As duas principais tendências da cena eletrônica brasileira para 2020

Sócios na Spotlight Management, Pedro Lemos e Thiago Becker escrevem sobre os dois movimentos que devem dominar o mercado no próximo ano

Festa de aniversário de Marcelo Arditti no Air Rooftop teve uma atração para cada uma das tendências citadas neste artigo. Foto: Thiago Xavier (Image Dealers)/Divulgação.

* Por Pedro Lemos e Thiago Becker

** Edição e revisão: Flávio Lerner

No Brasil, o setor nacional da música eletrônica cresce consideravelmente a cada ano. Com a popularização do streaming, o gênero expandiu e passou a dividir protagonismo com outros estilos.

Devido à ampla diversidade, os brasileiros são adeptos a novas ideias. O mercado se tornou mais atrativo e os artistas se aproveitaram desse artifício para implantar suas próprias tendências musicais.

Com mais de sete anos de envolvimento profissional com a música eletrônica, Pedro Lemos e Thiago Becker são sócios-fundadores da Spotlight Management, empresa que gerencia a carreira de artistas no segmento.

Com uma extensa experiência, ambos já atuaram como palestrantes sobre aspectos e conceitos importantes relativos ao agenciamento artístico no Brasil.

A convite da Phouse, os dois analisaram e arriscaram seus palpites do que poderá ser tendência na cena eletrônica nacional para o próximo ano, de acordo com suas experiências profissionais.

PARTE 1: A evolução do tech house para o progressive house (por Pedro Lemos)

Vou direto ao ponto: meu palpite de tendência para o ano de 2020 é a nova fase do progressive house. Mas antes de expor as justificativas e razões da minha previsão, é preciso relembrar alguns fatos que me levaram a crer nisso.

Em meados de 2017, dois projetos gringos chamaram a atenção da cena eletrônica mundial. FISHER, com a track “Stop It” e o característico “horn” em seu drop, mostrou ao mercado uma roupagem mais comercial ao tech house.

Lembro-me que o primeiro contato que tive com a “Stop It”, foi através de um vídeo no Facebook do FISHER, durante sua apresentação no Dirtybird Campout 2017. A reação do público na pista foi o grande diferencial para que pouco depois, esse vídeo viesse a viralizar entre os DJs e produtores brasileiros.

MOVING UP AND DOWN SIDE TO SIDE LIKE A ROLLER COASTER !!! What a sick weekend with Dirtybird Campout EVERYONE WAS GOING BANANAS 🍌 Loved hanging with everyone to all the new people I met and to all my GANG 👌📽 @bretoncarasso #stopit #yakidding Dirtybird Records

Posted by Follow The Fish on Thursday, October 12, 2017

Por sua vez, o duo CamelPhat, com “Cola” — em colaboração com Elderbrook —, apostou em um vocal que podemos denominar “chiclete de ouvido”, dando origem a um tech house mais melódico.

Como entusiasta do house e do “tradicional” tech house, sempre acompanhei os lançamentos da saudosa Defected Records, referência nos gêneros. Certamente a “Cola” foi um ponto fora da curva no catálogo do selo e seus números não me deixam mentir: foi um sucesso absoluto.

Rapidamente os artistas brasileiros ligaram seus radares ao que já era tendência lá fora. Não só incluíram músicas como a “Stop It” e “Cola” em suas apresentações, como também inspiraram suas produções nos sucessos de FISHER e CamelPhat, causando um “surto” de produções com essa nova roupagem.

A título de exemplo, o duo Evokings, com o single “You Say” — uma releitura de “Let Me Think About It”, de Ida Corr e Fedde Le Grand —, foi um dos primeiros projetos a implantar essa tendência (até então) com sucesso em terras tupiniquins.

Era só o começo das produções nacionais trazendo muita semelhança com as sonoridades apresentadas por FISHER e CamelPhat. Em 2018, poucos meses depois do sucesso de “Cola”, seus criadores foram indicados ao Grammy, na categoria de melhor gravação dance — um marco para a música eletrônica mundial.

FISHER, por sua vez, havia recém lançado a track “Losing It”. Sucesso absoluto nos quatro cantos do mundo. Raros eram as pistas, charts e playlists que não foram submetidos ao efeito “I’m losing it”. Fato engraçado é que o ator global Chris Hemsworth (Thor, no universo cinematográfico Marvel) chegou a fazer um vídeo em suas redes sociais dançando ao som do single — sinal de que ela foi um sucesso até em Asgard (risos).

Logo, esses são os fatores que representam o termômetro ideal do que foi a consolidação do tech house “comercial” na cena eletrônica mundial. Com uma grande expectativa e todos os holofotes voltados para si, CamelPhat lançou a track “Panic Room” — com vocal de Au/Ra e vários elementos intrínsecos da “Cola”.

Ainda era algo novo no mainstream, diferente do tech house padrão. Não à toa que à época, surgiram questionamentos plausíveis quanto a definição de gênero: afinal, “Panic Room” é tech house melódico e progressivo ou progressive house?

Para mim, sempre foi progressive — concordem ou não. Contudo, é importante deixar claro que, assim como diversas outras sonoridades, nem mesmo os próprios produtores se sentem confortáveis na hora de rotular seus sons.

Vez ou outra surgem diferentes termos para definir uma “nova vertente” musical, mas independentemente disso, fato é que o progressive house e o tech house “comercial” viraram febre no mundo inteiro, e no Brasil não foi diferente.

A primeira edição da elrow em São Paulo foi um dos primeiros eventos a confirmar a apresentação de CamelPhat no Brasil — com um long set de três horas. O australiano FISHER, logo depois veio a ser confirmado para apresentações na Só Track Boa e no Lollapalooza.

Com o “novo” estilo praticamente consolidado em terras brasileiras, eis que surge o grande diferencial: Vintage Culture. O astro da cena eletrônica nacional surpreendeu a todos com o lançamento de “Pour Over” — em colaboração com Adam K.

Lembro-me como se fosse ontem quando Lukas Ruiz me mostrou essa música em seu estúdio e pediu minha opinião: fiquei boquiaberto, afinal era algo totalmente diferente da linha de som que ele vinha produzindo.

Cerca de três meses depois, o single saiu pela Spinnin’ Records e se tornou um sucesso absoluto nas rádios e plataformas de música. Inclusive, foi reproduzida algumas vezes na novela das nove da Rede Globo, O Sétimo Guardião, mesmo sem fazer parte da trilha sonora.

Com o sucesso da faixa nas chamadas “vias tradicionais”, era de se esperar um pack de remixes voltado para as pistas de dança. Eis que o duo Fancy Inc surge no radar. Enquanto a maioria dos produtores brasileiros produziam o tech house “comercial”, inspirados na sonoridade de FISHER, Fancy Inc seguiu na contramão e produziu uma versão inspirada em “Panic Room”, de CamelPhat. Foi o melhor remix do pacote.

Em suma, a produção do duo curitibano não só agradou aos meus ouvidos, já que pouco depois vieram a ser apadrinhados pelo próprio Vintage Culture com a colaboração em “My Girl” — uma releitura do clássico “Party All The Time”, escrito pela lenda Rick James e interpretado por Eddie Murphy.

“My Girl” trouxe uma roupagem que mescla o tech house “comercial” aliado à batida envolvente, melódica e progressiva do CamelPhat. Por sua vez, “In The Dark” — a segunda e mais recente colaboração de Vintage e Fancy Inc — já era um sucesso absoluto mundo afora mesmo antes de ser lançada pela Spinnin’.

“In The Dark” esteve no chart “Trending Tracks”, do 1001Tracklists, sendo uma das músicas mais tocadas dentre os 50 podcasts (“DJ & radio shows”) mais acessados na plataforma — o que fundamentou perfeitamente a minha previsão.

Acredito que as músicas brazucas como “Pour Over”, “My Girl” e “In The Dark”, encabeçadas por um dos principais nomes do cenário nacional, representam uma transição sonora extremamente orgânica das produções brasileiras, cravando de uma vez por todas esse novo progressive house como uma tendência musical para 2020.

Vale lembrar que em 2017, o extinto projeto maringaense VOV vinha produzindo uma mescla dessas sonoridades apresentadas por FISHER e CamelPhat. O Brasil vivia a transição do brazilian bass para o low bass, e os caras acabaram rompendo a parceria no ano seguinte, dando espaço para o surgimento de Vicentini, ex-VOV.

Vicentini tem diversas faixas em colaboração com os artistas Antdot e MECA. Dos nomes intermediários no segmento, são os mais promissores dessa nova pegada. Já na cena underground, artistas como André Gazolla, MAZ, ZAC e Coppola há anos produzem sons semelhantes a essa nova tendência, e podem sair das sombras para surfarem no mainstream.

Nomes que indico para ficar de olho: Fancy Inc, Meca, Maz, Antdot, ZAC, Korvo, Vicentini, Thomaz Krauze, André Gazolla e Coppola.

PARTE 2: O tal do desande (por Thiago Becker)

Desande: O que come? Onde vive? Como se reproduz? Parece uma chamada para o Globo Repórter, mas calma: até o final deste artigo, tentaremos juntos desmistificar o tal do desande (risos).

Considerado por muitos uma nova vertente e por outros apenas uma expressão, o desande é uma das principais tendências para o próximo ano na cena eletrônica nacional. Todavia, antes de darmos continuidade à minha análise, é preciso esclarecermos o real significado da expressão.

De acordo com o dicionário, “desande” vem do verbo “desandar”, que significa “fazer andar para trás ou em sentido contrário ao que seguia ou deveria seguir”. Uma definição plausível, mas levando em consideração o contexto que estamos inseridos, você deve estar se perguntando: o que o desande tem a ver com a música eletrônica?

Em pesquisa rápida pela internet, é possível verificar que o desande é uma expressão muito utilizada em forma de gíria por populares no Centro-Oeste do país, em especial na cidade de Goiânia. Informalmente, como gíria, o significado da expressão seria algo como “passear, dar um rolê ou uma volta”.

Porém, o ILLUSIONIZE, em entrevista recente ao site DJ Sound, explicou que as pessoas chamavam de desande as festas em que ele costumava se apresentar no início da sua carreira como DJ. Logo, isso explica muita coisa, afinal, a capital goiana é a cidade natal de Pedro Mendes, além de outros artistas, como Victor Lou e Visage, que também são precursores da expressão no cenário eletrônico nacional.

No entanto, a grande maioria dos fãs tem se utilizado do termo para descrever músicas que podem ou estão fazendo sucesso nas pistas de dança. Seguindo os passos do público, o ILLUSIONIZE resolveu entrar na onda. Prova disso é a track nomeada “Desande”, em uma clara alusão à gíria goiana.

O vocal com pitch baixo é uma das características mais marcantes, além das percussões, que ajudaram muito na construção da faixa, deixando o som bem menos repetitivo do que ele tendia a ser (ouça acima).

“Untitled”, do Victor Lou, também é muito aclamada pelo público. O grande diferencial fica para o bass em várias camadas e a percussão usada como lead. A construção da track, de um modo geral, segue uma linha menos repetitiva, causando o “Untitled effect” nas pistas de dança de todo o Brasil.

Para o público, há outras músicas consideradas hinos do desande: “Work” e “Fé”, produzidas pelo trio goiano (ILLUSIONIZE, Victor Lou e Visage), são músicas praticamente garantidas em qualquer festa de norte a sul do Brasil. “The Underground”, do Flux Zone, também foi uma agradável surpresa para os amantes do movimento.

Feitas essas análises, o fato de eu considerar o desande uma tendência de mercado não necessariamente significa dizer que eu o considere como uma nova vertente musical. Eu diria que o desande é uma adaptação brazuca do tech house com o bass house — ou seja, com uma base rítmica muito mais forte e influências em outras vertentes, como drum’n’bass, electro house e trap, podendo haver grande mesclagem com o hip-hop.

Seguindo essa linha de raciocínio, outros artistas, como Breaking Beattz e Almanac — apesar de não considerarem suas produções como desande —, acabam incluídos pelo público nesse movimento dirigido pela turma do pequi.

Entretanto, discordem ou não, a expressão desande só se encaixa para um determinado grupo de artistas que, ao longo do tempo, conseguiu associar a estética audível de suas produções com o estilo de vida exposto nas redes sociais.

O modo de falar com os fãs e a expressão corporal durante as apresentações, aliados às roupas e aos acessórios “hype”, são pontos consideráveis para a construção de uma persona que se associa muito bem ao movimento.

A título de exemplo, situação semelhante aconteceu pelos idos de 2012, com a propagação do gangsta house no Brasil, encabeçados por Amine Edge & DANCE. Àquela época, para se enquadrar no nicho de artistas que guarneciam o rótulo de “gangsta”, havia a necessidade de uma associação com a sonoridade, o comportamento e a estética do hip-hop oitentista dos Estados Unidos.

Contudo, não desmerecendo aqueles que defendem o contrário, é completamente compreensível a definição de desande como uma nova vertente, considerando o constante crescimento do mercado. É cada vez mais comum dar de cara com novas sonoridades, e a busca por criar e se enquadrar em diferentes rótulos é um processo automático e natural.

Vivemos um momento intenso de valorização do que é feito no Brasil. Nossos produtores estão sendo acompanhados e reconhecidos por aquilo que eles mesmos implantaram e defenderam como sonoridade, como é o caso do desande.

Uma simples expressão que há poucos meses era regionalizada, hoje é febre por todo o país, conquistando cada vez mais adeptos a esse movimento e justificando a minha escolha de tendência para o próximo ano.

Nomes que indico para ficar de olho: Almanac, Flux Zone, Gommez, Hoost e Gloovez.

O catalisador de tendências

Previsões realizadas, só nos resta esperar pelo próximo ano para sabermos se tivemos êxito em nossas análises. Contudo, é importante destacarmos que a maior e mais impactante vertente de tendências dos últimos tempos foi a união da música com a inteligência artificial.

Afinal, foi graças aos algoritmos — cada vez mais presentes em nossas vidas através das plataformas de streaming e das redes sociais — que conseguimos conhecer artistas e sonoridades diferentes, sem causar estranhamento, recebendo músicas com proximidade do que já estamos acostumados a ouvir.

Foi através dessa matemática exponencial, realizada com mais e mais precisão pela inteligência dos computadores, que estilos como brazilian bass e low bass explodiram no passado. E é assim, acreditamos, que vai rolar com o desande e o “novo” progressive house. Na verdade, já está acontecendo.

Vintage Culture apareceu de surpresa no início da festa e mandou um B2B com o Meca

No último dia 25, foi realizada no belo Air Rooftop (que ilustra a foto de capa deste artigo), em São Paulo, a festa de aniversário do Marcelo Arditti, big boss da agência Entourage. O lineup era composto por Meca, Victor Lou e o próprio aniversariante, com o projeto RDT — ou seja, um dos principais players do mercado da música eletrônica brasileiro chamou duas atrações que estão entre os nomes recomendados por nós para celebrar o seu aniversário, na capital mais cosmopolita do país.

Esse evento foi mais um grande exemplo de que as tendências citadas acima já são uma realidade no país.

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