Psicodelia com dendê: relatos de um Universo Paralello

“E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música” — Friedrich Nietzsche.

Última edição do Universo Paralello rolou na virada de 2017 para 2018. Foto: Coletiva.a.mente/Reprodução

* Edição e revisão: Flávio Lerner

São 05h e o mormaço esquenta o enorme camping na Praia de Pratigi, reserva ecológica de restinga em Ituberá, na Costa do Dendê, sul da Bahia. Não há hotéis, nem pousadas por ali. Para se instalar, é preciso trazer a própria barraca nas costas, ou alugar uma do evento, com direito a café da manhã e sessão de yoga. 

A um quilômetro do acampamento, a batida eletrônica ininterrupta se amalgama ao som do mar e ecoa pela orla. Hora de ir para a pista. N., publicitária, 41 anos, com o biquíni úmido da noite anterior grudado no corpo, salta do colchão de ar king size da barraca. Ainda com sono, toma um banho no chuveiro público com água barrenta do mangue. E segue molhada e em jejum em direção à música. 

A banda holandesa Aerophobia faz um live para uma plateia em transe, incansável. O coração de N. bate no ritmo das “soundscapes”, paisagens sonoras sintéticas. Os pés descalços estão pretos de areia fina. O dancefloor é espaço de ritual para pessoas de todas as idades e cantos do mundo. Ali celebra-se a primeira viagem longe dos pais, a liberdade, a conexão espiritual, um estilo de vida, o início de um amor ou o fim dele, o autoconhecimento, a mistura de gente. 

Cerca de vinte mil pessoas acampadas — 20% delas, estrangeiras, segundo os organizadores — reúnem-se a cada dois anos no Universo Paralello, maior festival psytrance do Brasil. Goa, berço da cultura trance, na Índia, já sediou três edições do evento brasileiro, que em 2020 comemora 20 anos. Na Bahia, sempre na virada de ano, a festa eletrônica e alternativa dura dez dias em clima de Woodstock, anfetaminada por um lineup de cerca de 400 DJs. São sete palcos com 240 horas de som, cenografias surreais, luzes fluorescentes, projetores de luz branca, canhões de raio laser e telões com imagens psicodélicas. 

Universo Paralello
Foto: Flashbang/Reprodução

No espaço principal, artistas consagrados e novos talentos da cena techno experimentam imprevisíveis caminhos com seus samplers, baterias eletrônicas, mixers, amplificadores, pickups, sintetizadores, sequenciadores e geradores. No chill out, área para relaxar, sobem ao palco DJs de psy ambient, dub, world music, trip hop, house, nu breaks, minimal, full on e o que mais houver na cena musical, além de bandas brasileiras e performances de grupos regionais e folclóricos.

Em palcos paralelos, inicialmente restritos à cena underground, já passaram Arnaldo Antunes, Lenine, Emicida, Racionais MC’s, Gabriel O Pensador, BNegão e Criolo. “O que rola aqui é muito bom para a raça humana. Não há nenhuma hostilidade e todos são solidários. Depois de alguns dias, o ego vai embora”, exulta o DJ escocês Aliji, 39 anos.

Na pista, N. encontra o futuro ex-marido, o engenheiro G., 45. O casal decidiu separar-se nos próximos meses. Mesmo assim, resolveu viajar junto para o UP, como “despedida”. G. pede para N. esticar o dedo e pinga um líquido transparente de um pequeno frasco que saca do bolso da bermuda. “É gota, experimenta!” N. obedece, lambe o dedo sem parar de dançar.

Meia hora depois, o ácido faz efeito e ela vai caminhar na praia. Passa a manhã longe da festa, entre o mar amarronzado e o areão a perder de vista de Pratigi. Entre um mergulho e outro, vê uma estrela do mar. Toma-a nas mãos, os cílios laterais e inquietos. O animal marinho obstina-se em existir em seu mundo particular, indiferente. “Será isso a felicidade?” N. está feliz e esquece momentaneamente a melancolia do casamento que acabou. Para muitos, o Universo Paralello é uma epifania.

Foto: Reprodução

Três quilômetros de praia são ocupados por tendas de lona, ocas e barracas de palha com 24 horas de atividades e atrações: exposições e instalações cênicas e audiovisuais, oficinas de bioenergética e de Chi Kung, massagens, “preces das sete direções galácticas dos Maias”, leitura de Kins e de I-Ching, ritos tibetanos, meditação, reiki, pintura corporal.

O grupo norueguês Fuck for Forest faz fotos de nu artístico de quem se aventura a parar por ali. Também fotografa transas; as imagens, com voluntários ou os próprios integrantes do grupo, são vendidas online e o dinheiro é doado para projetos de proteção ambiental. Há uma galera que promove o “ritual de gratidão aos antepassados no fogo sagrado”, e atira na fogueira escritos com o que todos querem queimar em suas vidas: doença, tristeza, falta de dinheiro, de trabalho, solidão…

Na “zona espetacular”, há palhaços, performances pirotécnicas, músicos tocando instrumentos primitivos, apresentações teatrais, equilibristas, malabaristas, dançarinas do ventre, mímicos. Na passarela de areia, entre o mangue e o mar, há barracas rudimentares com bar, restaurante, lojas de artesanato e de roupas; no fogão à lenha da cozinha comunitária, prepara-se do miojo fiel aos chás aromáticos e chapatis, o pão indiano.

No território livre do Universo Paralello, desfila-se o que é, o que se quer, pode ou não ser. A paisagem é divertida e colorida. Muitos dreadlocks, chapéus de espuma, penas de pássaro nas cabeças; homens de túnicas, de saias; mulheres de sári, de burca, e de biquínis, claro. Piercings e tatoos pelo corpo, tribais, de paisagens, de deuses indianos e africanos. O vento da costa baiana movimenta o asteroide de aço montado na pista central, os panos que enfeitam as árvores, os cogumelos de plástico gigantes, as libélulas, caracóis e borboletas de espuma fluorescente penduradas nas árvores. 

Universo Paralello 2019
Foto: Flashbang/Reprodução

Ao final da tarde, o casal R., 45, e D., 37, está no quinto ácido do dia. Cabelos rastafaris, tatuagens e piercings pelo corpo, eles rejeitam o rótulo de hippies. “Hippie é sedentário. A gente trabalha, come carne e não vive em comunidade”, define R. Ele e a mulher acabam de voltar da Guiana; estão há 18 anos na estrada, sem moradia fixa, vendendo artesanato nas festas e alfabetizando os próprios filhos. São três: Maria Antônia, nove anos, que fez uma performance como DJ no chill out; Ianuhu (maconha na língua dos índios do Xingu), quatro anos, e Diamba (maconha na língua africana), de três anos. 

D., a mãe, está grávida de dois meses. “Se for menino, vai se chamar Ganja, que também quer dizer maconha em africano”, planeja. “Somos a ‘apology family’. Meu pai é militar, mas ele adora a minha vida. Sabe que meu caráter é inabalável”, garante R. O beatnick diz que eventos como o Universo Paralello são importantes para “romper valores, elos, apegos”. “Aqui é para todo mundo ser igual”, decreta. 

Hippies eletrônicos, rastas, surfistas, hare krishnas, esotéricos, adeptos do new age, ciganos, playboys, universitários, desocupados, aposentados, burgueses, doidões e caretas estão ali. Cada um no seu tempo, instantâneo, pontual, úmido, denso e sem patrulhas. O poeta americano Brian Weymouth, 62 anos, curte a festa inteiramente sóbrio. Frequenta o Universo Paralello porque planeja promover um igualzinho em seu país, só que sem efeitos sintéticos. “Muitas pessoas não sabem como ter bons momentos sem drogas. Estou apaixonado por uma brasileira, essa é minha droga”, resume Brian.

O Universo Paralello inspirou Shangri-La, cenário que desencadeia a trama vivida por protagonistas do filme Paraísos Artificiais, lançado em junho de 2012. O longa de ficção do diretor Marcos Prado conta a história de jovens modernos que vivem a experiência sensorial das raves, o amor, as drogas, as fotografias paradisíacas e as batidas eletrônicas. Na tribo dos frequentadores do Universo Paralello, o filme não empolga. A cena eletrônica teria sido retratada de forma caricatural, reforçando estereótipos e preconceitos.

Universo Paralello 2019 segundo lote
Foto: Flashbang/Reprodução

As raves surgiram no Brasil no início dos anos 1990, trazidas por DJs estrangeiros. Foi na Bahia onde tudo começou. Hoje, o calendário eletrônico brasileiro pode incluir pelo menos 1,4 mil festas ao ano. As baladas duram dias e atraem ao mês um público de até 500 mil pessoas, jovens em sua maioria. Festas como a XXXPERIENCE, em Itu, recebem até 30 mil. 

Os dados foram pesquisados pelo jornalista e escritor paulista Tomás Chiaverini, autor do livro Festa Infinita – O entorpecente mundo das raves (2008, Ediouro), que descreve a imersão nas festas, sua própria experiência lisérgica, e entrevista Djs, produtores e ravers. A enorme quantidade de gente junta (incluindo menores de idade), a mistura de álcool e drogas, a falta de seguranças e de atendimento médico em muitos eventos podem transformar a vivência em eventos eletrônicos em uma “viagem errada”. Para fugir das megaraves, frequentadores fiéis vão às privates — festas menores e divulgadas para um grupo restrito, como eram no início. 

Apesar de fazer parte da cena eletrônica, eventos como Universo Paralello, Terra em Transe e Respect Lost (em praias na Bahia e no litoral de São Paulo) e Mundo de Oz e Pulsar (em fazendas com cachoeiras em São Paulo e Minas Gerais) não são encarados pela audiência eletrônica como rave, mas como “celebrações pacifistas, transformadoras, com boa música, ótimos DJs, arte, cultura e espiritualidade”, nas palavras de frequentadores. 

Há nelas um forte sentido de coletividade, e espaço com atrações para famílias com filhos pequenos. Em 2010, a poucos dias da abertura do UP, a organização da festa conseguiu derrubar um embargo judicial que proibia a entrada de menores, e os pais, com crianças de colo e bilhetes comprados há meses, puderam entrar na festa. Tiveram o apoio dos índios Pataxós, da aldeia de Caraíva, que vendem artesanato no festival e fecharam estradas e acesso aos resorts da região, em protesto.

Universo Paralello
Foto: Coletiva.a.mente/Reprodução

A trilha sonora da festa, o trance, é gênero que os baladeiros dizem ser capaz de levar a estados meditativos e de expansão da consciência. “O trance é marginal, conectado à ideia de contracultura, é a versão eletrônica do que foi o movimento hippie e o rock. É dessa fonte que a gente bebe”, frisou o brasiliense Dario Achkar Petrillo, criador do evento ao lado do irmão Juarez Petrillo, o DJ Swarup.

Dario faleceu em abril de 2019, de câncer no fígado, aos 59 anos. Deu duas entrevistas para a reportagem, em 2016 e em 2018. Lembrou que o Universo Paralello surgiu entre amigos que curtiam o movimento psicodélico recém-chegado no Brasil. Swarup, a ex-mulher, Ekanta Jake, e outros DJs aglutinavam o grupo que organizava as primeiras festas underground em Brasília.

“Em 2000, realizamos uma festa despretensiosa em Alto Paraíso de Goiás porque a gente não tinha grana para viajar. No final, juntamos mais de 700 pessoas, de vários estados do país. Resolvemos fazer de novo. Os três primeiros anos do UP foram em Alto Paraíso. Criamos uma empresa para a coisa funcionar profissionalmente, a gravadora Vagalume Records. Hoje o festival tem uma reputação internacional fantástica, excelente infraestrutura, que supera a de muitos festivais pelo mundo, sem contar o local maravilhoso”, relatou Dario, discípulo, junto com o irmão, do controverso guru indiano Osho Rajneesh. Os dois se desentenderam e Dario afastou-se da organização do evento. “A cena eletrônica já foi mais pura. Havia um movimento psicodélico autêntico”, observou.

Swarup, que já se apresentou nos principais festivais internacionais e em 2000 figurava no cast do selo internacional Spirit Zone, segue à frente do Universo e da Vagalume. Além de assinar o festival, a gravadora divulga o full on e o progressive trance brasileiros, de talentos com influências underground e modernas. Esta é a outra turma do Universo, que está lá para fazer som da melhor qualidade transcendental e bombar a pista. 

Universo Paralello
Foto: Coletiva.a.mente/Reprodução

Um de seus astros é Alok, filho de Juarez. Com discos de platina e de ouro no currículo, Alok saiu na lista da Forbes como um dos brasileiros mais influentes abaixo dos 30 anos — a ponto de ser convidado para jantar beneficente que o ator Leonardo di Caprio promoveu em Saint-Tropez, na França, em 2017.

No mesmo ano, ele, o irmão gêmeo Bhaskar, a mãe Ekanta e o pai Swarup, todos goianos, foram parar no sofá do programa Conversa com Bial, da TV Globo. O apresentador brincou: “Goiás não tem só sertanejo; o que era coisa de doidão agora está no Spotify”. Já no Domingão do Faustão, Alok foi celebrado e incensado em 2018. 

Pelo menos 15 anos antes da sua performance, a música eletrônica tupiniquim começava a se impor no efervescente panorama eletrônico mundial, transformando-se em produto sério de exportação nas mãos de DJs como Marky e Patife, da periferia de São Paulo. O psytrance parece ser, de novo, um dos ritmos da vez. 

A música “Interlude” contribuiu para a ascensão meteórica dos brasileiros Aura Vortex e Blazy. Em julho, esteve no topo do ranking mundial do Beatport. Henrique Janelli, o Blazy, criou em 2017 o hit “Tandava”, quarta música mais vendida do ano no portal. A ascensão dos artistas brasileiros tem colaborado para atenuar a má reputação das raves — que os organizadores preferem, por isso mesmo, chamar de festas open air — e aumentar a audiência no Brasil.

Universo Paralello
Foto: Sigma F/Reprodução

O início do Universo Paralello foi dureza. “Nos primeiros seis festivais, tivemos lucro só em dois. Em 2006, conseguimos pagar o investimento usando o faturamento dos bares. Não temos ainda um único patrocinador; o festival é realizado com o dinheiro da venda antecipada dos ingressos”, contou Dario.

“A primeira parte do trabalho é virtual, é planejamento. Quando entra o dinheiro dos bilhetes, é a hora de viajar pra contratar os DJs, comprar suas passagens, produzir material gráfico, investir no site. A divulgação é toda boca à boca e pelas redes sociais. Alugamos as duas fazendas que o Universo ocupa na praia de Pratigi. É uma fortuna, mas não vou falar em valores”, seguiu.

“Insistimos no UP porque para nós era um projeto de vida. Em sete, dez dias, a gente conseguia o que o socialismo não conseguiu. A utopia socialista é só o outro lado da moeda do capitalismo; há uma utopia verdadeira que é a da igualdade, do amor, da tolerância, da vida comunitária.”

Tanto em raves como nos festivais, o consumo de drogas pode ser uma roleta russa. A pílula de ecstasy, o quadrado de LSD, o MDA, a cocaína e a maconha correm o risco de ser falsos ou adulterados — com taurina, cafeína, speed, anfetamina, opiáceos e mais uma dezena de substâncias conhecidas e outras não identificadas. O pior resultado deste combinado é uma parada cardiorrespiratória. Nem todos os frequentadores sabem disso. 

Universo Paralello
Foto: Coletiva.a.mente/Reprodução

A partir dessa realidade, nasceram coletivos com foco na chamada redução de riscos e danos, que já acontece nas festas eletrônicas de vários países. O Balance atua há dez edições no Universo Paralello, contratado pelos organizadores. Disponibiliza informações, testes químicos para aferir a qualidade das pílulas trazidas pelos frequentadores da festa e auxílio para bad trips. Sem sermões e intromissão na liberdade dos usuários.

Trance sem drogas funciona? “Se você dançar meia hora, entra em transe, não precisa de droga. É uma hipocrisia conectar as drogas a uma festa trance. Você pode ir na festa do Peão de Boiadeiro, em Barretos, e vai encontrar drogas. É evidente que no Universo também tem. A gente nunca escondeu nada de ninguém. A droga é um problema de saúde pública e secular da humanidade”, disparou Dario.

De acordo com ele, não há registros de brigas ou mortes no UP porque “a festa tem um projeto cultural que catalisa as pessoas. Há alternativas que não sejam só pista de dança e bombação. O evento não precisa de drogas para sobreviver. Mas não temos como controlar o que as pessoas usam. Se a polícia não consegue, eu vou conseguir? Em 95% dos casos que chegam no ambulatório do Universo, a pessoa está alcoolizada, não fez uso de drogas ilícitas. Então, trance sem drogas, teria que ser sem álcool também. Não vou ficar na hipocrisia do estado que trata o drogado como marginal, bandido. E também não vestimos a carapuça, a droga não é um problema do Universo Paralello”.

Em busca ou não de supertrip, dropada, quem quer participar do Universo Paralello (com ingressos a partir de 800 reais) tem uma longa viagem pela frente. De avião, ônibus ou barco, e um trecho de caminhão até a entrada da praia, onde o acesso aos carros é proibido. No mundo trance, essa galera é chamada de “freaks”  — malucos que vão aos mais longínquos lugares do planeta atrás de beats e vibe. A expressão inglesa “freak out” (eternizada em clássico do Chic) significa perder a cabeça, enlouquecer. Para muitos estrangeiros, como o russo Misha Amitrenko, 24 anos, o festival é a primeira viagem ao Brasil.

Universo Paralello
Foto: Coletiva.a.mente/Reprodução

“Vim de Salvador num ônibus com três amigos de Moscou, dois japoneses e dois irlandeses. De todas as festas trance, essa é a mais aberta e relaxada. Porque os brasileiros são assim, não é? E o lugar é lindo. Em geral, lá fora as festas acontecem em locais fechados. Mas o que mais me excita é a vida comunitária que estamos levando aqui”, diz Micha, fixando o mar com tranquilos olhos azuis. 

Ele não entende por que os brasileiros não mergulham sem roupa. Nu mesmo, só os estrangeiros, um topless de dia, um mergulho à vontade de noite. “Temos a sexualidade à flor da pele, não é tão natural assim pra gente se expor”, tenta explicar a Micha a paraibana Joice Santos, 22 anos. Mas no primeiro dia do ano, o Fuck for Forest consegue levar ao mar uma pequena multidão de peladões.

O brasileiro Luis de Souza, 50 anos, desembarca no Universo direto de Londres, onde mora, com a mulher e a filha. No ano anterior, ele estava no festival trance de Goa. “Vim em busca de liberdade neste paraíso ecológico e de uma alimentação mais natural. Também me atrai a filosofia do festival. A troca de ideias e de experiências é fantástica. Agora vou tomar um ácido e aí é cada vez mais paz, paz, paz.” 

Em dez dias, o som silencia apenas para a celebração dos Pataxós. Em círculos, arrastando os pés, vibrando os chocalhos, os corpos curvados para o ataque, os índios pedem saúde (arnã) a Namissun (Deus). “Tem muita violência no mundo, queremos uma terra de alegria, paz e amor pra todos”, proclama Tuhutari, 20 anos. Ele e os demais índios dizem não entender a dança dos brancos. “A nossa tem um significado, a deles parece só brincadeira…” No entanto, quando o live do sul-africano Protoculture abre a pista, as índias Pataxós estão lá, tremelicando o quadril no ritmo dos beats.

Foto: Reprodução

No palco, a xamã Inuká, 46 anos, levanta a cabeça enfeitada com um cocar e os braços em direção ao céu estrelado. Inuká  sussurra um mantra tibetano que repete o dia inteiro: “Gaté Paragaté, Phrasangaté Yodshava”. “É uma prece de cura e transformação, para que deixemos de lado o que não nos pertence. O ser e a natureza são perfeitos. Portanto, ser feliz é uma opção. Estamos vivendo em clima de o último a sair apague a luz. Quem é que quer estar no mundo lá fora?” 

Munida de um pote com sementes de urucum e pincel, Paula Freitas, 29 anos, a Macaco, pinta os rostos e corpos dos turistas. Traz no bolso da saia de pano reciclado, que ela mesma confeccionou, uma bússola para ler o Kin dos frequentadores — a configuração energética baseada no calendário Maia, com 260 signos e vocábulos como “cachorro galáctico branco”, “guerreiro cósmico amarelo” e “serpente planetária vermelha”. “Estou aqui para ensinar as pessoas a se conectarem com seu próprio tempo e acessarem a mágica sublime dentro delas.”

Como o amor. “Você é beautiful demais.Vem passar a noite na minha barraca, quero fazer amor com você”, grita a vendedora cearense P., 27 anos, assim que vislumbra no chill out Sam Newman, um inglês louro, alto e animado. De manhã, hora em que vai dormir, conta que entra na primeira barraca que vê aberta. Sempre consegue pouso.

Sam ri e diz a P. que já tem uma namorada russa na festa. A cearense não faz caso e tasca um beijo na boca fina do inglês. “Uau, então… te vejo depois”, reage Sam. Não tem depois. P. termina a festa com um holandês. O inglês troca a russa por uma baiana. “As brasileiras não têm rodeios, dizem o que querem”, festeja.

Universo Paralello
Foto: Reprodução

Brian, o poeta que quer fazer uma festa trance sem drogas, está no evento também por causa de uma baiana. Só que o tempero acabou depois de dois dias de festa e ele vaga amuado pelas pistas de dança. “Ela quer compromisso. Não estou preparado. Aí ela resolveu ficar com outros homens. Vou esperar porque acho que ela precisa da minha maturidade. Agora me ocorreu que tenho que dizer que a amo, apesar de tudo, e antes que a festa acabe.”

A vibe é de transe e de insights. O mato-grossense Leonardo Monteiro, 30 anos, administrador de empresas, quer “batalhar para estar em harmonia e integração com o mundo”. A bela Pataxó Kandara, 17, não quer desistir de ser índia. Macaco, a moça do calendário Maia, quer se alimentar de luz. “Este é meu plano de vida. É um demorado processo de purificação. Ainda não consigo resistir a uma pizza!”, brinca. 

Há vários estudos acadêmicos voltados para o fenômeno das raves e festivais. Experiência rave: entre o espetáculo e o ritual, tese de mestrado em história da brasiliense Nathalia Araujo Moreira para a Universidade de Brasília (2015), define um ambiente “propício para manifestações arcaicas, como o hedonismo, a errância, o  tribalismo e o transe coletivo”.

Frequentadora de raves e privates desde os 16 anos, e hoje professora do Ensino Médio da rede pública do Distrito Federal, Nathalia identifica nelas “mixagens diversas: da música, do visual, das substâncias, das narrativas. (…) Uma relação renovada do ser humano com seu tempo e a urgência do presente”.

Universo Paralello
Foto: Reprodução

Nathalia cita em seu estudo Michel Maffesoli, sociólogo francês que popularizou o conceito de tribo urbana: “As figuras contemporâneas do excesso não deixam de recordar que não podemos, por muito tempo, extirpar a dimensão erótico-sensual da existência. Idêntico às bolhas de champanhe, o gozo é o indício mais seguro deste borbulhar, […] que confirma uma socialidade que não se esgota no razoável e no útil, mas que necessita sempre do elemento excessivo para sobreviver. […] Eis aqui a lição do trágico: dar lugar à alegria demoníaca de viver”.

Com menos entusiasmo, a psicóloga das redes municipais de Engenheiro Coelho e Artur Nogueira, no interior de São Paulo, Lia Raquel Posi, discorre em sua tese de mestrado em educação para a Universidade Metodista de Piracicaba (SP-2010) sobre o grande público de universitários que compõe as raves e os dilemas da juventude em uma sociedade “consumista, tecnológica, globalizada, hedonista e descuidada do futuro”. 

Posi destaca que os jovens devem rapidamente aprender, como sobrevivência, a arte da “vida líquida” do sociólogo polonês Zygmunt Bauman: “Aquiescência à desorientação, imunidade à vertigem, adaptação ao estado de tontura, tolerância com a falta de itinerário e direção da viagem”.

As festas viciantes e sensacionais, na visão de Posi, fornecem suporte emocional para o enfrentamento da realidade. Tornar-se raver (“rave” quer dizer delírio) ou trancer constitui “tanto uma reação de caráter alienante como de resistência ao sistema”. Nesse sentido, uma reflexão sobre a escala planetária das raves e festas psicodélicas deve incluir o papel da educação nas escolas e universidades, acredita Posi. A psicóloga conclui que os jovens parecem direcionar ao ambiente marginal das festas eletrônicas “o impulso utópico e transformador que não encontra respaldo, lá fora, para mudanças sociais”.

O debate ainda é um lineup em aberto. Enquanto o mundo não muda, a tribo do Universo Paralello tem encontro marcado em dezembro de 2019.

Valéria Propato é jornalista freelancer.

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