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Notícia

Relatos de um Fim de Século; a história do último club porto-alegrense a celebrar a cultura DJ

Flávio Lerner

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* Artigo original de abril, redigido pelo nosso colunista Flávio Lerner, ao LOFT55

Procuro evitar idealizações do passado em detrimento do presente. Há uma tendência em se esquecer das coisas ruins e focar nos bons momentos vividos, e o saudosismo é uma armadilha muito fácil de cair. Feita a ressalva, quando ouço relatos sobre os tempos de Fim de Século — lendário club porto-alegrense que viveu de 1987 a 2007, mudando o nome para NEO [New Electronic Order] em 2001 —, a despeito de possíveis floreios e distorções romantizadas, parece inegável que a casa foi parte essencial do apogeu da cultura de pista de Porto Alegre.

Atualmente, a capital gaúcha não tem nenhuma casa centrada nos valores da cultura DJ. Temos, sim, alguns esforços isolados, muitos de pessoas que viveram ou se criaram no FDS/NEO, mas agora fragmentados; a chama de uma cena que prega democraciacomunhão e respeito integrados a sets mixados ousados e visionários parece bem menor do que outrora foi. Em adaptação livre da frase-cliché de Clarice Lispector, saudades de algo que não vivi.

Mais saudades ainda deixa Sílvio Freitas, ex-sócio e cofundador do Fim de Século/NEO, que faleceu recentemente. Freitas teria morrido há cerca de dois meses, em virtude de complicações oriundas de uma hepatite, mas só na segunda-feira passada que a notícia correu pelas redes, com amigos e ex-frequentadores do FDS lamentando e registrando a falta que o homem fará.

Programa In my House #004 by Gito Especial FDSC by Gito on Mixcloud

Para ouvir com a leitura: set do DJ Gito que sintetiza um pouco da essência do Fim de Século

“O Sílvio se entregava de alma pelo lugar. O Fim de Século era o seu coração e pulmão. Igual a um pai que nunca vai desistir de um filho, ele suava sangue pra mantê-lo a pleno vapor. Uma figura simples, muitas vezes desconfiada, amiga, que era aberta a novas propostas e novos talentos. Um visionário além do seu tempo”, declara o DJ JZK, veterano da cena de Porto Alegre, destacando os outros sócios no empreendimento: Batata, Everton e Claudinho, além do DJ Double S, que também foi residente. Este endossa: “o Sílvio era a representação de um empresário de vanguarda e o Fim de Século o fruto dessa vanguarda. Ambos à frente do seu tempo”. Double S também demonstra a importância de um club engajado com os ideais da cultura de pista para formar novos profissionais: “ali meu trabalho como DJ tornou-se conhecido no Brasil inteiro, e até hoje eu agradeço por ter tido a possibilidade de participar do Fim de Século e por ter trabalhado ao lado de mestres como Sílvio Freitas”.

Antonio Navarro, DJ de drum’n’bass e um dos criadores da Quarta Quebrada, recorda dessa mesma integridade de Sílvio: “lembro dele, sempre otimista, nos chamando até o seu ‘escritório’ — um espaço 1m X 1,5m embaixo da escada — para, às vezes tirando dinheiro do próprio bolso, pagar pelo menos alguma coisa aos DJs quando a festa não rendia”. Para Navarro, “o local era porto-seguro para todos os estilos. Na pista do subsolo, o d&b nunca soou melhor. Ali, podíamos elevar o volume até o limite da distorção, e o subgrave massageava o peito e a garganta. Não era preciso nem dançar”.

Registro de festa no FDS em 1998, com o DJ Sérgio Panasuk

Dani Hyde, cofundadora da festa Róque Town, pertence mais à cena rockeira da cidade, mas se autodeclara “clubber em 1996”, quando era habitué do FDS. “O Fim de Século e o Sílvio Freitas são uma coisa só. Não há como separar a instituição do criador, pois ele sempre foi muito presente.” “Pra mim ele era o misterioso dono do bar, meio inacessível, meio gangsta, que ficava lá no fundo bebendo seu drink, fisgando as gatinhas e contando a grana”, complementa o diretor da rádio web minima.fm Leo Felipe, que também iniciou a vida noturna no local. “Foi o primeiro clube que frequentei — e onde vivi intensamente a cultura. A primeira vez que entrei naquele inferninho subterrâneo foi em 1989, tinha 17 anos. Dançava os sets do DJ Gaudêncio Orso, temperados com muito house e tecnopop.” Leo, inclusive, foi o dono de outro reduto histórico da cidade, o Garagem Hermética: “quando abri o Garagem, em 1992, o foco era mais o rock, mas o clima de liberdade e hedonismo que tanto marcou a casa foi herança de meu aprendizado nas pistas do FDS”.

“Noites de glória que certamente não mais saíram da lembrança de quem esteve lá”, retoma JZK, sem medir palavras sobre a importância histórica do empreendimento de Freitas. Para o DJ, o ápice foi a fase anterior à virada do milênio, antes da mudança de nome para NEO, “tendo o sincronismo do boom da musica eletrônica no mundo. Era o verdadeiro club da música eletrônica underground. A assiduidade dos frequentadores era tanta que estes passaram a ser grandes amigos e por fim tornaram-se uma família, que tem vínculos até hoje em dia”.

JZK continua: “o Fim de Século transpôs a simples representatividade de um club, ele se tornou uma lenda e um ícone na história da noite do RS e inserido dentro do contexto nacional. Por lá passaram inúmeros DJs internacionais, nacionais e locais que vieram a se tornar grandes nomes do cenário brasileiro”. Nomes como Fabrício Peçanha e Eduardo Herrera são os mais notáveis, mas outros bons DJs, menos conhecidos, também começaram ali, como o nosso colaborador do LOFT55Rafael Malhão: “acredito que foi a época mais democrática da cena clubber na cidade. Você encontrava desde o punk até a aspirante à modelo internacional que voltava de Nova Iorque. Nesse espectro, você tinha skatistas, clubbers, galera do rap, do jiu jitsu, da periferia… E góticos. Muitos góticos! Tinha noites de trance, house, techno e drum’n’bass, enquanto que no Deep Bar [pista subterrânea] rolava desde James Brown e trip hop até Prodigy, Chemical Brothers e Madonna”.

Os irmãos Luciano e Daniel Araújo tocando em um after da Fusion, em 1999

Sócio de Malhão na festa WAX, o DJ Apoena também aponta a sua formação no FDS como crucial: “sempre que eu penso em como um club deveria ser, ainda tenho ele como modelo. Minhas memórias do FDS no fim dos anos 1990 influenciam muito minha linha de som como DJ até hoje, em termos do que eu tento fazer com a pista”.

Apoena chegou a integrar a crew da Fusion, festa fundada na cidade de Canoas [Grande Porto Alegre] em 1996 que também teve seu espaço no Fim de Século/NEO. Ele segue relatando como a casa incorporava perfeitamente os valores da cultura de pista: “o club representava outro tipo de vida. Era como passar por um portal e testemunhar outro mundo. Não só pelo óbvio choque cultural de estar num ambiente que respeitava os homossexuais, mas também por causa da música eletrônica, que era algo bem menos comum que hoje, e que incitava no público um comportamento atípico na noite de Porto Alegre. Dançar sem fazer rodinhas, sozinho ou acompanhado, vestido de qualquer jeito. Era um ambiente alternativo de verdade”.

A casa ficou marcada não apenas por incorporar os valores fundados no Loft de David Mancuso, na Nova Iorque dos anos 1970, mas também por ter sido um reduto das mentes criativas de Porto Alegre. “Aberto a todas as propostas, [o FDS] abrigou imediatamente uma porção de jovens inovadores, criativos e iniciantes. Famosos ou não, artistas ou não; o público que frequentou os primeiros anos do Fim de Século parecia unido pelo desejo de mudança, pela necessidade de inovação, por uma sede mordaz de criação. […] Teatreiros imediatamente adotaram o Fim de Século como um de seus templos. E lá também fizeram seus sketches, performances e mesmo peças”, escreveram Marcus Vinícius Brasil e Renata Macedo em excelente matéria de 2005 para o extinto portal Rraurl. Com tamanha vocação criativa, fica claro que o FDS foi para POA o que o Madame Satã — do qual abordamos em entrevista recente com o DJ Magal — foi para São Paulo.

A proposta do FDS era claramente priorizar o novo, andando no mesmo passo das subculturas metropolitanas — algo quase impensável para a Porto Alegre conservadora de hoje, onde predomina a zona de conforto dos hits já conhecidos. “O Fim de Século reuniu pessoas que estavam olhando definitivamente pra fora. Não preciso explicar muito sobre como isso é importante numa cidade marginal como Porto Alegre”, complementa Dani Hyde.

https://www.youtube.com/watch?v=mkYoJKM5yic

Em 2007, último ano do club, rolou festa de 20 anos de Fim de Século na NEO, com alguns dos principais DJs da casa, como Fabrício Peçanha e Mozart 

Se Porto Alegre já teve uma efervescente cena underground criativa centrada em dance music, o que teria levado a cidade ao retrocesso? Dani teoriza que “não existia uma comunidade digital ainda. Era necessário trocar figurinha e mixtapes pessoalmente. [Quando] o Fim de Século terminou, esse grupo se desarticulou. Alguns seguiram suas próprias iniciativas e continuaram fazendo noite, mas já era diferente. Assim como a falta de informação via digital fomentou essa cena, a formação da comunidade digital conseguiu desestruturá-la. Não precisávamos mais da ‘congregação’, da ‘igrejinha’. Bom, alguns ainda precisavam, eu precisava. Mas mudou tudo”.

A produtora de eventos Lucia Dutra, que também descobriu sua vocação no Fim de Século e que também o enxergava como um único templo para diferentes pessoas, ajuda a compreender: “o mais legal de tudo era que todos se conheciam; público, promoters, galera da bilheteria e dos bares, chapeleiros, seguranças, DJs, gerente e donos. Saíamos pra tomar café da manhã na padaria da [avenida] Protásio [Alves] depois de fechar. Essa turma que contava o dinheiro pra entrar no FDS tem agora mais responsabilidades, tá mais velha. Agora todos são DJs, haja ego pra se trabalhar! O crescimento da cena trouxe ideias novas, públicos novos, interesses novos, área vip… Nem tudo isso é bom, ou tão ruim, o fato é que muda costumes”.

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Fotos de Dani Hyde no FDS, nos anos 1990

Teriam sido a cultura da ostentação e as armadilhas do ego — naturalmente antagonistas das subculturas dance genuínas — as maiores responsáveis pelo declínio da cultura DJ porto-alegrense? JZK vai ao encontro dessa ideia, lembrando que a explosão da música eletrônica fez com que ela fosse sugada pela cultura de massa. “A futilidade desses ambientes impregnou a música eletrônica, que passou a ser mais comercial, mas sempre tivemos clubs underground que faziam o balanço com os clubs mainstream. Com o fechamento do FDS e da Spin — esta casa já com um conceito um pouco mais elitizado do underground —, a cidade perdeu seus lugares de música eletrônica mais alternativa e conceitual”.

Restou a Porto Alegre uma lacuna muito grande, que talvez só outro novo club possa vir a preencher, para renovar e oxigenar a cultura de pista a uma nova geração de clubbers; para impulsionar novos JZKs, Double S e Peçanhas, além, é claro, de novas Lucias. Double, porém, é cético a respeito: “atualmente, não sei se Porto Alegre comportaria um Fim de Século, pois a música mudou, o comportamento das pessoas mudou… Está tudo tão segmentado, e o FDS era totalmente o oposto disso tudo”.

É certo que algo como foi o Fim de Século/NEO jamais se repetiria exatamente como foi, mas por que não acreditar em um novo templo da dance music local? De qualquer forma, o que se passou com essas pessoas e o trabalho de Sílvio Freitas não podem ser esquecidos; a morte do grande dono, contudo, pode ser interpretada como o fim definitivo de um ciclo.

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Pista da NEO vista de cima, em 2006

“O Sílvio deixa a paixão dele. Um cara que sempre acreditou nas novidades, sempre abriu portas para novos produtores e DJs. Ele lutou até o fim contra os órgãos públicos que fecharam a NEO sem medir esforços”, finaliza Double S. JZK apoia: “ele nos deixou um grande legado, e deixou vários discípulos e amigos por aqui, que irão espalhar o seu entusiasmo e amor pela música e pela noite”.

Apoena alega que, “na última vez que vi o Sílvio, já tem uns anos, ele ainda falava em reabrir o club. ‘Estou reabrindo minha casa’, ele dizia. Explicava que havia problemas legais por processos dos vizinhos”. Infelizmente, esse foi um sonho que Freitas não pôde realizar. Terá Porto Alegre um novo herói para bater no peito e assumir essa bronca, ou restarão à cultura DJ da cidade apenas as fotos do passado?

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Opinião

Nos passos de Boratto? Remix de Cattaneo indica que BLANCAh pode explodir globalmente

Jonas Fachi

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BLANCAh Hernan Cattaneo
O remix do maestro argentino com o israelense Audio Junkies chega em fevereiro, em coletânea do sexto aniversário do selo de BLANCAh
* Com a colaboração de Flávio Lerner

Em 2006, Hernan Cattaneo vivia o auge de sua carreira em meio à apresentação de um dos discos mais aguardados daquele ano. Intitulado Sequential pela consagrada gravadora Renaissance, o CD continha faixas de artistas como Bushwacka, 16 Bit Lolitas e Way Out West. Entretanto, após o lançamento, outro nome acabou chamando atenção de todos. Com uma irreverente e distinta forma de arranjar elementos somados a timbres ainda não vistos na cena, sua faixa “Arquipélago” foi colocada de cara na abertura da compilação.

Era o tipo sonoro que colocaria todo o resto da construção musical sob ligação. Tratava-se do primeiro single do ainda desconhecido produtor brasileiro que mais tarde se transformaria em um dos mais respeitados do mundo. Gui Boratto teve um dos primeiros reconhecimentos através de um artista do primeiro escalão, pelos ouvidos afiados do DJ argentino. Fazer parte da compilação automaticamente colocou Gui diante de um público super atento e colecionador, um primeiro passo fundamental em sua carreira.

Doze anos depois, Cattaneo continua sua jornada artística única, porém agora carregando a frente de seu nome o titulo de “Maestro” das pistas de dança de todo mundo. Uma vez mais, parece que o ícone sul-americano tem seus ouvidos voltados para um artista brasileiro que vem despontando internacionalmente — não apenas apoiando suas produções, mas agora também estabelecendo uma parceria de estúdio que poucas vezes abriu em 30 anos de carreira.

Imagem do DJ argentino em seu estúdio em Buenos Aires cercado por sua coleção de discos (Foto: LA NACION/Juan Pablo Soler)

Ontem, a catarinense BLANCAh fez o anúncio oficial de que Hernan — em conjunto do talentosíssimo produtor israelense Audio Junkies — tinha remixado “Talus”, faixa que fez parte de seu aclamado EP Osso, lançado em agosto de 2017. Em postagem no Facebook, a artista escreveu:

“A alguns meses atrás convidei Hernan Cattaneo para remixar uma música minha e pra minha alegria ele aceitou no ato.
Depois de algumas sessões de estúdio com seu parceiro de produção Audio Junkies os dois me entregaram esse remix lindo da minha música ‘Talus’. Acho que eu nunca encontrarei as palavras certas que definam este exato momento da minha carreira, a felicidade que sinto por ter o suporte de um artista como Hernan, e muito menos o que senti ao ver o Mestre tocando o remix que ele fez pra mim no Templo Warung Beach Club.
Muchas gracias desde el fondo de mi corazón Hernan Cattaneo, Thank you so much Audio Junkies”.

+ Hernan Cattaneo faz história com o primeiro “All Night Long” do Warung

“Talus” irá ser lançada apenas em vinil, o que coloca ainda mais profundidade ao novo EP pela gravadora que BLANCAh tem como sua casa, a Steyoyoke. O disco — que chega no dia 15 de fevereiro — se trata da sexta compilação anual de aniversário do selo, que traz remixes inéditos de faixas lançadas pelos seus artistas durante a temporada. Além da música da brasileira com remix de Hernan e Audio Junkies, compõem o EP outros três trabalhos que foram destaque em 2017, também recebendo novas interpretações: “Overflow”, de Nick Devon, em remix de Simon Doty e Nairo; “Paramour”, do Soul Button, com remix de Martin Roth; e “Syndicate”, de Clawz Sg e Nick Devon, remixado por Township Rebellion (você pode ouvir uma prévia de cada música aqui).

“Recebi a incumbência de encontrar alguém pra remixar uma música minha pra esse projeto [compilação da Steyoyoke]. E aí por acaso eu tava na Argentina e num primeiro momento pensei em fazer uma conexão com artistas brasileiros, pra ver se alguém se interessava em fazer um remix. Contatei alguns, que não se interessaram em fazer parte do projeto, e aí eu pensei: quer saber? Vou sonhar um pouco mais alto. Vai que o Hernan aceita, já que ele andou dando suporte pra algumas das minhas músicas e já tinha declarado abertamente que era meu fã”, contou a artista, agora em contato com a Phouse. “Criei coragem, fui pro tudo ou nada — porque o ‘não’ eu já tinha — e mandei um e-mail pra ele, explicando a proposta. Em menos de 24 horas ele respondeu dizendo que seria um prazer. Eu fiquei mega feliz, quase morri, pensei que ele nem ia responder [risos]!”

Hernan Cattaneo tocando o remix de “Talus” no Warung

Alcançar a importância global que Gui conseguiu desde “Arquipélago” é algo difícil de fazer, porém, com a benção de um dos maiores DJs de todos os tempos e a atenção da enorme quantidade de fãs que o seguem ao redor do planeta, BLANCAh pode estar dando mais um grande passo em sua carreira para se tornar um artista global. E mais: em um nível talvez até mais importante do que participar de uma das famosas compilações do Maestro, afinal, poucos produtores até hoje tiveram uma faixa remixada por Hernan. No Brasil, é algo inédito.

A artista tem muito a comemorar, pois seu “voo” está cada vez mais supremo. Até onde ela vai chegar? Talvez o particular interesse de Hernan por seu trabalho diga algo sobre. Assim como com o Gui em 2006, o argentino percebeu que se trata de uma identidade musical nova, própria e sem seguir tendências — premissas básicas que ele carrega consigo.

+ BLANCAh disseca ave e perde quilos para seu novo EP; escute “Osso”

Vale lembrar — como já publicado na Phouse —  que a Steyoyoke está em tour inédita pelo Brasil nesses dias. Depois de passar pelo Terraza Floripa no último final de semana, o showcase da gravadora alemã chega nesta sexta ao D-EDGE, e encerra no sábado no clube Chakra, em São Bento, Santa Catarina. No mesmo dia, o Maestro, que cumpre tour pela América do Sul, também estará no Brasil, estreando no Laroc Club. A promessa é de longset.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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Opinião

20 artistas do mainstream nacional para ficar de olho em 2018

Luckas Wagg

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20 artistas 2018
Liu é uma das nossas grandes apostas para 2018. (Foto: Yohan Augusto)
Uma seleção de nomes que têm tudo pra explodir no cenário eletrônico brasileiro nesta temporada

O ano está apenas começando, mas já dá pra trazer aqueles listões que todo mundo curte. Então selecionamos aqui 20 artistas da cena mais mainstream da música eletrônica que valem ficar de olho pra esta temporada.

São nomes que não necessariamente estão começando ou são promessas; parte deles inclusive teve um 2017 já de bastante destaque. Porém, são DJs em quem acreditamos que, justamente por já terem revelado bastante potencial em uma amostra recente, têm uma margem de crescimento bem alta a curto prazo, e devem vir agora com tudo pra emplacar definitivamente no cenário nacional.

Longe de ser qualquer tipo de ranking, a seleção abaixo é apenas um acervo de alguns dos muitos artistas que entendemos que chamaram a atenção pela sua música ou apresentação em eventos que marcamos presença em 2017.

Liu

20 artistas 2018

Longe de ser mais uma promessa, Cristian Liu já pode — e deve — ser considerado como uma das novas e grandes estrelas da dance music nacional. Apadrinhado por ninguém menos que Alok, o DJ/produtor de traços asiáticos ficou conhecido por sua track “Don’t Look Back”, e desde então vem fazendo shows pelos quatro cantos do país. Seu lançamento mais recente é “Coastline”, em parceria com o garoto prodígio WOAK. A faixa já atingiu mais de 3 milhões de streams entre Spotify e YouTube.

Kiko Franco

Com remixes oficiais para grandes artistas como ZHU e J Balvin, Kiko Franco ganhou notoriedade no mercado nacional e a cada dia vem surpreendendo mais e mais. Em 2016, o DJ ficou conhecido pelo seu remix com Kubski para “Panda”, do rapper americano Desiigner. A faixa caiu no gosto de gigantes do cenário, como EDX, Vintage Culture e muitos outros. Seu lançamento mais recente é um remix para a faixa do 1Kilo, “Deixe-Me Ir”, em parceria com WOAK.

SELVA

Com certeza você já ouviu alguma músicas desses caras. Só para refrescar sua memória, eles são autores dos sucessos “Why Don’t U Love” — em parceria com Vintage Culture e Lazy Bear — e “Make Me Wanna”, com Zerky. Além de DJs e produtores, Pelu e Brian Cohen também são instrumentistas, e têm como destaque em suas performances um live de bateria e guitarra. O mais recente lançamento da dupla é “O Amor Existe”.

Öwnboss

Formado por Mario Camargo e Eduardo Zaniolo, o projeto Öwnboss vem ganhando notoriedade no cenário da música eletrônica desde os seus primeiros lançamentos — “Stressed Out” e “Take Me Out”, com Bruno Be. Em 2017, o grande destaque da dupla foi um rework para a faixa “Intro”, de The xx, com ninguém menos que Vintage Culture.

Future Class

Autores de diversas tracks que hoje compõem sets dos principais artistas do cenário nacional, Igor Dantas e Allan Deckii vêm chamando a nossa atenção há muito tempo. Com um 2017 super agitado, os garotos se apresentaram nos principais clubs e festivais do país, como Kaballah, Lollapalooza, Só Track Boa, Green Valley e Laroc. O lançamento mais recente da dupla é “Shooting Stars”, com Vintage Culture.

RADIØMATIK

O projeto de música eletrônica que marca a união do DJ/produtor Diego Moura com o músico Mario Veloso é a mais nova bola da vez. Com pouco tempo de formação, o RADIØMATIK já lançou duas faixas e tem agenda cheia pelos quatro cantos do Brasil. Seu mais recente lançamento é “Too Close”, que ganhou destaque na playlist MINT, do Spotify.

Dubdogz

Os irmão gêmeos Marcos e Lucas Schmidt, que juntos formam o projeto Dubdogz, sem dúvidas não poderiam ficar de fora desta lista. Os paulistas foram grande destaque em festivais como Tomorrowland, XXXPERIENCE e Electric Zoo Brasil — para o qual, inclusive, compuseram o tema oficial de sua última edição, “Sunrise”.

KVSH

Autor do grande sucesso do verão “Sede Pra Te Ver”, KVSH também é presença obrigatória por aqui. Produtor de mão cheia, Luciano Ferreira tem conquistado o público dos quatro cantos do país. Seu lançamento mais recente é “Eu Não Valho Nada”, com a DJ Samhara.

Evokings

Frutos da escola de produção Make Music Now, os meninos do Evokings são mais do que uma promessa. Em 2017 emplacaram o hit “Gravity” com Cat Dealers, e em seguida “My Way”, que já conta com mais de um milhão de reproduções no Spotify.

Breaking Beattz

Formado por Lauro Viotti e Rafael Zocrato, o duo Breaking Beattz despontou no Beatport em 2017 com uma de suas tracks entre as mais vendidas do ano. A dupla é dona de diversas faixas que invadiram as pistas dos principais clubs e festivais do Brasil no último ano. Entre elas, “Perfect Exceeder”, com Gabriel Boni, “Let The Bass Go”, com FractaLL, e “Get Low”, com Sharam Jey e Chemical Surf; com o duo brasileiro, também tiveram seu mais recente som, “Don’t Stop”.

RICCI

Um nome que dispensa comentários, Gabriel Ricci é uma das nossas grandes apostas para este ano.
Dificilmente você não ouviu diversas músicas desse jovem hitmaker em 2017, que assinou música inclusive pelo selo de Steve Aoki. Entre seus maiores sucessos estão “Lost Generation” e “Later”, além de “Wild Kidz”, com Vintage Culture. Mais recentemente, participou de uma mistura inusitada com o duo Seakret e o rapper Rael, em “Tá Pra Nascer Quem Não Gosta”.

WOAK

De identidade ainda não revelada, WOAK tem apenas 16 anos e já está dando muito o que falar. Só no Spotify o jovem garoto acumula quase um milhão de ouvintes mensais. Entre seus lançamentos, podemos destacar “Coastline”, com Liu, e “Deixe-Me Ir”, com Kiko Franco.

Zebu

De uma maneira bem interessante, Zebu mistura em suas produções  o future bass com sertanejo, samba, funk e outros gêneros nacionais. Sem dúvidas, um dos artistas mais ousados que conhecemos no último ano.

rrotik

Com lançamento por importantes gravadoras como Armada Music, rrotik não poderia ficar de fora da nossa lista. O jovem mineiro tem ganhado a nossa atenção com seus lançamentos de low bass, como “MYNE” e “Talking Bass”.

Joe Kinni

Autor do grande hit “Carioca”, com Jakko e Bianca Chami, Joe Kinni continua mostrando seu lado versátil na produção musical. Em 2017, o artista lançou diversas faixas com pés dentro e fora da música eletrônica. Seu lançamentos mais recentes são “Moça” e “Mensagem de Amor”. Pra quem curte essa nova onda do eletrônico com vocais nacionais, vale muito a pena seguir esse cara.

JØRD

Não foi a toa que o famoso “Jordinha” conquistou uma legião de fãs pelo Brasil. Apadrinhado por ninguém menos que o mestre Felippe Senne, o jovem de Belém do Pará tem sido uma das grandes referências para a nova geração de produtores. Sem muitos comentários, tirem a própria conclusão com aquele “bass” inconfundível do garoto:

Santti

Autor do hit “Sober”, com Cat Dealers, Santti é mais um nome em nossa lista que dispensa comentários. O garoto tem demonstrado ser um grande hitmaker e está entre as nossas descobertas favoritas de 2017. Seu lançamentos mais recentes são “Sunshine”, com Cat Dealers e LOthief, e “Céu Azul”, com Vintage Culture.

LOthief

Produtor de mão cheia, Leandro Souza é outro grande destaque do Low Bass que não poderia faltar nesta lista. Sob o nome de LOthief, o jovem produtor mineiro de 23 anos vem chamando a atenção com suas produções e conquistando diversos fãs Brasil afora. Seu lançamento mais recente é “Sunshine”, com Cat Dealers e Santti.

LIVIT

LIVIT set comemorativo

Coautores do hit “On Fire”, lançado pela Phouse Tracks — e que já conta com mais de um milhão e meio de reproduções no Spotify —, o LIVIT vem sendo destaque em diversas playlists no Spotify. O lançamento mais recente da dupla é “Give Me All You Got”, pela Sony Music.

The Fish House

Uma das melhores surpresas de 2017 foi o hit “Menina”, de Rafa Gontijo com seu primo Breno. Lançada pela Deepink, a música chegou a ser uma das mais tocadas em Minas Gerais. Outro grande lançamento de destaque do projeto de Gotijo foi “Hey Hey Hey”, com Doozie. A faixa foi tocada em diversos festivais por expoentes como Alok.

BÔNUS: SCORSI

Por último, mas não menos importante: SCORSI. Somos suspeitos a falar deste cara (ele é um dos nossos A&R na Phouse Tracks). Porém, fica a dica: FIQUEM BEM DE OLHO!

Luckas Wagg é CEO da Phouse.

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Review

Hernan Cattaneo faz história com o primeiro “All Night Long” do Warung

Jonas Fachi

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Hernan Cattaneo All Night Long
Em seu tradicional set de fim de ano, El Maestro rompeu novas barreiras e se tornou o primeiro artista dos 15 anos de Warung a tocar pela noite inteira
* Fotos por Gustavo Remor e Ebraim Martini
* Vídeos por Fernando Hauenstein e Sebastian Tallon

Não existe data mais simbólica do que o dia 28 de dezembro no Warung Beach Club. O dia é reservado e sinônimo do desembarque de Hernan Cattaneo à Praia Brava. É fácil entender o porquê. Devido a sua consistência ao longo dos anos, o maestro argentino se tornou um embaixador da música que ajudou a criar. Aqui, sua ligação se fez por sua “experiência musical” se tratar de nada menos do que a identidade sonora que mais se enquadra com as expectativas do club, se tornando assim uma noite imprescindível para qualquer um que esteja em busca da famosa “mágica do Templo”.

O final de ano é estratégico porque consegue reunir elementos importantes: primeiro pelo verão no Hemisfério Sul ser uma das marcas do beach club. Segundo, pela quantidade de argentinos que estão de férias no litoral catarinense, somando-se aos fãs brasileiros que moram longe e que podem estar presentes. Para finalizar, turistas e público novo buscando conhecimento. Tudo isso forma uma das pistas mais divertidas e democráticas do ano na casa.

Após se apresentar no feriado de Independência do Brasil — data que tem se tornado sua referência também —, Hernan retornava sob expectativas que nunca diminuem. Neste review, como sempre, tentarei desvendar as ideias musicais e sua construção de set a fim de que todos possam ao mesmo tempo relembrar momentos marcantes, mas também entender a proposta musical para a noite. Ainda, buscarei mostrar a importância que ambos, artista e club, têm um para o outro. Veremos que é algo único.

O maior destaque dos meses pré-evento foi o pedido exclusivo de Cattaneo para ter a noite só para si, desde a abertura até o final. Todos sabem que a forma como conduz a pista de dança por longas horas é uma de suas marcas registradas, e ele estaria vindo do embalo de um back to back de espantosas 20 horas com Guy J no Canadá, em um club que mencionarei mais à frente.

Hernan Cattaneo All Night Long

Seu longset no Warung é considerado um clássico, porém para que tantas horas de música sejam bem-sucedidas, deve-se passar fundamentalmente por quão ambientado está o público antes de o artista principal iniciar. Hernan sabe tão bem disso que ele mesmo se propôs ao warmup dessa noite.

Tocar nesse ritmo de abertura é algo que ele adora, e fazia esse modelo de apresentação no início da carreira, quando a música eletrônica mal existia na América do Sul. Ao longo dos anos o Warung proporcionou ótimas aberturas a ele; nomes como Daniel Kuhnen, Leozinho e Danee são constantemente elogiados. Porém, Catta busca sempre ir além, se dispondo a fazer o que ninguém faria, e isso tem um motivo que entenderemos adiante.

Hernan Cattaneo All Night Long

Acertadamente, o club previu a abertura dos portões para as 21h, podendo assim deixar os mais interessados chegarem, se ambientarem e esperá-lo da melhor forma possível. Entretanto, o protocolo imaginado foi quebrado por volta das 21h25, quando ao chegar no club e ver que já havia pessoas a sua espera (cerca de 30), Hernan não hesitou e resolveu antecipar os trabalhos, sendo a primeira boa surpresa da noite.

O sistema de som ainda era tímido; ele propôs uma levada de deep house dançante com BPM bem baixo. Foi recebendo o público aos poucos, como se estivesse tocando na sala de casa. Que honra! Nesse começo, é impossível não destacar duas musicas de duas bandas eletrônicas icônicas. A primeira é “Damage Done” de Moderat, em um remix que não consegui descobrir, mas que seria algo aproximado com o do produtor Silinder. A segunda é nada menos que “Dream On”, do Depeche Mode — daquelas que você lembra pelo vocal inconfundível, em mais um remix não identificado. A partir das 23h, o sistema de som ganha seu devido ganho, e a pista que já estava cheia reage com a primeira euforia da noite. Agora era pra valer! Tocar desde o início é uma atitude que o público do Warung jamais esquecerá por duas razões: era algo que nunca havia ocorrido com um artista em 15 anos, e porque ficou evidente que o título de melhor warmup para o maestro já feito no club só poderia ser dele mesmo.

Hernan Cattaneo All Night Long

Se você está se perguntando se existe um motivo maior para esse pedido e desejo em abrir a própria noite, está correto. Vamos a ele. Existem certos clubs e eventos especiais na extensa carreira do argentino, alguns já extintos, outros ainda em atividade. A Stereo em Montreal, o Woodstock 69 em Amsterdã, a Moonpark e o Clubland (seu club formador) em Buenos Aires, o Cream de Liverpool e o Yellow de Tóquio são alguns dos quais Hernan tem registros de longsets históricos — como o de 12 horas no encerramento do club japonês em 2008.

Nesses “clubs para clubbers profissionais”, como ele costuma falar, criou laços mais profundos do que apenas apresentações marcantes de um DJ internacional para o público local. Porém, quando falamos de Warung, que é um desses lugares onde o frequentador recebe uma graduação musical, parece existir algo que transcende a todos e que honestamente não sei explicar.

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Pode parecer imprudência alguém fazer tamanha afirmação sem ter experimentado experiências musicais com ele nos lugares citados. Porém, olhando através de seu comportamento quando está dissipando o que tem de melhor na pista do Templo, arrisco dizer que em nenhum outro lugar sua música foi e tem sido recebida por um período tão extenso com tanta singularidade. Hernan tem sua figura tão em conformidade com a cabine, que a sensação de todos ao vê-lo ali em cima sob completa sintonia, repetindo os mesmos movimentos corporais e mentais necessários para se colocar músicas em sequência, é de que estamos diante algo mítico. O DJ que vemos no Warung parece ser daquele jeito somente ali.

Toda essa conexão ao longo do tempo gerou um resultado que poucos alcançaram dentro de toda indústria musical eletrônica: ser a figura central da criação de uma comunidade em torno do estilo musical que acredita e propaga desde quando ainda só ouvia discos de bandas de rock progressivo que suas irmãs colocavam para rodar. É claro que no final de tudo estamos tratando de entretenimento, porém com um nível de interação que é capaz de moldar ideias e visões das pessoas que decidem participar, e então colocá-las em união. Esse seu interesse em fazer o algo a mais, em tocar o máximo de tempo possível, é um tipo de realização que não se apaga tão fácil — ao contrário, se perpetua nas lembranças mais profundas dos participantes.

Hernan Cattaneo All Night Long

Considerações feitas, voltamos à música, e ela estava se desenvolvendo com toques viajantes moderados, temas com pequenos recortes emotivos e tribais, tudo bem cadenciado, sem exagero. Após a 01h, tive a sensação de que tínhamos atingido a velocidade de cruzeiro. Em navegação, é comum se falar sobre a relação da velocidade ideal e o perfeito equilíbrio do motor com o casco, ou seja, máximo desempenho aliado a maior economia. Hernan é especialista em estabelecer uma faixa sonora dentro da qual não se força a pista de dança, mas que nela atua naturalmente e em perfeito desempenho. O “ponto de cruzeiro” dessa relação é quando a música inserida pelas mãos do artista é capaz de extrair o máximo de cada individuo, mas sem que eles se desgastem antes do término.

Estava esperando mais alguma faixa para reconhecer, e então ouço uma melodia inconfundível para meus ouvidos. Procuro alguém para compartilhar a emoção de estar ouvindo “Take My Away”, de Fefo e Dario Arcas —  um dos melhores lançamentos da Sudbeat já feitos. Em 2010, ela marcou o décimo lançamento da gravadora de Hernan, recebendo inclusive um remix esplêndido do boss com Soundelixe. A faixa ainda fez parte de sua compilação The Masters Series – Parallel, para a Renaissance no mesmo ano. Novamente, se tratava de um edit que não consegui identificar.

Após isso, a construção musical começa a ganhar sua verdadeira cara, entrando em um tom mais dramático e infernal. Menos elementos, mais intensidade, e claro, as indispensáveis linhas de baixo aterrorizantes cortando e balançando toda a pista. No vídeo abaixo, que capturou momento próximo das 03h, está um daqueles sons que eu provavelmente não esquecerei até encontrar. Analisando o set inteiro, essa faixa seria uma espécie de previsão do que ele iria jogar nas horas que viriam.

Para mim, sempre foi impressionante como Hernan consegue ter amplitude musical dentro do seu estilo particular. Você pode dizer que esse é um dos papéis fundamentais de um DJ, porém conseguir executá-lo sem perder a essência é um dos grandes desafios da atualidade. Seguindo, outra faixa impressionante: “Robot Funk”, com remix de Phuture Phunk, fez todos entrarem em imersão. Essa música nada mais é que um ripping de “On The Run”, da banda Pink Floyd, adicionada a um baixo poderoso, um arranjo de bateria e um kick forte. Trata-se na verdade de um excelente remix, podendo ter sido apresentado pelo produtor Framewerk como tal, mesmo que não pudesse comercializá-lo.

Às 04h, entrou em ação “Strand”, de Stephan Bodzin — uma faixa com efeito progressivo e hipnótico, espécie de ponto de amostragem do que ele estava apresentando. A intensidade aumentava mais do que de costume. Comecei a imaginar que ele estava tocando por um bom tempo no mesmo ritmo para chegar em algo especial. Em meia-hora houve a quebra, não de ritmo, mas de sintonia. “Sirens”, remixada magistralmente por Patrice Bäumel, foi a escolhida para esse momento clássico dos sets de Hernan. Ele cantava sua maravilhosa letra tranquilamente enquanto todos ainda estavam se dando conta de que era um momento de pôr os pés no chão, mas só por uns minutos.

Hernan Cattaneo All Night Long

A partir das 05h, a sonoridade estava reta e nivelada, caracterizada pela maior altitude possível de energia e velocidade rítmica que El Maestro gosta de trabalhar, entregando para a pista de dança a melhor relação entre pessoas, ambiente e música. Sempre comento sobre esse momento do set até as 06h, que mostra o quão bem pensada e elaborada é sua construção. Havia nesse momento alguns aspectos mais obscuros, e sequência sem descanso.

Entramos na fase do amanhecer e era hora de algum clássico. A escolha foi por um que eu aguardava desde quando assisti ao vídeo dele o soltando no club Mamacas, em Atenas 2012. Tratava-se de “Eterna”, de Slam; uma faixa atemporal, produzida em 1991, e que recebeu um remix fantástico de John Digweed e Nick Muir 21 anos depois.

Próximo de chegar à fase da última hora, uma daquelas músicas que parecem já nascer clássicas. Seu vocal emitido como um mantra lembrou-me de um momento especial que tive em 2010, quando quase no mesmo horário, Hernan soltou “Love Stimulation”, de Humate, em remix de Tom Middleton — um momento que guardo até hoje de minha primeira experiência com o maestro. De alguma forma, isso surgiu em minha mente e tudo parecia ter voltado no tempo, reavivado por “Chanjira”, de Stuart King em remix de Mongo. Que momento!

Essa última hora é uma mistura de sentimentos. A já tradicional paradinha das 07h20 foi calculada com um lindo trabalho de um dos melhores produtores argentinos da atualidade: Kevin Di Serna, com “Horizons” — um arranjo limpo de piano, leves baterias e uma mensagem no vocal do break. Depois da calmaria, a volta é novamente cheia de intensidade, o sprint final para esgotar as últimas energias. A finaleira voltou-se novamente para o lado emocional com “Sofia” remixada por Guy Mantzur e, para minha maior surpresa, o encerramento veio com uma música que me fez pôr as mãos no rosto e apreciar sem querer que acabasse.

Eu já perdi as contas de quantas vezes assisti ao filme Inception. Além de elenco e direção brilhantes, ele tem uma das melhores trilhas sonoras da última década. E quando se fala em trilha sonora, hoje ninguém está no nível de Hans Zimmer. Sua composição chamada “Time” para o longa é algo que não se deve colocar em palavras. Felizmente, ela recebeu uma versão à altura para as pistas de dança, por Deeparture. A saudação mútua de agradecimento estava acontecendo junto do sentimento de maratona musical mais do que cumprida.

Hernan Cattaneo All Night Long

Escrevendo este review, pesquisando e relembrando faixas que foram apresentadas, notei que havia outras dezenas de detalhes especiais ainda para serem mencionados. Dar-me conta de que eu poderia simplesmente excluir tudo que tinha escrito e mesmo assim teria outras tantas coisas incríveis para contar, foi como uma cortina que se abriu em minha frente. Até onde vai a dedicação e o interesse de um artista para trazer ao seu público uma narrativa musical tão rica? Minha saída foi aceitar que algumas coisas vão e devem ficar apenas na lembrança.

Em 28 de dezembro, Hernan Cattaneo fez uma espécie de volta para casa, como quando ainda jogava no extinto Clubland de Buenos Aires. Agora, contudo, essa outra casa que ele descobriu e ajudou a formar tem um sentido diferente — afinal, seria como voltar, mas ainda estar jogando em um dos maiores palcos do planeta, um Camp Nou brasileiro, com sua grama (soundsystem) lisa, molhada, e um fundo de campo que parece não ter fim (mar). Seu conjunto musical estava nos dizendo isso o tempo todo: o Warung é um palco vivendo seu melhor momento, moldado por anos de uma identidade sonora inconfundível, onde, claro, só existe um camisa 10.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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