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Review

Acima de qualquer rótulo, Marcel Dettmann fugiu do script no fechamento do verão

Jonas Fachi

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Marcel Dettmann
Para encerrar a temporada de verão, o Warung trouxe os titãs Marcel Dettmann e Nina Kraviz
Fotos por Gustavo Remor e Ebraim Martini

Outra temporada eletrônica de verão terminou, e mais uma vez estive presente em diversos momentos do club underground considerado uma lenda entre DJs de todo planeta, o Warung Beach Club. Escrevi reviews sobre tudo que melhor aconteceu em noites que contaram com grandes retornos, acontecimentos emblemáticos, showcases e diversidade musical, distribuidas em mais de 15 eventos durante o verão do Templo na Praia Brava. No encerramento, não poderia ficar de fora, pois o club receberia duas das principais figuras da cena techno mundial na atualidade — Marcel Dettmann e Nina Kraviz.

No Inside, a sequência prometia ser arrebatadora, e a expectativa de um público que aprendeu a apreciar techno do mais alto nível nos últimos anos era enorme. Completando o time, outro importante nome de nossa cena techno nacional — Wilian Kraupp — estava de volta após receber elogios do próprio Dettmann em 2016.

+ PREMIÈRE: Ouça em primeira mão a parceria inédita de Wilian Kraupp e Kaiq

O público sentiu falta de não receber o alemão no ano passado, após uma estreia avassaladora como headliner na famosa noite mais gélida da história do club, em junho de 2016. Os pedidos por seu retorno não poderiam ser atendidos em uma data melhor.  O senhor “ice man” seria responsável por apagar um pouco da memória as quentes noites dos três meses anteriores, dando início a um novo momento no Warung.

Eu entendia que, assim como em 2016, ele era um nome para retornar como único headliner. Porém, com o anúncio de Nina Kraviz em conjunto, ficou evidente que seria ela quem iria fechar o Inside. Colocar Dett no Garden com Phonique estava fora de questão, então só sobraria o horário da 01h às 04h — o que de fato veio a acontecer.

Todos sabemos que Nina tem uma história mais longa na casa, bem como uma relação com o nosso público mais estabelecida, além do fato de seu reconhecimento mundial também ser enorme — e isso sempre é preciso respeitar. Foi natural coloca-lá para fechar. Entretanto, o que me surpreendeu positivamente foram os pedidos das pessoas nas mídias sociais por uma improvável inversão entre os dois titãs do techno, ou, em outro cenário, que Nina se apresentasse no Garden — pista em que talvez ela poderia se sentir um pouco mais segura para dar seu melhor. Falarei mais sobre isso à frente.

Wilian Kraupp

Entrei cedo na casa para aproveitar o máximo da noite e um dos meus DJ favoritos no país. Wilian Kraupp se posicionou de forma séria desde o início; concentração e mixagens sutis de um techno com uma leve profundidade, baixos duros e linhas de bateria bem seletas. Para o público, era fácil pisar na pista e já começar a pensar no que viria a seguir. Vale ressaltar que esse é o papel de quem está abrindo a noite — dar os primeiros passos ao clima musical que irá predominar adiante. Nesse caso, Kraupp ainda tinha em mãos a difícil missão de acostumar os ouvidos e o sentido rítmico das pessoas a uma musicalidade mais complexa, ao mesmo tempo não deixando de ter receptividade. Seu set foi ganhando peso bem devagar e terminou com uma carga de energia na medida. Posso arriscar a dizer que ouvi um dos melhores warmups dos últimos anos na casa.

Analisando a ideia da curadoria de trazer um DJ que é um grande conhecedor dessa pista e possui uma excelente capacidade de se adaptar conforme a exigência da noite, Kraupp não poderia ser um nome mais adequado para abrir os trabalhos. Se olharmos para o time de residentes, não há (por questões de estilo, e não de qualidade) alguém capaz de entregar uma pista à altura para um cara do tamanho de Dettmann. O catarinense outra vez cumpriu sua tarefa de forma sublime, em que mesmo não atuando em sua linha tradicional, apresentou uma pesquisa musical que daria inveja a muitos artistas da admirada cena de Berlim.

Sua atuação foi sintetizada pelos pedidos de aplauso de Dettmann ao final, pontualmente à 01h. Essa parada, mesmo com a música alinhada com o início do set, já estava nos dizendo algo sobre o que viria a seguir — um primeiro sinal de demonstração do quão à vontade o alemão estava para construir sua ideia musical.

Receber uma pista a ponto de explodir emocionalmente te abre uma série de possibilidades, inclusive a de alimentar ideias que talvez não estivessem nos scripts — por exemplo, expandir o horizonte musical. Porém, é preciso estar disposto para fazer uma mudança em cima da hora. O que quero dizer é que praticamente todos os grandes DJs preparam seus sets detalhadamente antes de iniciar uma nova tour de várias datas em sequência. Geralmente, acabam por seguir um modelo quase pronto e funcional, alternando algumas faixas aqui e ali, afinal, tocar dias seguidos não permite tempo de parar e ouvir novas promos.

Ao mesmo tempo, todos sempre têm uma série de músicas preparadas para alguns lugares ou momentos específicos — aqueles em que o artista se sente confiante para se distanciar de sua zona de conforto. Tudo isso que expliquei agora talvez seja o grande tema deste review, pois foi exatamente o que o alemão fez em sua apresentação no Templo. Inovou, experimentou, e, principalmente, surpreendeu. Havia em sua face de leves sorrisos um desejo latente de compartilhar suas influências.

O DJ iniciou com sua linha de techno tradicional, mecânica e envolvente. No primeiro build up, a pista soltou as mãos para cima. Nesse momento, até mesmo um cara com tanta bagagem como ele se sentiria desafiado. O detalhe é que nomes como Marcel crescem quando se veem diante de uma pista tão “em cima”. São como os grandes jogadores de futebol, que não se escondem na hora da final — ao contrário, se levantam e mostram toda a sua personalidade. Dett olhou para o lado e sorriu como se estivesse falando: “que energia f*..!”.

Na primeira meia-hora, o destaque veio através de Nocow, em “Stop”. Depois, sem pedir licença, joga um breakbeat quente e cheio de balanço; a reação de todos foi vibrante. Volta para sua linha e aos poucos entra em um ciclo cada vez mais frequente dessas alternações — disco, house, techno, músicas com vocais… A cada nova mixagem, ele renovava a pista de dança. Você pode se perguntar: “Mas ele não estava perdido ou fazendo a famosa ‘salada de frutas’?”. Definitivamente, não! Fazer o que Dettmann fez em suas três horas de set é algo extremamente difícil, e perigoso também, pois abre um precedente para uma possível parcela da pista de dança não entender nada e terminar na pergunta acima.

Primeiro, há de se pontuar que mixar esses estilos de forma perfeita não é pra qualquer um. Mas, não se esqueça, estamos falando de um DJ de club, criado e moldado em ambientes escuros e cheios de possibilidades, desenvolvido frente a frente com pistas extremamente cerebrais e dispostas ao novo. Sua habilidade em transitar em ritmos distintos é o grande segredo para manter a pista unida e ainda potencializá-la. Mixagens rápidas fazem parte da receita, porém, o talento de colocar tudo em sintonia e “esquentar” os arranjos é algo totalmente dependente da capacidade do DJ, e isso Marcel tem em um nível de poucos no planeta.

No auge do set, quando ninguém iria questionar mais nada, ele ressurge com “Enjoy the Silence” — talvez o maior clássico da banda Depeche Mode —, através de um edit que preservava muito da faixa original, dando um toque ainda mais natural ao momento. Ninguém imaginaria o cara do Berghain, criado no calabouço da pista mais underground do planeta, soltando um som pop (porém conceituado dentro da cena) e fazendo todos cantarem juntos. Nesse momento, me veio à mente os tempos em que Leozinho jogava “The World is Mine”, do David Guetta, e a pista ia abaixo. Naquela época, lá por 2006, não existia distinção entre “comercial vs. underground” — eram apenas músicas boas e o feeling artístico de colocá-las no momento ideal.

Dettmann atuou dentro de todas as linhas que o definem como artista, e só o fez porque se sentia confiante, percebendo o público e o momento ideal para jogar um tipo de set assim. Ou seja, ele não iria tocar até o fim, era uma peça da noite, e sabia que o público iria ter os ouvidos massivamente explodidos pelo acid techno sem descanso de Nina Kraviz pelo resto da noite em seguida. Isso é importante ressaltar: Dett só jogou algo “menos techno” porque tinha outro artista à sua frente com uma seleção do mais alto nível.

Não me entenda mal, não quero dizer que ele não poderia “competir” (se é que cabe usar essa palavra) com Nina por quem faria o melhor set de techno reto, pesado e dark. É obvio que ele, apenas com sua habilidade — sem entrarmos no mérito de qualidade musical —, já deixaria o jogo sem graça. Na verdade, fez isso sem nem abrir a pasta com as faixas da hora da verdade. Deu uma aula de como se pode ir na contramão do esperado e apresentar algo diferente, apenas com o respaldo de sua tremenda capacidade de construção de set e, mais uma vez, habilidade técnica. Talvez a ideia mais simplista desse pensamento seja: “vou ir à contramão do óbvio”. Terceira vez que o vejo tocando, três sets marcantes de diferentes formas, e ainda sinto que não sei nada sobre Marcel Dettmann. Que volte logo.

Às 04h, Nina subiu ao palco com todo seu carisma, e logo na primeira faixa percebi que o sistema de som foi forçado a um volume muito superior do que é habitual. A pista obviamente estava em chamas, porém notei pequenos estalos junto da música e sentia que algo não estava certo. Ela ainda não havia virado a segunda faixa e de repente o grave sumiu — no lugar, apenas aquele ruido de sub estourado irritando meus ouvidos. Era isso mesmo, as caixas da primeira metade da pista haviam derretido, e no mesmo instante eu soube que a noite havia terminado.

Logo depois, os técnicos do sistema baixaram o volume para pelo menos equacionar as frequências, recuperando algum vestigio das linhas de grave. O que me preocupa, no entanto, é que boa parte dos presentes sequer notou tudo isso — apenas sentiram que a música não estava mais “batendo no peito” como antes. Ainda assim, insisti em ficar na pista; não gostaria de perder a oportunidade de assistir a Dettmann e Nina fazendo um back to back inesperado. Alternaram em uma boa sintonia.

A faixa de Joey Beltram, “Life Force”, foi evidente, porém, a DJ russa mais uma vez parece ter sentido a pressão do club. Errou mixagem bobas, deu um leve pause/play e, mesmo sorrindo, transparecia um nervosismo que não condiz com o tempo de carreira que possui. Ela se sai bem em festivais, longe do público, mas definitivamente a cena clubber não é seu forte, pelo menos no Inside do Templo.

Resolvi ceder ao Garden por algum tempo, e a energia por lá estava bem mais leve e alegre. Diogo Accioly e Phonique possuem uma parceria de longa data e conhecem aquela pista como poucos. Estavam alternando entre deep house, techno progressivo e algo de house tradicional também, soltando alguns clássicos pontuais que é sempre legal ouvir na pista de dança.

Após o Warung, só se falava de uma coisa: o set do Marcel Dettmann não estava linkado com a esperada escola alemã. Marcel não resume a isso, seria um desperdicio de talento. Sua construção musical deixou tudo muito claro — é um DJ acima de qualquer rótulo.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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Análise

O indie dance original respira com a volta do Friendly Fires

Flávio Lerner

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Friendly Fires
Foto: Reprodução
Depois de mais de seis anos sem lançamentos, o trio britânico que marcou os anos 2000 está de volta

Fundado em 2006, o trio britânico de dance-rock/indie danceFriendly Fires foi importantíssimo para uma guinada mais eletrônica e dançante à cena indie da década passada, que encontrava-se em sua era de ouro com a ascensão de bandas como The Killers, Franz Ferdinand, The Strokes e Bloc Party. Seu surgimento — somado à ascensão de grupos como Klaxons, Chromeo, Cut CopyMetronomy e o brasileiro Cansei de Ser Sexy — fez com que aquele cenário mais centrado nas guitarras passasse a ter um foco maior nos sintetizadores e nas batidas. O LCD Soundsystem não estava mais sozinho.

Comandando pelo carismático e rebolativo Ed Macfarlane — com suas dancinhas impagáveis ao vivo e nos videoclipes —, o Friendly Fires explodiu mesmo em 2008, com o primeiro e homônimo álbum, e desde então acumulou milhões de fãs no mundo inteiro. Nunca fizeram exatamente música eletrônica de pista, mas bebiam claramente de fontes como a house e o synth pop de grupos como New Order e Depeche Mode. E não só isso: a batida e a vibe ensolarada das músicas trazia muito da música brasileira. Singles como “Jump in the Pool” e “Kiss of Life” surgiram com fortes elementos de percussão de samba — e em 2008 e 2009, o grupo chegou a realizar apresentações em conjunto com uma escola de samba.

Em 2011, às vésperas do lançamento do segundo álbum, Pala, que se afastava ainda mais do indie rock, foram capa da conceituada revista inglesa NME, e tiveram a ousadia de dizer que preferiam escutar Justin Timberlake do que Morrissey — antigo líder do grupo The Smiths, que dominou a cena indie nos anos 80. Pra roqueiros britânicos que levam esse tipo de comparação muito a sério [o que, arrisco dizer, seja boa parte do público da revista], uma declaração do tipo soava como heresia.

O trio seguiu sua vida muito bem, obrigado. Pala também fez sucesso, e o FF seguiu apresentando-se em shows lotados no mundo inteiro nos próximos anos. Mas pararam de fazer música. Em 2014, deram um tempo de vez, e só foram voltar agora, quatro anos depois, com shows de retorno na Inglaterra realizados nas últimas semanas. E claro, novo single — o primeiro em mais de seis anos.

“Love Like Waves” foi lançada no último dia 05, e segue a linha do Friendly Fires que já estamos acostumados, sem grandes alterações na estrutura sonora. É uma canção boa e agradável, que resgata o saudosismo dos fãs e empolga pelas novas possibilidades, mas também não chega a ser dos melhores sons já feitos pelo trio.

Novos singles devem surgir nas próximas semanas, culminando, em breve, com o aguardadíssimo terceiro álbum. Se mantiver a qualidade dos LPs do passado, tem tudo para ser um dos grandes lançamentos de 2018.

Bóra relembrar outros grandes singles do grupo:

* Nota do Autor: Indie dance/nu disco, assim como progressive house e deep house, foi mais um dos estilos que caiu naquela salada de tags do Beatport, na década passada, e acabou passando a ser usado para se referir a uma sonoridade completamente diferente. Aqui, evidentemente, falo sobre o indie dance original, que vai de bandas como o Cut Copy a produtores como o Tensnake.

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Opinião

Carta aberta aos fãs de progressive house

Flávio Lerner

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Aos fãs de progressive house
Oi gente, tudo certo? Vamos conversar? Os ânimos tão meio exaltados por aqui.

Seguinte: o DJ e produtor Leo Lauretti assistiu à volta do Swedish House Mafia in loco e nos escreveu um texto com algumas reflexões. Quando eu vi que ele falou em progressive house para se referir ao estilo do trio sueco, minha reação imeadita foi a de substituir o termo. Isso porque aqui na Phouse — ao menos desde maio de 2017, quando assumi como editor —  usamos essa tag para falar sobre o gênero original: esse mesmo que vocês curtem, o de Sasha, Digweed, Hernán e companhia.

Sempre que eu recebia para editar qualquer texto usando o termo “progressive house” para se referir ao “prog house mainstream”, eu o substituia por algum outro nome — geralmente, big room ou EDM, para evitar a confusão que existe há cerca de dez anos, desde a época em que o Beatport permitia que as gravadoras se apropriassem das tags que quisessem. Mas no texto de Lauretti percebemos que nem big room e muito menos EDM serviriam para rotular o tipo de som a que ele estava se referindo. Os dois nomes se tornaram genéricos demais para caracterizar essa estética mais particular, que sim, traz elementos progressivos, mas em uma roupagem bastante pop e acessível às massas. A melhor solução encontrada foi aparentemente simples: vamos manter o nome “prog house” [evidentemente sem a intenção de ofender ninguém] que é como os fãs se acostumaram a rotular o som, e colocar uma nota ao final explicando o caso.

Apesar de o artigo ter tido ampla aceitação entre os fãs de Swedish House Mafia, nunca imaginei que fosse causar um desconforto desse tamanho nos fãs do progressive clássico. Ora, através do nosso colunista Jonas Fachi, sustentamos uma cobertura bastante rica dessa cena. Incontáveis reviews sobre apresentações de nomes como Hernán Cattaneo e Guy J, matérias sobre projetos novos que vêm impulsionando a cena prog nacional… Vocês o conhecem, não conhecem? Se não, leiam os textos dele. Vocês vão curtir. Agora, tudo isso passa a não valer mais nada porque usamos o mesmo termo para nos referir, em um momento específico, a outro gênero musical?

Certo ou errado, com boas ou más intenções, a confusão do passado entre as nomenclaturas dos gêneros já foi feita. Não é culpa nossa. Mundialmente, o estilo que consagrou o Swedish House Mafia é ainda fortemente referido por seus entusiastas como progressive house. Isso passou a pertencer a eles também, gostemos ou não. Aprendamos a dividir. Assim como o dubstep se transformou em algo diferente a partir da onda do Skrillex, no começo desta década. Assim como o deep house hoje é um termo guarda-chuva tão grande que já não tem praticamente nada a ver com o deep house clássico. Os fãs sempre chiam, mas é em vão. E a própria EDM não é unanimidade. Na Phouse, convencionamos o uso da sigla para nos referirmos ao som do mainstream, mas volta e meia alguém reclama que “EDM engloba todo o cenário da dance music”. Não está errado. O termo pode ser usado em mais de um sentido. É tão difícil aceitar isso?

Por um lado eu entendo vocês. Há alguns anos eu discotecava um estilo que gostava de classificar como nu disco ou indie dance. Graças à mesma confusão no Beatport, hoje indie dance/nu disco se tornou algo completamente diferente. O importantíssimo movimento acid house no Reino Unido não tocava apenas acid house. Entre Estados Unidos e Inglaterra, “garage” significa duas coisas diferentes. No Brasil, funk tem um sentido completamente diferente do que nos EUA. Vocês acreditam que o James Brown se importaria? Eu não. Em meu primeiro artigo aqui na Phouse, há três anos, já tinha escrito argumentação parecida: a cooptação é inevitável.

No fundo, é apenas um nome. Uma referência. Mas nunca uma verdade absoluta, objetiva, imutável, escrita em pedra. A música é o que segue importando. A comunhão na pista de dança. Dentro do contexto, todo mundo sabe quem é quem. Ninguém confude a cidade de São Paulo com o Estado de São Paulo, com o santo ou com o time. A palavra “lance” pode ser utilizada para descrever uma jogada em uma partida de futebol, um trecho de uma escadaria ou uma investida em um leilão. E creio que ninguém aqui corre o risco de tentar bater um suco com um mixer da Pioneer. Nem de ir numa noite do Warung esperando ver o Avicii.

Talvez, no artigo de ontem, a gente pudesse ter chamado o estilo de progressive house mainstream. Parece fazer bastante sentido. Mas vamos combinar que fica um nome feio e comprido demais. E talvez não fosse o bastante pra evitar as vaias. Não posso deixar de suspeitar que toda essa raiva que uma galera pegou pelo fato de Lauretti ter usado o termo “prog house” tenha a ver com um ranço, algum tipo de elitismo ou soberba cultural. “Como ousam usar o nome do MEU gênero para descrever essa reles música de playba?” Não consigo não lembrar imediatamente de toda a celeuma causada quando o Seth Troxler tocou um vocal de funk. Vejo muita semelhança entre os casos: uma histeria porque “profanaram minha casa”, “mancharam meu som impoluto”. Vamos lembrar que cada nicho e história tem seu valor para o seu público, e ninguém é melhor que ninguém por aqui — mesmo que, tecnicamente, um som possa até ser mais refinado que o outro.

A gente respeita muito o progressive house. Qualquer um deles. Assim como todos os outros gêneros musicais que dizem respeito ao universo da música eletrônica. E vocês são sempre muito bem-vindos aqui. Vamos combinar que tem espaço pra todo mundo, sem confusão? Sem ódio? Sem precisar diminuir ninguém?

Vamos mirar nossa indignação em coisas mais importantes?

* Flávio Lerner é editor da Phouse.

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Opinião

A volta do Swedish House Mafia e o retorno do prog house

Phouse Staff

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Swedish House Mafia progressive house
Um dos eventos mais importantes dos últimos anos no cenário eletrônico deve trazer consequências marcantes
* Artigo por Leo Lauretti

Swedish House Mafia fechou o Ultra Music Festival 2018, a 20ª edição de um dos maiores festivais de música eletrônica do mundo, e algumas coisas importantes vieram à tona. Durante o show, acompanhei a reação das pessoas nas redes sociais, e muitos falando bem da apresentação em si.

Primeiramente, me chamou a atenção todo o hype que foi levantado para essa performance, e deixo uma pergunta: será que a EDM/prog house* morreu mesmo, ou será que estamos vivendo um retorno desse estilo? Não acho que viveremos algo semelhante ao passado em questão de estrutura musical, mas me arrisco a dizer que algo novo pode surgir com moldes similares aos do passado. Adoraria saber o que vem por aí, e digo isso desde quando descobri, há 30 dias, que o Swedish House Mafia voltaria.

+ Swedish House Mafia “de volta pra valer”

Outro fato curioso é que o trio não tocou nenhuma música nova deles, senão as que fizeram até se separarem. Mesmo assim, as reações têm sido muito boas, o que me leva a questionar: por que músicas de seis, sete anos atrás continuam com o mesmo peso e força, enquanto vemos outras se perdendo em menos de meses? Temos aqui a resposta do que “matou a EDM” há uns anos. Hoje em dia, existem poucas músicas que emocionam como “Don’t You Worry Child”, que marcaram época. Seja agora, seja daqui a dez anos, esses sons continuarão a representar muito para quem vivia ouvindo a track durante o seu auge (2013/14). O low BPM surgiu como uma outra proposta de música para festivais, porém vejo muita saturação e “plasticidade” nos dias de hoje, e, por isso, um alerta.

Por último, o que acontecerá daqui pra frente? Como amante desse estilo do Swedish House Mafia, torço muito pela volta dele, mas muito mesmo. Isso significa que o low vai morrer? Vejo que PODE perder força, mas acho que não morrerá, uma vez que existe um público muito mais conscientizado sobre o assunto, o que possibilita ao gênero se manter em uma constante, ou com apenas uma pequena queda. Quanto ao prog, o futuro está nas mãos dos produtores, meios de mídia, público, e principalmente dos DJs que animam as festas acolherem esse “novo” estilo. Se alguém quiser mudar algo, são estes que podem começar!

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* Nota do Editor: Em face da confusão instaurada nesses últimos dez anos quanto ao termo progressive house — originalmente um estilo bem diferente deste capitaneado pelo Swedish House Mafia —, continuaremos chamando aquele de “progressive house”, enquanto este passa a ser referido como “prog house”, evitando o uso de um mesmo termo para se designar a gêneros diferentes.

** Leo Lauretti é colaborador eventual da Phouse.

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