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“Sem solidez, sem profundidade, não há futuro”; uma entrevista com o lendário DJ Meme

Flávio Lerner

Publicado em

15/10/2015 - 18:38

Flávio Lerner bate um papo maroto com o “pai da house music brasileira”, o impagável DJ Meme

Falar sobre Marcello Mansur, o DJ Meme [pronuncia-se Memê], em poucos caracteres é das tarefas mais difíceis. O DJ e produtor musical — produtor mesmo, no sentido de dirigir outros artistas, não apenas como produtor de dance music — tem uma das histórias mais ricas e é um dos caras mais pioneiros da nossa cultura de pista brasileira, sendo considerado o DJ brasileiro mais famoso no exterior. Já se apresentou nos quatro cantos do mundo, foi um dos precursores da house music e da remixagem no Brasil, trabalhou em rádio, discoteca desde os 11 anos em bailinhos do Rio de Janeiro, fez parceria profissional e amizade com gente do calibre de Frankie Knuckles, David Morales, Dimitri From Paris, Gilberto Gil, Lulu Santos [uma de suas mais notáveis parcerias] e Roberto Carlos [o cantor, não o lateral esquerdo] e foi considerado responsável pela explosão internacional da Shakira, graças a seu remix para Estoy Aqui.

Mas não é apenas o passado glorioso que o diferencia; Meme é um dos raros artistas veteranos que está sempre em busca da renovação, trabalhando para manter-se contemporâneo. Mais recentemente, lançou seu primeiro selo, a Memix Recordings, que está usando, em um primeiro momento, para soltar tracks suas sobre diferentes pseudônimos — assinou como Mansur em Sun of a Gun, o primeiro release da label, que lançará no dia 23 Disco Knights, desta vez como Meme.

Com uma história tão rica, é natural que a conversa com ele fosse render — e como rendeu! O papo que você lê abaixo é uma das maiores entrevistas já feitas para a Phouse, mas não se intimide com o tamanho, pois, garanto, cada palavra vale a pena. E isso que esta não é toda a conversa! Há ainda toda uma outra parte da minha prosa com o Meme — que, enquanto publicamos esta matéria, está em Amsterdã, comandando dois workshops dentro do ADE — na qual focamos mais no seu passado, que sairá em breve no LOFT55.

https://soundcloud.com/dj-meme/dj-meme-friends-rock-in-rio

O set mais recente de Meme é de sua gig no RiR, com Kerri Chandler, Barbara Tucker e DJ Q

Oi Meme, como vai? Você segue dormindo todos os dias depois das 06h? Eu, com 25 anos, já não consigo mais fazer isso, fico imprestável no dia seguinte.

Comecei essa vida noturna aos 15 anos. Nunca mais parei. Meu metabolismo nasceu para a noite e eu nem discuto mais. Meus horários são outros.

E como anda a rotina em estúdio? Quando vamos ter aquele segundo lançamento da Memix Recordings? Você assina dessa vez como Meme, não é mesmo?

Sim. Depois que criei o selo parece que tirei uma rolha da criatividade que nem eu mesmo sabia que existia. Fiz três músicas inteiras em uma semana. O próximo lançamento já esta na agulha para este mês. Chama-se DJ Meme – Disco Knights.

O que define um lançamento como Meme de um como Mansur ou outro pseudônimo seu?

A diferença na linha musical. Sou da house desde que ela surgiu, como todos sabem, mas da mesma forma que gosto de jazz, gosto também de bossa nova, drum’n’bass e techno. Dou-me ao direito de explorar e arriscar o que eu quiser dentro de qualquer coisa que me agrade, mas percebi com a minha experiência que o público e a crítica tendem a botar uma etiqueta em você, relacionando-o com este ou aquele estilo musical. Alguns artistas que não conseguem lidar com isso morrem no meio do caminho quando tentam mudar, pois ninguém os aceita, entende? Se você marcou sua carreira com um tipo de sonoridade especifica, a expectativa dos outros sobre o seu trabalho é sempre fechada naquele gênero, e mesmo se a música for ótima, mas não estiver dentro do que esperam de você, a tendência geral é estranhar e repelir.

A experiência lançando uma música como Mansur foi excelente. Cheguei ao 1º lugar em vendas no Traxsource, o maior site de venda de house music no mundo. Mesmo não sendo tão distante do que eu faço, havia diferenças sutis entre Mansur e DJ Meme, e quem nunca ouviu falar de mim saiu aplaudindo Mansur como um artista novo. Meu foco é a música e não o meu nome.

Com samples da clássica Pump of the Jam, Sun of a Gun é o primeiro release da Memix

Cara, o que você acredita que lhe tornou um DJ e produtor musical tão consagrado? Isto é, sem contar a parte do amor pela música, porque isso uma cambada de gente também tem e não faz um trigésimo do seu sucesso…

Primeiro, muito trabalho. Minha energia para a musica despertou aos 11 anos de idade, quando descobri que eu podia controlá-la de alguma forma e usá-la para mudar as coisas à minha volta. Desde então meu entusiasmo é o mesmo. Não houve nenhuma razão ou frustração para me tirar do caminho.

Em segundo lugar, acho que a quantidade de oportunidades que eu tive me deu uma experiência que nenhum DJ no Brasil ainda alcançou: comecei na década de 70 tocando disco underground; parti para a house quando ainda era underground e nem as rádios tocavam; fiz bailes de subúrbio nos anos 80, quando o funk eletrônico ainda nem existia. Depois veio a etapa “adulta”, quando entrei para rádios enquanto ao mesmo tempo ainda segurava pistas.

Aprendi sobre música pop e simultaneamente tive programas de rádio de vanguarda que tocavam o que nenhum outro programa tocava, mostrando a house music via satélite para todo o Brasil. Depois, por conta da soma do meu aprendizado em rádios com pistas, acabei ganhando a oportunidade de ser um dos pioneiros do remix no Brasil. Eu e mais quatro pessoas abrimos as portas dessa arte para todos, antes mesmo de existir o termo “DJ/Produtor”, e justamente por ser remixer na década de 80 e aprender sobre estúdios antes de todos, o som que eu fazia nos remixes encantou artistas e gravadoras, que me chamaram para produzir discos a partir do zero. Dei a sorte de ter discos que venderam milhões e aprender mais ainda com gente grande dentro de estúdio. Quando “estou” produtor de música brasileira, vou de A à Z. De Gil a Roberto Carlos. De Shakira a Lulu Santos. De Gabriel o Pensador à Paula Lima.

Enquanto nascia a cena eletrônica brasileira na década de 90, lá estava eu ajudando a construí-la. Criei junto com Iraí Campos o primeiro curso para DJs do Brasil; participei dos primeiros Skol Beats; fui do casting da nossa primeira agência de DJs, a Hypno. No início do ano 2000, com o surgimento da internet, conectei-me às gravadoras do exterior e comecei a fazer remixes e lançar músicas fora do Brasil por selos que eu mesmo idolatrava, como a Defected e a Soulfuric, e virei o jogo sendo artista deles, também colocando uma música em 2º lugar na DJ MAG Hype Charts, a parada mais importante naquele momento em 2004. Esse acontecimento gerou um interesse mundial da cena house pelo meu nome, e caí na estrada iniciando idas e vindas para tocar em outros países que queriam ouvir o som daquele cara que fez aquela track que deu certo. Hoje vou da Colômbia à Coreia, de Nova Iorque a Bali, e volto para tocar em Maringá no fim de semana seguinte.

Todo esse aprendizado é único e certamente me deu uma bagagem que não se compra e não se aprende em cursos, e pode ter certeza de que eu a uso muito bem.  Fatidicamente isso me coloca com certa vantagem em relação à “cambada de gente” que você citou, até porque algumas dessas oportunidades jamais existirão de novo, pois o mundo mudou e as experiências hoje são mais fugazes e menores. É a ordem do século 21.

Pegue isso tudo e faça uma limonada. Eis a resposta à sua pergunta!

dj meme

Assim como nomes como Mau Mau, Magal e Marky, você leva muita fama e reconhecimento por ser um dos pioneiros da dance culture no Brasil. Atualmente, a maioria esmagadora dos DJs consolida suas carreiras pela produção musical. Não parece que um DJ, para fazer sucesso, sempre precisa se destacar em algo além dos seus DJ sets?

Bem, que um DJ precisa ter um hit próprio para se destacar, isso todo mundo já sabe. É um caminho sem volta e não adianta espernear, mas concordo com você que é triste ver que quanto mais importantes ficaram os DJs, menos importante ficou a música. Isso é de doer.

Hoje, os DJs estão mais preocupados com seus aftermovies do que com seus sets. O que ainda não perceberam é que já chegamos num ponto em que todos os aftermovies estão iguais, com a mesma fórmula. É o momento EDM do aftermovie. Cada vez que eu faço um, fico me perguntando se deveria ter feito mesmo, mas faz parte. Não sou eu que dito regras, mas procuro segui-las de maneira bem diferente. O meu destaque estará aí. Não sou de obedecer a regras quando tratamos de arte.

De quando você começou a tocar aos dias de hoje; o que melhorou e o que piorou na cena DJ mundial e na brasileira?

Olha, não sou saudosista. Não sou de discutir se “DJ de verdade toca vinil” ou se “a cena está cheia de coxinhas”, mas acho que a tecnologia é o ponto alto da discussão, pois suas vantagens são benéficas e maléficas ao mesmo tempo. Ela permitiu que eu melhorasse muito a minha técnica e facilitou para que eu tivesse mais rapidez e maior acesso a músicas que antes não eram possíveis de conseguir. Isso mudou a minha vida e me deu um supergás para tocar, mas essa vantagem em mãos erradas pode causar desastres. Pense que um dia o preço de uma Ferrari vai ser igual ao de um Corsa e que todos poderão tê-la em suas garagens. Certamente os bons motoristas vão ficar melhores, mas os ruins vão bater no primeiro poste porque vão achar que já são fodas. É o que vem acontecendo.

No momento em que as facilidades aparecem, o cara que antes não virava DJ por nunca conseguir juntar uma batida com outra compra um laptop vagabundo, bota um programa que junta os beats, leva 30 músicas de sucesso para duas horas de set e sobe ao pódio como se fosse o Tiesto — e como esses caras são muitos e em maior número, tal fato acaba por gerar uma imagem pública errada do DJ. No momento em que um palhaço que não sabe tocar tem a brilhante ideia de comer alguém famoso e subir na mesa pra rebolar e levantar os braços — e todos como ele vêm atrás —, o público começa a cobrar a mesma coisa dos bons DJs, e aí o establishment muda. O foco muda. Outro dia fui cobrado por uma menina por estar “desanimado” na cabine, somente porque eu não estava bebendo champanhe no gargalo ou levantando o braço junto com a música. Vai pá porra, né?

Uma pequena seleção entre os mais de 150 remixes já produzidos pelo DJ

Fala-se muito também sobre esse lance de música comercial e EDM… Vendo de fora, a gente tem a impressão que você respeita, mas não gosta dessa esfera mais farofeira da música. Ao mesmo tempo, como você mesmo diz, aprendeu com a rádio a formatação da música pop. Como se dá pra você esse equilíbrio entre música enquanto arte e enquanto produto?

Acredito no equilíbrio. Essa é a chave para diversas culturas e métodos coexistirem. Eu procuro usar no meu trabalho medidas diferentes para objetivos diferentes de tudo o que eu aprendi. Se fui comissionado por alguém para fazer um remix para rádios, vou usar uma porção pop um pouco maior. Caso esse remix seja para pista, uso outros ingredientes. Caso seja algo para o exterior, também já peso tudo em outra balança. Nesse momento é que vale a experiência e o bom uso dela, mas claro, isso não quer dizer que eu acerte sempre, né?  Ninguém tem a fórmula.

Você vê muita gente de sucesso pensando mais no dinheiro do que na arte?

Ô! Mas isso não é exclusivo da nossa cultura clubber, né? O dinheiro move o mundo e também empurra a arte. Ainda bem que nem todo mundo pensa somente no dinheiro. Os que mudam o mundo são chamados de loucos antes de serem chamados de gênios. Sorte é ver que muitos desses loucos continuam mantendo suas visões artísticas depois que ganham dinheiro.

Na fanpage da Phouse, li esses tempos um comentário certeiro, que me marcou: “brasileiro tem que começar a apreciar melodia, não só grave depressivo e sombrio”. Como apreciador nato de melodia, você concorda que, estranhamente, ela está em baixa na nossa cultura clubber?

Neste momento acho justamente o oposto. Vejo as melodias voltando. Vejo cada vez mais músicas cantadas e o povo levando isso pra casa. Antes, você saía de um club e não conseguia lembrar porra nenhuma do que havia tocado. Era uma briga por quem vestia mais roupa preta — que eu amo — ou tocava mais estranho. Hoje vejo tudo voltando às melodias. Até o house mais cabeçudo esta trazendo isso de volta. Sempre tem uma melodiazinha “pra você e eu e todo mundo cantá juntoooo”.

De 2005, Chanson Du Soleil (Sun is Coming Out) é um dos maiores hits do DJ Meme

Li no blog do amigo Carlinhos Kunde que você tava curtindo muito o Claes Rosen, e fiquei felizaço porque eu também gosto bastante — já cansei de tocar Tortuga por aí… Que mais você tem curtido de bom?

Incrivelmente no momento ando tocando e aplaudindo nossos conterrâneos que estão arrasando e fazendo bonito — alguns nas pistas daqui e outros já chegaram lá fora. Chemical Surf, Dakar Carvalho, Keskem e o casal Nana Torres e Glen fazem a minha cabeça agora.

Ficou famoso o episódio em que você “defendeu o Alok”, chamando-o até de herói nacional. Tem essa safra da nova geração que vem bombando por aí — Alok, Fabo, HNQO, Vintage Culture —, mas também parecem ser sempre os mesmos nomes e o mesmo tipo de som. Como você enxerga isso?

Defendi o Alok não pelo som dele, até porque eu não conheço a música que ele faz, mas porque como todos no País eu me senti atingido por aquele babaca do Amine Edge e, além disso, naquele exato momento o Alok representava um ponto de referência na nossa cena local que precisa sim de heróis nacionais para dividir a babação pelos gringos.

Quando eu recebi o prêmio RMC Personalidade Do Ano, em 2011, eu fiz meu discurso de agradecimento aproveitando que todos os donos de club estavam ali. Alertei a todos para que começassem a aumentar os nomes dos nossos DJs no flyer e valorizassem um pouco mais o que temos aqui, pois no dia em que alguma coisa impedi-los de trazer os gringos, o público não teria conhecimento dos nossos próprios DJs, que estão sempre com nomes menores. Não deu outra. O dólar tratou de fazer isso agora.

Quanto ao produto brasileiro, como eu já disse, bato palmas para quem é de verdade. Aos que ao invés de gerar música preferem focar mais no corte da barba, nas fotos e nos aftermovies, eu infelizmente prevejo dificuldades pela frente. O público que ama isso não é fiel, e muda instantaneamente para o outro lado da rua quando algo novo aparece. Sem solidez, sem profundidade, não há futuro. Só existe um ingrediente que faz um artista cair, levantar e subir de novo. Chama-se talento… E pra isso, não há plugin.

Pra finalizar, o que podemos esperar do Meme para o final deste ano e para 2016?

Que eu consiga dormir um pouquinho mais [risos].

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Entrevista

Em alta, HOT-Q quer revolucionar a cena eletrônica brasileira

Nayara Storquio

Publicado há

HOT-Q
Foto: Divulgação
DJ fala sobre primeiro EP, trajetória, collabs e turnês
* Edição e revisão: Flávio Lerner

HOT-Q existe há apenas um ano, mas provavelmente você já ouviu uma música desse cara. O projeto do DJ paulista Gabriel Breda Monteferrario já acumula sucessos tanto nos canais de streaming como nos palcos. Com colaborações que incluem nomes como Alok e Jetlag, o brasileiro de 22 anos está levando o seu estilo a todos os cantos do país — e depois de lançar Brasileira, seu primeiro EP, pretende ir mais longe com as primeiras turnês.

Para se ter uma ideia do quanto tem esquentado a cena, imagine que HOT-Q atingiu mais de um milhão de ouvintes mensais no Spotify com a música “Brisa”, que produziu em parceria com o Jetlag. Soma-se a isso o remix para “My Life is Going On”, música tema da série La Casa de Papel, com colaboração de Alok, Jetlag e WADD, e que o levou ao Top 10 dos DJs brasileiros mais ouvidos no Spotify.

Todavia, ele garante que essa resposta veio de muito esforço e trabalho. “O HOT-Q é um projeto em que tudo foi bem pensado e estruturado desde o começo. Temos a total certeza de onde queremos chegar. Acho que não tem uma fórmula para você ‘começar bombando’, mas todo começo exige um planejamento, e é claro, música boa!”, disse, com exclusividade para a Phouse. E claro, num cenário cheio de expoentes, ter suporte dos peixes grandes sempre ajuda; o DJ revela que o Jetlag foi essencial para que sua carreira embalasse: “Desde o meu primeiro lançamento o Jetlag me apadrinhou. Fizemos algumas parcerias juntos, mas o que eles mais colocaram na minha cabeça é sair um pouco da caixinha do DJ set e entregar um show”.

Com um sucesso crescente, o artista já marcou presença em diversos eventos e clubs ao redor do país, entre eles Pukka Up (RJ), Tetto Rooftop Lounge (SP), Taj (DF) e até no Lollapalooza. Gabriel, que tem um passado como guitarrista de bandas de rock, admite que o sucesso adquirido o impressiona: “Eu toquei em lugares que nunca imaginaria tocar em tão pouco tempo! Sempre tive o sonho de tocar guitarra no Lollapalooza Brasil, e pude realizar esse sonho tocando minha música ‘Brisa’. Outro evento que ficou marcado foi o Camarote Salvador, no Carnaval. Eu dividi cabine com Paris Hilton, Kaskade NERVO, foi animal!”.

“Minha turnê terá proposta audiovisual bem diferente do que se vê no Brasil. Queremos inovar, revolucionar o mercado da música eletrônica, trazendo um show com grandes momentos.”

HOT-Q já estava bem encaminhado, mas uma admiração pelo seriado La Casa de Papel, do Netflix, o motivou a remixar a música tema, “My Life is Going On”. “Eu sou viciado nessa série, já assisti três vezes. Tive a ideia de fazer esse remix, e então liguei para o WADD. O Thiago Mansur [do Jetlag] também curtiu a proposta que mostramos pra ele, e decidimos assinar juntos. O WADD fez os breaks e eu fiz os drops”.

O time não parou aí, e acabou ganhando o reforço de ninguém menos que Alok. “O Alok gostou demais da música e nos mostrou que a track tinha mais potencial esticando um pouco os breaks e deixando mais na pegada da original. Realmente ele tinha razão, e a prova disso são os mais de dez milhões de plays. Ele é, sem dúvidas, um visionário!”, acrescenta, orgulhoso do resultado, e garantindo que essa parceria ainda vai render muitos outros frutos.

Para coroar a boa fase, o produtor acaba de lançar seu primeiro EP. Com uma original, em collab com o SUBB e vocais de ROZA, e um remix para Adriano Pagani, o disco Brasileira acaba de sair pela Reven Beats.Brasileira mostra bem o ‘HOTBASS’ que venho levando nas minhas tracks. Eu acredito que um dos maiores desafios para o produtor é achar a sua identidade sonora, e com total certeza achei a minha.”

Nesse meio tempo, ele nem pensa em reduzir o ritmo, e passou a focar agora em suas primeiras turnês. “Em agosto, vamos anunciar a primeira tour do HOT-Q com uma proposta audiovisual bem diferente do que se vê no Brasil. Queremos inovar, revolucionar o mercado da música eletrônica, trazendo um show com grandes momentos”, adiantou, determinado.

O DJ destacou também o recente contrato com a F&S Produções Artísticas para a realização da  “HOT-Q Burning Tour”, que vai trabalhar em conjunto com a 4MZK Agency, que o gerencia. Segundo ele, a identidade da turnê gira em torno da história do fogo, e deve ter Portugal como primeiro destino fora do Brasil.

Além disso, as produções, é claro, não param. Depois do primeiro EP e de singles recentes como “I Wish” (releitura para Infected Mushroom) e “Esperança” (releitura para a banda Aliados, da qual é fã desde criança), HOT-Q garante ter muitos lançamentos pela Sony Music até dezembro. “Agora em agosto lanço com o Vitor Kley. Teremos também sons com Gabriel Boni, Jetlag, SoFly, Rakka e muito mais”, explica, antes de encerrar com uma piada interna que já virou clássica em seu cenário, repleto de parcerias entre produtores: “Collab, bro? (Risos)”.

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Entrevista

12 anos de carreira em 8 faixas: L_cio apresenta “Poema”, seu primeiro álbum

Alan Medeiros

Publicado há

L_cio
Foto: Divulgação
Disco consolida trabalho consistente do produtor paulistano
* Edição e revisão: Flávio Lerner

Na última sexta-feira, foi lançado pela D.O.C. Records, com distribuição mundial da gigante alemã Kompakt, o álbum de estreia de L_cio, um dos maiores representantes da cena house/techno do país. Poema é a consolidação de um trabalho sólido, autêntico e inovador que transformou por completo a vida do produtor paulistano nos últimos anos. Mas, antes de falarmos do álbum propriamente, é interessante entender o perfil artístico de seu criador.

Laércio Schwantes é um artista multifacetado que já integrou e ainda integra projetos importantíssimos dentro do cenário eletrônico brasileiro. Desde a origem do Treto Preto, que não o tem mais no time, passando por outros exemplos, como Lacozta e Gaturamo, toda iniciativa musical deste produtor tende a passar pelo fora do óbvio, explorar novos caminhos e procurar, através de diferentes maneiras, uma profunda conexão com o público. Esse relacionamento direto, sincero e verdadeiro com sua base de fãs é uma das razões do sucesso da sua jornada na música até aqui.

Seu disco de estreia é composto por oito faixas originais de nomes minimalistas, e foi produzido na ponte aérea São Paulo/Floripa, duas cidades que o abrigaram nos últimos anos. Sobre as dificuldades relacionadas ao processo criativo do trabalho, L_cio contou à Phouse que antes de tudo veio a tomada de decisão que levou à concepção da ideia — o grande objetivo do trabalho sempre foi contar uma história que representasse os 12 anos de carreira em oito faixas.

Segundo o artista, encontrar tempo hábil para construção do trabalho não foi exatamente uma dificuldade: “Pra mim isso nunca foi um problema, pois produzo pouco, mas rapidamente”. Essa precisão pode ser sentida na forma como o disco evolui, com coerência, calma e sem apelar para clichês em nenhum momento. A flauta transversal, que virou sua marca registrada ao temperar suas produções e seus lives, não poderia deixar de se fazer presente. Ainda sobre todo momento que antecedeu o lançamento, o produtor destaca a importância que o público também teve para o lançamento, já que sempre testa suas faixas na pista: “‘Canto’, ‘Forte’ e ‘Avante’ eu tenho tocado há pelo menos oito meses”, complementa.

D.O.C. e Kompakt, as duas marcas envolvidas no lançamento, exerceram um papel importante durante toda criação do Poema. Gui Boratto, head do selo brasileiro, também é lembrado com carinho, principalmente pela amizade criada entre ambos, algo que nasceu graças a música. Assim como outros trabalhos de nomes importantes da música eletrônica mundial, o álbum ganhou a luz do dia com o toque particular de seu criador, e por isso, não há como negar a atmosfera especial que ronda esse lançamento: “Acho que foi uma bela realização e um momento único na minha carreira. Agora é encontrar os próximos passos para prosseguir numa crescente orgânica”.

Alan Medeiros é colaborador eventual da Phouse.

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Entrevista

Catarinense se reinventa e atrai olhares de gigantes do progressive house

Nayara Storquio

Publicado há

ZAC
Foto: Divulgação
Depois de 13 anos no mercado, Thiago Zacchi explode como ZAC
* Com a colaboração, revisão e edição de Flávio Lerner

A cena underground catarinense parece ter um novo destaque: o DJ e produtor Thiago Zacchi, que vem ascendendo meteoricamente desde que lançou seu projeto ZAC. Com a vantagem de ter nascido próximo a um dos maiores polos brasileiros de dance music, o DJ natural de Mondaí, interior de Santa Catarina, já conta com 13 dos seus 30 anos de vida na profissão, mas foi nos últimos nove meses que começou a chamar a atenção dos principais expoentes do progressive house global.

Thiago iniciou sua trajetória em Chapecó, tocando em festas fechadas aos 17 anos, onde descobriu sua paixão. “Depois de ir na minha primeira festa de música eletrônica, decidi que queria ser DJ. Comprei um CDJ 100 e mixer e ficava o dia todo em casa mixando — era como jogar videogame. Comecei tocando em festas privadas, que chamávamos de ‘privates’. Na época eu tocava sozinho a noite toda, além de ajudar na montagem e desmontagem do som”, destaca o artista, em papo com a Phouse.

Set na Levels, em Porto Alegre

Depois de ter se estabelecido profissionalmente dentro do mercado catarinense, tornou-se sócio do famoso Amazon Club, na mesma Chapecó. Thiago acredita que ser parte do clube por quase dez anos tenha lhe trazido muita aprendizagem e oportunidades, porém ele não vincula o sucesso de seu novo projeto a ele.

“Meus êxitos como parte do clube não têm nada a ver com o que tenho feito como produtor musical e DJ. O Amazon me ajudou, mas de resto essa imagem ligada a ele me prejudica, porque às vezes as pessoas lembram do clube e acabam não escutando a minha música, que é o que realmente importa. Tive a felicidade de conhecer grandes nomes ali, ter contato com muitos artistas bons, mas o que impulsionou meu nome na cena global foram as músicas que produzi, as horas dentro do estúdio, e realmente fazer a música que amo.”

Faixa que agradou Cattaneo, “Crystal” ficou por 30 dias no Top 100 de progressive house do Beatport; ZAC a considera um divisor de águas na sua carreira

Thiago cria suas produções buscando incorporar elementos bem brasileiros — algo que era raro no cenário nacional, mas que vem crescendo. O produtor admite que carrega, de fato, uma forte veia progressiva, mas não gosta de se limitar a essa vertente. “Minhas faixas são carregadas de melodias progressivas, que é o estilo que mais me inspira. Ao mesmo tempo, elas têm percussões e baterias dos ritmos brasileiros. O samba, a rancheira, o maxixe, o maracatu, o candomblé, o calango e outras mais. Gosto de tudo que traz sensualidade”, continua.

O rapaz também acredita que parte do seu segredo está em justamente não pensar em fazer sucesso, além da experiência de anos como clubber. “O ZAC nada mais é que a verdade sobre mim mesmo — a mistura de todas as influências que recebi ao longo da minha vida musical. Eu faço som pra tocar. Não tô preocupado se algum selo vai lançar, se tá agradando os outros DJs… Eu quero agradar a mim mesmo. Sou um cara que veio da pista, e quando vou nas festas eu fico dançando e admirando o trabalho do DJ. São muitos anos discotecando, e essa leitura de pista ajuda muito na hora do show.”

Hernán Cattáneo tocando “Crystal” no Warung

Com muita dedicação, foco e originalidade, ZAC vai colhendo frutos expressivos em pouco tempo de atividade. Além de acumular sets em rádios internacionais, como BBC Radio 1, Beat FM e Progressive Beats, o cara já fez passou pelo crivo de alguns dos maiores peixes do cenário. No Warung Beach Club, ninguém menos que Hernán Cattáneo tocou sua música “Crystal”, com Gabriel Carminatti, além de tê-lo incluído três vezes no seu podcast no Resident Advisor.

O DJ acredita que foi o suporte de Hernán que fez com que ele passasse a atrair mais olhares e ser mais conhecido. “Foram quatro suportes seguidos em quatro meses, sendo que quando ele tocou a ‘Crystal’ no Warung, o clube simplesmente veio abaixo”, segue. Outro big name que o deu muita força é o alemão D-Nox, que já chegou a convidá-lo para um B2B surpresa.“Ganhei a admiração do D-Nox tocando em uma festa em Lages, fazendo warmup. Ele ficou vendo e disse que eu tocava boa música. Ele é uma lenda, eu tremia e fiquei muito nervoso para tocar junto com ele, mas no final deu tudo certo.” 

Trechinho do B2B com o D-Nox

De acordo com relatos de amigos, Marco Carola também tem tocado algumas de suas faixas. Mas mesmo com tudo isso, Zacchi destaca que o mais importante é sua relação com o público. “Principal para mim é ter saído de uma condição de um DJ de festas privadas, chegar ao Inside do Warung, tocando numa noite de Carnaval, com um lineup recheado de gringos, e escutar as pessoas dizendo que estavam ali pra me assistir, que viajaram quilômetros de distância pra ouvir meu set… Esse é o maior feito da minha carreira: conquistar fãs.”

Mas como um artista ainda no começo da sua carreira consegue atrair atenção dos gigantes? Segundo ZAC, a resposta está na persistência: “Eu realmente mandei as faixas para esses artistas, depois de conhecê-los pessoalmente. Para outros, mando sons por e-mail, Facebook, Instagram… Sou insistente, brasileiro, não desisto nunca”, brinca. Esse sucesso, entretanto, tem o seu preço. “Eu praticamente não tenho nenhum dia de folga. Segunda-feira, que é pra ser o day-off do DJ, pra mim não existe. Eu gosto de acordar, fazer um café e revisar as músicas que toquei no final de semana, e fazer alguns ajustes que julgo necessário”, disse ele, que ao lado de sua agência 4 Fly, também participa de sua rotina de agenda e administração da carreira.

Microdocumentário sobre sua gig no Carnaval do Warung

Assim, Zacchi vai acumulando performances em pistas expressivas pelo Brasil e a América Latina. Além do Warung, já tocou em clubes e festivais de peso como TribalTech, Creamfields, Colours, Levels, Beehive, Cultive, D-EDGE e Lotus (em Montevideo, no Uruguai). No caminho certo e com todos esses anos de experiência e visão privilegiada no mercado, o músico confia no seu taco, e garante que tem alma internacional.

“O futuro do ZAC acredito que está a caminho. Eu tenho muita música que está explodindo na pista e nem foi lançada ainda. Cada dia que passa fico mais otimista, porque o envolvimento dos fãs tem sido incrível. São pessoas de todo o Brasil e o mundo me chamando, dizendo palavras de motivação e me colocando pra cima. Fico feliz porque eu tô fazendo a música que amo, sem rótulos, sem preconceito. Quando vou tocar, me sinto a melhor pessoa do mundo — a troca de energia com a galera tem sido o combustível para tudo!”

Nayara Storquio é colaboradora da Phouse.

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