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A quem importa o ranking da DJ Mag?

Phouse Staff

Publicado em

24/10/2016 - 13:19

O produtor norte-americano 3LAU explica, com todos os pingos nos is, quais os interesses por trás do cada vez mais controverso Top 100.

A cada dia que passa, o Top 100 da DJ Mag vem perdendo em prestígio. Na semana passada, assumimos de vez o posicionamento de uma nova postura perante ele, por entender que se trata de um esquema de cartas marcadas. No ano passado, tivemos a denúncia de que era necessário investir muito dinheiro para atingir boas posições na lista, e de que esse investimento era feito justamente para inflacionar cachês; cada vez mais nomes importantes da cena, de Hardwell a Dillon Francis, de Kaskade a Gareth Emery, colocam a credibilidade do ranking em cheque. Desta vez, o DJ e produtor norte-americano Justin Blau, mais conhecido como 3LAU, traz novos insights que levam a um entendimento mais claro sobre os bastidores desse jogo, e quais os seus reais interesses.

Depois de apontar a ideia em seu Facebook na última quarta-feira, 3LAU foi convidado para esmiuçar melhor essa narrativa em um artigo para o portal YourEDM.com — em um texto tão pertinente que achamos de bom tom traduzi-lo na íntegra aqui. Acompanhe abaixo a argumentação de Justin sobre por que o ranking da DJ Mag interessa tanto assim ao mercado. Uma dica: Ásia!

Por que o ranking da DJ Mag é importante?

Provavelmente não é pra você, e certamente não é para mim, mas pode ser para alguns poucos DJs e managers que procuram expandir suas carreiras — ao menos financeiramente. Antes de eu entrar na questão sobre como o ranking da DJ Mag beneficia o cachê dos DJs, preciso começar dizendo que há muitos DJs no Top 100 que estão ali legitimamente; eles podem ser, de fato, merecedores da sua colocação, independentemente da posição numérica. Ao mesmo tempo, alguns desaparecerem misteriosamente da lista depois de questioná-la (Kaskade), enquanto outros com menos de cem mil seguidores nas redes sociais chegam ao top 50.

A legitimidade desse chart obviamente não existe, e ainda assim existe uma razão para que alguns membros da indústria liguem tanto pra ele. Tudo aponta para a nova fronteira da dance music: a Ásia. Isso diz menos respeito aos fãs asiáticos e mais ao padrão do mercado e da cultura no continente. Quando um DJ é bookado na maioria dos países da região, o seu cachê é extremamente dependente da sua posição no ranking da DJ Mag. Em outros mercados, como nos Estados Unidos ou no Canadá, a quantia a ser recebida está relacionada aos números nas redes sociais, no Spotify, em charts de vendas e, principalmente, no histórico de vendas de ingressos.

Na Ásia, poucos DJs têm um histórico de vendas tangível. Em alguns países, o Spotify sequer existe, e o Soundcloud e outras redes sociais podem estar censurados. Além disso, existe uma inevitável barreira linguística entre alguns fãs e profissionais da indústria, e assim a lista (a partir do crescimento da EDM no continente nos últimos anos) se tornou um modo fácil para donos de clubs e promoters mensurarem o VALOR de um DJ; é um padrão da indústria para se avaliar a popularidade. Um importante player desse mercado (que eu não nomearei) disse o seguinte:

“Os rankings da DJ Mag são a ferramenta pela qual a maioria dos promoters asiáticos taxa seus festivais e seus cachês — é louco, mas é real.”

*Flyer do brasileiro Alok publicado na matéria original do 3lau no YourEDM.

*Flyer do brasileiro Alok publicada na matéria original por 3lau.

Se os fãs na Ásia acreditam ou não na lista, não me cabe dizer, mas, sem nenhuma dúvida, os rankings são usados fortemente nas estratégias de comunicação de vários clubes e festivais. Com frequência, flyers e releases para esses eventos colocam a posição do artista no ranking em destaque, o que inevitavelmente cria uma profecia autorrealizável sobre a popularidade. Alguns podem discordar, mas em minhas turnês pela Ásia, os fãs de EDM debatem bastante sobre o Top 100. Meus representantes internacionais (de Indonésia, Tailândia, China, Filipinas) concordaram comigo quando eu questionei se ele era importante pra maior parte do público. Novos adeptos de dance music na Ásia podem checar o ranking pra descobrir novos DJs, ou decidir quem ver ao vivo. É uma ferramenta de descoberta para muitos jovens ravers.

Agora, isso tudo seria completamente aceitável se a lista fosse legitima e não manipulada, certo? Contudo, se observarmos sua imprecisão aparente, algo soa estranho.

É hora de a indústria ser mais transparente.

A partir de tudo isso, podemos considerar que alguns DJs e managers enxergam a DJ Mag como um investimento para o mercado asiático. Eles não estão errados, e a revista sabe disso. Na medida em que a hora da votação vai se aproximando a cada ano, a maioria dos DJs vai receber emails da revista com diversas propostas para investimento de marketing. Eu mesmo recebo esses emails, mas não ligo e normalmente nem respondo. Outros, que até mesmo foram rankeados na lista, sentem-se da mesma forma. Um desses caras é o Carnage, que concorda que “existe uma porcentagem bem pequena de DJs que dão a mínima”.

Dito isso, eu já ouvi histórias e vi emails para amigos (que não nomearei) enviados pela DJ Mag pedindo $30 mil [cerca de R$ 90 mil] para expor publicidade em seu site, o que eles alegam que tornaria mais provável ser rankeado no Top 100. O talentoso duo Vicetone, que também está entre os cem neste ano, parece concordar com o que estou dizendo, tendo eles mesmos vivenciado algo parecido.

Algo não cheira bem. Se fosse realmente uma votação popular e você um DJ, por que você iria investir em marketing internamente na DJ Mag em vez de nas suas próprias redes sociais? Quem olha pra um banner em um site e pensa: “Opa, agora eu quero votar nesse cara pra ser meu DJ favorito!”. Sério mesmo?

Então, quem está votando? Será que não temos bots que anonimamente submetem votos baseados em quem tem os banners mais bem posicionados no site? Eu não faço ideia, mas sei que a maioria dos meus amigos não vota, assim como provavelmente boa parte dos seus amigos frequentadores de festivais também não o fazem. Se a revista quisesse legitimar o seu processo, ela deveria divulgar os dados gerais dos votantes: de onde eles são, qual o gênero, a quais grupos pertencem. Mas isso não acontece. Assim como em qualquer ranking, você precisa conhecer quem são as pessoas que votam para poder interpretar os resultados.

Talvez a DJ Mag não divulgue esses dados porque eles têm valor. Como você talvez já saiba, na hora da votação a revista coleta essas informações através de questionários. Com centenas de milhares de registros, esses dados demográficos (emails, localização geográfica, gênero, idade, DJs favoritos) se tornam extremamente valiosos. Não posso afirmar que eles os vendam para alguém, mas eu não me surpreenderia.

Vou deixar que você mesmo especule sobre o que rola de verdade nos bastidores, porque eu realmente não sei. O que eu sei é que agentes, artistas e managers discutem com frequência sobre manter-se orgulhosos e ignorar as solicitações de investimento da DJ Mag ou morder essa isca e pagar quantias obscenas de dinheiro na esperança de reverter em cachês maiores na Ásia. Nós não contamos isso pra VOCÊ porque não queremos queimar nossos amigos. A verdade é que eu não sei quem paga e quem não paga, já que ninguém sai por aí contando. Dando uma olhada rápida na lista, contudo, podemos observar alguns pontos fora da curva, e a sua intuição sobre quem pagou provavelmente estará correta.

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*Flyer do Markus Schulz publicado por 3lau na matéria do Your EDM.

Espero que você chegue à conclusão, como eu, de que o Top 100 é apenas um joguete financeiro no qual alguns DJs podem se juntar à revista pra tirar um lucro — quer eles tenham investido no marketing interno da DJ Mag ou não. Alguns outros artistas já contaram casos similares no passado, eu certamente não sou o primeiro. Então, obrigado ao Mat Zo por abrir caminho pra este artigo. No final das contas, música não é um concurso de popularidade e os gostos das pessoas são diferentes. Mas eu gostaria de apontar algumas das métricas que eu acho que traduziriam melhor quem os cem DJs mais populares do mundo realmente são, partindo do princípio de que algum algoritmo pudesse analisar sua importância relativa:

– Número de streams global no Spotify;

– Contagem anual de ingressos vendidos (como headliner);

– Engajamento no Facebook/Instagram/Twitter/Snapchat relativo ao número de seguidores;

– Contagem global de transmissões de música no rádio;

– Charts do iTunes e da Billboard;

– Voto popular.

Deixe-me concluir dizendo que eu sequer acho que eu deveria ser rankeado no Top 100 deste ano (embora eu aprecie minha colocação no America’s Best DJ, eu não me lembro do número e não ligo muito pra ele). A popularidade global é algo extremamente difícil de medir, e baseada nas métricas acima, eu provavelmente não entraria. Dito isto, este artigo não é sobre mim. É sobre a corrupção na indústria da música eletrônica.

Como um artista completamente independente, eu percebo, cada vez mais, que os agentes dessa indústria visam criar valor onde não há, roubando dos artistas que estão mantendo a dance music viva e expandindo seus horizontes. Eu escrevi este texto porque o poder da música está em SUAS mãos, e nas mãos dos músicos que você ama — não nas mãos de marcas e empresas antiquadas. Não acredite em nada nem em ninguém além disso.

Então se o seu DJ favorito não foi rankeado desta vez, eu apostaria que ele não está muito ofendido. Para aqueles que estão lendo isto e que já não davam muita bola pra DJ Mag — provavelmente a grande maioria de vocês —, lembrem-se de que algumas pessoas ainda ligam, e são elas que precisam saber da verdade.

– 3LAU*

* Traduzido por Flávio Lerner [você pode ler o artigo original aqui]

LEIA TAMBÉM:

Editorial: É hora de rever nossa posição sobre o Top 100 da DJ Mag

Um convite ao boicote: Nós precisamos parar de dar moral pro Top 100 da DJ Mag

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O gênero Brazilian Bass vai saturar?

Phouse Staff

Publicado há

O programa Pergunte ao Senne está de volta pelo canal da Phouse e já está dando muito o que falar. Um dos temas discutido recentemente foi o gênero Brazilian Bass, em uma pergunta feita pelo Eduardo Oscar.

No video acima, você confere uma análise bem interessante feita pelo Felippe Senne, que vale para esse e qualquer gênero da música eletrônica.

 

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O novo Essential Mix do Justice é mais legal do que o novo álbum do Justice

Flávio Lerner

Publicado há

Justice Stop

De Pink Floyd e Air a Tame Impala e Gesaffelstein; por que o novíssimo set do Justice pra BBC Radio 1 é um presente pra qualquer fã de música.

No começo desta semana você viu aqui na Phouse os cinco indicados ao posto de Essential Mix do ano, da BBC Radio 1. Pouco depois do anúncio oficial — cujo grande vencedor será anunciado nesta sexta-feira, 23 —, deu tempo ainda da rádio britânica divulgar seu último podcast de 2016, com ninguém menos que o Justice, que retornou aos holofotes recentemente com seu novo álbum, Woman [Ed Banger Records].

LEIA TAMBÉM: O que o novo clipe do Justice diz sobre o terceiro álbum da dupla

Esse novo Essential Mix do Justice, que na verdade seria lançado em novembro mas atrasou, também representa um retorno marcante. É o primeiro em nove anos, mostrando mais daquela boa e velha estratégia da qual o Daft Punk é mestre e os pupilos franceses seguem à risca: apareça em doses homeopáticas, mas com muito peso.

Pra quem espera por um set recheado de dance music, sinto desapontá-los — não há nada de house, techno ou sequer algum electro mais pisteiro. A dupla levou a sério o conceito de um “mix essencial” e claramente esmiuçou influências, com referências do passado e do presente. De roqueiros clássicos como Pink Floyd e Stones a roqueiros modernos como Tame Impala; o lendário Prince, falecido neste ano; o synth pop contemporâneo de Alan Braxe, M83 e do finado grupo Late of the Pier, que fez certo rebuliço no fim dos anos 2000, mas nunca chegou a estourar; ícones pop-alternativos, como Air, The Flaming Lips e Charlotte Gainsbourg; expoentes do funk/soul como Sly & The Family Stone e Shuggie Otis; do R&B dos anos 70 de Fern Kinney ao R&B do século XXI do Frank Ocean e do Miguel; e música eletrônica trippy, como Jackson and His Computer Band, GENER8ION e Gesaffelstein, além do DJ Pone, que figura aqui com uma sonzeira também da Ed Banger Records, muito similar ao próprio Justice. Esse registro de quase duas horas forma um desenho claro dos heróis de Gaspard Augé e Xavier de Rosnay e é um presente pra qualquer fã de música, que pode a partir de então conhecer e se aprofundar em muito material bacana. Aliás, apesar de ser uma comparação meio cretina, me arrisco a dizer que o novo Essential Mix do Justice é melhor, mais interessante e dá bem mais vontade de escutar de novo que o seu novo álbum. #falei

As músicas estão extremamente bem costuradas entrei si, mesmo que, pela ausência de batidas DJ-friendly, haja efetivamente poucas mixagens. Não importa; a coesão é tão grande que se você não prestar atenção, nem vai perceber que mudou de faixa. Temos ainda três passagens curiosas com sons dos próprios autores do podcast, como é praxe na série da BBC Radio 1. Esses sons — “Stop” e “Love S.O.S.”, do novo disco, e “Presence”, faixa “secreta” do antecessor Audio, Video, Disco e uma das melhores que a dupla já produziu — harmonizam muito bem com o contexto em que se inserem. A transição de “Shock Machine” pra “Presence” é tão perfeita que esta parece ter sido feita pela dupla sob medida para se encaixar com aquela. Isso tudo reforça a ideia de que o Justice fez um mix com músicas que lhes inspiraram diretamente.

Tracklist:

Jackson and His Computer Band – Dead Living Things [Warp Records]
Principles of Geometry – Spring Dodged
Frank Ocean – Nikes [Boys Don’t Cry]
Air – Playground Love [Virgin]
Connan Mockasin – I’m The Man, That Will Find You [Phantasy Sound]
M83 – Walkway Blues [Naive]
Late of the Pier – Blueberry [Phantasy Sound]
Shock Machine – Open Up The Sky [Marathon Artists]
The Flaming Lips – Always There… In Our Hearts [Warner Bros.]
The Rolling Stones – Can’t You Hear Me Knocking [Atlantic]
Serge Gainsbourg – Flash Forward
Charlotte Gainsbourg – Le Chat du Café des Artistes
John Carpenter – Escape From NY [Varese Sarabande]
Cobra Space Adventure Soundtrack – Shi No Koshin [Animusik]
T. Rex – Monolith [Fly]
GENER8ION – Close (To The Metal) [Bromance]
Justice – Stop [Ed Banger]
Gesaffelstein – Aleph [The Vinyl Factory]
Fern Kinney – Baby Let Me Kiss You [T.K. Disco]
Shuggie Otis – Inspiration Information [Epic]
Tame Impala – Led Zeppelin [Modular]
Miguel – The Valley [RCA]
DJ Pone – Falken’s Maze [Ed Banger]
Sly & The Family Stone – In Time [Epic]
Ennio Morricone – Cavallina A Cavallo (Jackson Edit)
Serge Gainsbourg – Requiem Pour Un Con
Prince – Sign ‘O’ The Times [Paisley Park]
Soft Hair – Relaxed Lizard [Weird World Record Co.]
Mort Garson – Plantasia [Homewood Records]
The Zombies – The Way I Feel Inside [Decca]
Todd Rundgren – A Treatise On Cosmic Fire [Bearsville]
Harry Nilsson – One [RCA]
Shock Machine – Shock Machine
Justice – Presence [Ed Banger]
Air – Electronic Performer [Source]
Pink Floyd – The Great Gig In The Sky [Harvest]
Nicolas Godin – Orca [Because Music]
Anna Meredith – Nautilus
Scratch Massive – Golden Dreams [Oraculo Records]
Jackson and His Computer Band – Seal [Warp Records]
Alan Braxe & The Spimes – One More Chance [Scion Audio/Visual]
Justice – Love S.O.S. [Ed Banger]

* Você pode seguir o Flávio Lerner no Twitter

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Em pleno 2016, quem ainda tem medo da música eletrônica?

Flávio Lerner

Publicado há

Do Kraftwerk na Argentina à novela do Ultra no Rio, o preconceito com a pista de dança segue firme e forte.

A cultura clubber é oriunda da cultura da disco music. Ambas nasceram marginalizadas, em ambientes de contestação, transgressão e busca por direitos. Naturalmente, à medida que foram crescendo, atraíram cada vez mais popularidade, bem como detratores. O primeiro grande movimento de oposição foi a infame campanha Disco Sucks, que culminou em 1979 com a “Noite da Demolição da Disco”. Capitaneado pelo radialista estadunidense Steve Dahl, o evento reuniu uns 50 mil roqueiros pra literalmente destruir vinis de disco music num estádio de baseball em Chicago — afinal, a hegemonia do que praqueles barbados era “música de viado” precisava ser exterminada.

Nos anos 90, tivemos a explosão das raves na Europa, que não demoraram muito pra chegar até aqui. Ocupações clandestinas em lugares abandonados e drogas sintéticas compunham o cenário com a música eletrônica de pista — receita mais que suficiente pra chocar a sociedade “de bem”. Naturalmente, não foi nada fácil para público e profissionais desse nicho lidar com a pecha de “marginais drogados”. Ao THUMP, em 2014, o Erick Dias, da XXXPERIENCE, detalhou bem discriminação imposta pelos órgãos públicos e a imprensa sobre esse mercado nos anos 90. Quando falou comigo, em entrevista publicada aqui em novembro, disse que essa relação com a mídia já estava bem mais suave.

Música Eletrônica

Steve Dahl e o famoso slogan de ódio

É de se imaginar que a música eletrônica, em pleno 2016, há anos em um casamento muito bem-sucedido com a cultura de massa, num mercado que movimenta bilhões e proporciona festivais gigantescos por todo o planeta, seja infinitamente mais aceita do que outrora. Em um caso clássico de cooptação, deixou de ser marginal pra virar inofensiva, quase fofa, até. Mas engana-se quem pensa que aquele velho preconceito foi erradicado do mapa, como os seguidores de Dahl queriam fazer com a disco. Recentemente, tivemos mostras claras, aqui mesmo na América do Sul, de como o Estado ainda nutre problemas com esse universo.

Primeiro, foi o Kraftwerk na Argentina. Como escrevi aqui, também em novembro, o clássico grupo alemão quase teve seu show em Buenos Aires cancelado. Em uma decisão que mais lembrava os abusos autoritários e reacionários do Estado Islâmico ou da Coreia do Norte, os tribunais portenhos quiseram banir um evento cultural que já estava agendado simplesmente porque a banda baseia sua performance em sintetizadores! Essa própria decisão surgiu como consequência do Time Warp de BsAs, que, em abril, teve a morte de jovens que teriam consumido ecstasy adulterado. Ou seja: por causa do abuso de drogas em um festival e da negligência governamental em debater soluções práticas, decidiu-se banir a música eletrônica da cidade — mesmo numa apresentação não voltada pras pistas de dança!

A sociedade não consegue perceber a diferença entre as raves clandestinas e o Tomorrowland” — Pedro Nonato, diretor do Ultra Brasil.

O segundo caso emblemático rolou aqui mesmo, no país: a novela com o Ultra Brasil, no Rio de Janeiro. Por conta do poder público, o festival teve que mudar de local três vezes. O Aterro do Flamengo foi barrado em junho pelo Iphan [aquele mesmo órgão cujo ex-presidente entrou em evidência ao denunciar Geddel e Temer], três meses depois de sua confirmação. A alegação era de que o espaço era tombado e não comportaria o público estimado — 80 a 100 mil pessoas, “esquecendo” do pequeno detalhe de que seriam divididas em dois dias. “Isso nos veio como uma grande surpresa, já que as áreas que iríamos ocupar no entorno da Marina da Glória eram compostas por pisos de terra batida, sem presença de grama alguma, piso concretado e até asfaltado”, declarou Pedro Nonato, sócio de Claudio da Rocha Miranda Filho no Ultra Brasil e no Rio Music Conference. Segundo o empresário, eles inclusive encomendaram um estudo de impacto ambiental para reconstruir “as tais áreas já degradadas, de acordo com o paisagismo original do Parque do Flamengo”. Nada feito. O Iphan não voltou atrás, e ainda não teve constrangimento nenhum em liberar, menos de um mês depois, o ambiente para o Rio Parada Funk, que comportou um público oito vezes maior que o do Ultra.

A produção então optou pelo Parque dos Atletas, que recebeu a Olimpíada e também é sede do Rock in Rio; em plena época eleitoral, o prefeito Eduardo Paes negou, alegando que atrapalharia os moradores do entorno. A terceira opção foi, segundo Nonato, uma orientação da RioTur e da SEOP [ou seja, órgãos municipais]: a Quinta da Boa Vista. O Iphan voltou em cena, desta vez acompanhado pelo IBAMA, pra barrar o novo local — a quatro dias do evento, a produção teve que desmontar os palcos às pressas e remontá-los no Sambódromo, onde finalmente conseguiu se instalar. Assim como no caso do Aterro, o Iphan novamente mostrou uma relação de dois pesos, duas medidas, pois a Quinta, além de receber anualmente o festival gospel Louvorzão [200 mil pessoas], hospedou em novembro o show de 40 anos do Carrefour [100 mil pessoas], com apoio do Ministério da Cultura. Ficou muito claro que o problema era com o Ultra. Mas por quê? Qual a lógica em boicotar um festival que, em plena recessão, injetava grana e gerava empregos na cidade?

Posicionamento do Iphan sobre o veto na Quinta da Boa Vista; procurados, não responderam ao contato deste colunista

Nonato não tem dúvidas de que tudo se resume à falta de conhecimento. “Foi uma coisa de incompreensão do que é um festival, do que ele representa pro turismo da cidade. As pessoas mais velhas têm impressão de que essa indústria tá lá na festa rave de 20 anos atrás, que era ilegal, à margem, com criminalidade, com drogas”, diz. “A sociedade, de forma geral, não consegue perceber a diferença entre essas raves clandestinas e o Tomorrowland. Infelizmente, na América Latina, a música eletrônica ainda é um negócio complicado.”

O Pedro confessa ter escutado de autoridades no caso que “esse tipo de música não cabe no Aterro do Flamengo” — preconceito que se evidencia na própria fala do juiz Fabio Tenenblat, que justificou a realização do aniversário do Carrefour o comparando com o Ultra. Percebam a quantidade de informações equivocadas em um único parágrafo:

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Trecho extraído da decisão oficial do processo 0500327-54.2016.4.02.5101 (2016.51.01.500327-3), da 3ª Vara Federal de São Gonçalo

Mas a discriminação não é exclusiva do poder público, a quem já nos acostumamos a ver privilegiando seus compadres enquanto nos enchem de burocracias inescrupulosas. Muitos desses políticos apenas representam o pensamento hegemônico do cidadão médio, ou então seguem sua linha por demagogia. A imprensa também continua não ajudando muito. Boechat, normalmente lúcido, vomitou desinformação nas manhãs de uma Band News que teve papel crucial para o veto da Quinta: chamou o Ultra de “festa rave”, caiu no conto das cem mil pessoas, referiu-se ao Claudio da Rocha como “predador urbano” e comparou sua atividade com a de assassinar um coelho, e cravou que o evento era inadequado, sem sequer ouvir os empresários sobre as autorizações prévias e os esforços para não prejudicar ninguém. Mas no caso do Louvorzão e do Carrefour, a Band News se manifestou? Logo, não se trata apenas de desconhecimento, como também uma evidente seletividade e, pior, a recusa ao diálogo. E se ainda restam dúvidas sobre a opinião pública, basta abrir a seção de comentários dos portais — também conhecida como caixa de pandora do horror — pra constatar o que boa parte dos brasileiros pensa sobre o tema. Pois é, ainda temos muito trabalho pela frente.

“As coisas têm evoluído, mas ainda sinto um pouco de preconceito, no marketing também. Você não vê um banco patrocinando música eletrônica, mas vê num show do Guns N’ Roses. Será que tem mais drogas no festival eletrônico do que no show do Guns?”, segue Nonato. “Temos a missão de provar que nós somos uma indústria saudável. As pessoas imaginam que se trata de um ambiente degradado. Mas vamos conseguir prosperar, o Brasil vai crescer nisso e vai se desenvolver.” Amém.

* Você pode seguir o Flávio Lerner no Twitter

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