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“Sem solidez, sem profundidade, não há futuro”; uma entrevista com o lendário DJ Meme

Flávio Lerner

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Flávio Lerner bate um papo maroto com o “pai da house music brasileira”, o impagável DJ Meme

Falar sobre Marcello Mansur, o DJ Meme [pronuncia-se Memê], em poucos caracteres é das tarefas mais difíceis. O DJ e produtor musical — produtor mesmo, no sentido de dirigir outros artistas, não apenas como produtor de dance music — tem uma das histórias mais ricas e é um dos caras mais pioneiros da nossa cultura de pista brasileira, sendo considerado o DJ brasileiro mais famoso no exterior. Já se apresentou nos quatro cantos do mundo, foi um dos precursores da house music e da remixagem no Brasil, trabalhou em rádio, discoteca desde os 11 anos em bailinhos do Rio de Janeiro, fez parceria profissional e amizade com gente do calibre de Frankie Knuckles, David Morales, Dimitri From Paris, Gilberto Gil, Lulu Santos [uma de suas mais notáveis parcerias] e Roberto Carlos [o cantor, não o lateral esquerdo] e foi considerado responsável pela explosão internacional da Shakira, graças a seu remix para Estoy Aqui.

Mas não é apenas o passado glorioso que o diferencia; Meme é um dos raros artistas veteranos que está sempre em busca da renovação, trabalhando para manter-se contemporâneo. Mais recentemente, lançou seu primeiro selo, a Memix Recordings, que está usando, em um primeiro momento, para soltar tracks suas sobre diferentes pseudônimos — assinou como Mansur em Sun of a Gun, o primeiro release da label, que lançará no dia 23 Disco Knights, desta vez como Meme.

Com uma história tão rica, é natural que a conversa com ele fosse render — e como rendeu! O papo que você lê abaixo é uma das maiores entrevistas já feitas para a Phouse, mas não se intimide com o tamanho, pois, garanto, cada palavra vale a pena. E isso que esta não é toda a conversa! Há ainda toda uma outra parte da minha prosa com o Meme — que, enquanto publicamos esta matéria, está em Amsterdã, comandando dois workshops dentro do ADE — na qual focamos mais no seu passado, que sairá em breve no LOFT55.

https://soundcloud.com/dj-meme/dj-meme-friends-rock-in-rio

O set mais recente de Meme é de sua gig no RiR, com Kerri Chandler, Barbara Tucker e DJ Q

Oi Meme, como vai? Você segue dormindo todos os dias depois das 06h? Eu, com 25 anos, já não consigo mais fazer isso, fico imprestável no dia seguinte.

Comecei essa vida noturna aos 15 anos. Nunca mais parei. Meu metabolismo nasceu para a noite e eu nem discuto mais. Meus horários são outros.

E como anda a rotina em estúdio? Quando vamos ter aquele segundo lançamento da Memix Recordings? Você assina dessa vez como Meme, não é mesmo?

Sim. Depois que criei o selo parece que tirei uma rolha da criatividade que nem eu mesmo sabia que existia. Fiz três músicas inteiras em uma semana. O próximo lançamento já esta na agulha para este mês. Chama-se DJ Meme – Disco Knights.

O que define um lançamento como Meme de um como Mansur ou outro pseudônimo seu?

A diferença na linha musical. Sou da house desde que ela surgiu, como todos sabem, mas da mesma forma que gosto de jazz, gosto também de bossa nova, drum’n’bass e techno. Dou-me ao direito de explorar e arriscar o que eu quiser dentro de qualquer coisa que me agrade, mas percebi com a minha experiência que o público e a crítica tendem a botar uma etiqueta em você, relacionando-o com este ou aquele estilo musical. Alguns artistas que não conseguem lidar com isso morrem no meio do caminho quando tentam mudar, pois ninguém os aceita, entende? Se você marcou sua carreira com um tipo de sonoridade especifica, a expectativa dos outros sobre o seu trabalho é sempre fechada naquele gênero, e mesmo se a música for ótima, mas não estiver dentro do que esperam de você, a tendência geral é estranhar e repelir.

A experiência lançando uma música como Mansur foi excelente. Cheguei ao 1º lugar em vendas no Traxsource, o maior site de venda de house music no mundo. Mesmo não sendo tão distante do que eu faço, havia diferenças sutis entre Mansur e DJ Meme, e quem nunca ouviu falar de mim saiu aplaudindo Mansur como um artista novo. Meu foco é a música e não o meu nome.

Com samples da clássica Pump of the Jam, Sun of a Gun é o primeiro release da Memix

Cara, o que você acredita que lhe tornou um DJ e produtor musical tão consagrado? Isto é, sem contar a parte do amor pela música, porque isso uma cambada de gente também tem e não faz um trigésimo do seu sucesso…

Primeiro, muito trabalho. Minha energia para a musica despertou aos 11 anos de idade, quando descobri que eu podia controlá-la de alguma forma e usá-la para mudar as coisas à minha volta. Desde então meu entusiasmo é o mesmo. Não houve nenhuma razão ou frustração para me tirar do caminho.

Em segundo lugar, acho que a quantidade de oportunidades que eu tive me deu uma experiência que nenhum DJ no Brasil ainda alcançou: comecei na década de 70 tocando disco underground; parti para a house quando ainda era underground e nem as rádios tocavam; fiz bailes de subúrbio nos anos 80, quando o funk eletrônico ainda nem existia. Depois veio a etapa “adulta”, quando entrei para rádios enquanto ao mesmo tempo ainda segurava pistas.

Aprendi sobre música pop e simultaneamente tive programas de rádio de vanguarda que tocavam o que nenhum outro programa tocava, mostrando a house music via satélite para todo o Brasil. Depois, por conta da soma do meu aprendizado em rádios com pistas, acabei ganhando a oportunidade de ser um dos pioneiros do remix no Brasil. Eu e mais quatro pessoas abrimos as portas dessa arte para todos, antes mesmo de existir o termo “DJ/Produtor”, e justamente por ser remixer na década de 80 e aprender sobre estúdios antes de todos, o som que eu fazia nos remixes encantou artistas e gravadoras, que me chamaram para produzir discos a partir do zero. Dei a sorte de ter discos que venderam milhões e aprender mais ainda com gente grande dentro de estúdio. Quando “estou” produtor de música brasileira, vou de A à Z. De Gil a Roberto Carlos. De Shakira a Lulu Santos. De Gabriel o Pensador à Paula Lima.

Enquanto nascia a cena eletrônica brasileira na década de 90, lá estava eu ajudando a construí-la. Criei junto com Iraí Campos o primeiro curso para DJs do Brasil; participei dos primeiros Skol Beats; fui do casting da nossa primeira agência de DJs, a Hypno. No início do ano 2000, com o surgimento da internet, conectei-me às gravadoras do exterior e comecei a fazer remixes e lançar músicas fora do Brasil por selos que eu mesmo idolatrava, como a Defected e a Soulfuric, e virei o jogo sendo artista deles, também colocando uma música em 2º lugar na DJ MAG Hype Charts, a parada mais importante naquele momento em 2004. Esse acontecimento gerou um interesse mundial da cena house pelo meu nome, e caí na estrada iniciando idas e vindas para tocar em outros países que queriam ouvir o som daquele cara que fez aquela track que deu certo. Hoje vou da Colômbia à Coreia, de Nova Iorque a Bali, e volto para tocar em Maringá no fim de semana seguinte.

Todo esse aprendizado é único e certamente me deu uma bagagem que não se compra e não se aprende em cursos, e pode ter certeza de que eu a uso muito bem.  Fatidicamente isso me coloca com certa vantagem em relação à “cambada de gente” que você citou, até porque algumas dessas oportunidades jamais existirão de novo, pois o mundo mudou e as experiências hoje são mais fugazes e menores. É a ordem do século 21.

Pegue isso tudo e faça uma limonada. Eis a resposta à sua pergunta!

dj meme

Assim como nomes como Mau Mau, Magal e Marky, você leva muita fama e reconhecimento por ser um dos pioneiros da dance culture no Brasil. Atualmente, a maioria esmagadora dos DJs consolida suas carreiras pela produção musical. Não parece que um DJ, para fazer sucesso, sempre precisa se destacar em algo além dos seus DJ sets?

Bem, que um DJ precisa ter um hit próprio para se destacar, isso todo mundo já sabe. É um caminho sem volta e não adianta espernear, mas concordo com você que é triste ver que quanto mais importantes ficaram os DJs, menos importante ficou a música. Isso é de doer.

Hoje, os DJs estão mais preocupados com seus aftermovies do que com seus sets. O que ainda não perceberam é que já chegamos num ponto em que todos os aftermovies estão iguais, com a mesma fórmula. É o momento EDM do aftermovie. Cada vez que eu faço um, fico me perguntando se deveria ter feito mesmo, mas faz parte. Não sou eu que dito regras, mas procuro segui-las de maneira bem diferente. O meu destaque estará aí. Não sou de obedecer a regras quando tratamos de arte.

De quando você começou a tocar aos dias de hoje; o que melhorou e o que piorou na cena DJ mundial e na brasileira?

Olha, não sou saudosista. Não sou de discutir se “DJ de verdade toca vinil” ou se “a cena está cheia de coxinhas”, mas acho que a tecnologia é o ponto alto da discussão, pois suas vantagens são benéficas e maléficas ao mesmo tempo. Ela permitiu que eu melhorasse muito a minha técnica e facilitou para que eu tivesse mais rapidez e maior acesso a músicas que antes não eram possíveis de conseguir. Isso mudou a minha vida e me deu um supergás para tocar, mas essa vantagem em mãos erradas pode causar desastres. Pense que um dia o preço de uma Ferrari vai ser igual ao de um Corsa e que todos poderão tê-la em suas garagens. Certamente os bons motoristas vão ficar melhores, mas os ruins vão bater no primeiro poste porque vão achar que já são fodas. É o que vem acontecendo.

No momento em que as facilidades aparecem, o cara que antes não virava DJ por nunca conseguir juntar uma batida com outra compra um laptop vagabundo, bota um programa que junta os beats, leva 30 músicas de sucesso para duas horas de set e sobe ao pódio como se fosse o Tiesto — e como esses caras são muitos e em maior número, tal fato acaba por gerar uma imagem pública errada do DJ. No momento em que um palhaço que não sabe tocar tem a brilhante ideia de comer alguém famoso e subir na mesa pra rebolar e levantar os braços — e todos como ele vêm atrás —, o público começa a cobrar a mesma coisa dos bons DJs, e aí o establishment muda. O foco muda. Outro dia fui cobrado por uma menina por estar “desanimado” na cabine, somente porque eu não estava bebendo champanhe no gargalo ou levantando o braço junto com a música. Vai pá porra, né?

Uma pequena seleção entre os mais de 150 remixes já produzidos pelo DJ

Fala-se muito também sobre esse lance de música comercial e EDM… Vendo de fora, a gente tem a impressão que você respeita, mas não gosta dessa esfera mais farofeira da música. Ao mesmo tempo, como você mesmo diz, aprendeu com a rádio a formatação da música pop. Como se dá pra você esse equilíbrio entre música enquanto arte e enquanto produto?

Acredito no equilíbrio. Essa é a chave para diversas culturas e métodos coexistirem. Eu procuro usar no meu trabalho medidas diferentes para objetivos diferentes de tudo o que eu aprendi. Se fui comissionado por alguém para fazer um remix para rádios, vou usar uma porção pop um pouco maior. Caso esse remix seja para pista, uso outros ingredientes. Caso seja algo para o exterior, também já peso tudo em outra balança. Nesse momento é que vale a experiência e o bom uso dela, mas claro, isso não quer dizer que eu acerte sempre, né?  Ninguém tem a fórmula.

Você vê muita gente de sucesso pensando mais no dinheiro do que na arte?

Ô! Mas isso não é exclusivo da nossa cultura clubber, né? O dinheiro move o mundo e também empurra a arte. Ainda bem que nem todo mundo pensa somente no dinheiro. Os que mudam o mundo são chamados de loucos antes de serem chamados de gênios. Sorte é ver que muitos desses loucos continuam mantendo suas visões artísticas depois que ganham dinheiro.

Na fanpage da Phouse, li esses tempos um comentário certeiro, que me marcou: “brasileiro tem que começar a apreciar melodia, não só grave depressivo e sombrio”. Como apreciador nato de melodia, você concorda que, estranhamente, ela está em baixa na nossa cultura clubber?

Neste momento acho justamente o oposto. Vejo as melodias voltando. Vejo cada vez mais músicas cantadas e o povo levando isso pra casa. Antes, você saía de um club e não conseguia lembrar porra nenhuma do que havia tocado. Era uma briga por quem vestia mais roupa preta — que eu amo — ou tocava mais estranho. Hoje vejo tudo voltando às melodias. Até o house mais cabeçudo esta trazendo isso de volta. Sempre tem uma melodiazinha “pra você e eu e todo mundo cantá juntoooo”.

De 2005, Chanson Du Soleil (Sun is Coming Out) é um dos maiores hits do DJ Meme

Li no blog do amigo Carlinhos Kunde que você tava curtindo muito o Claes Rosen, e fiquei felizaço porque eu também gosto bastante — já cansei de tocar Tortuga por aí… Que mais você tem curtido de bom?

Incrivelmente no momento ando tocando e aplaudindo nossos conterrâneos que estão arrasando e fazendo bonito — alguns nas pistas daqui e outros já chegaram lá fora. Chemical Surf, Dakar Carvalho, Keskem e o casal Nana Torres e Glen fazem a minha cabeça agora.

Ficou famoso o episódio em que você “defendeu o Alok”, chamando-o até de herói nacional. Tem essa safra da nova geração que vem bombando por aí — Alok, Fabo, HNQO, Vintage Culture —, mas também parecem ser sempre os mesmos nomes e o mesmo tipo de som. Como você enxerga isso?

Defendi o Alok não pelo som dele, até porque eu não conheço a música que ele faz, mas porque como todos no País eu me senti atingido por aquele babaca do Amine Edge e, além disso, naquele exato momento o Alok representava um ponto de referência na nossa cena local que precisa sim de heróis nacionais para dividir a babação pelos gringos.

Quando eu recebi o prêmio RMC Personalidade Do Ano, em 2011, eu fiz meu discurso de agradecimento aproveitando que todos os donos de club estavam ali. Alertei a todos para que começassem a aumentar os nomes dos nossos DJs no flyer e valorizassem um pouco mais o que temos aqui, pois no dia em que alguma coisa impedi-los de trazer os gringos, o público não teria conhecimento dos nossos próprios DJs, que estão sempre com nomes menores. Não deu outra. O dólar tratou de fazer isso agora.

Quanto ao produto brasileiro, como eu já disse, bato palmas para quem é de verdade. Aos que ao invés de gerar música preferem focar mais no corte da barba, nas fotos e nos aftermovies, eu infelizmente prevejo dificuldades pela frente. O público que ama isso não é fiel, e muda instantaneamente para o outro lado da rua quando algo novo aparece. Sem solidez, sem profundidade, não há futuro. Só existe um ingrediente que faz um artista cair, levantar e subir de novo. Chama-se talento… E pra isso, não há plugin.

Pra finalizar, o que podemos esperar do Meme para o final deste ano e para 2016?

Que eu consiga dormir um pouquinho mais [risos].

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Opinião

Nos passos de Boratto? Remix de Cattaneo indica que BLANCAh pode explodir globalmente

Jonas Fachi

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BLANCAh Hernan Cattaneo
O remix do maestro argentino com o israelense Audio Junkies chega em fevereiro, em coletânea do sexto aniversário do selo de BLANCAh
* Com a colaboração de Flávio Lerner

Em 2006, Hernan Cattaneo vivia o auge de sua carreira em meio à apresentação de um dos discos mais aguardados daquele ano. Intitulado Sequential pela consagrada gravadora Renaissance, o CD continha faixas de artistas como Bushwacka, 16 Bit Lolitas e Way Out West. Entretanto, após o lançamento, outro nome acabou chamando atenção de todos. Com uma irreverente e distinta forma de arranjar elementos somados a timbres ainda não vistos na cena, sua faixa “Arquipélago” foi colocada de cara na abertura da compilação.

Era o tipo sonoro que colocaria todo o resto da construção musical sob ligação. Tratava-se do primeiro single do ainda desconhecido produtor brasileiro que mais tarde se transformaria em um dos mais respeitados do mundo. Gui Boratto teve um dos primeiros reconhecimentos através de um artista do primeiro escalão, pelos ouvidos afiados do DJ argentino. Fazer parte da compilação automaticamente colocou Gui diante de um público super atento e colecionador, um primeiro passo fundamental em sua carreira.

Doze anos depois, Cattaneo continua sua jornada artística única, porém agora carregando a frente de seu nome o titulo de “Maestro” das pistas de dança de todo mundo. Uma vez mais, parece que o ícone sul-americano tem seus ouvidos voltados para um artista brasileiro que vem despontando internacionalmente — não apenas apoiando suas produções, mas agora também estabelecendo uma parceria de estúdio que poucas vezes abriu em 30 anos de carreira.

Imagem do DJ argentino em seu estúdio em Buenos Aires cercado por sua coleção de discos (Foto: LA NACION/Juan Pablo Soler)

Ontem, a catarinense BLANCAh fez o anúncio oficial de que Hernan — em conjunto do talentosíssimo produtor israelense Audio Junkies — tinha remixado “Talus”, faixa que fez parte de seu aclamado EP Osso, lançado em agosto de 2017. Em postagem no Facebook, a artista escreveu:

“A alguns meses atrás convidei Hernan Cattaneo para remixar uma música minha e pra minha alegria ele aceitou no ato.
Depois de algumas sessões de estúdio com seu parceiro de produção Audio Junkies os dois me entregaram esse remix lindo da minha música ‘Talus’. Acho que eu nunca encontrarei as palavras certas que definam este exato momento da minha carreira, a felicidade que sinto por ter o suporte de um artista como Hernan, e muito menos o que senti ao ver o Mestre tocando o remix que ele fez pra mim no Templo Warung Beach Club.
Muchas gracias desde el fondo de mi corazón Hernan Cattaneo, Thank you so much Audio Junkies”.

+ Hernan Cattaneo faz história com o primeiro “All Night Long” do Warung

“Talus” irá ser lançada apenas em vinil, o que coloca ainda mais profundidade ao novo EP pela gravadora que BLANCAh tem como sua casa, a Steyoyoke. O disco — que chega no dia 15 de fevereiro — se trata da sexta compilação anual de aniversário do selo, que traz remixes inéditos de faixas lançadas pelos seus artistas durante a temporada. Além da música da brasileira com remix de Hernan e Audio Junkies, compõem o EP outros três trabalhos que foram destaque em 2017, também recebendo novas interpretações: “Overflow”, de Nick Devon, em remix de Simon Doty e Nairo; “Paramour”, do Soul Button, com remix de Martin Roth; e “Syndicate”, de Clawz Sg e Nick Devon, remixado por Township Rebellion (você pode ouvir uma prévia de cada música aqui).

“Recebi a incumbência de encontrar alguém pra remixar uma música minha pra esse projeto [compilação da Steyoyoke]. E aí por acaso eu tava na Argentina e num primeiro momento pensei em fazer uma conexão com artistas brasileiros, pra ver se alguém se interessava em fazer um remix. Contatei alguns, que não se interessaram em fazer parte do projeto, e aí eu pensei: quer saber? Vou sonhar um pouco mais alto. Vai que o Hernan aceita, já que ele andou dando suporte pra algumas das minhas músicas e já tinha declarado abertamente que era meu fã”, contou a artista, agora em contato com a Phouse. “Criei coragem, fui pro tudo ou nada — porque o ‘não’ eu já tinha — e mandei um e-mail pra ele, explicando a proposta. Em menos de 24 horas ele respondeu dizendo que seria um prazer. Eu fiquei mega feliz, quase morri, pensei que ele nem ia responder [risos]!”

Hernan Cattaneo tocando o remix de “Talus” no Warung

Alcançar a importância global que Gui conseguiu desde “Arquipélago” é algo difícil de fazer, porém, com a benção de um dos maiores DJs de todos os tempos e a atenção da enorme quantidade de fãs que o seguem ao redor do planeta, BLANCAh pode estar dando mais um grande passo em sua carreira para se tornar um artista global. E mais: em um nível talvez até mais importante do que participar de uma das famosas compilações do Maestro, afinal, poucos produtores até hoje tiveram uma faixa remixada por Hernan. No Brasil, é algo inédito.

A artista tem muito a comemorar, pois seu “voo” está cada vez mais supremo. Até onde ela vai chegar? Talvez o particular interesse de Hernan por seu trabalho diga algo sobre. Assim como com o Gui em 2006, o argentino percebeu que se trata de uma identidade musical nova, própria e sem seguir tendências — premissas básicas que ele carrega consigo.

+ BLANCAh disseca ave e perde quilos para seu novo EP; escute “Osso”

Vale lembrar — como já publicado na Phouse —  que a Steyoyoke está em tour inédita pelo Brasil nesses dias. Depois de passar pelo Terraza Floripa no último final de semana, o showcase da gravadora alemã chega nesta sexta ao D-EDGE, e encerra no sábado no clube Chakra, em São Bento, Santa Catarina. No mesmo dia, o Maestro, que cumpre tour pela América do Sul, também estará no Brasil, estreando no Laroc Club. A promessa é de longset.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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Opinião

20 artistas do mainstream nacional para ficar de olho em 2018

Luckas Wagg

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20 artistas 2018
Liu é uma das nossas grandes apostas para 2018. (Foto: Yohan Augusto)
Uma seleção de nomes que têm tudo pra explodir no cenário eletrônico brasileiro nesta temporada

O ano está apenas começando, mas já dá pra trazer aqueles listões que todo mundo curte. Então selecionamos aqui 20 artistas da cena mais mainstream da música eletrônica que valem ficar de olho pra esta temporada.

São nomes que não necessariamente estão começando ou são promessas; parte deles inclusive teve um 2017 já de bastante destaque. Porém, são DJs em quem acreditamos que, justamente por já terem revelado bastante potencial em uma amostra recente, têm uma margem de crescimento bem alta a curto prazo, e devem vir agora com tudo pra emplacar definitivamente no cenário nacional.

Longe de ser qualquer tipo de ranking, a seleção abaixo é apenas um acervo de alguns dos muitos artistas que entendemos que chamaram a atenção pela sua música ou apresentação em eventos que marcamos presença em 2017.

Liu

20 artistas 2018

Longe de ser mais uma promessa, Cristian Liu já pode — e deve — ser considerado como uma das novas e grandes estrelas da dance music nacional. Apadrinhado por ninguém menos que Alok, o DJ/produtor de traços asiáticos ficou conhecido por sua track “Don’t Look Back”, e desde então vem fazendo shows pelos quatro cantos do país. Seu lançamento mais recente é “Coastline”, em parceria com o garoto prodígio WOAK. A faixa já atingiu mais de 3 milhões de streams entre Spotify e YouTube.

Kiko Franco

Com remixes oficiais para grandes artistas como ZHU e J Balvin, Kiko Franco ganhou notoriedade no mercado nacional e a cada dia vem surpreendendo mais e mais. Em 2016, o DJ ficou conhecido pelo seu remix com Kubski para “Panda”, do rapper americano Desiigner. A faixa caiu no gosto de gigantes do cenário, como EDX, Vintage Culture e muitos outros. Seu lançamento mais recente é um remix para a faixa do 1Kilo, “Deixe-Me Ir”, em parceria com WOAK.

SELVA

Com certeza você já ouviu alguma músicas desses caras. Só para refrescar sua memória, eles são autores dos sucessos “Why Don’t U Love” — em parceria com Vintage Culture e Lazy Bear — e “Make Me Wanna”, com Zerky. Além de DJs e produtores, Pelu e Brian Cohen também são instrumentistas, e têm como destaque em suas performances um live de bateria e guitarra. O mais recente lançamento da dupla é “O Amor Existe”.

Öwnboss

Formado por Mario Camargo e Eduardo Zaniolo, o projeto Öwnboss vem ganhando notoriedade no cenário da música eletrônica desde os seus primeiros lançamentos — “Stressed Out” e “Take Me Out”, com Bruno Be. Em 2017, o grande destaque da dupla foi um rework para a faixa “Intro”, de The xx, com ninguém menos que Vintage Culture.

Future Class

Autores de diversas tracks que hoje compõem sets dos principais artistas do cenário nacional, Igor Dantas e Allan Deckii vêm chamando a nossa atenção há muito tempo. Com um 2017 super agitado, os garotos se apresentaram nos principais clubs e festivais do país, como Kaballah, Lollapalooza, Só Track Boa, Green Valley e Laroc. O lançamento mais recente da dupla é “Shooting Stars”, com Vintage Culture.

RADIØMATIK

O projeto de música eletrônica que marca a união do DJ/produtor Diego Moura com o músico Mario Veloso é a mais nova bola da vez. Com pouco tempo de formação, o RADIØMATIK já lançou duas faixas e tem agenda cheia pelos quatro cantos do Brasil. Seu mais recente lançamento é “Too Close”, que ganhou destaque na playlist MINT, do Spotify.

Dubdogz

Os irmão gêmeos Marcos e Lucas Schmidt, que juntos formam o projeto Dubdogz, sem dúvidas não poderiam ficar de fora desta lista. Os paulistas foram grande destaque em festivais como Tomorrowland, XXXPERIENCE e Electric Zoo Brasil — para o qual, inclusive, compuseram o tema oficial de sua última edição, “Sunrise”.

KVSH

Autor do grande sucesso do verão “Sede Pra Te Ver”, KVSH também é presença obrigatória por aqui. Produtor de mão cheia, Luciano Ferreira tem conquistado o público dos quatro cantos do país. Seu lançamento mais recente é “Eu Não Valho Nada”, com a DJ Samhara.

Evokings

Frutos da escola de produção Make Music Now, os meninos do Evokings são mais do que uma promessa. Em 2017 emplacaram o hit “Gravity” com Cat Dealers, e em seguida “My Way”, que já conta com mais de um milhão de reproduções no Spotify.

Breaking Beattz

Formado por Lauro Viotti e Rafael Zocrato, o duo Breaking Beattz despontou no Beatport em 2017 com uma de suas tracks entre as mais vendidas do ano. A dupla é dona de diversas faixas que invadiram as pistas dos principais clubs e festivais do Brasil no último ano. Entre elas, “Perfect Exceeder”, com Gabriel Boni, “Let The Bass Go”, com FractaLL, e “Get Low”, com Sharam Jey e Chemical Surf; com o duo brasileiro, também tiveram seu mais recente som, “Don’t Stop”.

RICCI

Um nome que dispensa comentários, Gabriel Ricci é uma das nossas grandes apostas para este ano.
Dificilmente você não ouviu diversas músicas desse jovem hitmaker em 2017, que assinou música inclusive pelo selo de Steve Aoki. Entre seus maiores sucessos estão “Lost Generation” e “Later”, além de “Wild Kidz”, com Vintage Culture. Mais recentemente, participou de uma mistura inusitada com o duo Seakret e o rapper Rael, em “Tá Pra Nascer Quem Não Gosta”.

WOAK

De identidade ainda não revelada, WOAK tem apenas 16 anos e já está dando muito o que falar. Só no Spotify o jovem garoto acumula quase um milhão de ouvintes mensais. Entre seus lançamentos, podemos destacar “Coastline”, com Liu, e “Deixe-Me Ir”, com Kiko Franco.

Zebu

De uma maneira bem interessante, Zebu mistura em suas produções  o future bass com sertanejo, samba, funk e outros gêneros nacionais. Sem dúvidas, um dos artistas mais ousados que conhecemos no último ano.

rrotik

Com lançamento por importantes gravadoras como Armada Music, rrotik não poderia ficar de fora da nossa lista. O jovem mineiro tem ganhado a nossa atenção com seus lançamentos de low bass, como “MYNE” e “Talking Bass”.

Joe Kinni

Autor do grande hit “Carioca”, com Jakko e Bianca Chami, Joe Kinni continua mostrando seu lado versátil na produção musical. Em 2017, o artista lançou diversas faixas com pés dentro e fora da música eletrônica. Seu lançamentos mais recentes são “Moça” e “Mensagem de Amor”. Pra quem curte essa nova onda do eletrônico com vocais nacionais, vale muito a pena seguir esse cara.

JØRD

Não foi a toa que o famoso “Jordinha” conquistou uma legião de fãs pelo Brasil. Apadrinhado por ninguém menos que o mestre Felippe Senne, o jovem de Belém do Pará tem sido uma das grandes referências para a nova geração de produtores. Sem muitos comentários, tirem a própria conclusão com aquele “bass” inconfundível do garoto:

Santti

Autor do hit “Sober”, com Cat Dealers, Santti é mais um nome em nossa lista que dispensa comentários. O garoto tem demonstrado ser um grande hitmaker e está entre as nossas descobertas favoritas de 2017. Seu lançamentos mais recentes são “Sunshine”, com Cat Dealers e LOthief, e “Céu Azul”, com Vintage Culture.

LOthief

Produtor de mão cheia, Leandro Souza é outro grande destaque do Low Bass que não poderia faltar nesta lista. Sob o nome de LOthief, o jovem produtor mineiro de 23 anos vem chamando a atenção com suas produções e conquistando diversos fãs Brasil afora. Seu lançamento mais recente é “Sunshine”, com Cat Dealers e Santti.

LIVIT

LIVIT set comemorativo

Coautores do hit “On Fire”, lançado pela Phouse Tracks — e que já conta com mais de um milhão e meio de reproduções no Spotify —, o LIVIT vem sendo destaque em diversas playlists no Spotify. O lançamento mais recente da dupla é “Give Me All You Got”, pela Sony Music.

The Fish House

Uma das melhores surpresas de 2017 foi o hit “Menina”, de Rafa Gontijo com seu primo Breno. Lançada pela Deepink, a música chegou a ser uma das mais tocadas em Minas Gerais. Outro grande lançamento de destaque do projeto de Gotijo foi “Hey Hey Hey”, com Doozie. A faixa foi tocada em diversos festivais por expoentes como Alok.

BÔNUS: SCORSI

Por último, mas não menos importante: SCORSI. Somos suspeitos a falar deste cara (ele é um dos nossos A&R na Phouse Tracks). Porém, fica a dica: FIQUEM BEM DE OLHO!

Luckas Wagg é CEO da Phouse.

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Review

Hernan Cattaneo faz história com o primeiro “All Night Long” do Warung

Jonas Fachi

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Hernan Cattaneo All Night Long
Em seu tradicional set de fim de ano, El Maestro rompeu novas barreiras e se tornou o primeiro artista dos 15 anos de Warung a tocar pela noite inteira
* Fotos por Gustavo Remor e Ebraim Martini
* Vídeos por Fernando Hauenstein e Sebastian Tallon

Não existe data mais simbólica do que o dia 28 de dezembro no Warung Beach Club. O dia é reservado e sinônimo do desembarque de Hernan Cattaneo à Praia Brava. É fácil entender o porquê. Devido a sua consistência ao longo dos anos, o maestro argentino se tornou um embaixador da música que ajudou a criar. Aqui, sua ligação se fez por sua “experiência musical” se tratar de nada menos do que a identidade sonora que mais se enquadra com as expectativas do club, se tornando assim uma noite imprescindível para qualquer um que esteja em busca da famosa “mágica do Templo”.

O final de ano é estratégico porque consegue reunir elementos importantes: primeiro pelo verão no Hemisfério Sul ser uma das marcas do beach club. Segundo, pela quantidade de argentinos que estão de férias no litoral catarinense, somando-se aos fãs brasileiros que moram longe e que podem estar presentes. Para finalizar, turistas e público novo buscando conhecimento. Tudo isso forma uma das pistas mais divertidas e democráticas do ano na casa.

Após se apresentar no feriado de Independência do Brasil — data que tem se tornado sua referência também —, Hernan retornava sob expectativas que nunca diminuem. Neste review, como sempre, tentarei desvendar as ideias musicais e sua construção de set a fim de que todos possam ao mesmo tempo relembrar momentos marcantes, mas também entender a proposta musical para a noite. Ainda, buscarei mostrar a importância que ambos, artista e club, têm um para o outro. Veremos que é algo único.

O maior destaque dos meses pré-evento foi o pedido exclusivo de Cattaneo para ter a noite só para si, desde a abertura até o final. Todos sabem que a forma como conduz a pista de dança por longas horas é uma de suas marcas registradas, e ele estaria vindo do embalo de um back to back de espantosas 20 horas com Guy J no Canadá, em um club que mencionarei mais à frente.

Hernan Cattaneo All Night Long

Seu longset no Warung é considerado um clássico, porém para que tantas horas de música sejam bem-sucedidas, deve-se passar fundamentalmente por quão ambientado está o público antes de o artista principal iniciar. Hernan sabe tão bem disso que ele mesmo se propôs ao warmup dessa noite.

Tocar nesse ritmo de abertura é algo que ele adora, e fazia esse modelo de apresentação no início da carreira, quando a música eletrônica mal existia na América do Sul. Ao longo dos anos o Warung proporcionou ótimas aberturas a ele; nomes como Daniel Kuhnen, Leozinho e Danee são constantemente elogiados. Porém, Catta busca sempre ir além, se dispondo a fazer o que ninguém faria, e isso tem um motivo que entenderemos adiante.

Hernan Cattaneo All Night Long

Acertadamente, o club previu a abertura dos portões para as 21h, podendo assim deixar os mais interessados chegarem, se ambientarem e esperá-lo da melhor forma possível. Entretanto, o protocolo imaginado foi quebrado por volta das 21h25, quando ao chegar no club e ver que já havia pessoas a sua espera (cerca de 30), Hernan não hesitou e resolveu antecipar os trabalhos, sendo a primeira boa surpresa da noite.

O sistema de som ainda era tímido; ele propôs uma levada de deep house dançante com BPM bem baixo. Foi recebendo o público aos poucos, como se estivesse tocando na sala de casa. Que honra! Nesse começo, é impossível não destacar duas musicas de duas bandas eletrônicas icônicas. A primeira é “Damage Done” de Moderat, em um remix que não consegui descobrir, mas que seria algo aproximado com o do produtor Silinder. A segunda é nada menos que “Dream On”, do Depeche Mode — daquelas que você lembra pelo vocal inconfundível, em mais um remix não identificado. A partir das 23h, o sistema de som ganha seu devido ganho, e a pista que já estava cheia reage com a primeira euforia da noite. Agora era pra valer! Tocar desde o início é uma atitude que o público do Warung jamais esquecerá por duas razões: era algo que nunca havia ocorrido com um artista em 15 anos, e porque ficou evidente que o título de melhor warmup para o maestro já feito no club só poderia ser dele mesmo.

Hernan Cattaneo All Night Long

Se você está se perguntando se existe um motivo maior para esse pedido e desejo em abrir a própria noite, está correto. Vamos a ele. Existem certos clubs e eventos especiais na extensa carreira do argentino, alguns já extintos, outros ainda em atividade. A Stereo em Montreal, o Woodstock 69 em Amsterdã, a Moonpark e o Clubland (seu club formador) em Buenos Aires, o Cream de Liverpool e o Yellow de Tóquio são alguns dos quais Hernan tem registros de longsets históricos — como o de 12 horas no encerramento do club japonês em 2008.

Nesses “clubs para clubbers profissionais”, como ele costuma falar, criou laços mais profundos do que apenas apresentações marcantes de um DJ internacional para o público local. Porém, quando falamos de Warung, que é um desses lugares onde o frequentador recebe uma graduação musical, parece existir algo que transcende a todos e que honestamente não sei explicar.

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Pode parecer imprudência alguém fazer tamanha afirmação sem ter experimentado experiências musicais com ele nos lugares citados. Porém, olhando através de seu comportamento quando está dissipando o que tem de melhor na pista do Templo, arrisco dizer que em nenhum outro lugar sua música foi e tem sido recebida por um período tão extenso com tanta singularidade. Hernan tem sua figura tão em conformidade com a cabine, que a sensação de todos ao vê-lo ali em cima sob completa sintonia, repetindo os mesmos movimentos corporais e mentais necessários para se colocar músicas em sequência, é de que estamos diante algo mítico. O DJ que vemos no Warung parece ser daquele jeito somente ali.

Toda essa conexão ao longo do tempo gerou um resultado que poucos alcançaram dentro de toda indústria musical eletrônica: ser a figura central da criação de uma comunidade em torno do estilo musical que acredita e propaga desde quando ainda só ouvia discos de bandas de rock progressivo que suas irmãs colocavam para rodar. É claro que no final de tudo estamos tratando de entretenimento, porém com um nível de interação que é capaz de moldar ideias e visões das pessoas que decidem participar, e então colocá-las em união. Esse seu interesse em fazer o algo a mais, em tocar o máximo de tempo possível, é um tipo de realização que não se apaga tão fácil — ao contrário, se perpetua nas lembranças mais profundas dos participantes.

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Considerações feitas, voltamos à música, e ela estava se desenvolvendo com toques viajantes moderados, temas com pequenos recortes emotivos e tribais, tudo bem cadenciado, sem exagero. Após a 01h, tive a sensação de que tínhamos atingido a velocidade de cruzeiro. Em navegação, é comum se falar sobre a relação da velocidade ideal e o perfeito equilíbrio do motor com o casco, ou seja, máximo desempenho aliado a maior economia. Hernan é especialista em estabelecer uma faixa sonora dentro da qual não se força a pista de dança, mas que nela atua naturalmente e em perfeito desempenho. O “ponto de cruzeiro” dessa relação é quando a música inserida pelas mãos do artista é capaz de extrair o máximo de cada individuo, mas sem que eles se desgastem antes do término.

Estava esperando mais alguma faixa para reconhecer, e então ouço uma melodia inconfundível para meus ouvidos. Procuro alguém para compartilhar a emoção de estar ouvindo “Take My Away”, de Fefo e Dario Arcas —  um dos melhores lançamentos da Sudbeat já feitos. Em 2010, ela marcou o décimo lançamento da gravadora de Hernan, recebendo inclusive um remix esplêndido do boss com Soundelixe. A faixa ainda fez parte de sua compilação The Masters Series – Parallel, para a Renaissance no mesmo ano. Novamente, se tratava de um edit que não consegui identificar.

Após isso, a construção musical começa a ganhar sua verdadeira cara, entrando em um tom mais dramático e infernal. Menos elementos, mais intensidade, e claro, as indispensáveis linhas de baixo aterrorizantes cortando e balançando toda a pista. No vídeo abaixo, que capturou momento próximo das 03h, está um daqueles sons que eu provavelmente não esquecerei até encontrar. Analisando o set inteiro, essa faixa seria uma espécie de previsão do que ele iria jogar nas horas que viriam.

Para mim, sempre foi impressionante como Hernan consegue ter amplitude musical dentro do seu estilo particular. Você pode dizer que esse é um dos papéis fundamentais de um DJ, porém conseguir executá-lo sem perder a essência é um dos grandes desafios da atualidade. Seguindo, outra faixa impressionante: “Robot Funk”, com remix de Phuture Phunk, fez todos entrarem em imersão. Essa música nada mais é que um ripping de “On The Run”, da banda Pink Floyd, adicionada a um baixo poderoso, um arranjo de bateria e um kick forte. Trata-se na verdade de um excelente remix, podendo ter sido apresentado pelo produtor Framewerk como tal, mesmo que não pudesse comercializá-lo.

Às 04h, entrou em ação “Strand”, de Stephan Bodzin — uma faixa com efeito progressivo e hipnótico, espécie de ponto de amostragem do que ele estava apresentando. A intensidade aumentava mais do que de costume. Comecei a imaginar que ele estava tocando por um bom tempo no mesmo ritmo para chegar em algo especial. Em meia-hora houve a quebra, não de ritmo, mas de sintonia. “Sirens”, remixada magistralmente por Patrice Bäumel, foi a escolhida para esse momento clássico dos sets de Hernan. Ele cantava sua maravilhosa letra tranquilamente enquanto todos ainda estavam se dando conta de que era um momento de pôr os pés no chão, mas só por uns minutos.

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A partir das 05h, a sonoridade estava reta e nivelada, caracterizada pela maior altitude possível de energia e velocidade rítmica que El Maestro gosta de trabalhar, entregando para a pista de dança a melhor relação entre pessoas, ambiente e música. Sempre comento sobre esse momento do set até as 06h, que mostra o quão bem pensada e elaborada é sua construção. Havia nesse momento alguns aspectos mais obscuros, e sequência sem descanso.

Entramos na fase do amanhecer e era hora de algum clássico. A escolha foi por um que eu aguardava desde quando assisti ao vídeo dele o soltando no club Mamacas, em Atenas 2012. Tratava-se de “Eterna”, de Slam; uma faixa atemporal, produzida em 1991, e que recebeu um remix fantástico de John Digweed e Nick Muir 21 anos depois.

Próximo de chegar à fase da última hora, uma daquelas músicas que parecem já nascer clássicas. Seu vocal emitido como um mantra lembrou-me de um momento especial que tive em 2010, quando quase no mesmo horário, Hernan soltou “Love Stimulation”, de Humate, em remix de Tom Middleton — um momento que guardo até hoje de minha primeira experiência com o maestro. De alguma forma, isso surgiu em minha mente e tudo parecia ter voltado no tempo, reavivado por “Chanjira”, de Stuart King em remix de Mongo. Que momento!

Essa última hora é uma mistura de sentimentos. A já tradicional paradinha das 07h20 foi calculada com um lindo trabalho de um dos melhores produtores argentinos da atualidade: Kevin Di Serna, com “Horizons” — um arranjo limpo de piano, leves baterias e uma mensagem no vocal do break. Depois da calmaria, a volta é novamente cheia de intensidade, o sprint final para esgotar as últimas energias. A finaleira voltou-se novamente para o lado emocional com “Sofia” remixada por Guy Mantzur e, para minha maior surpresa, o encerramento veio com uma música que me fez pôr as mãos no rosto e apreciar sem querer que acabasse.

Eu já perdi as contas de quantas vezes assisti ao filme Inception. Além de elenco e direção brilhantes, ele tem uma das melhores trilhas sonoras da última década. E quando se fala em trilha sonora, hoje ninguém está no nível de Hans Zimmer. Sua composição chamada “Time” para o longa é algo que não se deve colocar em palavras. Felizmente, ela recebeu uma versão à altura para as pistas de dança, por Deeparture. A saudação mútua de agradecimento estava acontecendo junto do sentimento de maratona musical mais do que cumprida.

Hernan Cattaneo All Night Long

Escrevendo este review, pesquisando e relembrando faixas que foram apresentadas, notei que havia outras dezenas de detalhes especiais ainda para serem mencionados. Dar-me conta de que eu poderia simplesmente excluir tudo que tinha escrito e mesmo assim teria outras tantas coisas incríveis para contar, foi como uma cortina que se abriu em minha frente. Até onde vai a dedicação e o interesse de um artista para trazer ao seu público uma narrativa musical tão rica? Minha saída foi aceitar que algumas coisas vão e devem ficar apenas na lembrança.

Em 28 de dezembro, Hernan Cattaneo fez uma espécie de volta para casa, como quando ainda jogava no extinto Clubland de Buenos Aires. Agora, contudo, essa outra casa que ele descobriu e ajudou a formar tem um sentido diferente — afinal, seria como voltar, mas ainda estar jogando em um dos maiores palcos do planeta, um Camp Nou brasileiro, com sua grama (soundsystem) lisa, molhada, e um fundo de campo que parece não ter fim (mar). Seu conjunto musical estava nos dizendo isso o tempo todo: o Warung é um palco vivendo seu melhor momento, moldado por anos de uma identidade sonora inconfundível, onde, claro, só existe um camisa 10.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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