Top 100 DJ Mag 2018

O produtor norte-americano 3LAU explica, com todos os pingos nos is, quais os interesses por trás do cada vez mais controverso Top 100.

A cada dia que passa, o Top 100 da DJ Mag vem perdendo em prestígio. Na semana passada, assumimos de vez o posicionamento de uma nova postura perante ele, por entender que se trata de um esquema de cartas marcadas. No ano passado, tivemos a denúncia de que era necessário investir muito dinheiro para atingir boas posições na lista, e de que esse investimento era feito justamente para inflacionar cachês; cada vez mais nomes importantes da cena, de Hardwell a Dillon Francis, de Kaskade a Gareth Emery, colocam a credibilidade do ranking em cheque. Desta vez, o DJ e produtor norte-americano Justin Blau, mais conhecido como 3LAU, traz novos insights que levam a um entendimento mais claro sobre os bastidores desse jogo, e quais os seus reais interesses.

Depois de apontar a ideia em seu Facebook na última quarta-feira, 3LAU foi convidado para esmiuçar melhor essa narrativa em um artigo para o portal YourEDM.com — em um texto tão pertinente que achamos de bom tom traduzi-lo na íntegra aqui. Acompanhe abaixo a argumentação de Justin sobre por que o ranking da DJ Mag interessa tanto assim ao mercado. Uma dica: Ásia!

Por que o ranking da DJ Mag é importante?

Provavelmente não é pra você, e certamente não é para mim, mas pode ser para alguns poucos DJs e managers que procuram expandir suas carreiras — ao menos financeiramente. Antes de eu entrar na questão sobre como o ranking da DJ Mag beneficia o cachê dos DJs, preciso começar dizendo que há muitos DJs no Top 100 que estão ali legitimamente; eles podem ser, de fato, merecedores da sua colocação, independentemente da posição numérica. Ao mesmo tempo, alguns desaparecerem misteriosamente da lista depois de questioná-la (Kaskade), enquanto outros com menos de cem mil seguidores nas redes sociais chegam ao top 50.

A legitimidade desse chart obviamente não existe, e ainda assim existe uma razão para que alguns membros da indústria liguem tanto pra ele. Tudo aponta para a nova fronteira da dance music: a Ásia. Isso diz menos respeito aos fãs asiáticos e mais ao padrão do mercado e da cultura no continente. Quando um DJ é bookado na maioria dos países da região, o seu cachê é extremamente dependente da sua posição no ranking da DJ Mag. Em outros mercados, como nos Estados Unidos ou no Canadá, a quantia a ser recebida está relacionada aos números nas redes sociais, no Spotify, em charts de vendas e, principalmente, no histórico de vendas de ingressos.

Na Ásia, poucos DJs têm um histórico de vendas tangível. Em alguns países, o Spotify sequer existe, e o Soundcloud e outras redes sociais podem estar censurados. Além disso, existe uma inevitável barreira linguística entre alguns fãs e profissionais da indústria, e assim a lista (a partir do crescimento da EDM no continente nos últimos anos) se tornou um modo fácil para donos de clubs e promoters mensurarem o VALOR de um DJ; é um padrão da indústria para se avaliar a popularidade. Um importante player desse mercado (que eu não nomearei) disse o seguinte:

“Os rankings da DJ Mag são a ferramenta pela qual a maioria dos promoters asiáticos taxa seus festivais e seus cachês — é louco, mas é real.”

*Flyer do brasileiro Alok publicado na matéria original do 3lau no YourEDM.

*Flyer do brasileiro Alok publicada na matéria original por 3lau.

Se os fãs na Ásia acreditam ou não na lista, não me cabe dizer, mas, sem nenhuma dúvida, os rankings são usados fortemente nas estratégias de comunicação de vários clubes e festivais. Com frequência, flyers e releases para esses eventos colocam a posição do artista no ranking em destaque, o que inevitavelmente cria uma profecia autorrealizável sobre a popularidade. Alguns podem discordar, mas em minhas turnês pela Ásia, os fãs de EDM debatem bastante sobre o Top 100. Meus representantes internacionais (de Indonésia, Tailândia, China, Filipinas) concordaram comigo quando eu questionei se ele era importante pra maior parte do público. Novos adeptos de dance music na Ásia podem checar o ranking pra descobrir novos DJs, ou decidir quem ver ao vivo. É uma ferramenta de descoberta para muitos jovens ravers.

Agora, isso tudo seria completamente aceitável se a lista fosse legitima e não manipulada, certo? Contudo, se observarmos sua imprecisão aparente, algo soa estranho.

É hora de a indústria ser mais transparente.

A partir de tudo isso, podemos considerar que alguns DJs e managers enxergam a DJ Mag como um investimento para o mercado asiático. Eles não estão errados, e a revista sabe disso. Na medida em que a hora da votação vai se aproximando a cada ano, a maioria dos DJs vai receber emails da revista com diversas propostas para investimento de marketing. Eu mesmo recebo esses emails, mas não ligo e normalmente nem respondo. Outros, que até mesmo foram rankeados na lista, sentem-se da mesma forma. Um desses caras é o Carnage, que concorda que “existe uma porcentagem bem pequena de DJs que dão a mínima”.

Dito isso, eu já ouvi histórias e vi emails para amigos (que não nomearei) enviados pela DJ Mag pedindo $30 mil [cerca de R$ 90 mil] para expor publicidade em seu site, o que eles alegam que tornaria mais provável ser rankeado no Top 100. O talentoso duo Vicetone, que também está entre os cem neste ano, parece concordar com o que estou dizendo, tendo eles mesmos vivenciado algo parecido.

Algo não cheira bem. Se fosse realmente uma votação popular e você um DJ, por que você iria investir em marketing internamente na DJ Mag em vez de nas suas próprias redes sociais? Quem olha pra um banner em um site e pensa: “Opa, agora eu quero votar nesse cara pra ser meu DJ favorito!”. Sério mesmo?

Então, quem está votando? Será que não temos bots que anonimamente submetem votos baseados em quem tem os banners mais bem posicionados no site? Eu não faço ideia, mas sei que a maioria dos meus amigos não vota, assim como provavelmente boa parte dos seus amigos frequentadores de festivais também não o fazem. Se a revista quisesse legitimar o seu processo, ela deveria divulgar os dados gerais dos votantes: de onde eles são, qual o gênero, a quais grupos pertencem. Mas isso não acontece. Assim como em qualquer ranking, você precisa conhecer quem são as pessoas que votam para poder interpretar os resultados.

Talvez a DJ Mag não divulgue esses dados porque eles têm valor. Como você talvez já saiba, na hora da votação a revista coleta essas informações através de questionários. Com centenas de milhares de registros, esses dados demográficos (emails, localização geográfica, gênero, idade, DJs favoritos) se tornam extremamente valiosos. Não posso afirmar que eles os vendam para alguém, mas eu não me surpreenderia.

Vou deixar que você mesmo especule sobre o que rola de verdade nos bastidores, porque eu realmente não sei. O que eu sei é que agentes, artistas e managers discutem com frequência sobre manter-se orgulhosos e ignorar as solicitações de investimento da DJ Mag ou morder essa isca e pagar quantias obscenas de dinheiro na esperança de reverter em cachês maiores na Ásia. Nós não contamos isso pra VOCÊ porque não queremos queimar nossos amigos. A verdade é que eu não sei quem paga e quem não paga, já que ninguém sai por aí contando. Dando uma olhada rápida na lista, contudo, podemos observar alguns pontos fora da curva, e a sua intuição sobre quem pagou provavelmente estará correta.

160930-markus-schulz-fb-event-header
*Flyer do Markus Schulz publicado por 3lau na matéria do Your EDM.

Espero que você chegue à conclusão, como eu, de que o Top 100 é apenas um joguete financeiro no qual alguns DJs podem se juntar à revista pra tirar um lucro — quer eles tenham investido no marketing interno da DJ Mag ou não. Alguns outros artistas já contaram casos similares no passado, eu certamente não sou o primeiro. Então, obrigado ao Mat Zo por abrir caminho pra este artigo. No final das contas, música não é um concurso de popularidade e os gostos das pessoas são diferentes. Mas eu gostaria de apontar algumas das métricas que eu acho que traduziriam melhor quem os cem DJs mais populares do mundo realmente são, partindo do princípio de que algum algoritmo pudesse analisar sua importância relativa:

– Número de streams global no Spotify;

– Contagem anual de ingressos vendidos (como headliner);

– Engajamento no Facebook/Instagram/Twitter/Snapchat relativo ao número de seguidores;

– Contagem global de transmissões de música no rádio;

– Charts do iTunes e da Billboard;

– Voto popular.

Deixe-me concluir dizendo que eu sequer acho que eu deveria ser rankeado no Top 100 deste ano (embora eu aprecie minha colocação no America’s Best DJ, eu não me lembro do número e não ligo muito pra ele). A popularidade global é algo extremamente difícil de medir, e baseada nas métricas acima, eu provavelmente não entraria. Dito isto, este artigo não é sobre mim. É sobre a corrupção na indústria da música eletrônica.

Como um artista completamente independente, eu percebo, cada vez mais, que os agentes dessa indústria visam criar valor onde não há, roubando dos artistas que estão mantendo a dance music viva e expandindo seus horizontes. Eu escrevi este texto porque o poder da música está em SUAS mãos, e nas mãos dos músicos que você ama — não nas mãos de marcas e empresas antiquadas. Não acredite em nada nem em ninguém além disso.

Então se o seu DJ favorito não foi rankeado desta vez, eu apostaria que ele não está muito ofendido. Para aqueles que estão lendo isto e que já não davam muita bola pra DJ Mag — provavelmente a grande maioria de vocês —, lembrem-se de que algumas pessoas ainda ligam, e são elas que precisam saber da verdade.

– 3LAU*

* Traduzido por Flávio Lerner [você pode ler o artigo original aqui]

LEIA TAMBÉM:

Editorial: É hora de rever nossa posição sobre o Top 100 da DJ Mag

Um convite ao boicote: Nós precisamos parar de dar moral pro Top 100 da DJ Mag

Receba novidades no e-mail

Receba o melhor da Phouse em seu email!

:::. ALEATÓRIAS / LEIA TAMBÉM

Como viver de música eletrônica? Sócio da AIMEC responde em nova comunidade

Rafael Araujo fala sobre sua nova plataforma: a Music Business Brasil

Kleber e Anderson Noise juntam-se em novo EP de puro techno

Parceria resultou em “Signal of Invasion”, assinado pela Noise Music

Tribe anuncia mudança de local

Segundo comunicado, a organização achou mais seguro desistir da Pedreira de Pirapora do Bom Jesus

Pic Schmitz fala sobre seu cover de “Primeiros Erros”

DJ explica que ideia foi sugestão do DJ Meme, e revela que o lançamento coincidiu com um momento de muita tristeza

Assista a um belíssimo vídeo em tributo a Avicii

Com mais de três minutos, vídeo foi ao ar em última edição do “Grammy sueco”

5 momentos-chave da carreira de Rodrigo Ferrari

Artista relembra fatos marcantes de uma trajetória de mais de 25 anos de pista

Expoente do tech house, Dakar mira nova sonoridade

Enquanto muitos começam a se aventurar no estilo, o paulistano vislumbra “algo mais acessível ao público brasileiro”

Alok lança música com Felix Jaehn e The Vamps

“All The Lies” foi lançada nesta sexta-feira, via Spinnin’ Records

Homenageando suas origens, Liu lança sua própria gravadora

“Chinatown” marca a estreia oficial da Chinatown RCRDS

Confira o lineup completo do Lollapalooza 2019

Edição principal traz Flume e The Chainsmokers entre os headliners