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Entrevista

Protagonista carioca, Leo Janeiro fala sobre RMC, Warung, D.O.C. e parcerias

Jonas Fachi

Publicado em

29/06/2017 - 14:02

Uma das mentes por trás de Rio Music Conference e Warung Records, Leo Janeiro conversou conosco durante sua tour pela Europa. No papo, ele revela as pretensões do RMC e de seu lançamento pela D.O.C., com remix de um dos produtores mais emblemáticos do cenário atual.

Pode-se dizer que Leo Janeiro transformou sua paixão pela house music em uma marca nacional. Protagonista da cena eletrônica na cidade que leva parte de seu sobrenome, o carioca conquistou residência em alguns dos principais clubs do país, como Warung e Beehive. Porém, uma de suas facetas mais prósperas se revela em sua dedicação as coisas que ultrapassam a pista de dança. Incansável, Leo tem promovido ao longo dos anos o que é feito no Brasil para o mundo através da sua habilidade legitimamente carioca para entender os bastidores da cena. Um dos responsáveis pelo Rio Music Conference e pela curadoria do Warung Records, o artista teve uma conversa descontraída conosco via Whatsapp, enquanto se mantém excursionando com apresentações em alguns dos eventos mais quentes do velho continente.

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Leo, como foram as primeiras datas aí na Europa? Ouvi falar que Barcelona está mais quente que o normal…

Está indo tudo dentro do esperado, correria e jetlag [risos]! Sim, Barcelona tem um clima bem quente nesta época; amanhece cedo e o sol vai muito tarde. Berlim também estava assim, mas por lá ainda tem o ventinho da noite… Sobre as gigs, todas foram muito bacanas, a festa junto com o Watergate foi muito especial, porque os dois clubes estão comemorando quinze anos. Legal que os dois têm filosofias parecidas, como dar suporte aos seus residentes. O mais importante é que essa parceria é bem positiva para ambos e tem muita coisa boa vindo!

Lembra o primeiro ano que esteve aí para se apresentar como artista? Tem sentido as mudanças do cenário?

Hum… 2011! Eu já toco há alguns anos e as coisas vêm mudando, até porque a música que era feita cinco anos atrás já está sendo feita de outra maneira. A forma de promover também sofreu muitas mudanças. Legal poder senti-las para melhor, e com o surgimento de novos talentos.

E o que dizer do Sónar? Quais artistas mais te impressionaram?

Eu vi alguns artistas no Sónar… O novo show do Justice é bacana, The Black Madonna legal… No OFF Sónar gostei de poder ver o Berhouz novamente, set muito bom. Os lives do Todd Terje, ScharzmannRodriguez Jr. no rooftop do hotel Diagonal com a vocalista Liset Alea, incrível… E o DJ set do [John] Talabot também foi ótimo!

Falando em Rodriguez, ouvi seu álbum Baobab, está maravilhoso. Nos bastidores se fala em um remix dele para você…

Sim, ele fez um remix para um EP meu que vai sair pela D.O.C. em outubro. Ele está muito bem mesmo.

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Como surgiu o convite, vocês já se conheciam?

Na verdade, o Rodriguez é um cara que eu já me dava muito bem, já conhecia ele por nós termos tocado algumas vezes juntos, e acabamos criando uma amizade. Ao mesmo tempo eu estava no estúdio com o Gui [Boratto] formatando esse EP, e tinha comentando que gostava muito dele. O Gui ainda não o conhecia pessoalmente, mas tinha admiração pelo trabalho… Eu até brincava que os dois tinham muitos pontos em comum, e então começou um namoro, de tentar chamar ele.

Tínhamos outros nomes também, mas eu acho que o Olivier [Rodriguez Jr.] é um cara que tem a ver com a gente, com a nossa maneira de pensar, e nós queríamos alguém que nós gostássemos do trabalho de verdade. No fim, acabou dando certo. Ele é uma pessoa muito, muito boa, não está tendo esse sucesso todo à toa. Fez um remix maravilhoso, a música se chama “Moodisco”. Agora estamos correndo para fazer o vinil, na sequência vamos ter o digital… Enfim, a estratégia é bem legal. Acho que tudo conspirou a favor.

Muito legal a história, mas tem outras coisas antes disso, certo?

Sim, antes desse tem algumas coisas. Agora em julho sai um EP meu pelo Warung Records junto com os meus brothers talentosos do Mumbaata e remix do HNQO, que está matador! Vou te falar que é um dos melhores remixes que ouvi nos últimos tempos. O Henrique [HNQO] é um cara que eu gosto muito, superconectado. Também tem um remix de um amigo aqui de Barcelona, o André Buljac. Ele é do núcleo da Fact aqui, e fez um remix muito bacana numa outra onda… É isso, estamos tentando fazer as coisas acontecerem.

Existe algum critério para escolha dos artistas para o W Rec?

Sim, primeiro a música tem de ser boa. O estilo acaba sendo o que trabalhamos no Warung: house, deep, disco, tech house, techno, progressive. Criatividade e qualidade também levamos em conta, é importante sempre nivelarmos por cima para termos um resultado bacana de feedbacks — até porque a label é um espelho musical do clube. O objetivo é estimular novos artistas e criar mais possibilidades e intercâmbio. O Albuquerque divide comigo esta função de A&R, então sempre é importante dividir as opiniões com o time do Warung.

Todos sabem da importância do RMC para a nossa cena se fortalecer. Existe a edição de Curitiba, mas olhando para toda a representatividade que existe em SC na música eletrônica nacional, nunca se pensou trazer novamente uma edição para o Estado?

Em 2012 houve em Floripa, 2011 Porto Alegre. Na verdade, o RMC tem dez anos, você imagina o quando já andamos por aí… É realmente uma boa pergunta, nós precisamos chegar em outros lugares importantes. O interior hoje, por exemplo, é um grande responsável por uma parte do mercado, tanto financeiro como artístico.

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Eu gostaria que em Balneário Camboriú acontecesse uma edição — incluindo a região do litoral norte e o Vale do Itajaí, que juntos formam algo bem grande. Quando rolam os vídeos, transmissão ao vivo, o pessoal daqui sempre assiste, superinteressados.

Sim, estamos investindo nisso. Sabemos que é possível chegar em mais pessoas com as transmissões. Sobre SC, é uma boa ideia. Nosso maior problema é investimento, sem isso é cada vez mais complicado. Nós fazemos em Curitiba, pois temos apoio. Com essa crise ficamos sem um patrocínio forte, mas eu acho que sempre é importante trazermos essa discussão. Mas você tem razão, completando dez anos vamos fazer muita coisa legal.

Pode falar mais disso?   

Nos dez anos do RMC, queremos fazer uma programação diferente do ponto de vista da curadoria. Vamos tentar fazer o melhor em 2018. Por conta de poder usar essa tecnologia, sabemos que é possível chegar em mais pessoas com as transmissões. A temporada de preparativos começa agora.

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O que podemos esperar ainda do Leo Janeiro para 2017?

Em agosto sai outro EP pela Not For Us. Vai se chamar Creator e tem uma parceria com o Keskem e um remix do meu grande brother e superprodutor Andre Salata.

Também estou fazendo uma compilação chamada Cocada, pela Get Physical Music, em parceria com o RMC, que vai sair no final do ano, início de dezembro. Ela vai ter basicamente artistas sul-americanos, na sua grande maioria do Brasil. Nós vamos poder abrir uma oportunidade para muitos artistas novos, e também já estabelecidos. A ideia é realmente conectar os produtores do Brasil com um selo gigante como a Get. Podemos criar de uma maneira legal, estou bem contente, porque o projeto tem como objetivo também ser uma plataforma para artistas divulgarem seu trabalho.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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Review

“Pedra Preta”, o 1º álbum do Teto Preto, é um grito de resistência

O celebrado grupo do underground paulistano mostra sua maturidade artística em seu primeiro full lenght

Alan Medeiros

Publicado há

Pedra Preta
Foto do clipe de "Pedra Preta": Reprodução/Facebook

Nos últimos anos, São Paulo se transformou em um caldeirão cultural com uma chama multicolorida a iluminar um mar de ideias brilhantes. Nesse cenário, diversas mentes criativas surgiram, mostraram a que vieram e se tornaram referência para uma série de iniciativas que passaram a pipocar pelo país. No olho desse furacão, exercendo posição de protagonismo, lá estava a Mamba Negra e, consequentemente, o Teto Preto.

A relação entre festa e grupo é intrínseca. O Teto Preto nasceu na pista da Mamba e obviamente foi criado por frequentadores e entusiastas da festa. Nesse processo, o grupo foi decisivo para construção do perfil sonoro que tanto marcou a Mamba Negra frente ao seu público. Muito além da música, estamos falando de arte em diferentes camadas — estamos falando de representatividade. A festa representa a banda, a banda representa a festa. Por sua vez, o público se sente fortemente representado por ambos.

Os primeiros trabalhos do Teto Preto foram lançados pelo selo da Mamba, o MAMBA rec, em 2016. O EP Gasolina foi prensado em vinil com duas faixas extremamente marcantes: “Já Deu Pra Sentir” e “Gasolina”. O resultado? Dois hits históricos para jornada do grupo. Na sequência, um hiato de dois anos até “Bate Mais”, single em antecipação ao Pedra Preta, primeiro álbum de estúdio completo da banda, que chegou às plataformas digitais neste mês com oito faixas, sendo sete originais e inéditas.

 

Pedra Preta reflete a atual maturidade artística de seus compositores, mas não deixa a chama da ousadia e irreverência se apagar. Novamente, não se trata apenas de música: Laura Diaz (Carneosso), Loic Koutana, Pedro Zopelar, Savio de Queiroz e William Bica promovem um grito de resistência ao longo de todas as faixas que formam o full lenght. A atmosfera densa do disco dita o ritmo de uma narrativa longa e inteligente, que aborda assuntos como a tragédia do Museu Nacional neste ano.

Por falar em “Pedra Preta”, vale ressaltar que a faixa-título do álbum também ganhou um clipe. Lançado ontem, 22, e com duração de mais de oito minutos, o vídeo dirigido por Rudá Cabral, Laura Diaz e Joana Leonzini traz um storytelling denso e aberto a interpretações, mas com uma clara crítica ao conservadorismo da sociedade brasileira e honrosa menção ao perfil de público da Mamba Negra — o trabalho foi coproduzido pela MAMBA rec em parceria com a Planalto. Sem dúvida alguma, Pedra Preta é uma vitória importante para a sobrevivência da cultura eletrônica de vanguarda no Brasil.

  

Alan Medeiros é colaborador da Phouse.

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ESPECIAL

Tha_guts e o som envolvente que rege o selo da Gop Tun

Produtor gaúcho é uma boa mostra do amadurecimento da Gop Tun Records

Alan Medeiros

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Gop Tun Records
Tha_guts. Foto: Divulgação

Neste mês de novembro, o coletivo paulistano Gop Tun celebrou seis anos de uma história construída muito em cima da seriedade com que o coletivo paulistano trata seus projetos artísticos, dentro e fora da pista. Referência na cena house/disco brasileira, o atual patamar do projeto permite que algumas de suas iniciativas sejam encaradas como formadoras de opinião.

Para isso, uma das principais ferramentas do núcleo é a Gop Tun Records, gravadora que possui um catálogo ainda enxuto em número de releases, mas que em 2018 e principalmente 2019, deve ser expandido através de uma intensificada no cronograma. Até então, cada ano tinha entre um e dois lançamentos. Neste ano, foi observado um aumento no fluxo, já que até aqui, três releases ganharam a luz do dia através da plataforma criada pelo coletivo paulistano.

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Atualmente, o time de artistas que compõe o quadro de lançamentos do selo é composto por residentes da Gop, por nomes de forte influência frente à indústria nacional (como Renato Cohen) e algumas mentes brilhantes de outras partes do mundo, como HNNY, Prins Thomas e Lauer.

Para os próximos meses, Bruno Protti (aka TYV) e Gui Scott, duas das cabeças pensantes da gravadora, contam que haverá uma expansão no time de artistas, com mais nomes brasileiros e sul-americanos entrando para o casting da label. Sem a pressão de obrigatoriamente pensar em vinil, a Gop Tun Records se mostra mais apta para apostas e ousadias em seu programa de lançamentos.

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O último EP da gravadora foi assinado pelo produtor gaúcho Tha_guts, um novo nome frente a geração atual de produtores brasileiros. Guto Pereira, mente por trás do projeto, entregou à Gop um release denso e repleto de referências distintas que se revelam ao longo das cinco faixas originais. O trabalho sucede Plastic Noise, disco que o revelou para o cenário da eletrônica brasileira. Após o full lenght lançado de maneira quase que independente, Guto decidiu se aproximar da música eletrônica de pista em suas jams de estúdio, e o resultado foi esse belíssimo trabalho lançado pelo selo do coletivo.

Ao ouvir as faixas de Mirror, é possível entender essa complexidade envolvente que tange o trabalho do coletivo paulistano em seus mais diversos projetos. Tal fato dá autoridade para que o núcleo e os artistas envolvidos em suas festas e seus releases possam se desenvolver de forma assertiva. Além das cinco faixas originais, Guto também assinou um futuro single com a gravadora, que deve ser trabalhado somente no segundo semestre de 2019. Enquanto isso não acontece, ouça na íntegra o seu mais recente lançamento:

  

Alan Medeiros é colaborador da Phouse.

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LIFT OFF

Psytrance raiz: Mindbenderz lança álbum transcendental pela Iono Music

Review do debut do duo suíço-alemão é o primeiro texto da nova coluna da Phouse

Nazen Carneiro

Publicado há

Mindbenderz
Foto: Reprodução
* Edição e revisão: Flávio Lerner

Instalar foguetes, preparar motores, verificar comunicação, iniciar sequência de lançamento. Cinco, quatro, três, dois, um… LIFT OFF!

Estreamos aqui a coluna LIFT OFF, que, escrita por Nazen Carneiro, traz um olhar sobre a indústria fonográfica psytrance nacional e internacional — estilo da música eletrônica que se manifesta como uma cultura vibrante e com muitos adeptos no Brasil.

De tempos em tempos a cena eletrônica se transforma e, como um organismo vivo, cresce e se reproduz. Um de seus pilares, o psy se reproduziu e está mais presente do que nunca, com “astronautas” consagrados mantendo-se relevantes, assim como novos “cosmonautas” surgem, evidenciando uma realidade produtiva e frutífera para a criação musical.

Com o crescimento do público, as festas também se multiplicaram Brasil adentro, e os produtores passaram a ter mais espaço para caírem no gosto do público da terrinha e de além-mar. Hoje, o psy mantém viva sua cena underground, enquanto estica seus tentáculos a outros nichos, influenciando — e sendo influenciado — até mesmo pela EDM.

Sem mais delongas, confira o primeiro texto abaixo, sobre o novo álbum do Mindbenderz.

 

Formado pelo alemão Matthias Sperlich e o suíço Philip Guillaume, o Mindbenderz traz, sem dúvida, um dos principais lançamentos do ano no cenário psytrance. Os veteranos, que são muito respeitados na cena eletrônica individualmente como Cubixx e Motion Drive, juntos ficam ainda mais fortes. É o que se vê no álbum Tribalism, lançado em 31/10, pela Iono Music.

O álbum conta com nove faixas que somam mais de 75 minutos. A primeira, “A New Dawn”, traz desde o primeiro minuto muita energia e reflexão num som que conduz o ouvinte a outra dimensão. A segunda faixa dá sentido a expressão “lineup” numa ascendente contínua, revelando uma verdadeira jornada ao desconhecido que segue até meados da faixa seis — “Hybrids” —, causando aquele frio na espinha. Nesse momento de percepção cósmica, uma pausa reconecta o corpo e mente à nossa tribo, e há de fato uma sensação híbrida de se estar em ambas as realidades ao mesmo tempo.

A essa altura, o álbum apresenta suas três últimas faixas no ápice de uma jornada espiritual, e nos encontramos num momento épico em que as características sonoras do psytrance alcançam sua maior amplitude, com uma ampla gama de efeitos numa base transcendental. É puro trance. A mente processa essas informações e a energia flui na forma de dança.

Voltamos para a Terra, mas a memória do que acaba de acontecer permanece. Tontura; excitação… O reator psicodélico agora transforma a energia através de instrumentos humanos. A última faixa dá nome ao álbum. “Tribalism” une percussões especiais, agogô, psy, Ayahuasca e vocais de xangô. Todos no mesmo pitch, como uma onda. Algo nos une, nos traz ao dancefloor, tornando-nos verdadeiramente uma tribo.

Tribalism revela uma composição muito bem realizada, fruto de meses de trabalho e muito detalhismo. Cada segundo do álbum revela a ação do Mindbenderz em promover um som extraordinário e comprometido com aquele pegada tribal, sem deixar de lado os elementos mais futuristas.

No momento do fechamento deste artigo, o álbum ocupava a primeira posição no Top 10 de psy do Beatport, o que mostra a força desse som mais ligado às raízes do estilo entre os DJs e produtores.

Nazen Carneiro é colaborador da Phouse.

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