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Um mal necessário chamado cooptação

Flávio Lerner

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Reality show de Simon Cowell é um bom exemplo do fenômeno que explica a exploração mercadológica de determinado estilo de vida

Qual o fã que nunca passou pela sensação de revolta ao sentir que “estão roubando” o seu estilo ou artista preferido? Sobretudo na adolescência, em uma fase em que somos tão maduros quanto bananas verdes, é normal ficarmos putos da cara quando aquele gênero que a gente sacou antes de todo mundo e passou a definir o nosso caráter começa a atingir um sucesso cada vez maior, fazendo com que aquele pessoal palha que vivia nos zoando no colégio de repente se apropriasse do nosso segredinho.

A falta de maturidade juvenil, contudo, não basta para explicar esse fenômeno. Parece razoável, mesmo pra caras barbados e moças feitas, certa indignação quando aquilo que a gente acredita começa a gradualmente perder os seus valores. A maturidade, nesse caso, vem com o entendimento de que esse fenômeno específico, chamado cooptação, é absolutamente natural e, pior, é necessário.

Estamos cada vez mais perto de termos a estreia do “Ultimate DJ”, o reality show de DJs do Simon Cowell, e esse talvez seja um dos mais novos exemplos de cooptação da dance music que podemos observar — tendo em vista que ele faz parte de uma cooptação maior, que é a própria EDM. Duvida? Então vamos lembrar que a cultura DJ, grosso modo, começou em uma Nova Iorque dos anos 1970 a partir da disco music, que nada mais era do que um grito de liberdade de negros e homossexuais, que tinham direitos negados pelo Estado. Assim como a disco saiu desse gueto alternativo e se popularizou globalmente, a EDM é o ápice da popularidade da música eletrônica de pista, agregando a ela um valor de mercado jamais imaginado nas décadas anteriores. Para isso, evidentemente, ela teve que se adaptar às convenções sociais vigentes, sacrificando, então, boa parte da sua profundidade, omitindo o seu discurso político de rebelião e fazendo um som muito, mas muito mais acessível — o que não é necessariamente ruim. Aliás, uma provocação: você consegue pensar em algum DJ da EDM negro ou assumidamente gay?

Simon Cowell, esperto que é, é mais um a mamar das tetas dessa fonte gigantesca de dinheiro. Agora, pense nas cenas musicais que você apreciou ao longo da vida: quais delas não passaram por essa exploração e venda a um mercado maior? O rock? O hip hop? O samba? O funk? O indie? E quer um exemplo melhor de cooptação do que a do estilo de vida punk, que surgiu como uma crítica visceral à sociedade e acabou virando produto embalado em boutiques de grife? Do modo como o nosso mundo ocidental e capitalista funciona, essas subculturas têm apenas dois caminhos: crescer e se permitirem ser sugadas pelo mercado e pela cultura de massa, tornando-se um produto palatável e inofensivo, ou morrer em si mesmas. O punk, o rock, o indie, o rap e agora a música eletrônica só não teriam sido cooptados se não tivessem feito sucesso consistente em seus nichos, e ali teriam suas trajetórias encerradas. Tendo êxito em uma amostra menor, o mercado naturalmente entende o potencial dessas subculturas para públicos maiores, e aí faz a sua mágica.

Claro, a gente segue tendo dificuldade em explicar pros nossos tios que a disco é muito mais que Abba e Village People, ou que o nosso trabalho como DJ não se resume a ser um bocó pulando no palco com a língua pra fora animando festinhas. As boas notícias são que: [1] cada cooptação tem vida curta — o marketing suga um estilo de vida até o talo e depois parte pra outra; [2] os pioneiros, os valores e a arte genuínos são eternos; e [3] um mercado pop forte desenvolve, como reação natural, um underground mais forte.

Por essas e outras, podem vir Simon, Zac Efron ou o Beatport, que insiste em catalogar tracks deprês e sem groove de nu disco; não importa, o que é de verdade transcende modismos.

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DJ Marky leva sua festa Influences para novo espaço cultural em SP

Flávio Lerner

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Tokyo
Foto: Reprodução
Inaugurado em maio, o Tokyo ocupa um prédio de nove andares com diversas atividades

Nesta sexta-feira, 18, o lendário DJ Marky estreia um novo ambiente para sua já tradicional Influences, noite em que usa toda sua técnica nos decks para passear pelas músicas que moldaram seu caráter musical — da música brasileira, passando pela disco, soul, funk e jazz à house music e ao drum’n’bass, sobretudo em discos antigos e raros, que o DJ vem colecionando em países como Japão, Portugal, Austrália e Inglaterra.

No ano passado, quando o entrevistei, o Marky falou sobre o conceito da Influences: “É uma festa em que toco todos os estilos que foram essenciais na minha carreira. É mais do que uma noite, é uma aula. As pessoas têm que ir com a cabeça aberta. E direto recebo vários DJs, justamente porque é uma noite diferente, que falta no circuito, já que a maioria das noites é só o mesmo estilo de música”.

Em 2014, o DJ Marky mandou um set de influências no Boiler Room

A festa, que nasceu no Vegas e depois mudou para o Pan-Am, será hoje no Tokyo, espaço cultural e gastronômico inaugurado neste mês no centro da capital. Longe do conceito tradicional de casa noturna, o Tokyo ocupa um prédio inteiro de nove andares na Rua Major Sartório; os andares reúnem karokê, bar, restaurante, instalações e oficinais de economia criativa durante o dia. Na cobertura, uma pista de dança com vista para o Copan e o Edifício Itália — e é nela que Marky comandará a noite, a partir das 23h.

A ideia da Influences, que teve sua última edição realizada em março de 2017, é voltar a fixar uma periodicidade a cada um mês e meio, quando o artista está no Brasil. Apesar de as possibilidades serem boas, o Tokyo ainda não está confirmada como nova casa oficial da festa. Você pode conferir mais detalhes da noite de hoje na página do evento.

Vídeo promocional revela mais detalhes do funcionamento do Tokyo

Flávio Lerner é editor da Phouse.

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Parceria entre Boiler Room e Ballantine’s retorna ao Brasil em novo projeto

Flávio Lerner

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Boiler Room São Paulo
Foto: Reprodução
Série “Hybrid Sounds” mescla artistas eletrônicos com nomes orgânicos 

Juntos há cinco anos, Boiler Room e a marca de uísque Ballantine’s já montaram projetos ousados e incríveis no cenário musical. A partir de 2016, a união foi ainda mais longe com o lançamento da série Stay True, que visitava diversos países com lineups cuidadosamente curados para celebrar a cultura de cada nacionalidade. Naquele ano, tivemos nada menos que o Boiler Room Stay True Brazil — o lendário Boiler Room de Recife, que fez história em nosso país. Em 2017, a parceria voltou rebatizada como True Music, trazendo nomes como Seth Troxler e Little Louie Vega a Salvador, junto a expoentes brazucas como Fatnotronic e Renato Ratier, e agora, em 2018, a Stay True traz seu novo projeto, Hybrid Sounds, para São Paulo.

A proposta da Hybrid Sounds é trazer lives inéditos e inesperados, colocando no mesmo palco artistas de música eletrônica com projetos acústicos, que provavelmente nunca se encontrariam em outra oportunidade. Em SP, isso será visto através do conceituado grupo do underground paulistano Teto Preto, que tocará em conjunto com a produtora berlinense rRoxymore. Expoente da Chicago house, Derrick Carter é o headliner do evento, enquanto a MC Linn da Quebrada e o cantor e compositor Tom Zé — um dos grandes nomes da música brasileira — completam o lineup.

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Em local ainda mantido em segredo, o Boiler Room True Music: Hybrids Sounds São Paulo rola no dia 23 de maio, uma quarta-feira, e terá transmissão ao vivo pela plataforma, como de praxe. O evento sucede as edições que rolaram em Moscou e em Beirut, no Líbano, e antecede a edição de Valência, na Espanha, que encerra o projeto. Ao final, um EP da série Hybrid Sounds será lançado, com faixas inéditas dos artistas que colaboraram em cada região (Teto Preto X rRoxymore em SP; Overmono X Solo Operator em Moscou; Dollkraut X Zeid & Maii em Beirut; e KiNK com um artista ainda não revelado, em Valência).

Para quem quer participar da festa, é necessário se inscrever no site e torcer para ganhar o convite por e-mail.

Flávio Lerner é editor da Phouse.

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Análise

O indie dance original respira com a volta do Friendly Fires

Flávio Lerner

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Friendly Fires
Foto: Reprodução
Depois de mais de seis anos sem lançamentos, o trio britânico que marcou os anos 2000 está de volta

Fundado em 2006, o trio britânico de dance-rock/indie danceFriendly Fires foi importantíssimo para uma guinada mais eletrônica e dançante à cena indie da década passada, que encontrava-se em sua era de ouro com a ascensão de bandas como The Killers, Franz Ferdinand, The Strokes e Bloc Party. Seu surgimento — somado à ascensão de grupos como Klaxons, Chromeo, Cut CopyMetronomy e o brasileiro Cansei de Ser Sexy — fez com que aquele cenário mais centrado nas guitarras passasse a ter um foco maior nos sintetizadores e nas batidas. O LCD Soundsystem não estava mais sozinho.

Comandando pelo carismático e rebolativo Ed Macfarlane — com suas dancinhas impagáveis ao vivo e nos videoclipes —, o Friendly Fires explodiu mesmo em 2008, com o primeiro e homônimo álbum, e desde então acumulou milhões de fãs no mundo inteiro. Nunca fizeram exatamente música eletrônica de pista, mas bebiam claramente de fontes como a house e o synth pop de grupos como New Order e Depeche Mode. E não só isso: a batida e a vibe ensolarada das músicas trazia muito da música brasileira. Singles como “Jump in the Pool” e “Kiss of Life” surgiram com fortes elementos de percussão de samba — e em 2008 e 2009, o grupo chegou a realizar apresentações em conjunto com uma escola de samba.

Em 2011, às vésperas do lançamento do segundo álbum, Pala, que se afastava ainda mais do indie rock, foram capa da conceituada revista inglesa NME, e tiveram a ousadia de dizer que preferiam escutar Justin Timberlake do que Morrissey — antigo líder do grupo The Smiths, que dominou a cena indie nos anos 80. Pra roqueiros britânicos que levam esse tipo de comparação muito a sério [o que, arrisco dizer, seja boa parte do público da revista], uma declaração do tipo soava como heresia.

O trio seguiu sua vida muito bem, obrigado. Pala também fez sucesso, e o FF seguiu apresentando-se em shows lotados no mundo inteiro nos próximos anos. Mas pararam de fazer música. Em 2014, deram um tempo de vez, e só foram voltar agora, quatro anos depois, com shows de retorno na Inglaterra realizados nas últimas semanas. E claro, novo single — o primeiro em mais de seis anos.

“Love Like Waves” foi lançada no último dia 05, e segue a linha do Friendly Fires que já estamos acostumados, sem grandes alterações na estrutura sonora. É uma canção boa e agradável, que resgata o saudosismo dos fãs e empolga pelas novas possibilidades, mas também não chega a ser dos melhores sons já feitos pelo trio.

Novos singles devem surgir nas próximas semanas, culminando, em breve, com o aguardadíssimo terceiro álbum. Se mantiver a qualidade dos LPs do passado, tem tudo para ser um dos grandes lançamentos de 2018.

Bóra relembrar outros grandes singles do grupo:

* Nota do Autor: Indie dance/nu disco, assim como progressive house e deep house, foi mais um dos estilos que caiu naquela salada de tags do Beatport, na década passada, e acabou passando a ser usado para se referir a uma sonoridade completamente diferente. Aqui, evidentemente, falo sobre o indie dance original, que vai de bandas como o Cut Copy a produtores como o Tensnake.

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