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Notícia

Relatos de um Fim de Século; a história do último club porto-alegrense a celebrar a cultura DJ

Flávio Lerner

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* Artigo original de abril, redigido pelo nosso colunista Flávio Lerner, ao LOFT55

Procuro evitar idealizações do passado em detrimento do presente. Há uma tendência em se esquecer das coisas ruins e focar nos bons momentos vividos, e o saudosismo é uma armadilha muito fácil de cair. Feita a ressalva, quando ouço relatos sobre os tempos de Fim de Século — lendário club porto-alegrense que viveu de 1987 a 2007, mudando o nome para NEO [New Electronic Order] em 2001 —, a despeito de possíveis floreios e distorções romantizadas, parece inegável que a casa foi parte essencial do apogeu da cultura de pista de Porto Alegre.

Atualmente, a capital gaúcha não tem nenhuma casa centrada nos valores da cultura DJ. Temos, sim, alguns esforços isolados, muitos de pessoas que viveram ou se criaram no FDS/NEO, mas agora fragmentados; a chama de uma cena que prega democraciacomunhão e respeito integrados a sets mixados ousados e visionários parece bem menor do que outrora foi. Em adaptação livre da frase-cliché de Clarice Lispector, saudades de algo que não vivi.

Mais saudades ainda deixa Sílvio Freitas, ex-sócio e cofundador do Fim de Século/NEO, que faleceu recentemente. Freitas teria morrido há cerca de dois meses, em virtude de complicações oriundas de uma hepatite, mas só na segunda-feira passada que a notícia correu pelas redes, com amigos e ex-frequentadores do FDS lamentando e registrando a falta que o homem fará.

Programa In my House #004 by Gito Especial FDSC by Gito on Mixcloud

Para ouvir com a leitura: set do DJ Gito que sintetiza um pouco da essência do Fim de Século

“O Sílvio se entregava de alma pelo lugar. O Fim de Século era o seu coração e pulmão. Igual a um pai que nunca vai desistir de um filho, ele suava sangue pra mantê-lo a pleno vapor. Uma figura simples, muitas vezes desconfiada, amiga, que era aberta a novas propostas e novos talentos. Um visionário além do seu tempo”, declara o DJ JZK, veterano da cena de Porto Alegre, destacando os outros sócios no empreendimento: Batata, Everton e Claudinho, além do DJ Double S, que também foi residente. Este endossa: “o Sílvio era a representação de um empresário de vanguarda e o Fim de Século o fruto dessa vanguarda. Ambos à frente do seu tempo”. Double S também demonstra a importância de um club engajado com os ideais da cultura de pista para formar novos profissionais: “ali meu trabalho como DJ tornou-se conhecido no Brasil inteiro, e até hoje eu agradeço por ter tido a possibilidade de participar do Fim de Século e por ter trabalhado ao lado de mestres como Sílvio Freitas”.

Antonio Navarro, DJ de drum’n’bass e um dos criadores da Quarta Quebrada, recorda dessa mesma integridade de Sílvio: “lembro dele, sempre otimista, nos chamando até o seu ‘escritório’ — um espaço 1m X 1,5m embaixo da escada — para, às vezes tirando dinheiro do próprio bolso, pagar pelo menos alguma coisa aos DJs quando a festa não rendia”. Para Navarro, “o local era porto-seguro para todos os estilos. Na pista do subsolo, o d&b nunca soou melhor. Ali, podíamos elevar o volume até o limite da distorção, e o subgrave massageava o peito e a garganta. Não era preciso nem dançar”.

Registro de festa no FDS em 1998, com o DJ Sérgio Panasuk

Dani Hyde, cofundadora da festa Róque Town, pertence mais à cena rockeira da cidade, mas se autodeclara “clubber em 1996”, quando era habitué do FDS. “O Fim de Século e o Sílvio Freitas são uma coisa só. Não há como separar a instituição do criador, pois ele sempre foi muito presente.” “Pra mim ele era o misterioso dono do bar, meio inacessível, meio gangsta, que ficava lá no fundo bebendo seu drink, fisgando as gatinhas e contando a grana”, complementa o diretor da rádio web minima.fm Leo Felipe, que também iniciou a vida noturna no local. “Foi o primeiro clube que frequentei — e onde vivi intensamente a cultura. A primeira vez que entrei naquele inferninho subterrâneo foi em 1989, tinha 17 anos. Dançava os sets do DJ Gaudêncio Orso, temperados com muito house e tecnopop.” Leo, inclusive, foi o dono de outro reduto histórico da cidade, o Garagem Hermética: “quando abri o Garagem, em 1992, o foco era mais o rock, mas o clima de liberdade e hedonismo que tanto marcou a casa foi herança de meu aprendizado nas pistas do FDS”.

“Noites de glória que certamente não mais saíram da lembrança de quem esteve lá”, retoma JZK, sem medir palavras sobre a importância histórica do empreendimento de Freitas. Para o DJ, o ápice foi a fase anterior à virada do milênio, antes da mudança de nome para NEO, “tendo o sincronismo do boom da musica eletrônica no mundo. Era o verdadeiro club da música eletrônica underground. A assiduidade dos frequentadores era tanta que estes passaram a ser grandes amigos e por fim tornaram-se uma família, que tem vínculos até hoje em dia”.

JZK continua: “o Fim de Século transpôs a simples representatividade de um club, ele se tornou uma lenda e um ícone na história da noite do RS e inserido dentro do contexto nacional. Por lá passaram inúmeros DJs internacionais, nacionais e locais que vieram a se tornar grandes nomes do cenário brasileiro”. Nomes como Fabrício Peçanha e Eduardo Herrera são os mais notáveis, mas outros bons DJs, menos conhecidos, também começaram ali, como o nosso colaborador do LOFT55Rafael Malhão: “acredito que foi a época mais democrática da cena clubber na cidade. Você encontrava desde o punk até a aspirante à modelo internacional que voltava de Nova Iorque. Nesse espectro, você tinha skatistas, clubbers, galera do rap, do jiu jitsu, da periferia… E góticos. Muitos góticos! Tinha noites de trance, house, techno e drum’n’bass, enquanto que no Deep Bar [pista subterrânea] rolava desde James Brown e trip hop até Prodigy, Chemical Brothers e Madonna”.

Os irmãos Luciano e Daniel Araújo tocando em um after da Fusion, em 1999

Sócio de Malhão na festa WAX, o DJ Apoena também aponta a sua formação no FDS como crucial: “sempre que eu penso em como um club deveria ser, ainda tenho ele como modelo. Minhas memórias do FDS no fim dos anos 1990 influenciam muito minha linha de som como DJ até hoje, em termos do que eu tento fazer com a pista”.

Apoena chegou a integrar a crew da Fusion, festa fundada na cidade de Canoas [Grande Porto Alegre] em 1996 que também teve seu espaço no Fim de Século/NEO. Ele segue relatando como a casa incorporava perfeitamente os valores da cultura de pista: “o club representava outro tipo de vida. Era como passar por um portal e testemunhar outro mundo. Não só pelo óbvio choque cultural de estar num ambiente que respeitava os homossexuais, mas também por causa da música eletrônica, que era algo bem menos comum que hoje, e que incitava no público um comportamento atípico na noite de Porto Alegre. Dançar sem fazer rodinhas, sozinho ou acompanhado, vestido de qualquer jeito. Era um ambiente alternativo de verdade”.

A casa ficou marcada não apenas por incorporar os valores fundados no Loft de David Mancuso, na Nova Iorque dos anos 1970, mas também por ter sido um reduto das mentes criativas de Porto Alegre. “Aberto a todas as propostas, [o FDS] abrigou imediatamente uma porção de jovens inovadores, criativos e iniciantes. Famosos ou não, artistas ou não; o público que frequentou os primeiros anos do Fim de Século parecia unido pelo desejo de mudança, pela necessidade de inovação, por uma sede mordaz de criação. […] Teatreiros imediatamente adotaram o Fim de Século como um de seus templos. E lá também fizeram seus sketches, performances e mesmo peças”, escreveram Marcus Vinícius Brasil e Renata Macedo em excelente matéria de 2005 para o extinto portal Rraurl. Com tamanha vocação criativa, fica claro que o FDS foi para POA o que o Madame Satã — do qual abordamos em entrevista recente com o DJ Magal — foi para São Paulo.

A proposta do FDS era claramente priorizar o novo, andando no mesmo passo das subculturas metropolitanas — algo quase impensável para a Porto Alegre conservadora de hoje, onde predomina a zona de conforto dos hits já conhecidos. “O Fim de Século reuniu pessoas que estavam olhando definitivamente pra fora. Não preciso explicar muito sobre como isso é importante numa cidade marginal como Porto Alegre”, complementa Dani Hyde.

https://www.youtube.com/watch?v=mkYoJKM5yic

Em 2007, último ano do club, rolou festa de 20 anos de Fim de Século na NEO, com alguns dos principais DJs da casa, como Fabrício Peçanha e Mozart 

Se Porto Alegre já teve uma efervescente cena underground criativa centrada em dance music, o que teria levado a cidade ao retrocesso? Dani teoriza que “não existia uma comunidade digital ainda. Era necessário trocar figurinha e mixtapes pessoalmente. [Quando] o Fim de Século terminou, esse grupo se desarticulou. Alguns seguiram suas próprias iniciativas e continuaram fazendo noite, mas já era diferente. Assim como a falta de informação via digital fomentou essa cena, a formação da comunidade digital conseguiu desestruturá-la. Não precisávamos mais da ‘congregação’, da ‘igrejinha’. Bom, alguns ainda precisavam, eu precisava. Mas mudou tudo”.

A produtora de eventos Lucia Dutra, que também descobriu sua vocação no Fim de Século e que também o enxergava como um único templo para diferentes pessoas, ajuda a compreender: “o mais legal de tudo era que todos se conheciam; público, promoters, galera da bilheteria e dos bares, chapeleiros, seguranças, DJs, gerente e donos. Saíamos pra tomar café da manhã na padaria da [avenida] Protásio [Alves] depois de fechar. Essa turma que contava o dinheiro pra entrar no FDS tem agora mais responsabilidades, tá mais velha. Agora todos são DJs, haja ego pra se trabalhar! O crescimento da cena trouxe ideias novas, públicos novos, interesses novos, área vip… Nem tudo isso é bom, ou tão ruim, o fato é que muda costumes”.

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Fotos de Dani Hyde no FDS, nos anos 1990

Teriam sido a cultura da ostentação e as armadilhas do ego — naturalmente antagonistas das subculturas dance genuínas — as maiores responsáveis pelo declínio da cultura DJ porto-alegrense? JZK vai ao encontro dessa ideia, lembrando que a explosão da música eletrônica fez com que ela fosse sugada pela cultura de massa. “A futilidade desses ambientes impregnou a música eletrônica, que passou a ser mais comercial, mas sempre tivemos clubs underground que faziam o balanço com os clubs mainstream. Com o fechamento do FDS e da Spin — esta casa já com um conceito um pouco mais elitizado do underground —, a cidade perdeu seus lugares de música eletrônica mais alternativa e conceitual”.

Restou a Porto Alegre uma lacuna muito grande, que talvez só outro novo club possa vir a preencher, para renovar e oxigenar a cultura de pista a uma nova geração de clubbers; para impulsionar novos JZKs, Double S e Peçanhas, além, é claro, de novas Lucias. Double, porém, é cético a respeito: “atualmente, não sei se Porto Alegre comportaria um Fim de Século, pois a música mudou, o comportamento das pessoas mudou… Está tudo tão segmentado, e o FDS era totalmente o oposto disso tudo”.

É certo que algo como foi o Fim de Século/NEO jamais se repetiria exatamente como foi, mas por que não acreditar em um novo templo da dance music local? De qualquer forma, o que se passou com essas pessoas e o trabalho de Sílvio Freitas não podem ser esquecidos; a morte do grande dono, contudo, pode ser interpretada como o fim definitivo de um ciclo.

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Pista da NEO vista de cima, em 2006

“O Sílvio deixa a paixão dele. Um cara que sempre acreditou nas novidades, sempre abriu portas para novos produtores e DJs. Ele lutou até o fim contra os órgãos públicos que fecharam a NEO sem medir esforços”, finaliza Double S. JZK apoia: “ele nos deixou um grande legado, e deixou vários discípulos e amigos por aqui, que irão espalhar o seu entusiasmo e amor pela música e pela noite”.

Apoena alega que, “na última vez que vi o Sílvio, já tem uns anos, ele ainda falava em reabrir o club. ‘Estou reabrindo minha casa’, ele dizia. Explicava que havia problemas legais por processos dos vizinhos”. Infelizmente, esse foi um sonho que Freitas não pôde realizar. Terá Porto Alegre um novo herói para bater no peito e assumir essa bronca, ou restarão à cultura DJ da cidade apenas as fotos do passado?

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Análise

O indie dance original respira com a volta do Friendly Fires

Flávio Lerner

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Friendly Fires
Foto: Reprodução
Depois de mais de seis anos sem lançamentos, o trio britânico que marcou os anos 2000 está de volta

Fundado em 2006, o trio britânico de dance-rock/indie danceFriendly Fires foi importantíssimo para uma guinada mais eletrônica e dançante à cena indie da década passada, que encontrava-se em sua era de ouro com a ascensão de bandas como The Killers, Franz Ferdinand, The Strokes e Bloc Party. Seu surgimento — somado à ascensão de grupos como Klaxons, Chromeo, Cut CopyMetronomy e o brasileiro Cansei de Ser Sexy — fez com que aquele cenário mais centrado nas guitarras passasse a ter um foco maior nos sintetizadores e nas batidas. O LCD Soundsystem não estava mais sozinho.

Comandando pelo carismático e rebolativo Ed Macfarlane — com suas dancinhas impagáveis ao vivo e nos videoclipes —, o Friendly Fires explodiu mesmo em 2008, com o primeiro e homônimo álbum, e desde então acumulou milhões de fãs no mundo inteiro. Nunca fizeram exatamente música eletrônica de pista, mas bebiam claramente de fontes como a house e o synth pop de grupos como New Order e Depeche Mode. E não só isso: a batida e a vibe ensolarada das músicas trazia muito da música brasileira. Singles como “Jump in the Pool” e “Kiss of Life” surgiram com fortes elementos de percussão de samba — e em 2008 e 2009, o grupo chegou a realizar apresentações em conjunto com uma escola de samba.

Em 2011, às vésperas do lançamento do segundo álbum, Pala, que se afastava ainda mais do indie rock, foram capa da conceituada revista inglesa NME, e tiveram a ousadia de dizer que preferiam escutar Justin Timberlake do que Morrissey — antigo líder do grupo The Smiths, que dominou a cena indie nos anos 80. Pra roqueiros britânicos que levam esse tipo de comparação muito a sério [o que, arrisco dizer, seja boa parte do público da revista], uma declaração do tipo soava como heresia.

O trio seguiu sua vida muito bem, obrigado. Pala também fez sucesso, e o FF seguiu apresentando-se em shows lotados no mundo inteiro nos próximos anos. Mas pararam de fazer música. Em 2014, deram um tempo de vez, e só foram voltar agora, quatro anos depois, com shows de retorno na Inglaterra realizados nas últimas semanas. E claro, novo single — o primeiro em mais de seis anos.

“Love Like Waves” foi lançada no último dia 05, e segue a linha do Friendly Fires que já estamos acostumados, sem grandes alterações na estrutura sonora. É uma canção boa e agradável, que resgata o saudosismo dos fãs e empolga pelas novas possibilidades, mas também não chega a ser dos melhores sons já feitos pelo trio.

Novos singles devem surgir nas próximas semanas, culminando, em breve, com o aguardadíssimo terceiro álbum. Se mantiver a qualidade dos LPs do passado, tem tudo para ser um dos grandes lançamentos de 2018.

Bóra relembrar outros grandes singles do grupo:

* Nota do Autor: Indie dance/nu disco, assim como progressive house e deep house, foi mais um dos estilos que caiu naquela salada de tags do Beatport, na década passada, e acabou passando a ser usado para se referir a uma sonoridade completamente diferente. Aqui, evidentemente, falo sobre o indie dance original, que vai de bandas como o Cut Copy a produtores como o Tensnake.

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Opinião

Carta aberta aos fãs de progressive house

Flávio Lerner

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Aos fãs de progressive house
Oi gente, tudo certo? Vamos conversar? Os ânimos tão meio exaltados por aqui.

Seguinte: o DJ e produtor Leo Lauretti assistiu à volta do Swedish House Mafia in loco e nos escreveu um texto com algumas reflexões. Quando eu vi que ele falou em progressive house para se referir ao estilo do trio sueco, minha reação imeadita foi a de substituir o termo. Isso porque aqui na Phouse — ao menos desde maio de 2017, quando assumi como editor —  usamos essa tag para falar sobre o gênero original: esse mesmo que vocês curtem, o de Sasha, Digweed, Hernán e companhia.

Sempre que eu recebia para editar qualquer texto usando o termo “progressive house” para se referir ao “prog house mainstream”, eu o substituia por algum outro nome — geralmente, big room ou EDM, para evitar a confusão que existe há cerca de dez anos, desde a época em que o Beatport permitia que as gravadoras se apropriassem das tags que quisessem. Mas no texto de Lauretti percebemos que nem big room e muito menos EDM serviriam para rotular o tipo de som a que ele estava se referindo. Os dois nomes se tornaram genéricos demais para caracterizar essa estética mais particular, que sim, traz elementos progressivos, mas em uma roupagem bastante pop e acessível às massas. A melhor solução encontrada foi aparentemente simples: vamos manter o nome “prog house” [evidentemente sem a intenção de ofender ninguém] que é como os fãs se acostumaram a rotular o som, e colocar uma nota ao final explicando o caso.

Apesar de o artigo ter tido ampla aceitação entre os fãs de Swedish House Mafia, nunca imaginei que fosse causar um desconforto desse tamanho nos fãs do progressive clássico. Ora, através do nosso colunista Jonas Fachi, sustentamos uma cobertura bastante rica dessa cena. Incontáveis reviews sobre apresentações de nomes como Hernán Cattaneo e Guy J, matérias sobre projetos novos que vêm impulsionando a cena prog nacional… Vocês o conhecem, não conhecem? Se não, leiam os textos dele. Vocês vão curtir. Agora, tudo isso passa a não valer mais nada porque usamos o mesmo termo para nos referir, em um momento específico, a outro gênero musical?

Certo ou errado, com boas ou más intenções, a confusão do passado entre as nomenclaturas dos gêneros já foi feita. Não é culpa nossa. Mundialmente, o estilo que consagrou o Swedish House Mafia é ainda fortemente referido por seus entusiastas como progressive house. Isso passou a pertencer a eles também, gostemos ou não. Aprendamos a dividir. Assim como o dubstep se transformou em algo diferente a partir da onda do Skrillex, no começo desta década. Assim como o deep house hoje é um termo guarda-chuva tão grande que já não tem praticamente nada a ver com o deep house clássico. Os fãs sempre chiam, mas é em vão. E a própria EDM não é unanimidade. Na Phouse, convencionamos o uso da sigla para nos referirmos ao som do mainstream, mas volta e meia alguém reclama que “EDM engloba todo o cenário da dance music”. Não está errado. O termo pode ser usado em mais de um sentido. É tão difícil aceitar isso?

Por um lado eu entendo vocês. Há alguns anos eu discotecava um estilo que gostava de classificar como nu disco ou indie dance. Graças à mesma confusão no Beatport, hoje indie dance/nu disco se tornou algo completamente diferente. O importantíssimo movimento acid house no Reino Unido não tocava apenas acid house. Entre Estados Unidos e Inglaterra, “garage” significa duas coisas diferentes. No Brasil, funk tem um sentido completamente diferente do que nos EUA. Vocês acreditam que o James Brown se importaria? Eu não. Em meu primeiro artigo aqui na Phouse, há três anos, já tinha escrito argumentação parecida: a cooptação é inevitável.

No fundo, é apenas um nome. Uma referência. Mas nunca uma verdade absoluta, objetiva, imutável, escrita em pedra. A música é o que segue importando. A comunhão na pista de dança. Dentro do contexto, todo mundo sabe quem é quem. Ninguém confude a cidade de São Paulo com o Estado de São Paulo, com o santo ou com o time. A palavra “lance” pode ser utilizada para descrever uma jogada em uma partida de futebol, um trecho de uma escadaria ou uma investida em um leilão. E creio que ninguém aqui corre o risco de tentar bater um suco com um mixer da Pioneer. Nem de ir numa noite do Warung esperando ver o Avicii.

Talvez, no artigo de ontem, a gente pudesse ter chamado o estilo de progressive house mainstream. Parece fazer bastante sentido. Mas vamos combinar que fica um nome feio e comprido demais. E talvez não fosse o bastante pra evitar as vaias. Não posso deixar de suspeitar que toda essa raiva que uma galera pegou pelo fato de Lauretti ter usado o termo “prog house” tenha a ver com um ranço, algum tipo de elitismo ou soberba cultural. “Como ousam usar o nome do MEU gênero para descrever essa reles música de playba?” Não consigo não lembrar imediatamente de toda a celeuma causada quando o Seth Troxler tocou um vocal de funk. Vejo muita semelhança entre os casos: uma histeria porque “profanaram minha casa”, “mancharam meu som impoluto”. Vamos lembrar que cada nicho e história tem seu valor para o seu público, e ninguém é melhor que ninguém por aqui — mesmo que, tecnicamente, um som possa até ser mais refinado que o outro.

A gente respeita muito o progressive house. Qualquer um deles. Assim como todos os outros gêneros musicais que dizem respeito ao universo da música eletrônica. E vocês são sempre muito bem-vindos aqui. Vamos combinar que tem espaço pra todo mundo, sem confusão? Sem ódio? Sem precisar diminuir ninguém?

Vamos mirar nossa indignação em coisas mais importantes?

* Flávio Lerner é editor da Phouse.

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Opinião

A volta do Swedish House Mafia e o retorno do prog house

Phouse Staff

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Swedish House Mafia progressive house
Um dos eventos mais importantes dos últimos anos no cenário eletrônico deve trazer consequências marcantes
* Artigo por Leo Lauretti

Swedish House Mafia fechou o Ultra Music Festival 2018, a 20ª edição de um dos maiores festivais de música eletrônica do mundo, e algumas coisas importantes vieram à tona. Durante o show, acompanhei a reação das pessoas nas redes sociais, e muitos falando bem da apresentação em si.

Primeiramente, me chamou a atenção todo o hype que foi levantado para essa performance, e deixo uma pergunta: será que a EDM/prog house* morreu mesmo, ou será que estamos vivendo um retorno desse estilo? Não acho que viveremos algo semelhante ao passado em questão de estrutura musical, mas me arrisco a dizer que algo novo pode surgir com moldes similares aos do passado. Adoraria saber o que vem por aí, e digo isso desde quando descobri, há 30 dias, que o Swedish House Mafia voltaria.

+ Swedish House Mafia “de volta pra valer”

Outro fato curioso é que o trio não tocou nenhuma música nova deles, senão as que fizeram até se separarem. Mesmo assim, as reações têm sido muito boas, o que me leva a questionar: por que músicas de seis, sete anos atrás continuam com o mesmo peso e força, enquanto vemos outras se perdendo em menos de meses? Temos aqui a resposta do que “matou a EDM” há uns anos. Hoje em dia, existem poucas músicas que emocionam como “Don’t You Worry Child”, que marcaram época. Seja agora, seja daqui a dez anos, esses sons continuarão a representar muito para quem vivia ouvindo a track durante o seu auge (2013/14). O low BPM surgiu como uma outra proposta de música para festivais, porém vejo muita saturação e “plasticidade” nos dias de hoje, e, por isso, um alerta.

Por último, o que acontecerá daqui pra frente? Como amante desse estilo do Swedish House Mafia, torço muito pela volta dele, mas muito mesmo. Isso significa que o low vai morrer? Vejo que PODE perder força, mas acho que não morrerá, uma vez que existe um público muito mais conscientizado sobre o assunto, o que possibilita ao gênero se manter em uma constante, ou com apenas uma pequena queda. Quanto ao prog, o futuro está nas mãos dos produtores, meios de mídia, público, e principalmente dos DJs que animam as festas acolherem esse “novo” estilo. Se alguém quiser mudar algo, são estes que podem começar!

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* Nota do Editor: Em face da confusão instaurada nesses últimos dez anos quanto ao termo progressive house — originalmente um estilo bem diferente deste capitaneado pelo Swedish House Mafia —, continuaremos chamando aquele de “progressive house”, enquanto este passa a ser referido como “prog house”, evitando o uso de um mesmo termo para se designar a gêneros diferentes.

** Leo Lauretti é colaborador eventual da Phouse.

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