Um convite ao boicote: nós precisamos parar de dar moral pro Top 100 da DJ Mag

O ranking não é apenas uma bobagem, é a parte mais sórdida e nociva da indústria EDM.

* Este texto corresponde à visão do colunista Flávio Lerner, e as ideias aqui contidas são de inteira responsabilidade do autor.

Cientistas fizeram um experimento recente com algumas cobaias da peculiar espécie humana e descobriram que seres humanos são tarados por três coisas: fofocas, cartões de crédito e rankings. Competir, de fato, faz parte da nossa natureza, e junto com a vontade de reclamar de trivialidades no Facebook, é um dos nossos instintos mais viscerais. É por isso as pessoas dão importância épica a campeonatos de pontos corridos, moleques fazem duelos de mijo à distância e coroas impotentes sexualmente investem  em carros esportivos. É por isso também que adoramos listas; você pode não ter lido ou ouvido nada durante o ano, mas vai querer ver todas as porras das listas anuais de melhores discos e músicas — isso sem nem falar nos famigerados “23 sinais de que você tem louça pra lavar” e etc.

Essas listas são os posts que mais atraem cliques, e também haterismo. Mesmo tão odiadas, as pessoas não resistem a continuar alimentando esse ciclo obsessivo de catalogar a arte entre piores e melhores, como se ela não fosse algo subjetivo — diferentemente dos esportes, em que os campeonatos definem o time mais forte, mais bem treinado ou que melhor paga suborno à arbitragem. Se faz sentido premiar o melhor time ou jogador de futebol do mundo, não podemos dizer a mesma coisa quanto à música, que dispõe de incontáveis artistas com os mais diversos estilos, propostas e públicos; como muito bem pontuaram os caras do Elekfantz quando os entrevistei aqui pra Phouse, “música não é competição”. Não é possível colocar no mesmo saco um Arcade Fire e um Justin Bieber ou um MC Guimê e um Coral dos Meninos de Viena, assim como um Eric Prydz e um Borgore — e, vejam só, estes dois estão classificados no mesmo Top 100 da DJ Mag.

Não bastasse um ranking entre artistas diferentes ser descabível, essa lista tem problemas muito mais graves do que um Grammy, um Oscar ou um “Melhores do Ano” do Resident Advisor — que, mesmo controversos, têm o seu valor. Primeiro, o voto pro poll da DJ Mag é popular, o que já a deslegitima. O público é fã, não crítico, e vai fazer de tudo para eleger o seu artista favorito. Se o ranking se chamasse “o DJ mais popular do mundo”, seria aceitável, mas a revista tem motivos claros para não chamar as coisas pelo nome adequado.

Sendo o voto popular, inúmeros artistas [muitas vezes representados por grandes empresas] recorrem a práticas de marketing agressivas e antiéticas para obter seus votos. Não apenas investem uma grana pesada em mídias sociais, mas contratam equipes que, com seus iPads, ficam circulando nas ruas e nos grandes festivais pedindo votos aos transeuntes. Meses antes do Dimitri Vegas & Like Mike ser anunciado como o #1, o YourEdm já havia apresentado relatos de o duo estar utilizando tais métodos, chegando a uma triste conclusão: quem quer que esteja nas primeiras posições, provavelmente terá pago muito dinheiro para isso.

Assim, uma lista que seria somente uma piada torna-se uma piada suja e de mau gosto — e o que é pior, com o nosso aval! Todo esse dinheiro é investido porque esses artistas e seus representantes sabem o retorno que o Top 100 dá. A DJ Mag não clama premiar “os cem melhores DJs do mundo” apenas por pretensão ou sensacionalismo, mas porque as pessoas são tão estúpidas que compram essa ideia. Basta ler em um grande veículo, de expo$ição gigante, que o Dimitri Vegas & Like Mike são os melhores do mundo, que a autoridade que esses caras ganham com isso aumenta absurdamente — o que, por sua vez, culminará em mais exposição, mais gigs e ingressos mais caros. Não haveria investimento tão pesado para estar no topo do ranking se ele não fosse lucrativo, e é lucrativo para quem paga e para quem compra. Esse é o lado mais sórdido da indústria EDM; o lado ao qual o Laidback Luke se refere em artigo à Billboard denunciando práticas de jabá; o lado que coopta as boas intenções dos fãs para apenas gerar grana e, como disse o Seth Troxler, não dar nada em troca — nada além de uma lista cretina para saciar a nossa tara desvairada por rankings.

Quanto mais damos atenção, mais autoridade — e consequentemente lucro — estamos conferindo a esse circo. O lado bom é ver que grandes nomes têm se recusado a dar credibilidade ao poll, de Kaskade a Gareth Emery — este, ao denunciar uma proposta indecente de uma agência publicitária, pediu para os fãs não votarem nele e ainda lançou um “ranking” para doar a instituições de caridade uma quantia equivalente ao que DJs gastam para estar no Top 100. Golaço!

O que nos cabe, como fãs, artistas ou comunicadores, é boicotar toda essa atividade que só desvia a música para movimentar quantias exorbitantes de dinheiro. Não votar, não acessar, não comentar sobre e não dar moral pra lista da DJ Mag, até que ela perca seu valor e se torne obsoleta. Canais como a própria Phouse estão sempre preocupados em trazer o conteúdo que é relevante aos seus leitores, e provavelmente só vão parar de falar nesse tipo de listas ou na mais nova treta do deadmau5 quando as pessoas pararem de dar bola pra esse tipo de coisa. Há de se ressaltar aqui a coragem do portal em me dar toda a liberdade editorial para eu escrever artigos como este, sem nenhuma censura.

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