“É muito difícil ser DJ no Brasil”: Erick Jay fala sobre novo título mundial

Campeão do mundo em 2016, o DJ paulistano venceu agora o DMC Online

Campeão do DMC e do IDA World em 2016, Erick Jay conquistou no último dia 02 o terceiro título mundial de sua carreira: o DMC Online. Criada em 2011, a modalidade funciona à distância, permitindo que DJs de qualquer canto do mundo participem.

Assim, além de levar mais um caneco para casa, o paulistano seguirá para Londres para lutar pelo bicampeonato do DMC World DJ Championship. A competição rola no dia 28 de setembro, no Islington Assembly Hall. O DJ Nino, que venceu o último DMC Brasil em junho [Jay ficou em segundo lugar] será o outro representante do país.

A performance que rendeu o título do DMC Online 2019

“É como se fosse uma missão, e a missão foi cumprida com sucesso. Porque é muito difícil ser DJ no Brasil. Questão de equipamento, de conseguir o espaço… A tecnologia tá nos ajudando, mas é muito difícil ainda”, contou Erick à Phouse. “Foi uma conquista super bem-sucedida, porque quem tem esses mundiais [na América do Sul] só somos nós aqui do Brasil. Os únicos mundiais que temos, fui eu que ganhei. Então é pro mundo ver que temos bastantes DJs aqui talentosíssimos.”

Para Jay, detentor ainda de nove títulos nacionais [DMC Brasil 2009, 2010, 2011, 2014 e 2015; Hip Hop DJ 2006, 2007 e 2008; e Quartz Riscos e Batidas 2014], o segredo para ganhar essas competições é ser ousado e criativo — e nisso, assim como no futebol, os brasileiros são mestres.

“Os caras gostam de ver coisas novas. Não basta você ter técnica. O nosso diferencial é que os DJs de campeonato dos outros países erram e entram em pânico. Eles não têm aquele jeitinho suingado brasileiro, de sair do erro com classe, sem desespero”, argumentou.

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Erick Jay é representante de uma das mais interessantes expressões da cultura DJ: o turntablismo, também conhecido como discotecagem de performance. São os artistas que constroem seus sets dando um show em habilidade técnica e repertório — quem é bom, mixa basicamente qualquer música. Infelizmente, essa cultura apresentou uma queda nos últimos anos, e no Brasil, tornou-se muito nichada, ganhando mais representatividade no universo do hip hop.

“No Brasil, a cultura turntablista era mais forte nos anos 80, 90 e 2000. De 2005 pra cá deu uma boa caída, porque os campeonatos foram acabando. Mundialmente, ainda continua, porque o turntablista usa o campeonato pra se divulgar. Ganhando, portas vão se abrindo, nos bailes, festas e festivais. Lá fora, continua essa tradição. Mas pra mim, continua sendo um diferencial numa pista”, seguiu, sem deixar de trazer uma visão otimista.

“As pessoas precisam estudar mais os DJs, a história, o seu diferencial. E o turntablismo brasileiro vem ganhando um espaço mundial agora. Eu vejo, quando vou ministrar aula, que o interesse vem aumentando — principalmente em garotos, para diferenciarem os seus sets. Eu espero que o turntablismo brasileiro cresça. Ele ainda está muito isolado. Precisamos de mais DJs fazendo performance em programas de TV”, finalizou.

O DMC Online

Diferentemente das edições nacionais e da etapa mundial, o DMC Online é uma plataforma em que DJs de qualquer lugar podem competir à distância, por vídeo.

O campeonato tem três etapas. Na primeira, centenas de vídeos inscritos competem pelo voto popular. Os dez mais votados classificam para o segundo round, no qual um juri especializado escolhe três semifinalistas. Essas primeiras duas etapas repetem-se outras duas vezes, até sobrarem nove competidores. Desses nove, os três primeiros lugares se classificam para o DMC World.

* Flávio Lerner é editor da Phouse.

SoundCloud e Beatport terão novas ferramentas para DJs

ADE reverbera boas novas pra discotecagem digital em 2019

De acordo com os anúncios bombásticos feitos durante o ADE na última semana, a cultura musical borbulha mais uma vez com uma verdadeira revolução envolvendo os maiores players do mercado. Desde conferir comodidade e segurança para quem gosta de ter tudo na nuvem até novas possibilidades de monetização para artistas e selos nas plataformas, o streaming continua firme na pauta da cena eletrônica.

Os lançamentos tecnológicos apontam para um novo estilo de vida dos DJs digitais daqui pra frente; quem nunca quis manejar suas tracks diretamente de seu servidor favorito de streaming que atire a primeira pedra.

O SoundCloud, uma das plataformas mais queridas no meio DJ, anunciou que em breve vai poder rodar suas mais de 200 milhões de músicas — em 256kbps — em diferentes programas de DJ, ainda sem data prevista. O acesso será feito pela inscrição “Premium GO+”, e será possível de ser testado através de um trial de 30 dias.

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Já estão no pool de parceiros-chave do SoundCloud as companhias DEX3Mixvibes, DJuced/Hercules, Native Instuments, Virtual DJ e Serato. Este último, predileto de muitos artistas dos toca-discos, também prepara conexão com o serviço de distribuição digital de música do Jay-Z, o Tidal.

Além disso, o Beatport também traz novidades para 2019. Uma delas, o Beatport Link, será o serviço de streaming que vai transmitir suas músicas diretamente para os programas de discotecagem, seja Traktor (Native Instuments), Pioneer DJ, entre outros.

Antes do Link, a empresa deve lançar o Beatport Cloud, servidor em nuvem também pensado para atrair os DJs, em diferentes modalidades. A parada é semelhante a um Spotify da vida, mas seus planos serão limitados e as taxas não serão fixas por mês — todas fornecendo um formato de qualidade sem perdas, como .wav ou .aiff.

O nível mais alto, o Beatport Cloud Pro, oferecerá 20 faixas por mês com uma assinatura de 40 dólares (aproximadamente R$ 150,00, na cotação atual). Ao associar-se, o usuário terá todas as suas tracks .mp3 no Beatport atualizadas para um formato sem perdas. O Beatport Cloud permitirá ainda a opção do “re-download”, em que será possível baixar compras e garimpos mais antigos.

Assista à cabulosa performance do DJ vencedor do DMC 2018

O campeonato mundial de DJs foi transmitido ao vivo pela primeira vez em 33 anos

A cultura DJ vibrou em mais uma acirrada competição do DMC World Championship, que teve a grande final realizada em Londres no último dia 07. Neste ano, foi o DJ Skillz quem confirmou ser o DJ de performance mais sinistro do globo ao conquistar o título com muita perícia nos toca-discos.

A treta foi bonita. O francês ficou à frente com um ponto de vantagem do segundo lugar, o DJ Fummy, do Japão. Já o DJ Renao garoto que com apenas 12 anos levou a taça mundial na edição passada, pegou o terceiro lugar agora, e o troféu de World Supremacy ficou com outro zica que ainda vamos ouvir falar — o DJ K-Swizz, de 15 anos, da Nova Zelândia.

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Restrito aos convidados do evento desde sua fundação, em 1985, o DMC foi transmitido ao vivo pela primeira vez na história, e computou mais de 400 mil visualizações no mundo todo — o que confere que o turntablismo está mais vivo do que nunca.

Sentem, peguem a pipoca, e confiram o show à parte que o DJ Skillz deu na final, abusando de técnica, repertório e criatividade, trabalhando movimentos clássicos como backspin e transformer scratch, entre outros truques avançados no mixer.

 


Com a :DOE :DANCE, o DJ Ban está trazendo o verdadeiro espírito do Dia do DJ ao Brasil

O Dia do DJ não é sobre DJs; é sobre solidariedade

Normalmente o Dia do DJ aqui no Brasil é tratado como uma data para saudar seus DJs favoritos e mandar os parabéns pros amigos que gostam de se arriscar naquele ao vivo nas carrapetas. Também pode ser um dia apropriado pra mandar memes engraçadões no Facebook e até pra refletir sobre as origens da cultura de pista. Mas na verdade, como a história mostra, o Dia do DJ surgiu para algo muito maior. Não é sobre DJs, é sobre união, altruísmo e solidariedade — pode soar meio piegas, mas é fato.

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A data surgiu em 2002, através da união entre a World DJ Fund e a Nordoff Robbins Music Therapy, para realizar em parceria com os disc-jóqueis — que naquela época já haviam se consolidado como pop stars — uma série de eventos beneficentes em diversos países. O primeiro grande evento de celebração da data teve nomes como Sasha, Carl Cox, Pete Tong e Danny Tenaglia ajudando a arrecadar mais de 400 mil libras a instituições de caridade. No nosso país, até o ano passado, não tínhamos conhecimento de nenhuma ação do tipo.

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Até que o DJ Ban Schiavon, figuraça da cena brasileira e dono da escola de DJs que leva seu nome, acostumado desde 2001 a realizar sorteios e premiações importantes aos seus alunos e seguidores, decidiu importar pra cá esse verdadeiro espírito da data. Há exato um ano, ele lançava a :DOE :DANCE, que em sua primeira campanha arrecadou cerca de R$ 12 mil para o GRAAC, mobilizando diversos DJs e produtores da cena para doarem itens valiosos, ingressos de festas ou horas de workshops; a venda desses produtos é o que alimenta as arrecadações para as campanhas da iniciativa.

+ Iniciativa surge para abraçar causas humanitárias através de união do mercado da música eletrônica

Nesses 365 dias, o :DOE :DANCE ajudou diversas outras instituições — como o Lar das Mãezinhas, que foi ajudado graças a um leilão que Ban realizou com mais de 500 discos de sua coleção —, e agora, em sua sétima campanha, volta novamente a mirar no GRAAC, que ajuda crianças e adolescentes com câncer. “O :D:D completa um ano hoje, 09 de março, o Dia do DJ, que como você sabe, foi criado lá na gringa como uma data de atividade social. Embora a DJ Ban EMC já tenha feito inúmeras ações sociais no passado, a inspiração veio justamente após visita ao GRAAC, quando observamos que somente a Ban não daria conta do recado”, contou o idealizador do projeto, em contato à coluna.

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Além de pegar emprestada a influência que os DJs e produtores de música eletrônica possuem hoje em dia para contribuir com causas sociais, o :DOE :DANCE deve ter um efeito colateral muito bem-vindo à cena brasileira: combater as infrutíferas birrinhas por ego e unir geral em uma causa maior. “Num mercado em que muitos dizem união, nós propomos isso, uma vez que o beneficiado é uma causa fora da curva desse mercado… Ou seja, através de  atividades realizadas pelo :D:D, conseguimos alavancar com cunho social a tal união”, explica o Ban. “Via :D:D, tivemos diversas outras escolas de música eletrônica juntas, na Ban ou fora dela. O objetivo é que se alguém quiser fazer algo em qualquer lugar do Brasil ou do mundo, com o nome de :DOE :DANCE ou ‘coco com rapadura’, ele possa. Tá ajudando o próximo, já era”, complementou.

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“Não será possível por causa do :DOE :DANCE uma união saudável [da cena eletrônica], nem nessa encarnação nem na próxima. Não adianta, cada um vai olhar sempre pro seu umbigo, é do ser humano. O que eu vejo é que uma parte da sociedade que não vive essa cena como nós vivemos pode ver ela com outra cara. Ele pode não saber que tem uma birra do DJ ‘X’ com o DJ ‘Y’, e ele pode ver que aqueles DJs ali tão juntos, fazendo algo em prol da sociedade. Fiz eventos aqui na Ban que tinham, sim, concorrentes e caras que não se bicavam, mas eles estavam aqui por um ideal. E o ideal sempre é a causa.”

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A nova ação para ajudar o GRAAC começou no dia 19 de fevereiro, e deve ir até a primeira semana de abril. Segundo o Schiavon, alguns atrasos na programação fizeram com que ele tivesse que reprogramar atividades e aumentar o prazo da campanha. A ideia, desta vez, é chegar até os R$ 15 mil.

Você pode conferir tudo que está programado para essa campanha, saber como ajudar e ler mais sobre a iniciativa no site da :DOE :DANCE.

* Flávio Lerner é editor na Phouse; leia mais de sua coluna.

História e cultura da música eletrônica: Camilo Rocha ministra curso em SP

Curso inédito no Brasil, “O SOM DO FUTURO PASSADO” busca explorar as raízes e o legado da cultura das pistas de dança em nossa sociedade
* FOTO: O pioneiro Giorgio Moroder em seu estúdio futurista, nos anos 70

Passa longe de ser novidade o fato de que a música eletrônica mais do que cresceu e explodiu nos últimos anos, no Brasil e no mundo. Cada vez mais ela se funde com outros gêneros, penetra na cultura pop e dita novos padrões de estética e de consumo. Mas o quanto todos os fãs apaixonados por essa cultura, e mesmo os DJs e produtores, refletem sobre suas raízes e seu papel na sociedade? O quanto essas pessoas conhecem de sua história e de seu legado?

É pensando nessas e em outras questões que o DJ-jornalista Camilo Rocha está inaugurando o curso O SOM DO FUTURO PASSADOCultura eletrônica e sociedade. Hoje repórter especial do Nexo Jornal, o Camilo foi o primeiro jornalista no Brasil a escrever sobre a cena eletrônica e a cultura dos DJs com a seriedade que ela merece, nos anos 90. E se atualmente ele não tem nesse nicho de mercado o seu principal ganha-pão, segue discotecando e, principalmente, sempre ligado no que vem rolando por aí. Por isso, naturalmente, é uma das pessoas mais indicadas a ministrar algo desse calibre.

“O curso vai girar em torno da história da música e de suas relações com a sociedade. É uma mistura desses eixos, pensado em ampliar repertório e fazer conexões entre períodos e manifestações diferentes. Por exemplo, qual foi o contexto em torno dos primeiros experimentos com instrumentos eletrônicos na década de 50, ou como a música eletrônica foi a trilha para a expressão de minorias como a comunidade LGBT e negros”, explicou o Camilo, em contato com a coluna.

“A parte histórica, de origem e desenvolvimento, tem um peso grande. Seja Alok ou L_cio, todos compartilham as mesmas raízes.”

As aulas começam no próximo dia 09 e se estendem por todo o mês de novembro, sempre nas quintas-feiras à noite, no Birô Espaço Compartilhado, em São Paulo. Serão, portanto, quatro encontros semanais de duas horas, em que o jornalista vai passar um pouco do seu conhecimento e convidar à reflexão sobre temas como “A música eletrônica e a diversidade”, “Onde está a arte no trabalho do DJ?”, “Qual a diferença entre techno e house?”,Kraftwerk é mais importante que Beatles?”, “O papel da rave na infância da internet”, “Como a tecnologia barata criou novos gêneros musicais”, “A influência de conceitos como minimalismo, remix e sampling”, “A música eletrônica ainda é a música do futuro?” e “Como a queda do Muro de Berlim influenciou a pista de dança”.

Conheça a história de um dos clubs mais lendários de todos os tempos

Nesses encontros — que também vão contar com participações especiais de personalidades da cena — a proposta é de explorar “décadas de história musical e seu impacto social por meio de aulas expositivas”, através de bate-papos e muita análise de faixas, discos e DJ sets. Como diz parte do release: As músicas serão o fio condutor: faremos audições de faixas e trechos, em áudio e vídeo. A partir destas, virão explicações sobre os artistas, contexto social e cultural, análise musical e seu papel na história. […] Alunos serão estimulados a pensar sobre aquilo que ouvem, a perceber detalhes e nuances.

“A parte histórica, de origem e desenvolvimento, tem um peso grande. Seja Alok ou L_cio, todos compartilham as mesmas raízes”, continuou me contando o Camilo, destacando a importância de se conhecer a história da cultura DJ. “Também trabalharemos com muitas variantes de cada gênero musical. No último dia, vamos falar de máquinas e equipamentos para que os alunos entendam como se cria música eletrônica, para que servem e como operam equipamentos e softwares, mas não de maneira técnica. Sinto que muita gente simplesmente não faz ideia de como essa música acontece.”

“Sinto que muita gente simplesmente não faz ideia de como a música eletrônica acontece.”

Por mais que o foco seja no universo da cultura eletrônica e da arte da discotecagem, Rocha também deixa claro que pessoas que não atuam diretamente nesse nicho cultural são algumas das que mais podem ter a aprender: “Muita gente tem buscado o conhecimento extra, para além do escopo de sua área profissional. Por exemplo, se trabalho com direção artística de eventos, às vezes preciso saber mais sobre certo período histórico ou estético. Se minha área é cinema, às vezes aparece um trabalho que tenha envolvimento de música ou arte”, concluiu.

Volte no tempo e reviva raves históricas

Os interessados podem conferir mais detalhes e ver todo o cronograma de aulas no evento do Facebook. São apenas 20 vagas disponíveis, e para se inscrever basta entrar em contato através do e-mail contato@obiro.com.br. O pacote sai por R$ 400,00 à vista ou duas vezes de R$ 220,00.

Fica a expectativa para que a iniciativa dê certo, e estimule, além de novas edições e novos módulos, outros tipos semelhantes de debate, estudo e reflexão. A cena eletrônica brasileira agradece.

Flávio Lerner é editor da Phouse; leia mais artigos de sua coluna.

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EXCLUSIVO: Claudia Assef confirma nova edição de “Todo DJ Já Sambou”

O livro que conta a saga da cultura de pista no Brasil vai ganhar nova edição, com novos capítulos e capas com Seu Osvaldo, Marky, ANNA e Alok; restam poucos dias para comprá-lo em lote promocional.

Parecia impossível, mas vai rolar. A jornalista Claudia Assef confirmou nesta tarde, em seu Facebook, o final feliz de sua campanha de relançamento do livro Todo DJ Já Sambou. Em contato com a coluna, Assef esclareceu mais detalhes de como conseguiu praticamente fechar o restante do financiamento — na última semana do projeto no Catarse.me, ainda faltava nada menos que 58% de um total de R$ 45 mil, o que indicava que não sairia do papel.

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O turning point foi conquistado com a ajuda de duas empresas: a Miller — que, assim como tem parceria com a Phouse, também é parceira do site de Claudia, o music non stop — e a produtora de live marketing SRCOM. “Comigo as coisas costumam rolar na emoção. A quatro dias do final da campanha, com 42% da meta atingida, a gente conseguiu que essas duas empresas superparceiras e apoiadoras do meu trabalho nos apoiassem com cotas de dez mil cada uma”, contou a Claudia. “Ainda vão faltar seis mil pra atingirmos a meta, mas tenho certeza de que iremos chegar.” Com o patrocínio, tanto a Miller quanto a SRCOM terão suas logomarcas impressas nas novas capas do livro, além de receberem 80 livros cada uma, figurarem como apoiadoras da festa de lançamento e realizarem ações de marketing com a obra.

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A jornalista ainda aproveitou o papo pra revelar em primeira mão como será a nova capa. “Vão ser quatro capas, na verdade. O livro original tinha o Mau Mau, e desta vez vamos abrir pra novos nomes: Seu Osvaldo, DJ Marky, ANNA e Alok”, segue contando. “Seu Osvaldo, por ter aberto caminho pra todos os que vieram depois; Marky, por juntar tudo o que eu acho importante num só profissional: técnica apuradíssima, bom gosto, conhecimento gigantesco e paixão; ANNA, por exemplificar a força e o poder da mulher DJ; e o Alok por ser um retrato de onde o DJ pode chegar nos dias de hoje.”

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Agora, pra quem quiser comprar a edição atualizada de Todo DJ Já Sambou por lote promocional [ou comprá-lo com alguns dos bônus disponíveis], tem até esta sexta-feira  — desta vez, porém, com a certeza de que sua compra vai ser concretizada, já que o que seguir faltando dos seis mil reais será completado pela própria Claudia. No momento desta publicação, Assef está se dirigindo ao estúdio da DJ Ban, pra contar mais ao DJ e entrevistador sobre o projeto. O programa será transmitido ao vivo, pelo Facebook da DJ Ban, a partir das 20h.

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Entenda o caso

Há dois meses, Claudia Assef lançou no Catarse uma campanha ousada, para financiar uma nova edição da sua obra, Todo DJ Já Sambou — livro que conta a história da cultura de pista no Brasil, dos anos 50 aos anos 2000, e que se tornou um marco por por explorar uma pesquisa inédita. Graças ao trabalho da jornalista, descobriu-se a figura de Osvaldo Pereira, a.k.a Seu Osvaldo, que ficou conhecido como “o primeiro DJ do Brasil”, ganhando reconhecimento das novas gerações. A obra ainda passa por dezenas de boates, DJs e movimentos pioneiros do país — da época dos bailes de orquestra aos bailes funk; das festas de pós-punk ao EBM; da disco à house e ao techno; e de nomes como MemeMau MauMarky e PatifeSônia AbreuIraí CamposMagalRenato LopesRicardo Guedes e Marlboro.

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De 2003, o livro já teve três edições, a última delas de 2010, e desde 2015 encontra-se fora de catálogo. Para lançar a quarta edição, com novo projeto gráfico e novos capítulos — atualizando-o com o que rolou no país nesses últimos 15 anos —, o crowdfunding no Catarse previa pouco mais de R$ 45 mil, dos quais, sem os patrocínios, haviam sido arrecadados quase vinte mil reais [se você visitar a página da campanha ainda neste dia 17, a verá desatualizada, pois os depósitos só serão processados a partir de amanhã].

* Flávio Lerner é editor-assistente na Phouse; leia mais de suas colunas.

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Relatos de um Fim de Século; a história do último club porto-alegrense a celebrar a cultura DJ

* Artigo original de abril, redigido pelo nosso colunista Flávio Lerner, ao LOFT55

Procuro evitar idealizações do passado em detrimento do presente. Há uma tendência em se esquecer das coisas ruins e focar nos bons momentos vividos, e o saudosismo é uma armadilha muito fácil de cair. Feita a ressalva, quando ouço relatos sobre os tempos de Fim de Século — lendário club porto-alegrense que viveu de 1987 a 2007, mudando o nome para NEO [New Electronic Order] em 2001 —, a despeito de possíveis floreios e distorções romantizadas, parece inegável que a casa foi parte essencial do apogeu da cultura de pista de Porto Alegre.

Atualmente, a capital gaúcha não tem nenhuma casa centrada nos valores da cultura DJ. Temos, sim, alguns esforços isolados, muitos de pessoas que viveram ou se criaram no FDS/NEO, mas agora fragmentados; a chama de uma cena que prega democraciacomunhão e respeito integrados a sets mixados ousados e visionários parece bem menor do que outrora foi. Em adaptação livre da frase-cliché de Clarice Lispector, saudades de algo que não vivi.

Mais saudades ainda deixa Sílvio Freitas, ex-sócio e cofundador do Fim de Século/NEO, que faleceu recentemente. Freitas teria morrido há cerca de dois meses, em virtude de complicações oriundas de uma hepatite, mas só na segunda-feira passada que a notícia correu pelas redes, com amigos e ex-frequentadores do FDS lamentando e registrando a falta que o homem fará.

Programa In my House #004 by Gito Especial FDSC by Gito on Mixcloud

Para ouvir com a leitura: set do DJ Gito que sintetiza um pouco da essência do Fim de Século

“O Sílvio se entregava de alma pelo lugar. O Fim de Século era o seu coração e pulmão. Igual a um pai que nunca vai desistir de um filho, ele suava sangue pra mantê-lo a pleno vapor. Uma figura simples, muitas vezes desconfiada, amiga, que era aberta a novas propostas e novos talentos. Um visionário além do seu tempo”, declara o DJ JZK, veterano da cena de Porto Alegre, destacando os outros sócios no empreendimento: Batata, Everton e Claudinho, além do DJ Double S, que também foi residente. Este endossa: “o Sílvio era a representação de um empresário de vanguarda e o Fim de Século o fruto dessa vanguarda. Ambos à frente do seu tempo”. Double S também demonstra a importância de um club engajado com os ideais da cultura de pista para formar novos profissionais: “ali meu trabalho como DJ tornou-se conhecido no Brasil inteiro, e até hoje eu agradeço por ter tido a possibilidade de participar do Fim de Século e por ter trabalhado ao lado de mestres como Sílvio Freitas”.

Antonio Navarro, DJ de drum’n’bass e um dos criadores da Quarta Quebrada, recorda dessa mesma integridade de Sílvio: “lembro dele, sempre otimista, nos chamando até o seu ‘escritório’ — um espaço 1m X 1,5m embaixo da escada — para, às vezes tirando dinheiro do próprio bolso, pagar pelo menos alguma coisa aos DJs quando a festa não rendia”. Para Navarro, “o local era porto-seguro para todos os estilos. Na pista do subsolo, o d&b nunca soou melhor. Ali, podíamos elevar o volume até o limite da distorção, e o subgrave massageava o peito e a garganta. Não era preciso nem dançar”.

Registro de festa no FDS em 1998, com o DJ Sérgio Panasuk

Dani Hyde, cofundadora da festa Róque Town, pertence mais à cena rockeira da cidade, mas se autodeclara “clubber em 1996”, quando era habitué do FDS. “O Fim de Século e o Sílvio Freitas são uma coisa só. Não há como separar a instituição do criador, pois ele sempre foi muito presente.” “Pra mim ele era o misterioso dono do bar, meio inacessível, meio gangsta, que ficava lá no fundo bebendo seu drink, fisgando as gatinhas e contando a grana”, complementa o diretor da rádio web minima.fm Leo Felipe, que também iniciou a vida noturna no local. “Foi o primeiro clube que frequentei — e onde vivi intensamente a cultura. A primeira vez que entrei naquele inferninho subterrâneo foi em 1989, tinha 17 anos. Dançava os sets do DJ Gaudêncio Orso, temperados com muito house e tecnopop.” Leo, inclusive, foi o dono de outro reduto histórico da cidade, o Garagem Hermética: “quando abri o Garagem, em 1992, o foco era mais o rock, mas o clima de liberdade e hedonismo que tanto marcou a casa foi herança de meu aprendizado nas pistas do FDS”.

“Noites de glória que certamente não mais saíram da lembrança de quem esteve lá”, retoma JZK, sem medir palavras sobre a importância histórica do empreendimento de Freitas. Para o DJ, o ápice foi a fase anterior à virada do milênio, antes da mudança de nome para NEO, “tendo o sincronismo do boom da musica eletrônica no mundo. Era o verdadeiro club da música eletrônica underground. A assiduidade dos frequentadores era tanta que estes passaram a ser grandes amigos e por fim tornaram-se uma família, que tem vínculos até hoje em dia”.

JZK continua: “o Fim de Século transpôs a simples representatividade de um club, ele se tornou uma lenda e um ícone na história da noite do RS e inserido dentro do contexto nacional. Por lá passaram inúmeros DJs internacionais, nacionais e locais que vieram a se tornar grandes nomes do cenário brasileiro”. Nomes como Fabrício Peçanha e Eduardo Herrera são os mais notáveis, mas outros bons DJs, menos conhecidos, também começaram ali, como o nosso colaborador do LOFT55Rafael Malhão: “acredito que foi a época mais democrática da cena clubber na cidade. Você encontrava desde o punk até a aspirante à modelo internacional que voltava de Nova Iorque. Nesse espectro, você tinha skatistas, clubbers, galera do rap, do jiu jitsu, da periferia… E góticos. Muitos góticos! Tinha noites de trance, house, techno e drum’n’bass, enquanto que no Deep Bar [pista subterrânea] rolava desde James Brown e trip hop até Prodigy, Chemical Brothers e Madonna”.

Os irmãos Luciano e Daniel Araújo tocando em um after da Fusion, em 1999

Sócio de Malhão na festa WAX, o DJ Apoena também aponta a sua formação no FDS como crucial: “sempre que eu penso em como um club deveria ser, ainda tenho ele como modelo. Minhas memórias do FDS no fim dos anos 1990 influenciam muito minha linha de som como DJ até hoje, em termos do que eu tento fazer com a pista”.

Apoena chegou a integrar a crew da Fusion, festa fundada na cidade de Canoas [Grande Porto Alegre] em 1996 que também teve seu espaço no Fim de Século/NEO. Ele segue relatando como a casa incorporava perfeitamente os valores da cultura de pista: “o club representava outro tipo de vida. Era como passar por um portal e testemunhar outro mundo. Não só pelo óbvio choque cultural de estar num ambiente que respeitava os homossexuais, mas também por causa da música eletrônica, que era algo bem menos comum que hoje, e que incitava no público um comportamento atípico na noite de Porto Alegre. Dançar sem fazer rodinhas, sozinho ou acompanhado, vestido de qualquer jeito. Era um ambiente alternativo de verdade”.

A casa ficou marcada não apenas por incorporar os valores fundados no Loft de David Mancuso, na Nova Iorque dos anos 1970, mas também por ter sido um reduto das mentes criativas de Porto Alegre. “Aberto a todas as propostas, [o FDS] abrigou imediatamente uma porção de jovens inovadores, criativos e iniciantes. Famosos ou não, artistas ou não; o público que frequentou os primeiros anos do Fim de Século parecia unido pelo desejo de mudança, pela necessidade de inovação, por uma sede mordaz de criação. […] Teatreiros imediatamente adotaram o Fim de Século como um de seus templos. E lá também fizeram seus sketches, performances e mesmo peças”, escreveram Marcus Vinícius Brasil e Renata Macedo em excelente matéria de 2005 para o extinto portal Rraurl. Com tamanha vocação criativa, fica claro que o FDS foi para POA o que o Madame Satã — do qual abordamos em entrevista recente com o DJ Magal — foi para São Paulo.

A proposta do FDS era claramente priorizar o novo, andando no mesmo passo das subculturas metropolitanas — algo quase impensável para a Porto Alegre conservadora de hoje, onde predomina a zona de conforto dos hits já conhecidos. “O Fim de Século reuniu pessoas que estavam olhando definitivamente pra fora. Não preciso explicar muito sobre como isso é importante numa cidade marginal como Porto Alegre”, complementa Dani Hyde.

https://www.youtube.com/watch?v=mkYoJKM5yic

Em 2007, último ano do club, rolou festa de 20 anos de Fim de Século na NEO, com alguns dos principais DJs da casa, como Fabrício Peçanha e Mozart 

Se Porto Alegre já teve uma efervescente cena underground criativa centrada em dance music, o que teria levado a cidade ao retrocesso? Dani teoriza que “não existia uma comunidade digital ainda. Era necessário trocar figurinha e mixtapes pessoalmente. [Quando] o Fim de Século terminou, esse grupo se desarticulou. Alguns seguiram suas próprias iniciativas e continuaram fazendo noite, mas já era diferente. Assim como a falta de informação via digital fomentou essa cena, a formação da comunidade digital conseguiu desestruturá-la. Não precisávamos mais da ‘congregação’, da ‘igrejinha’. Bom, alguns ainda precisavam, eu precisava. Mas mudou tudo”.

A produtora de eventos Lucia Dutra, que também descobriu sua vocação no Fim de Século e que também o enxergava como um único templo para diferentes pessoas, ajuda a compreender: “o mais legal de tudo era que todos se conheciam; público, promoters, galera da bilheteria e dos bares, chapeleiros, seguranças, DJs, gerente e donos. Saíamos pra tomar café da manhã na padaria da [avenida] Protásio [Alves] depois de fechar. Essa turma que contava o dinheiro pra entrar no FDS tem agora mais responsabilidades, tá mais velha. Agora todos são DJs, haja ego pra se trabalhar! O crescimento da cena trouxe ideias novas, públicos novos, interesses novos, área vip… Nem tudo isso é bom, ou tão ruim, o fato é que muda costumes”.

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Fotos de Dani Hyde no FDS, nos anos 1990

Teriam sido a cultura da ostentação e as armadilhas do ego — naturalmente antagonistas das subculturas dance genuínas — as maiores responsáveis pelo declínio da cultura DJ porto-alegrense? JZK vai ao encontro dessa ideia, lembrando que a explosão da música eletrônica fez com que ela fosse sugada pela cultura de massa. “A futilidade desses ambientes impregnou a música eletrônica, que passou a ser mais comercial, mas sempre tivemos clubs underground que faziam o balanço com os clubs mainstream. Com o fechamento do FDS e da Spin — esta casa já com um conceito um pouco mais elitizado do underground —, a cidade perdeu seus lugares de música eletrônica mais alternativa e conceitual”.

Restou a Porto Alegre uma lacuna muito grande, que talvez só outro novo club possa vir a preencher, para renovar e oxigenar a cultura de pista a uma nova geração de clubbers; para impulsionar novos JZKs, Double S e Peçanhas, além, é claro, de novas Lucias. Double, porém, é cético a respeito: “atualmente, não sei se Porto Alegre comportaria um Fim de Século, pois a música mudou, o comportamento das pessoas mudou… Está tudo tão segmentado, e o FDS era totalmente o oposto disso tudo”.

É certo que algo como foi o Fim de Século/NEO jamais se repetiria exatamente como foi, mas por que não acreditar em um novo templo da dance music local? De qualquer forma, o que se passou com essas pessoas e o trabalho de Sílvio Freitas não podem ser esquecidos; a morte do grande dono, contudo, pode ser interpretada como o fim definitivo de um ciclo.

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Pista da NEO vista de cima, em 2006

“O Sílvio deixa a paixão dele. Um cara que sempre acreditou nas novidades, sempre abriu portas para novos produtores e DJs. Ele lutou até o fim contra os órgãos públicos que fecharam a NEO sem medir esforços”, finaliza Double S. JZK apoia: “ele nos deixou um grande legado, e deixou vários discípulos e amigos por aqui, que irão espalhar o seu entusiasmo e amor pela música e pela noite”.

Apoena alega que, “na última vez que vi o Sílvio, já tem uns anos, ele ainda falava em reabrir o club. ‘Estou reabrindo minha casa’, ele dizia. Explicava que havia problemas legais por processos dos vizinhos”. Infelizmente, esse foi um sonho que Freitas não pôde realizar. Terá Porto Alegre um novo herói para bater no peito e assumir essa bronca, ou restarão à cultura DJ da cidade apenas as fotos do passado?