris Voorn. Com o passar do tempo, uma identidade fortemente ligada ao house progressivo — que pode ser explicada pela intensa vinda de artistas desse estilo na América do Sul — tomou conta do coração das pessoas.

Lugares como o Liquid, Lounge, Moove, Wish, os espaços culturais 4life (em POA) e Evolution e Oxygen (em Novo Hamburgo) e uma efervescente vida noturna nos verões de praias como Xangri-lá e Atlântida, através de clubes como o Jimbaran, Afrika e Cozumel, trouxeram para o Estado nomes como Sasha, Hernan Cattaneo, Deep DishJohn DigweedSteve Lawler, Nick Warren, 16 Bit Lolitas, Sander Kleinenberg, King Unique Christian Smith. Em Passo Fundo, outro clube importante na história da cidade — o Moinho — recebeu nomes como Eelke Kleijn, Luke Fair, Dosem e Ricky Ryan. Fortemente influenciados por esses artistas (e nota-se aqui outro ponto de pioneirismo do RS), os DJs não só queriam tocar aquele estilo, mas também já se interessavam em fazer as próprias músicas.

Caras como Alec Araujo e Fernando Goraieb começaram a produzir seus sons, chegando a lançar pela gravadora Global Underground, considerada a mais importante da época e uma das maiores de todos os tempos. Alec foi um dos artistas mais ativos do cenário. Além de ser residente de clubes como Spin e Oxygen, também produziu eventos como a Fenix, com intuito de apresentar ao público nomes focados em house progressivo, principalmente DJs argentinos. Em 2007, um certo produtor israelense jovem, praticamente desconhecido pelos brasileiros, estava em tour pela Argentina. Com a oportunidade nas mãos, Alec trouxe Guy J pela primeira vez ao Brasil, juntamente de um live act introspectivo que fazia parte do aclamado selo argentino Off Side. J esteve ainda em 2012 no Moinho, na mesma tour de estreia do Warung, porém o cenário no Estado já era outro, com Passo Fundo sendo a última resistência de opções clubbers com grandes nomes mundiais.

Fazer eventos no Brasil não é simples. Muito se fala da burocracia para abrir uma empresa no RS, além das situações que fogem do controle de quem se dispõe a enfrentar adversidades e construir uma comunidade em torno da boa música. Hoje, alguns esforços que devem ser valorizados são núcleos que realizam eventos pontuais. Em Porto Alegre, depois de anos de baixa, a cena tem se rejuvenescido com mais intensidade, através de núcleos como a Levels (que apresentou Barem, em 2015) e de projetos itinerantes como a Base e a Arruaça, que fazem festas em galpões ou nas ruas. Em Caxias do Sul, a Colours, que tem à frente Fran Bortolossi — um dos DJs/produtores que mais se destacaram no país nos últimos anos —, recebeu ninguém menos que Ali Dubfire em 2014. O Muinho, novo clube de Farroupilha, recentemente abraçou a tour do alemão Lake People. Porém, é consenso: ainda é muito pouco.

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Dez anos após uma estreia ao acaso, Guy J estará novamente aterrisando em terras sulistas, e se pode existir um tipo de música capaz de despertar novos olhares para um nicho musical que vinha definhando no RS, é o seu. Assim como na primeira década deste século, quando o progressive que J ajudou a modernizar esteve em seu auge, o artista, com o destaque mundial que tem recebido, mais uma vez pode ajudar a colocar o Estado no eixo eletrônico do Sul, que nasce em Curitiba e corta o litoral catarinense.

A nova onda de house progressivo segue em marcha. Existe um enorme público carente e que anseia por recebê-lo novamente em casa, afinal, nem sempre é possível viajar até SC para ver seus artistas favoritos. O Beehive fez sua aposta; cabe ao público mostrar apoio para assim inspirar novos eventos que, obtendo resultado, podem criar algo concreto outra vez. Um bom recomeço pode estar naquilo que já deu certo. Como diria o poeta: “Em livros de história, seremos a memória dos dias que virão”.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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