Review DGTL

DGTL São Paulo contrastou lineup impecável com serviço amador

Festival teria tudo para ser um dos rolês do ano se não fosse tão mal organizado
* Com a colaboração de Leonardo Smith e Victor Gulin
** Edição e revisão: Flávio Lerner

O DGTL São Paulo 2019 apresentou um forte contraste entre a excelente qualidade do lineup, da cenografia e do sistema de som e a péssima qualidade dos serviços que foram prestados pelo evento. Assim, é possível enxergarmos tanto o copo meio cheio quanto o copo meio vazio, e é a isso que nos propusemos aqui. Venham conosco!

O copo meio cheio

Desde que foi anunciado, o lineup aumentou muito a ansiedade do público, trazendo gringos como Richie Hawtin, Amelie Lens, Bonobo e Jeff Mills ao lado de tesouros brasileiros como Eli Iwasa, Amanda Mussi e os DJs da Gop Tun. Muitos foram os sets inesquecíveis e distribuídos pelos três palcos, com bastante coerência na curadoria. Se precisássemos escolher a estrela da festa, sem dúvidas seria a música.

Apesar de vários problemas relacionados à organização, quem participou do DGTL 2019 com certeza levou para casa ótimas lembranças de sets incríveis. Assim como nas edições anteriores, neste ano o festival nos apresentou três grandes palcos: Generator, Modular e Frequency — todos com artistas, decorações e atmosferas particulares. Desta vez, porém, em um espaço inédito: o Mart Center, na Zona Norte da capital paulista.

Valesuchi e Eli Iwasa no palco Modular. Foto: Julio Campos/Divulgação

O Modular aparentava ser o maior, e contava com uma super estrutura de luz, com inúmeras placas de LED e refletores espalhados por toda a sua extensão. Equipado com o excelente sistema de som da marca francesa L-Acoustics, que casou perfeitamente com a acústica industrial do galpão, o stage recebeu três live acts durante a noite: Recondite, Âme e KiNK — apresentações que agregaram muito pelo diferencial do ao vivo.

Recondite tirou o nosso fôlego com melodias obscuras e introspectivas aliadas a graves maciços — personalidade própria que o levou a virar referência na cena de techno mundial e criar uma legião de fãs pelo Brasil e pelo mundo. Foram 75 minutos de total domínio do alemão em solo paulista, que fez jus a toda espera por sua apresentação. O músico presenteou a plateia com uma excelente seleção de faixas autorais, com destaque para “Warg”, lançada pela Hotflush Recordings.

Recondite. Foto: Fernando Sigma/Divulgação

Na sequência, Frank Wiedemann — o Âme — começou seu live com uma introdução reta que anunciava uma grande apresentação. Logo depois do primeiro drop, quase que instantaneamente, ele já tinha a pista em suas mãos. Mesmo conhecendo o seu trabalho, é sempre difícil saber o que ele vai apresentar: se vai trabalhar numa linha mais introspectiva ou no estilo único da Innervisions, label em que é residente.

O que Frank fez, no entanto, foi apresentar uma verdadeira aula de live, na qual sua liberdade e suas possibilidades de criação eram infinitas. Flertando com vários gêneros da house e do techno, numa característica única de sintetizadores, Wiedemann misturou elementos de afro e world music, cadenciando perfeitamente entre melodia e groove, de forma que cada mixagem foi surpreendente. Um verdadeiro show feito por um dos maiores gênios da música eletrônica.

Âme. Foto: Jorge Alexandre/Divulgação

Richie Hawtin é conhecido por muitos por ser um dos maiores expoentes da cena techno mundial desde os anos 90. O canadense, dono das gravadoras Minus e Plus8, e também idealizador do projeto Plastikman, tem como destaque a sua capacidade criativa durante os seus sets em formato híbrido, que acabou evoluindo muito após a estreia da sua própria marca de mixers, a MODEL 1 (trazida ao Brasil no ano passado por tarter, como você viu aqui).

Richie fez o que quis com o Modular. Foram duas horas de um set bastante cadenciado, em que tracks mais instigantes foram intercaladas com músicas mais minimalistas e dançantes, não deixando a pista descansar. O DJ também é famoso por ser um exímio pesquisador, e isso ficou bem evidente a partir de sua seleção de tracks obscuras que deixaram o público eufórico, como “Bouncy”, do Moog Conspiracy.

Richie Hawtin. Foto: Thiago Xavier/Divulgação

Considerado por muitos o melhor palco da edição passada, o Generator prometia voltar com tudo para este ano, desde que soubemos que seria o espaço de artistas como Marcel Dettmann, Jeff Mills, Amelie Lens e Paula Temple. O stage proporcionou uma excelente experiência audiovisual, com inúmeras placas de LED e canhões de lasers, que “abduziram” os visitantes. Espalhadas pela pista, quatro torres com lasers, canhões e ventiladores completavam a atmosfera do ambiente. O Generator também contava com o potente sistema de som DB Audiotechnik.

A lenda Jeff Mills, um dos nomes mais aguardados da festa, é DJ desde os anos 80, quando foi introduzido no techno pelos precursores do movimento. Mills contribuiu muito na construção da cena em Detroit, sua cidade natal, por ter sido um dos fundadores do coletivo Underground Resistance.

Generator. Foto: Jorge Alexandre/Divulgação

Na busca de sempre se expressar da forma mais verdadeira possível, o americano já afirmou, em entrevista à Folha de São Paulo, que aproximadamente 99% de seus sets são compostos por músicas autorais. Com técnica apurada de mixagens rápidas e acompanhado de sua famosa TR-909, Jeff Mills conduziu o público a uma viagem entre sons ora mais hipnóticos, ora mais cativantes, deixando a pista tão concentrada quanto ele. Sem sombra de dúvidas, um dos destaques da noite.

Em ascensão, Amelie Lens foi a segunda DJ que mais se apresentou em festivais em 2018, sendo figura carimbada nos maiores palcos do planeta. A idealizadora da gravadora Lenske é conhecida por uma forte presença de palco e grande energia. A artista fez história, com duas horas de techno quente, massivo e eletrizante, que fez literalmente o teto pingar (ok, provavelmente foi o nosso suor). Tracks como “Look What Your Love Has Done To Me’’, do Perc, marcaram o Generator nesta edição.

Lens ainda explicou em seu Instagram: “Toquei entre Jeff Mills e Paula Temple, o que fez com que eu mantivesse o BPM e a energia um pouco mais altos do que o normal”.

Amelie Lens. Foto: Fernando Sigma/Divulgação

Em função do calor absurdo nos outros dois palcos, o Frequency se transformou em um refúgio para quem optou por curtir um som de extrema qualidade, em um palco open air, no meio de uma selva de pedras.

Assim como no ano anterior, foi montado a céu aberto, e na sua lateral tinha algumas árvores que contrastavam com o ambiente industrial do Mart Center. O palco também contou com o sistema de som L-Acoustics.

Além do cenário, a proposta sonora também era ligeiramente diferente, fugindo um pouco do techno através de artistas como Fort Romeau, Roman Flügel e um incrível B2B entre Spencer Parker e Ryan Elliot.

Ryan Elliot e Spencer Parker. Foto: Fernando Sigma/Divulgação

A mistura entre o americano Ryan Elliot e o inglês Spencer Parker proporcionou para aqueles que assistiram ao último set do Frequency um momento inesquecível. Durante duas horas, a combinação harmoniosa entre os DJs passeou entre a house e o techno de forma eletrizante.

Um B2B realmente muito bom de se ver, com os dois se divertindo muito e levando a plateia junto. O som durou alguns minutos a mais do que nos outros dois palcos para que os visitantes pudessem terminar de curtir essa apresentação e se despedir do Frequency em grande estilo em 2019.

Já no after — que foi um rolê meio estranho, como você poderá entender abaixo —, atrações como Etapp Kyle, Mind Against e Henrik Schwarz se apresentaram para quem se propôs a curtir a festa na íntegra.

Mind Against. Foto: Victor Silva/Divulgação

Mind Against era para muitos o nome mais aguardado da after party, mas um atraso de quatro horas, sem motivo revelado, causou desânimo e desistências. Pra quem ficou, o duo italiano chegou conquistando a plateia com estilo único e extremamente melódico. Faixas em alta, como “Noise”, de Denis Horvat com Lelah, e “Along Came Polly’’, do Rebūke, surpreenderam, dando sobrevida a um público que já estava cansado.

A apresentação de Henrik Schwarz foi outro grande exemplo da ótima curadoria do DGTL, e a oportunidade de assistir a mais um live durante o after segurou muitos no evento até bem tarde. Henrik recebeu a pista do Mind Against em uma pegada bem melódica, e soube com maestria manter todos dançando. O artista foi preciso no timing das músicas, emocionando geral ao finalizar o show com um incrível solo de piano, acompanhado por seus graves.

Henrik Schwarz. Foto: Victor Silva/Divulgação

O copo meio vazio

Infelizmente, o lineup não foi acompanhado por uma estrutura e um serviço à altura. Nos dias seguintes, choveram reclamações nas redes sociais na página do evento no Facebook, que acabou excluída. A péssima organização — pra não dizer amadora — fez com que MUITAS pessoas saíssem insatisfeitas, alegando terem pago um valor absurdo pelos ingressos, que não foi correspondido em conforto e qualidade.

As principais reclamações foram quase unânimes:

  • Muitas filas

Ao longo de todo o evento, as filas para os bares e caixas estavam bastante cheias, fazendo com que perdêssemos muito tempo de festa.

  • Banheiros em condições precárias

Os banheiros  — unissex — do festival não atenderam à demanda; além de poucos, estavam absurdamente nojentos.

  • Calor e falta de ventilação

Os palcos apresentavam poucas saídas de ar, e os ventiladores não foram o suficiente para arejar os ambientes. O extremo calor do Modular e do Generator fez até com que o teto do galpão onde estavam pingasse.

  • Falta de sinalização e mapa

Muitas pessoas relataram dificuldade em se locomover pelo festival por não terem tido acesso ao mapa do evento, nem antes e nem durante a festa. Pra completar, havia poucas sinalizações no ambiente.

  • Despreparo dos seguranças e funcionários

Que não sabiam dar informações durante a festa e agiram de forma bruta e estúpida com as pessoas, principalmente no início do after.

  • Péssima transição para a after party

Não havia sido informado ao público onde aconteceria o after do festival. Simplesmente, a partir das 04h, todo mundo foi evacuado das pistas em direção à saída, para que seguranças e um policial à paisana pudessem direcionar — de forma brusca e sem educação — quem tinha e quem não direito à famigerada after party (e nós ainda enfrentamos problemas para conseguir entrar por termos pulseira de imprensa, que deveria dar o acesso).

Esse processo gerou uma enorme fila, que deixou muita gente parada por mais de uma hora. Após enfrentar esse congestionamento e dar uma volta no galpão, era possível chegar novamente ao palco Generator, local escolhido para a segunda parte da festa. Ou seja: uma hora pra sair e voltar pro mesmo lugar de antes, e por um valor extra, o que definitivamente não pegou bem.

  • Artistas desrespeitados

Logo após o evento, alguns posts viralizaram nas redes sociais com reclamações dos bailarinos Loic Koutana e Aun Helden, que haviam sido contratados para performar no after. Os artistas relataram dificuldade de acesso (incluindo falta de pulseiras para identificá-los), camarim insalubre, sem estrutura adequada (basicamente uma garagem cheia de lama), e falta de respeito — Loic, inclusive, disse que mesmo depois de conseguir entrar, acabou sendo barrado do palco pela produção.

O caso fez com que o DGTL, em sua conta principal no Facebook, se pronunciasse admitindo a falha e anunciando uma visita ao Brasil com objetivo de compreender melhor a situação e conhecer sobre a cultura e a verdadeira cena das comunidades dos artistas. Como forma de pedir perdão, também os convidaram para se apresentarem no DGTL Barcelona, que rola no final de agosto.

Instalação artística no DGTL São Paulo. Foto: Fernando Sigma/Divulgação

O copo inteiro

Para muitos, os problemas foram imperdoáveis, e essas pessoas prometem não voltar no próximo ano. Para outros tantos, o DGTL São Paulo 2019 foi, apesar dos perrengues, um evento incrível, recheado de atrações de primeira classe. Os DJs fizeram a sua parte e cumpriram com as expectativas, auxiliados pela qualidade na cenografia, decoração, iluminação e sistema de som, que possibilitou uma imersão de alto nível em arte e música.

Sem passar pano para o que deu errado, nós reconhecemos a importância de um festival desse quilate no Brasil, e desde já esperamos ansiosamente pela próxima edição, torcendo para que as muitas falhas organizacionais não se repitam em 2020. Se ao menos grande parte delas não forem corrigidas, dificilmente o festival terá sobrevida no futuro.

Com a qualidade artística mostrada nesta edição e um serviço que faça jus ao tamanho e à representatividade da marca holandesa, o DGTL São Paulo terá tudo para, aí sim, se consolidar como um dos maiores eventos de música eletrônica do continente.

* León Pureza é colaborador da Phouse.

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