Tá tranquilo e tá favorável pro funk carioca se misturar com a EDM brasileira

Depois de gringos como o Hardwell, começamos a ver DJs brazucas de EDM, como o Repow, valorizando o funk nacional.

* Funk carioca é usado neste texto como nome do gênero, não se referindo necessariamente ao funk feito no Rio de Janeiro.

Você pode odiar funk carioca; detestar seus beats, seus artistas, seus DJs e MCs; pode achar a música pobre e sem substância, e se revoltar com suas letras ofensivas e vulgares. Só não dá pra negar que o funk brasileiro: [1] é música; [2] é cultura; [3] é música eletrônica; e [4] faz parte da cultura DJ tanto quanto house, techno, hip hop ou trap. Acredite, negar isso pega mal. É ignorância, é falta de leitura e de conhecimento, é ficar dando murro em ponta de faca. É como querer negar que temos dois pulmões ou que o Kanye West seja um babaca.

O que pega é que esse funk é, basicamente, um manifesto da perifa, de favelado. Essas pessoas agora têm essa voz, e fazem questão de levantá-la bem alto, esfregando na nossa cara que elas existem e que vêm de uma estrutura precaríssima; que passam fome, discriminação, abuso, violência. E elas querem mesmo chocar, se fazer ser notadas, como num grande rolezinho musical. A galera do baile funk, em suma, faz a mesma coisa que a classe operária europeia fez a partir do movimento punk nos anos 70: age como um espelho deformado da sociedade, que reflete, de maneira aumentativa, o que nela há de mais sórdido e ultrajante.

A classe média brasileira reage como a burguesia inglesa reagia aos punks: com desprezo, nojo, ódio. Ódio por ter que enxergar o que há de pior em si mesma; ódio por ser forçada a despertar do “sonho americano”, esse mundo ilusório de shoppings colossais, selfies e wi-fi liberado, e ter que lembrar que tem milhões de pessoas vivendo segregadas, passando fome, sem saneamento básico. Essa gentinha aí, que não é chique e mal sabe português, e que faz umas músicas fuleiras, que só falam de crime e putaria — cruzes, que afronta ao cidadão de bem!

Não é nem preciso dizer que quando os big names da EDM — um movimento majoritariamente branco e classe média — começaram a pagar pau pro baile funk, seus entusiastas brasileiros ficaram enfurecidos. Claro, não podemos esquecer do famoso complexo de vira-latas tão típico do brasileiro, que o faz ver tudo que é tipicamente brazuca como inferior. Mas e quando a gringaida mostra que aquilo pode ser legal?

Depois dos intensos vídeos virais do Hardwell tocando “Baile de Favela”, com direito até a palinha ao vivo com o MC João e depois remix oficial [e é bom salientar que ele passa longe de ser o primeiro DJ estrangeiro a tocar funk no Brasil], parece que o terreno começou a ser preparado pra uma aceitação dos marginalizados do baile funk pela comunidade clubber brasileira. Naturalmente, os primeiros passos vêm sempre dos artistas e outros formadores de opinião, que remam contra a corrente e enfrentam muita resistência por isso. O RMC já abriu este ano pro corajoso e necessário Baile do Dennis — afinal, como deixar de fora da festa o único estilo de música eletrônica de pista tipicamente brasileiro?

Os artistas da EDM nacional também começaram a surfar essa onda; recentemente tivemos bootlegs de “Baile de Favela” feitos por caras como o Dimy Soler e o Repow. Este, aliás, faz questão de nos lembrar que já vem dando essa moral pro funk há bastante tempo, e que não tá só “seguindo a modinha”: “Quem me acompanha nas redes sabe que estou fazendo esse remix muito antes do Hardwell chegar no Brasil. O fato de ele ter tocado a música só me encorajou a lançá-la”, disse o jovem curitibano, que já vinha mandando uns mashups de funk em seus sets desde o semestre passado, e agora recebe haterismo junto com um feedback bem positivo. “Eu gostaria de deixar claro que mais do que nunca eu estou me divertindo no estúdio, sendo feliz com minha música. Estou fluindo como nunca e criei coragem para produzir estilos diferentes e arriscar coisas novas. Avicii sofreu coisas piores quando tocou ‘Wake Me Up’ pela primeira vez. Seguir modinha realmente não é o recomendável. Se alguém faz algo só pra ir na onda é triste, mas faz parte.”

Admirador dos trabalhos de Bonde do Tigrão e Anitta, o DJ concorda que algumas letras do gênero são bem controversas, mas também lembra que a mesma coisa vem acontecendo na cultura hip hop dos EUA há anos. “O rap é o estilo mais ouvido do mundo, segundo o Spotify, e no rap americano tem varias historias semelhantes ao do funk carioca: cantores analfabetos que seguiram em frente na vida e conquistaram o mundo com suas músicas.” O Repow também acredita que esse flerte da EDM brasileira com o baile funk pode estar gerando uma nova estética: “Tropkillaz, Johnny Glovez, WAO… Todos estão usando elementos de funk nas músicas. E alguns DJs iniciantes já estão me mandando várias ideias [nesse estilo]”.

O Tropkillaz, aliás — duo que vem há anos com um trabalho coerente dentro da bass music — é parceria do Repow nesse novo remix pro hit memeístico “Tá Tranquilo, Tá Favorável”, do MC Bin Laden, no que era pra ser uma brincadeira despretensiosa, mas que acabou ganhando até uns vocais exclusivos enviados pelo próprio MC. “Eu comecei a ideia e chamei os meninos do Tropkillaz pra entrar junto. Eles adoraram e finalizamos em dois dias! Pensei em focar apenas no loop ‘tá tranquilo, tá favorável’, sem usar o resto da letra. Se quase todas as músicas do mainstream têm loops eternos de ‘clap your hands’ ou ‘put your fucking hands up’, por que não arriscar com ‘tá tranquilo, tá favoravel’? Hahaha!”. Touché, mister Repow.

E o haterismo? O produtor olha pra metade cheia do copo: “Uma vez um amigo me falou que quando você incomoda as pessoas é porque está dando certo”. É bem como vocês amam dizer por aí: o choro é livre.

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