Davis
Foto: Matthias Wehofsky/Divulgação

Rarefazer sua presença em veículos de imprensa, sejam eles nichados ou não, é uma estratégia válida e até bastante disseminada entre artistas de certa proeminência em seus respectivos cenários. Isso pode se dar pelos mais variados motivos: eles podem ser naturalmente infensos a esse tipo de comunicação; podem já estar fatigados pelo intercâmbio com gente que, ao fim e ao cabo, muitas vezes não compartilham de sua experiência expressiva; ou simplesmente podem achar que não há mais muito a ser explorado em termos textuais que sua música já não aborde de forma mais sincera e aprofundada.

Quando essa atividade se espraia por múltiplas plataformas e abarca diversas linguagens, então o desafio de exprimir algo além delas, por mais que alcance um público mais amplo, se torna ainda mais intimidante. Este é um incômodo que Davis conhece bem e jamais se furta em tornar público, mas ele se dá por motivos um tanto distintos.

Em seu caso, ele é fruto de um irritante perfeccionismo — essa vontade tão humana e vã de burilar e lapidar tudo que é oferecido ao público — que o mantém afastado desse tipo de interlocução com ele e, por vezes, acaba até por mostrá-lo como uma figura esquiva, algo que não poderia ser mais distante de seu espírito afável e hospitaleiro.

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Tudo isso se reflete em cada uma das frentes pelas quais escoam suas forças criativas, propostas multifacetadas e polissêmicas que abrem caminhos, revelam possibilidades e, no processo, dão abrigo e alento a outros talentos que, como ele, flutuam nesse grosso caldo cultural que a música eletrônica alimenta atualmente em sua cidade natal.

Nesta conversa iluminadora, que vem acompanhada pela première da faixa-título de seu novo EP — que sai nesta sexta-feira, pela label Live At Robert Johnson —, ele nos mostra um pouco dos anseios e ansiedades, sonhos e planos, propostas e lembranças que fazem e fizeram dele e de seus projetos o que são hoje e serão amanhã.

Leia abaixo:

O EP Ordinary Sleep sai nesta sexta-, 22, mas você escuta a faixa-título em primeira mão aqui na Phouse

Os inícios de todas as jornadas ficam por vezes um tanto esquecidos e acho que, neste momento, eles valem ser revisitados, não? Como surgiu essa paixão que te trouxe até aqui e como ela se afirmou como parte tão importante da sua vida?

Houve dois momentos cruciais nessa trajetória dos quais me recordo claramente. O primeiro foi aos 13 anos, quando me apaixonei inicial e fatalmente pela música e comecei a tocar em festinhas de garage com amigos. Foi aí que toda essa vida, o prazer de tocar e ter uma pista em suas mãos, me seduziu — um ímpeto que foi apenas pelas constrições financeiras que um adolescente naturalmente enfrenta. O seguinte foi num contexto de intensa mudança individual, por volta dos anos 2000. Foi um período de transição e transformação no qual o “DJing” apareceu como um dos meus principais motivadores e eu me reconectei a ele de modo ainda mais profundo.

Este é o que vivo até hoje. Ele é mais fluido, compassado e, por isso mesmo, mais duradouro e autêntico, sendo fruto de meu amadurecimento pessoal e da minha relação com a música. Tudo se deu de forma bastante gradual e comecei a tocar sem gerar muitas expectativas, até que os convites foram surgindo, até mesmo para tocar em lugares em que eu admirava, daí foram se tornando mais frequentes, residências foram oferecidas, oportunidades se fizeram presentes e cá estamos.

E quanto à outra atividade que hoje em dia também marca esse relacionamento, a produção; como ela passou a ser parte desse processo tão pessoal que acabou se tornando profissional também?

Sinceramente, eu sempre quis produzir. Esse é um desejo que invade qualquer criança ou adolescente assim que vê alguns de seus heróis ou modelos artísticos num palco, atrás dos instrumentos, gerando todos aqueles sons tão fascinantes. Lembro do dia em que assisti na TV quem era Quincy Jones e descobri que ele tinha produzido Thriller, do Michael Jackson. Essa imagem é algo muito impactante e sempre ficou comigo nas minhas memórias desde as primeiras vezes que me recordo ter visto na televisão a imagem de um estúdio.

Mesmo assim, entre o desejo e a realidade, sempre há aquela dúvida sobre suas capacidades, uma insegurança natural que nos mantêm humildes e até realistas, mas que também pode nos manter longe de nossos potenciais. Vale lembrar também da conjuntura profissional que se apresentava ali, na qual a sinergia entre produção e a discotecagem era vista como algo necessário tanto para quem vivia exclusivamente de fazer música quanto para quem a tocava apenas. Essa imposição do mercado à época acabou gerando muitos problemas para todos e, obviamente, o que mais foi atingido foi a qualidade do que era oferecido ao público. Eu não queria fazer parte daquilo e daí decorria um dilema artístico que me deixava muito desconfortável: fazer música porque precisa ou porque realmente gosta?

Eu comecei a me aventurar no estúdio porque isso me satisfazia de uma forma complementar ao que eu encontrava na cabine, e minhas experimentações se deram sem muitas expectativas. Eu compartilhei o que tinha criado até ali, crente de que um feedback ou outro seria o máximo que conseguiria, algo que já me ajudaria imensamente. Mas eu jamais imaginaria que, 40 minutos depois, uma pessoa como o Victor Rotciv, cuja opinião e visão sempre respeitei, me ligaria para perguntar se eu gostaria de lançar pelo selo dele, o Mister Mistery.

Isso me imbuiu da confiança necessária para que continuasse seguindo essa trilha, e procurei ir me aprimorando, aprendendo tudo que podia de meus erros e acertos no decorrer da jornada.

Davis
Foto: Matthias Wehofsky/Divulgação

E essa brincadeira ficou séria a ponto de dar vazão à sua criatividade em alguns selos respeitáveis por aí, não é? 

Sim, eu entendo todas essas conquistas como sinais de que estou fazendo algo certo, mesmo que a intenção por trás do que faço em estúdio não seja necessariamente emplacar neste ou naquele selo. Claro que há remixes e outros trabalhos comissionados que obedecem outra lógica, mas eu ainda prezo aquele momento de inocência que sempre me levou a querer fazer música e procuro preservá-lo.

O fato do resultado de meu trabalho ter interessado a labels que respeito e cujo material toco sempre é posterior, mas não deixa de ser muito reconfortante e mesmo gratificante. O que é o caso do EP pela Live At Robert Johnson, o qual vocês ouvem agora uma das faixas em primeira mão. Nele, eu procurei sintetizar não só o que toco, mas o que sinto e penso quando faço isso, especialmente na pista do club que dá nome ao selo, e é um dos meus favoritos no mundo todo.

Fornecer esse estímulo talvez seja a função mais primordial ocupada por uma plataforma artística, concorda? Replicar essa tarefa de uma forma original também foi o que levou você, Vermelho e Zopelar a fundarem o In Their Feelings?

Inicialmente sim, mas ele não deixa de ser outro canal pelo qual nos exprimimos musicalmente. A curadoria que o sustenta é ela mesma uma forma de expressão nossa que é central para nosso trabalho coletivo e individual. Ela é única, genuína e se materializa no catálogo, pois lançamos o que gostamos de tocar e ouvir. Assim, ela também é uma continuação do trabalho que fazemos como DJs e produtores, mais um capítulo dessa narrativa que construímos juntos.

O selo possui um conceito que é resultado de um consenso criativo entre vocês, orientando as decisões, ou segue diretrizes muito mais fluidas que se adequam ao que é recebido? Aliás, como funciona o catálogo: através de encomendas ou por força dos felizes acasos entre as demos que recebem?

Eu acho que tudo evolui em conjunto, no interior de um todo que pode não ser necessariamente coeso, mas certamente é bastante dinâmico. O plano geral é amadurecer com os artistas, seguindo nosso próprio amadurecimento, seja ele individual ou conjunto. Pode parecer complexo dito assim, mas é a forma mais espontânea e inclusiva possível de desenvolvimento para o projeto que vislumbramos.

Quanto aos critérios de escolha do que comporá ou não o catálogo, se há um método, ele funciona de um modo não muito rigoroso. Recebemos bastante material, mas de uma forma bastante errática; muitas vezes há uma enxurrada, em outras tudo escasseia. Então não podemos confiar nesse fluxo e acabamos comissionando algo de artistas cujo trabalho nos atraia e de que gostamos, ainda que de maneira bem informal.

Edição da ODD, em São Paulo. Foto: Felipe Gabriel/Divulgação

E quanto à ODD? Ela também segue uma orientação similar, mesmo que seja tão vaga?

De certo modo, sim. A ODD tem como um de seus principais objetivos prover espaços seguros para que as liberdades individuais sejam respeitadas e a criatividade de todos ali presentes possa florescer. Especialmente aquelas que, por ventura, não encontrem essas oportunidades fora desse ambiente que procuramos cultivar a cada edição da festa. Um que não seja controlado ou definido por influências externas e que, portanto, seja livre, na acepção mais elementar da palavra, oferecendo um palco para todo tipo de forma expressiva que possa surgir ali, a partir do enorme léxico que as linguagens eletrônicas e performativas podem prover.

Dentro disso tudo, o público não é apenas espectador, ele é parte viva e fundamental desse ambiente e aqui é que ele se torna um espaço realmente sem fronteiras. É evidente que a ODD também é um laboratório para nossos projetos e, sem ela, não imagino que aquilo que faço tivesse o mesmo impacto, pois é nesse diálogo tão franco e dinâmico com a pista que surgem aqueles momentos repletos de possibilidades que são essenciais para qualquer artista.

Além disso, ela já comemora bons quatro anos de existência durante os quais tivemos muitas conquistas, mas creio ter sido uma das mais importantes entre elas conseguir ampliar o escopo de nosso público sem interferir naquela atmosfera de modo agressivo ou disruptivo. Agregamos pessoas e ideias à nossa mistura sem modificá-la ou perdê-la, já que todos que vieram a conhecer o projeto e tudo que ele representa durante esse tempo também se familiarizaram com nossa proposta e os códigos que a compõem e fazem dela algo tão singular e inclusivo. Isso é uma vitória inestimável quando se trata de algo tão caro a todos nós e que merece ser preservado como o que temos de mais precioso.

Esse é um daqueles desafios que todas as iniciativas artísticas mais conceituais acabam por enfrentar em algum momento de sua trajetória ao ter de lidar com seu próprio sucesso e popularização. Considerando esse elemento que é um entre tantos que acabam por conectar diversos núcleos através do globo, vale perguntar: esse movimento atual é algo que se vê alhures ou é algo que é muito ligado ao nosso contexto atual no Brasil?

Esse momento que enfrentamos agora é parte de uma tendência global, não há dúvidas. Esse recrudescimento de perspectivas atrasadas, esse pânico disseminado que leva pessoas a fazerem escolhas erradas e adotar posturas mesquinhas é algo que pode ser visto em diversos lugares. E, considerando todos os lugares em que toquei neste último ano, é interessante notar que cada um deles oferece respostas bem particulares a essas questões, assim como nós.

É uma busca constante que desempenhamos, dirigindo todos os nossos esforços até aqui para criar e manter aquela característica que faz da ODD o que ela é, provendo um foco de resistência ou mesmo um refúgio e meios expressivos para quem precisar deles. Acho que nesse sentido mais acertamos do que erramos.

Todo evento ou projeto é muito singular e, por toda parte que tive a oportunidade de passar e tocar nessa cena mundial da qual agora viemos a nos tornar parte pivotal, vi respostas diferentes para desafios similares. É natural, pois temos uma gama imensa de formas pelas quais podemos nos exprimir, e aqui os recursos para criarmos e lutarmos também são infinitos. Os eventos são veículos para que essas ocasiões surjam e todas as possibilidades possam vir à luz, então em cada local, em cada contexto, o que sai daí vai ser totalmente diferente.

Chico Cornejo é colaborador eventual da Phouse.

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