** Edição e revisão: Flávio Lerner

Um dos primeiros grandes discos de 2019 para quem gosta de se inspirar em boas melodias de downtempo está nas ruas desde o último dia 18. Lançado pela Polydor, de Londres para o resto do globo, Assume Form é o quarto álbum do soul man pós-moderno James Blake. Uma experiência de escuta única, o sucessor de The Colour In Anything, de 2016, mostra o produtor e cantor em direção do R&B, com faixas românticas e com clima mais pra cima, em contraponto ao seu clássico estilo sombrio.

Com dez anos de carreira marcada por experimentos e combinações de subgraves, efeitos vocais e sussurros intimistas, James Blake colocou o rosto no sol. Mais do que nunca, o artista curtiu bons momentos em colaborações e esbarrando no acento pop que carrega em seu próprio DNA. Participações que antes eram praticamente uma raridade — com exceção de Bon Iver, colaborador fiel nos discos The Colour In Anything e James Blake, ou RZA que fez uma ponta em faixa de Overgrown —, várias vozes chegaram pra somar sobre os graves e texturas de Assume Form.

O maior hit do álbum, “Mile High”, conta com Travis Scott e Metro Boomin, pegando uma carona no bom e novo balanço do R&B contemporâneo — certeiro pras festas. O gênero também é a ponte de encontro ao trap em “Tell Them”, em que Boomin recebe Moses Summey nos vocais. Vai dar o que falar nas playlists ao longo do ano. E, falando em animação, o resultado irreverente do featuring de Andre 3000 (do Outkast de “Hey Ya!” — lembra dele?) em “Where`s The Catch?” é tão ótimo quanto irrotulável. Remixes de bass e house podem cair como uma luva, se você está aí, produtor, pensando onde colocar as suas mãos neste ano.

A crueza sonora inerente a momentos mais dark, que só Blake sabe criar no mundo dos beats amenos, está preservada em diversas faixas, como a homônima e “Into The Read”, só pra citar duas. No entanto, o aspecto melancólico que também é sua assinatura deu espaço ainda para outro sentido de sutileza e do belo que encontramos aqui, com o romantismo de “Can’t Believe The Way We Flow”, “I’ll Come Too”, e “Are You In Love?”. Já “Don’t Miss It” é a verdadeira força de James Blake, que também tem espaço aos 45 do segundo tempo.

Desafio dos dez anos, reconhece?

Assume Form chega bem no décimo ano de lançamentos de um dos artistas mais completos e complexos da música eletrônica. Criador de subgraves que sussurram em bases sob pianos carregados de emoção e um timbre vocal inconfundível, James Blake entra para o desafio com Air & Lack Thereof, o seu primeiro registro, de 2009 — EP de pós-dubstep, que o colocou ao lado de artistas de vanguarda como Burial e Untold, pra quem quiser entender um pouco da lógica de onde tudo começou.

Poucos vocais e muito dub. O que acharam dessa transformação? Onde vocês imaginam o som do cara daqui a dez anos?

Felicio Marmo é colaborador da Phouse.

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