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“Sem solidez, sem profundidade, não há futuro”; uma entrevista com o lendário DJ Meme

Flávio Lerner

Publicado em

15/10/2015 - 18:38

Flávio Lerner bate um papo maroto com o “pai da house music brasileira”, o impagável DJ Meme

Falar sobre Marcello Mansur, o DJ Meme [pronuncia-se Memê], em poucos caracteres é das tarefas mais difíceis. O DJ e produtor musical — produtor mesmo, no sentido de dirigir outros artistas, não apenas como produtor de dance music — tem uma das histórias mais ricas e é um dos caras mais pioneiros da nossa cultura de pista brasileira, sendo considerado o DJ brasileiro mais famoso no exterior. Já se apresentou nos quatro cantos do mundo, foi um dos precursores da house music e da remixagem no Brasil, trabalhou em rádio, discoteca desde os 11 anos em bailinhos do Rio de Janeiro, fez parceria profissional e amizade com gente do calibre de Frankie Knuckles, David Morales, Dimitri From Paris, Gilberto Gil, Lulu Santos [uma de suas mais notáveis parcerias] e Roberto Carlos [o cantor, não o lateral esquerdo] e foi considerado responsável pela explosão internacional da Shakira, graças a seu remix para Estoy Aqui.

Mas não é apenas o passado glorioso que o diferencia; Meme é um dos raros artistas veteranos que está sempre em busca da renovação, trabalhando para manter-se contemporâneo. Mais recentemente, lançou seu primeiro selo, a Memix Recordings, que está usando, em um primeiro momento, para soltar tracks suas sobre diferentes pseudônimos — assinou como Mansur em Sun of a Gun, o primeiro release da label, que lançará no dia 23 Disco Knights, desta vez como Meme.

Com uma história tão rica, é natural que a conversa com ele fosse render — e como rendeu! O papo que você lê abaixo é uma das maiores entrevistas já feitas para a Phouse, mas não se intimide com o tamanho, pois, garanto, cada palavra vale a pena. E isso que esta não é toda a conversa! Há ainda toda uma outra parte da minha prosa com o Meme — que, enquanto publicamos esta matéria, está em Amsterdã, comandando dois workshops dentro do ADE — na qual focamos mais no seu passado, que sairá em breve no LOFT55.

https://soundcloud.com/dj-meme/dj-meme-friends-rock-in-rio

O set mais recente de Meme é de sua gig no RiR, com Kerri Chandler, Barbara Tucker e DJ Q

Oi Meme, como vai? Você segue dormindo todos os dias depois das 06h? Eu, com 25 anos, já não consigo mais fazer isso, fico imprestável no dia seguinte.

Comecei essa vida noturna aos 15 anos. Nunca mais parei. Meu metabolismo nasceu para a noite e eu nem discuto mais. Meus horários são outros.

E como anda a rotina em estúdio? Quando vamos ter aquele segundo lançamento da Memix Recordings? Você assina dessa vez como Meme, não é mesmo?

Sim. Depois que criei o selo parece que tirei uma rolha da criatividade que nem eu mesmo sabia que existia. Fiz três músicas inteiras em uma semana. O próximo lançamento já esta na agulha para este mês. Chama-se DJ Meme – Disco Knights.

O que define um lançamento como Meme de um como Mansur ou outro pseudônimo seu?

A diferença na linha musical. Sou da house desde que ela surgiu, como todos sabem, mas da mesma forma que gosto de jazz, gosto também de bossa nova, drum’n’bass e techno. Dou-me ao direito de explorar e arriscar o que eu quiser dentro de qualquer coisa que me agrade, mas percebi com a minha experiência que o público e a crítica tendem a botar uma etiqueta em você, relacionando-o com este ou aquele estilo musical. Alguns artistas que não conseguem lidar com isso morrem no meio do caminho quando tentam mudar, pois ninguém os aceita, entende? Se você marcou sua carreira com um tipo de sonoridade especifica, a expectativa dos outros sobre o seu trabalho é sempre fechada naquele gênero, e mesmo se a música for ótima, mas não estiver dentro do que esperam de você, a tendência geral é estranhar e repelir.

A experiência lançando uma música como Mansur foi excelente. Cheguei ao 1º lugar em vendas no Traxsource, o maior site de venda de house music no mundo. Mesmo não sendo tão distante do que eu faço, havia diferenças sutis entre Mansur e DJ Meme, e quem nunca ouviu falar de mim saiu aplaudindo Mansur como um artista novo. Meu foco é a música e não o meu nome.

Com samples da clássica Pump of the Jam, Sun of a Gun é o primeiro release da Memix

Cara, o que você acredita que lhe tornou um DJ e produtor musical tão consagrado? Isto é, sem contar a parte do amor pela música, porque isso uma cambada de gente também tem e não faz um trigésimo do seu sucesso…

Primeiro, muito trabalho. Minha energia para a musica despertou aos 11 anos de idade, quando descobri que eu podia controlá-la de alguma forma e usá-la para mudar as coisas à minha volta. Desde então meu entusiasmo é o mesmo. Não houve nenhuma razão ou frustração para me tirar do caminho.

Em segundo lugar, acho que a quantidade de oportunidades que eu tive me deu uma experiência que nenhum DJ no Brasil ainda alcançou: comecei na década de 70 tocando disco underground; parti para a house quando ainda era underground e nem as rádios tocavam; fiz bailes de subúrbio nos anos 80, quando o funk eletrônico ainda nem existia. Depois veio a etapa “adulta”, quando entrei para rádios enquanto ao mesmo tempo ainda segurava pistas.

Aprendi sobre música pop e simultaneamente tive programas de rádio de vanguarda que tocavam o que nenhum outro programa tocava, mostrando a house music via satélite para todo o Brasil. Depois, por conta da soma do meu aprendizado em rádios com pistas, acabei ganhando a oportunidade de ser um dos pioneiros do remix no Brasil. Eu e mais quatro pessoas abrimos as portas dessa arte para todos, antes mesmo de existir o termo “DJ/Produtor”, e justamente por ser remixer na década de 80 e aprender sobre estúdios antes de todos, o som que eu fazia nos remixes encantou artistas e gravadoras, que me chamaram para produzir discos a partir do zero. Dei a sorte de ter discos que venderam milhões e aprender mais ainda com gente grande dentro de estúdio. Quando “estou” produtor de música brasileira, vou de A à Z. De Gil a Roberto Carlos. De Shakira a Lulu Santos. De Gabriel o Pensador à Paula Lima.

Enquanto nascia a cena eletrônica brasileira na década de 90, lá estava eu ajudando a construí-la. Criei junto com Iraí Campos o primeiro curso para DJs do Brasil; participei dos primeiros Skol Beats; fui do casting da nossa primeira agência de DJs, a Hypno. No início do ano 2000, com o surgimento da internet, conectei-me às gravadoras do exterior e comecei a fazer remixes e lançar músicas fora do Brasil por selos que eu mesmo idolatrava, como a Defected e a Soulfuric, e virei o jogo sendo artista deles, também colocando uma música em 2º lugar na DJ MAG Hype Charts, a parada mais importante naquele momento em 2004. Esse acontecimento gerou um interesse mundial da cena house pelo meu nome, e caí na estrada iniciando idas e vindas para tocar em outros países que queriam ouvir o som daquele cara que fez aquela track que deu certo. Hoje vou da Colômbia à Coreia, de Nova Iorque a Bali, e volto para tocar em Maringá no fim de semana seguinte.

Todo esse aprendizado é único e certamente me deu uma bagagem que não se compra e não se aprende em cursos, e pode ter certeza de que eu a uso muito bem.  Fatidicamente isso me coloca com certa vantagem em relação à “cambada de gente” que você citou, até porque algumas dessas oportunidades jamais existirão de novo, pois o mundo mudou e as experiências hoje são mais fugazes e menores. É a ordem do século 21.

Pegue isso tudo e faça uma limonada. Eis a resposta à sua pergunta!

dj meme

Assim como nomes como Mau Mau, Magal e Marky, você leva muita fama e reconhecimento por ser um dos pioneiros da dance culture no Brasil. Atualmente, a maioria esmagadora dos DJs consolida suas carreiras pela produção musical. Não parece que um DJ, para fazer sucesso, sempre precisa se destacar em algo além dos seus DJ sets?

Bem, que um DJ precisa ter um hit próprio para se destacar, isso todo mundo já sabe. É um caminho sem volta e não adianta espernear, mas concordo com você que é triste ver que quanto mais importantes ficaram os DJs, menos importante ficou a música. Isso é de doer.

Hoje, os DJs estão mais preocupados com seus aftermovies do que com seus sets. O que ainda não perceberam é que já chegamos num ponto em que todos os aftermovies estão iguais, com a mesma fórmula. É o momento EDM do aftermovie. Cada vez que eu faço um, fico me perguntando se deveria ter feito mesmo, mas faz parte. Não sou eu que dito regras, mas procuro segui-las de maneira bem diferente. O meu destaque estará aí. Não sou de obedecer a regras quando tratamos de arte.

De quando você começou a tocar aos dias de hoje; o que melhorou e o que piorou na cena DJ mundial e na brasileira?

Olha, não sou saudosista. Não sou de discutir se “DJ de verdade toca vinil” ou se “a cena está cheia de coxinhas”, mas acho que a tecnologia é o ponto alto da discussão, pois suas vantagens são benéficas e maléficas ao mesmo tempo. Ela permitiu que eu melhorasse muito a minha técnica e facilitou para que eu tivesse mais rapidez e maior acesso a músicas que antes não eram possíveis de conseguir. Isso mudou a minha vida e me deu um supergás para tocar, mas essa vantagem em mãos erradas pode causar desastres. Pense que um dia o preço de uma Ferrari vai ser igual ao de um Corsa e que todos poderão tê-la em suas garagens. Certamente os bons motoristas vão ficar melhores, mas os ruins vão bater no primeiro poste porque vão achar que já são fodas. É o que vem acontecendo.

No momento em que as facilidades aparecem, o cara que antes não virava DJ por nunca conseguir juntar uma batida com outra compra um laptop vagabundo, bota um programa que junta os beats, leva 30 músicas de sucesso para duas horas de set e sobe ao pódio como se fosse o Tiesto — e como esses caras são muitos e em maior número, tal fato acaba por gerar uma imagem pública errada do DJ. No momento em que um palhaço que não sabe tocar tem a brilhante ideia de comer alguém famoso e subir na mesa pra rebolar e levantar os braços — e todos como ele vêm atrás —, o público começa a cobrar a mesma coisa dos bons DJs, e aí o establishment muda. O foco muda. Outro dia fui cobrado por uma menina por estar “desanimado” na cabine, somente porque eu não estava bebendo champanhe no gargalo ou levantando o braço junto com a música. Vai pá porra, né?

Uma pequena seleção entre os mais de 150 remixes já produzidos pelo DJ

Fala-se muito também sobre esse lance de música comercial e EDM… Vendo de fora, a gente tem a impressão que você respeita, mas não gosta dessa esfera mais farofeira da música. Ao mesmo tempo, como você mesmo diz, aprendeu com a rádio a formatação da música pop. Como se dá pra você esse equilíbrio entre música enquanto arte e enquanto produto?

Acredito no equilíbrio. Essa é a chave para diversas culturas e métodos coexistirem. Eu procuro usar no meu trabalho medidas diferentes para objetivos diferentes de tudo o que eu aprendi. Se fui comissionado por alguém para fazer um remix para rádios, vou usar uma porção pop um pouco maior. Caso esse remix seja para pista, uso outros ingredientes. Caso seja algo para o exterior, também já peso tudo em outra balança. Nesse momento é que vale a experiência e o bom uso dela, mas claro, isso não quer dizer que eu acerte sempre, né?  Ninguém tem a fórmula.

Você vê muita gente de sucesso pensando mais no dinheiro do que na arte?

Ô! Mas isso não é exclusivo da nossa cultura clubber, né? O dinheiro move o mundo e também empurra a arte. Ainda bem que nem todo mundo pensa somente no dinheiro. Os que mudam o mundo são chamados de loucos antes de serem chamados de gênios. Sorte é ver que muitos desses loucos continuam mantendo suas visões artísticas depois que ganham dinheiro.

Na fanpage da Phouse, li esses tempos um comentário certeiro, que me marcou: “brasileiro tem que começar a apreciar melodia, não só grave depressivo e sombrio”. Como apreciador nato de melodia, você concorda que, estranhamente, ela está em baixa na nossa cultura clubber?

Neste momento acho justamente o oposto. Vejo as melodias voltando. Vejo cada vez mais músicas cantadas e o povo levando isso pra casa. Antes, você saía de um club e não conseguia lembrar porra nenhuma do que havia tocado. Era uma briga por quem vestia mais roupa preta — que eu amo — ou tocava mais estranho. Hoje vejo tudo voltando às melodias. Até o house mais cabeçudo esta trazendo isso de volta. Sempre tem uma melodiazinha “pra você e eu e todo mundo cantá juntoooo”.

De 2005, Chanson Du Soleil (Sun is Coming Out) é um dos maiores hits do DJ Meme

Li no blog do amigo Carlinhos Kunde que você tava curtindo muito o Claes Rosen, e fiquei felizaço porque eu também gosto bastante — já cansei de tocar Tortuga por aí… Que mais você tem curtido de bom?

Incrivelmente no momento ando tocando e aplaudindo nossos conterrâneos que estão arrasando e fazendo bonito — alguns nas pistas daqui e outros já chegaram lá fora. Chemical Surf, Dakar Carvalho, Keskem e o casal Nana Torres e Glen fazem a minha cabeça agora.

Ficou famoso o episódio em que você “defendeu o Alok”, chamando-o até de herói nacional. Tem essa safra da nova geração que vem bombando por aí — Alok, Fabo, HNQO, Vintage Culture —, mas também parecem ser sempre os mesmos nomes e o mesmo tipo de som. Como você enxerga isso?

Defendi o Alok não pelo som dele, até porque eu não conheço a música que ele faz, mas porque como todos no País eu me senti atingido por aquele babaca do Amine Edge e, além disso, naquele exato momento o Alok representava um ponto de referência na nossa cena local que precisa sim de heróis nacionais para dividir a babação pelos gringos.

Quando eu recebi o prêmio RMC Personalidade Do Ano, em 2011, eu fiz meu discurso de agradecimento aproveitando que todos os donos de club estavam ali. Alertei a todos para que começassem a aumentar os nomes dos nossos DJs no flyer e valorizassem um pouco mais o que temos aqui, pois no dia em que alguma coisa impedi-los de trazer os gringos, o público não teria conhecimento dos nossos próprios DJs, que estão sempre com nomes menores. Não deu outra. O dólar tratou de fazer isso agora.

Quanto ao produto brasileiro, como eu já disse, bato palmas para quem é de verdade. Aos que ao invés de gerar música preferem focar mais no corte da barba, nas fotos e nos aftermovies, eu infelizmente prevejo dificuldades pela frente. O público que ama isso não é fiel, e muda instantaneamente para o outro lado da rua quando algo novo aparece. Sem solidez, sem profundidade, não há futuro. Só existe um ingrediente que faz um artista cair, levantar e subir de novo. Chama-se talento… E pra isso, não há plugin.

Pra finalizar, o que podemos esperar do Meme para o final deste ano e para 2016?

Que eu consiga dormir um pouquinho mais [risos].

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Entrevista

“Queremos saber o que o mundo acha do Rooftime”

Trio que chegou chegando na cena brasileira explica de onde veio e para onde vai

Flávio Lerner

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Rooftime
Gabriel Souza Pinto, Rodrigo Souza Pinto e Lisandro Carvalho formam o Rooftime. Foto: Lufre/Divulgação
* Com a colaboração de Lucio Morais Dorazio

Ter seu primeiro lançamento pela Spinnin’ Records e em parceria com um dos maiores nomes do seu país é um sonho praticamente inalcançável para muitos. Não para o Rooftime. O trio, formado pelos irmãos Gabriel e Rodrigo Souza Pinto (25 e 21 anos, respectivamente) com o amigo Lisandro Carvalho (21), fez sua estreia no final de setembro com “I Will Find”, collab com o Vintage Culture.

Pouco se sabe sobre o projeto, que não só nunca havia lançado uma música oficialmente, como também ainda não fez nenhuma apresentação ao vivo, nem no formato DJ set. Os caras, portanto, são novos não só na idade, como também estão chegando agora na cena — e dá pra dizer que já chegaram sentando na janelinha.

Além de ultrapassar um milhão de plays no Spotify e chegar a quase quatro milhões de visualizações no YouTube em questão de semanas, e de ser escolhida como música tema do Réveillon John John Rocks 2019 — que rola na praia de Jericoacoara, no Ceará —, a track indica uma sonoridade e um caminho repletos de potencial a serem seguidos pelo grupo.

Assim, entramos em contato com os rapazes, naturais de Itatiba–SP, para entender melhor de onde vieram e para onde vão daqui pra frente.

O clipe de “I Will Find” foi gravado em Jericoacoara, no cenário do John John Rocks

Contem pra gente um pouco sobre as origens de vocês e o primeiro contato com a música. Como surgiu o Rooftime?

Gabriel: Sempre fomos apaixonados pela música, mas sem grandes perspectivas. Eu já tinha acabado a faculdade de Administração com foco em Comércio Exterior na PUC–Campinas, havia trabalhado na área recentemente, mas não era o que me motivava. Nunca deixei que a música saísse da minha vida, então mantinha sempre o projeto com algumas bandas, junto com o Rodrigo todas as vezes.

Rodrigo: Na época, eu estava no segundo ano da faculdade, fazendo o mesmo curso que o meu irmão fez, mas também sentia que não era aquilo que eu queria. Sendo filhos de artistas, nós dois convivíamos com música desde o berço, então sabíamos que esse seria o nosso caminho também. Mas o grande problema era nos acharmos no meio musical e criar algo diferente.

Lisandro: Eu sempre tive essa preocupação também, porque comecei a produzir desde muito cedo, e queria encontrar algo totalmente fora da caixa. Tive um projeto antes, mas eu ainda sentia que não era o melhor em que eu poderia chegar. Tudo isso mudou quando eu conheci o Rodrigo na van, indo pra faculdade. Na época, eu fazia o mesmo curso de Administração. A gente começou a conversar sobre música, e todas as ideias bateram muito rápido!

Rodrigo: Não demorou muito para gente se reunir em casa, onde nos juntamos com o meu irmão. Isso foi no começo de 2017, no mês de maio, se eu não me engano. Afinamos o violão e saíram as primeiras melodias. Começamos na brincadeira, sem compromisso, como um hobby mesmo, sem muita ideia do que poderia acontecer. Desde então, a gente se reúne quase que diariamente pra fazer música, que é o que a gente ama fazer de verdade.

O nome “Rooftime” tem uma origem bem interessante. Contem melhor essa história pra gente.

Gabriel: No começo, não tínhamos um lugar reservado em casa pra poder criar. A gente se reunia no último andar de casa que, através de uma janela, dava acesso ao telhado. Subir lá, naquela época, era uma aventura, um mundo paralelo que encarávamos como um refúgio criativo, onde o mais importante era criar e ter ideias. Aos poucos isso foi se tornando rotina, e sempre que surgia alguma coisa nova, a gente dizia: “hora de subir no telhado”. Assim surgiu o nome “Rooftime”.

+ “I Will Find”, de Vintage Culture e Rooftime, é lançada pela Spinnin’

Quais são as maiores inspirações musicais de vocês?

Lisandro: Cada um de nós traz um pouco das nossas referências, mas pra compor nossa sonoridade, escutamos muita house music, indie rock, funk americano, soul, jazz e folk. Estamos sempre em busca de artistas novos e atentos a vários estilos, mas nossas inspirações hoje são Solomun, David August, RÜFÜS DU SOL, Claptone, Jan Blonqvist, Fatima Yamaha, Drake, Karmon, Milky Chance, Tube & Berger e alguns outros.

Podemos esperar que “I Will Find” seja uma boa amostra da identidade sonora do projeto? Uma coisa meio synth pop, mesclando elementos da house e do blues/rock — algo na linha do Elekfantz, mais ou menos

Rodrigo: A “I Will Find” é o melhor cartão de visitas possível. Nela, todo mundo pode ouvir e sentir a nossa intenção dentro da música eletrônica, com uma pegada acústica e sempre muito original. Acho que essa mistura de synth pop com um pouco da nossa essência é o que define nosso som, pois sempre sentimos que as faixas saem diferentes, mas também muito carregadas de emoção. Cada um dos três deposita tudo o que sente em cada música que criamos juntos, e acho que isso foge de qualquer denominação de estilo musical.

Rooftime
Foto: Lufre/Divulgação

Vocês nunca se apresentaram publicamente, mas sempre produziram. Como se dá esse processo de produção do trio?

Lisandro: A gente sempre tenta fazer algo com a nossa identidade, e na maioria das vezes o processo é bem orgânico, criativo e espontâneo. Não existe uma regra. Tudo começa no improviso: criamos juntos a harmonia, melodia e ritmo independente da aptidão musical de cada um. Temos bastante afinidade e as ideias acabando surgindo naturalmente.

Como surgiu a oportunidade de coproduzir com o Vintage Culture, logo no primeiro lançamento?

Gabriel: A “I Will Find” foi a primeira música que produzimos logo depois de nos conhecermos. Mal tínhamos um projeto formado, nem sequer um nome. Assim que terminamos, queríamos um feedback. Mandamos a música para o Lukas e ele abraçou a track na hora. Foi um ano de espera e de muita ansiedade, e agora, vendo a repercussão, não poderíamos estar mais felizes!

“Hoje conseguimos nos ver dentro do mundo musical de outra forma, muito diferente de antes, quando a única coisa em comum entre nós era um sonho” — Gabriel Souza Pinto.

E por que esperar um ano para esse lançamento? Foi uma estratégia de debutar o projeto já com o pé na porta?

Lisandro: Quando soubemos do interesse do Lukas pela faixa, tomamos a decisão de focar todos nossos esforços em produzir mais. Nem pensávamos mais na “I Will Find”, estávamos preocupados em consolidar nosso estilo musical e ficarmos cada vez mais entrosados no nosso processo criativo. Então, passamos todo esse tempo criando muitas outras músicas, trabalhando forte todo dia, muitas vezes até a madrugada, para que tivéssemos a certeza de que era o caminho certo.

Gabriel: Acho que tudo veio a calhar na hora certa. Por mais longa que tenha sido a espera para mostrar nosso trabalho para todos, sabemos que tudo foi muito proveitoso e necessário. Hoje conseguimos nos ver dentro do mundo musical de outra forma, muito diferente de antes, quando a única coisa em comum entre nós era um sonho.

Agora que o projeto foi lançado oficialmente, dá pra imaginar que vocês tenham já muitos outros lançamentos e gigs agendados pra logo mais. O que vem por aí?

Lisandro: Estamos nos preparando para lançar nossa segunda música, e a ansiedade não para de aumentar. Queremos lançá-la ainda neste ano, e estamos trabalhando forte nisso. Mas temos faixas preparadas para além do ano que vem, então tem muita coisa vindo por ai!

Gabriel: Também estamos estudando algumas possibilidades de gigs. Queremos ter certeza de nos apresentarmos na hora certa. Não podemos confirmar nada por enquanto, mas quem sabe no final do ano não surge alguma coisa?

Rodrigo: Estamos muito ansiosos pelo que está por vir. Temos colaborações com grandes artistas da cena a caminho, mas basicamente queremos que a nossa música ultrapasse as fronteiras e atinja um público cada vez maior. Queremos saber o que o mundo acha do Rooftime!

Flávio Lerner é editor da Phouse.

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Review

Menos é mais: menor, Federal Music apostou em line justo e cenário futurista

Oitava edição do festival mostrou amadurecimento da produção em Brasília

Nayara Storquio

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Review Federal Music
Foto: Coletivo 2takeapic/Divulgação
* Edição e revisão: Flávio Lerner

Na última quinta-feira, dia 11, Brasília hospedou a oitava edição do Federal Music Festival. Aterrissando em um dos cartões postais da capital, a Torre de TV Digital, o evento de 2018 apostou na atmosfera oferecida ao público. Com estrutura cenográfica exclusiva, três palcos e mais conforto, o Federal 2018 focou mais na organização. Para cerca de dez mil pessoas, a produção ofereceu um lineup justo nas 12 horas de festa, mesmo apesar de o festival ser menor do que vinha sendo nos últimos anos, quando recebeu entre 20 mil e 30 mil frequentadores.

Se você já foi a Brasília, deve ter reparado que por lá a arquitetura é levada muito a sério. Dentre os monumentos icônicos da capital, a Torre de TV Digital é um dos mais futurísticos. No estacionamento da “Flor do Cerrado”, como a torre é chamada, foi onde foi montada esta edição.

Review Federal Music
Foto: Coletivo 2takeapic/Divulgação

Logo na entrada, a estrutura de andaimes que ostentava o nome do evento,  os parceiros e os patrocinadores, recebia a galera. O prédio de 120 metros de altura, e toda sua vibe espacial estilo casa dos Jetsons, contribuiu muito para o cenário inédito. Era impossível não admirar o monumento ao passear por ali.

Nesse cenário, três palcos estavam dispostos como opção para o público: Mantra Stage, House Mag Stage BURN DJ Stage. O palco da House Mag era a única estrutura totalmente coberta; não se sabe se por motivos meteorológicos ou de acústica, mas a cobertura não parecia fazer parte da cenografia, deixando o palco com um ar de galpão.

Review Federal Music
Foto: Coletivo 2takeapic/Divulgação

Todavia, a falta de ornamentação do toldo não influenciou em nada o sucesso da pista, que trouxe alguns dos nomes brasileiros de mais destaque na cena atual. O duo Cat Dealers, o KVSH, o Liu e o FELGUK foram os que lotaram completamente a capacidade de todas as áreas do palco — pista, camarotes e lounges. Helmer B2B Invictor, Devochka, VINNE, CIC, Evokings, Jude & Frank, Skullwell & Simple Jack e Raul Mendes & Áquila fechavam o time.

Do outro lado do estacionamento ficava o Mantra Stage, cuja cenografia não decepcionou. Composto por duas estruturas separadas, um gazebo colorido na pista e um palco psicodélico ornamentado com as figuras de dois camaleões, o Mantra teve ótima aceitação — sempre cheio, desde as 21h, quando tudo começou, até as 09h do dia seguinte.

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Foto: Coletivo 2takeapic/Divulgação

Também não era pra menos, já que o palco, que trazia muito psytrance, foi comandado por ninguém menos que Astrix, Infected Mushroom, Skazi, Paranormal Attack. Performances de Hi Profile B2B Vegas, Reality Test, Phaxe, Dekel, Dimitri Nakov b2b Trindade, Freakaholics e Giaco & Wizards & 32 Project se apresentaram por ali. O poder do sistema de som era tão grande que interferiu em alguns sets dos outros palcos, porém o problema foi corrigido no decorrer do festival.

Entre House Mag e Mantra, ficavam a área de alimentação, bares, banheiros, lojinha oficial e demais áreas de conveniência. Um dos pontos altos foi o bar da BURN, que oferecia drinks diferenciados a R$ 26,00 cada. Eram quatro opções servidas num dos quatro copos exclusivos do evento, limitados em quantidade, para influenciar o público a ser mais sustentável.

O que funcionou consideravelmente no número de copos descartáveis, porém não com as garrafinhas d’água, que apesar de custarem R$ 8,00 a unidade, cobriram o chão no final do evento. O número de lixeiras pareceu não ser suficiente para o público esperado, que foi de aproximadamente dez mil pessoas.

Review Federal Music
Foto: Coletivo 2takeapic/Divulgação

Não podemos esquecer do BURN DJ Stage Room, onde houve um livestream com artistas locais. Os vencedores do concurso DJ Room também tocaram lá, e a atração especial foi o DJ Morttagua. Esse palco ficava bem atrás do House Mag Stage, e talvez tenha sido o único prejudicado nessa edição. Sua localização não era tão evidente quanto os demais, e o acesso era exclusivo a quem vinha dos lounges e camarotes.

Quem curtiu a maioria das edições do Federal Music notou uma grande evolução e maturidade na produção. Mesmo com o encurtamento dos recursos devido à crise no Brasil, o Federal mostrou que é possível entregar um evento digno sem fugir do prometido e aproveitando locais incríveis e pouco explorados da capital do país.

Nayara Storquio é redatora da Phouse.

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REVIEW

Segunda edição do Só Track Boa BH pode ser considerada a melhor de todos os tempos

Opinião foi endossada pelo próprio Vintage Culture

Luckas Wagg

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Foto: Fabrizio Pepe
* Edição e revisão: Flávio Lerner

Nesse último sábado, 29, rolou em Belo Horizonte mais uma edição do Só Track Boa Festival. Com um lineup recheado de grandes nomes, como Vintage Culture, Bruno Be, Malaa, KVSH, CIDVolac, não é exagero dizer que esta foi a melhor edição da franquia.

E vejam bem, não sou apenas eu quem está falando. O comentário do público em geral seguiu essa linha, em opinião compartilhada até pelo Vintage Culture, que nos contou, e depois publicou no Instagram, que esta foi a maior e melhor edição do Só Track Boa já realizada em toda a história — sim, até mesmo melhor que a edição principal, que rolou em São Paulo há pouquíssimo tempo.

Só Track Boa BH
Foto: Imagem Dealers/ Fabrizio Pepe

Ao contrário de SP, que teve dois palcos, a edição mineira contou apenas com o mainstage. Reunindo 20 mil pessoas no Estádio do Mineirão, a festa começou às 16 horas, com o energético set de RDT, seguido por LOthief. O tempo, porém, era chuvoso, o que deixou em cheque a sua possibilidade de sucesso. Mas para a surpresa de todos, nem a chuva nem nada atrapalhou o brilho do evento, que ficou lotado do início ao fim.

Organizado pelo reconhecido empresário Otacílio Mesquita e sua crew da OTM Produções junto à Entourage, o Só Track Boa Belo Horizonte foi sem dúvidas um dos festivais mais bonitos e bem organizados que pude conferir nos últimos tempos — e olhem que fui em bastante festivais por esse Brasilzão, hein! Apesar de o Mineirão ajudar muito, por ser um estádio novo e bem cuidado (ao contrário do Canindé, em São Paulo), a produção se preocupou com os mínimos detalhes. Desde bares, camarotes, acessos, tudo foi muito bem ornamentado e distribuído.

After do Vintage encerrou a festa. Foto: Fabrizio Pepe

Entre os destaques da noite, começamos pelo superstar e anfitrião Vintage Culture, que marcou presença do início ao fim. Atrás do palco, o artista tinha uma espécie de playground exclusivo para si e seus convidados, que puderam desfrutar de mesa de ping pong, totó, fliperama, bons drinks e uma área de descanso.

Apesar de ser uma das atrações mais esperadas e conhecidas da label, Lukas Ruiz surpreendeu com um set vibrante do início ao fim. Sua apresentação foi recheada de faixas autorais, incluindo os seus novos hits “Pour Over” e “I Will Find” — além de alguns bons clássicos da house music e um ao vivaço de “Cante Por Nós”, com a participação do cantor Breno Miranda. A apresentação do DJ também proporcionou ao público uma experiência única, com um audiovisual diferenciado e muito fogos e efeitos do início ao fim.

Foto: Imagem Dealers / Fabrizio Pepe

Quem também roubou a cena foi o mineiro KVSH, que já estava há oito meses sem “jogar em casa”, conforme declarou em um Stories pelo seu Instagram. O jovem prodígio entrou no palco por volta das 04h30 da manhã e conseguiu manter o público eufórico do início ao fim — que também contou com a apresentação ao vivo de Lagum cantando sua faixa com a DJ Samhara, “Eu Não Valho Nada”. O DJ fez também um tributo ao Avicii com um mashup de “Wake Me Up” com “Don’t You Worry Child” — exatamente como Axwell e Ingrosso fizeram no Ultra Europe.

Outro artista que surpreendeu foi o americano CID, que mandou uma houseira do início ao fim, tocando diversos clássicos e demonstrando toda sua experiência com a pista, em uma performance bem autêntica; além de Dashdot, que fez um set super linear e trouxe ao palco a DJ, produtora e cantora dinamarquesa Ashibah, que fez um live vocal, levando o público ao delírio.

+ CLIQUE AQUI para conferir nosso papo com a Ashibah

Não foi à toa que todos saíram comentando o fato daquela ter sido uma noite histórica. O line ainda contou com “apenas” Volac, Bruno BeMalaa, Chemical Surf com a participação especial do Gabriel o Pensador Gustavo Mota em um b2b insano com a Groove Delight; e fechou tudo com o Vintage retornando ao palco para um super after que foi até as 10h da manhã.

Mas além de lineup e estrutura, talvez o grande diferencial desta edição — e que motivou essa percepção geral de ter sido o melhor Só Track Boa Festival de todos — tenha sido o público, ensandecido, muito mais animado do que de costume. Percebi que na pista tinha muita gente mais nova, galerinha de 16, 17 anos, o que demonstra como a cena em BH está em crescimento, e fomentando um pessoal que virá a ser muito em breve a nova geração da cena eletrônica no Brasil.  

Assim, o Só Track Boa foi mágico, ficou na história da cena mineira e ganhou o coração dos frequentadores de uma vez por todas. Seguindo a sua saga de conquistar os quatro cantos do Brasil, o festival já tem data marcada para acontecer em Belém, no dia 20 de outubro, e Salvador, em 14 de novembro.

Luckas Wagg é CEO da Phouse.

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Ashibah grava mix com inéditas para a Phouse; escute!

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