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Um mal necessário chamado cooptação

Flávio Lerner

Publicado em

28/05/2015 - 11:10

Reality show de Simon Cowell é um bom exemplo do fenômeno que explica a exploração mercadológica de determinado estilo de vida

Qual o fã que nunca passou pela sensação de revolta ao sentir que “estão roubando” o seu estilo ou artista preferido? Sobretudo na adolescência, em uma fase em que somos tão maduros quanto bananas verdes, é normal ficarmos putos da cara quando aquele gênero que a gente sacou antes de todo mundo e passou a definir o nosso caráter começa a atingir um sucesso cada vez maior, fazendo com que aquele pessoal palha que vivia nos zoando no colégio de repente se apropriasse do nosso segredinho.

A falta de maturidade juvenil, contudo, não basta para explicar esse fenômeno. Parece razoável, mesmo pra caras barbados e moças feitas, certa indignação quando aquilo que a gente acredita começa a gradualmente perder os seus valores. A maturidade, nesse caso, vem com o entendimento de que esse fenômeno específico, chamado cooptação, é absolutamente natural e, pior, é necessário.

Estamos cada vez mais perto de termos a estreia do “Ultimate DJ”, o reality show de DJs do Simon Cowell, e esse talvez seja um dos mais novos exemplos de cooptação da dance music que podemos observar — tendo em vista que ele faz parte de uma cooptação maior, que é a própria EDM. Duvida? Então vamos lembrar que a cultura DJ, grosso modo, começou em uma Nova Iorque dos anos 1970 a partir da disco music, que nada mais era do que um grito de liberdade de negros e homossexuais, que tinham direitos negados pelo Estado. Assim como a disco saiu desse gueto alternativo e se popularizou globalmente, a EDM é o ápice da popularidade da música eletrônica de pista, agregando a ela um valor de mercado jamais imaginado nas décadas anteriores. Para isso, evidentemente, ela teve que se adaptar às convenções sociais vigentes, sacrificando, então, boa parte da sua profundidade, omitindo o seu discurso político de rebelião e fazendo um som muito, mas muito mais acessível — o que não é necessariamente ruim. Aliás, uma provocação: você consegue pensar em algum DJ da EDM negro ou assumidamente gay?

Simon Cowell, esperto que é, é mais um a mamar das tetas dessa fonte gigantesca de dinheiro. Agora, pense nas cenas musicais que você apreciou ao longo da vida: quais delas não passaram por essa exploração e venda a um mercado maior? O rock? O hip hop? O samba? O funk? O indie? E quer um exemplo melhor de cooptação do que a do estilo de vida punk, que surgiu como uma crítica visceral à sociedade e acabou virando produto embalado em boutiques de grife? Do modo como o nosso mundo ocidental e capitalista funciona, essas subculturas têm apenas dois caminhos: crescer e se permitirem ser sugadas pelo mercado e pela cultura de massa, tornando-se um produto palatável e inofensivo, ou morrer em si mesmas. O punk, o rock, o indie, o rap e agora a música eletrônica só não teriam sido cooptados se não tivessem feito sucesso consistente em seus nichos, e ali teriam suas trajetórias encerradas. Tendo êxito em uma amostra menor, o mercado naturalmente entende o potencial dessas subculturas para públicos maiores, e aí faz a sua mágica.

Claro, a gente segue tendo dificuldade em explicar pros nossos tios que a disco é muito mais que Abba e Village People, ou que o nosso trabalho como DJ não se resume a ser um bocó pulando no palco com a língua pra fora animando festinhas. As boas notícias são que: [1] cada cooptação tem vida curta — o marketing suga um estilo de vida até o talo e depois parte pra outra; [2] os pioneiros, os valores e a arte genuínos são eternos; e [3] um mercado pop forte desenvolve, como reação natural, um underground mais forte.

Por essas e outras, podem vir Simon, Zac Efron ou o Beatport, que insiste em catalogar tracks deprês e sem groove de nu disco; não importa, o que é de verdade transcende modismos.

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LIFT OFF

Infected Mushroom brinda fãs com novo álbum cheio de energia

“Head of NASA and the 2 Amish Boys” segue a linha “raiz” do disco anterior

Nazen Carneiro

Publicado há

Infected Mushroom
Foto: Reprodução
* Edição e revisão: Flávio Lerner

Passadas duas décadas, o Infected Mushroom continua sendo o projeto de psytrance mais vendido do mundo. Em 2017, Return to the Sauce marcou o retorno da dupla às suas raízes, e agora o novo álbum — Head of NASA and the 2 Amish Boys, primeiro lançamento pela gravadora Monstercat — segue essa linha.

“Quase um ano e meio de trabalho foi aplicado na construção desse álbum. Acreditamos que o disco seja um marco em nossa carreira”, afirmaram Amit Duvdevani e Erez Elsen para a imprensa. A primeira faixa, “Bliss with Mushrooms”, tem dez minutos de puro psy, e é fruto de mais uma colaboração com Bliss. Na sequência, “Guitarmass” — como o nome já indica — traz a guitarra, marca registrada de ambos os artistas, além de plugins exclusivos dos “cogumelos infectados” a 145 BPM.

Dando nome ao álbum, “Head of NASA” tem uma atmosfera sci-fi e espacial, e está ligada a “uma brincadeira sobre alguns dos membros da nossa equipe, que acabou evoluindo para uma história complexa de ficção científica, que por sua vez levou a esse conceito espacial do álbum”, conforme a própria dupla revelou à Billboard Dance. Já “Chenchen Barvaz” faz referência aos timbres utilizados, que remetem aos grasnados dos patos (“barvaz” significa pato em hebraico).

Todas essas faixas estão tocando mundo afora, mas “Walking on the Moon” tem destaque especial. Inspirada no estilo brasileiro capitaneado por Alok, o brazilian bass — o que é abertamente admitido pela dupla —, o som contém uma estrutura forte, algo incomum para o Infected. Além disso, “Walking on the Moon” foi incluída no jogo Rocket League Vs Monstercat, o que trouxe novos ouvintes ao som do duo.

“Here We Go Go Go” traz melodias profundas — mesmo —, e segundo os artistas, se encaixa muito bem tanto no início quanto no final dos seus sets. Finalizando o álbum, uma track muito especial que mostra a diversidade e abertura da dupla para a experimentação. “Lost in Space” tem a colaboração do rapper israelense Tuna e da girl band A-WA, e combina três idiomas: inglês, hebraico e árabe. Mistura e inovação sem esquecer as raízes — a cara do Infected Mushroom!

Nazen Carneiro é colaborador da Phouse.

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Review

“Pedra Preta”, o 1º álbum do Teto Preto, é um grito de resistência

O celebrado grupo do underground paulistano mostra sua maturidade artística em seu primeiro full lenght

Alan Medeiros

Publicado há

Pedra Preta
Foto do clipe de "Pedra Preta": Reprodução/Facebook

Nos últimos anos, São Paulo se transformou em um caldeirão cultural com uma chama multicolorida a iluminar um mar de ideias brilhantes. Nesse cenário, diversas mentes criativas surgiram, mostraram a que vieram e se tornaram referência para uma série de iniciativas que passaram a pipocar pelo país. No olho desse furacão, exercendo posição de protagonismo, lá estava a Mamba Negra e, consequentemente, o Teto Preto.

A relação entre festa e grupo é intrínseca. O Teto Preto nasceu na pista da Mamba e obviamente foi criado por frequentadores e entusiastas da festa. Nesse processo, o grupo foi decisivo para construção do perfil sonoro que tanto marcou a Mamba Negra frente ao seu público. Muito além da música, estamos falando de arte em diferentes camadas — estamos falando de representatividade. A festa representa a banda, a banda representa a festa. Por sua vez, o público se sente fortemente representado por ambos.

Os primeiros trabalhos do Teto Preto foram lançados pelo selo da Mamba, o MAMBA rec, em 2016. O EP Gasolina foi prensado em vinil com duas faixas extremamente marcantes: “Já Deu Pra Sentir” e “Gasolina”. O resultado? Dois hits históricos para jornada do grupo. Na sequência, um hiato de dois anos até “Bate Mais”, single em antecipação ao Pedra Preta, primeiro álbum de estúdio completo da banda, que chegou às plataformas digitais neste mês com oito faixas, sendo sete originais e inéditas.

 

Pedra Preta reflete a atual maturidade artística de seus compositores, mas não deixa a chama da ousadia e irreverência se apagar. Novamente, não se trata apenas de música: Laura Diaz (Carneosso), Loic Koutana, Pedro Zopelar, Savio de Queiroz e William Bica promovem um grito de resistência ao longo de todas as faixas que formam o full lenght. A atmosfera densa do disco dita o ritmo de uma narrativa longa e inteligente, que aborda assuntos como a tragédia do Museu Nacional neste ano.

Por falar em “Pedra Preta”, vale ressaltar que a faixa-título do álbum também ganhou um clipe. Lançado ontem, 22, e com duração de mais de oito minutos, o vídeo dirigido por Rudá Cabral, Laura Diaz e Joana Leonzini traz um storytelling denso e aberto a interpretações, mas com uma clara crítica ao conservadorismo da sociedade brasileira e honrosa menção ao perfil de público da Mamba Negra — o trabalho foi coproduzido pela MAMBA rec em parceria com a Planalto. Sem dúvida alguma, Pedra Preta é uma vitória importante para a sobrevivência da cultura eletrônica de vanguarda no Brasil.

  

Alan Medeiros é colaborador da Phouse.

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ESPECIAL

Tha_guts e o som envolvente que rege o selo da Gop Tun

Produtor gaúcho é uma boa mostra do amadurecimento da Gop Tun Records

Alan Medeiros

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Gop Tun Records
Tha_guts. Foto: Divulgação

Neste mês de novembro, o coletivo paulistano Gop Tun celebrou seis anos de uma história construída muito em cima da seriedade com que o coletivo paulistano trata seus projetos artísticos, dentro e fora da pista. Referência na cena house/disco brasileira, o atual patamar do projeto permite que algumas de suas iniciativas sejam encaradas como formadoras de opinião.

Para isso, uma das principais ferramentas do núcleo é a Gop Tun Records, gravadora que possui um catálogo ainda enxuto em número de releases, mas que em 2018 e principalmente 2019, deve ser expandido através de uma intensificada no cronograma. Até então, cada ano tinha entre um e dois lançamentos. Neste ano, foi observado um aumento no fluxo, já que até aqui, três releases ganharam a luz do dia através da plataforma criada pelo coletivo paulistano.

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Atualmente, o time de artistas que compõe o quadro de lançamentos do selo é composto por residentes da Gop, por nomes de forte influência frente à indústria nacional (como Renato Cohen) e algumas mentes brilhantes de outras partes do mundo, como HNNY, Prins Thomas e Lauer.

Para os próximos meses, Bruno Protti (aka TYV) e Gui Scott, duas das cabeças pensantes da gravadora, contam que haverá uma expansão no time de artistas, com mais nomes brasileiros e sul-americanos entrando para o casting da label. Sem a pressão de obrigatoriamente pensar em vinil, a Gop Tun Records se mostra mais apta para apostas e ousadias em seu programa de lançamentos.

+ Um papo com os caras da Gop Tun, que estão trazendo o Dekmantel a São Paulo

O último EP da gravadora foi assinado pelo produtor gaúcho Tha_guts, um novo nome frente a geração atual de produtores brasileiros. Guto Pereira, mente por trás do projeto, entregou à Gop um release denso e repleto de referências distintas que se revelam ao longo das cinco faixas originais. O trabalho sucede Plastic Noise, disco que o revelou para o cenário da eletrônica brasileira. Após o full lenght lançado de maneira quase que independente, Guto decidiu se aproximar da música eletrônica de pista em suas jams de estúdio, e o resultado foi esse belíssimo trabalho lançado pelo selo do coletivo.

Ao ouvir as faixas de Mirror, é possível entender essa complexidade envolvente que tange o trabalho do coletivo paulistano em seus mais diversos projetos. Tal fato dá autoridade para que o núcleo e os artistas envolvidos em suas festas e seus releases possam se desenvolver de forma assertiva. Além das cinco faixas originais, Guto também assinou um futuro single com a gravadora, que deve ser trabalhado somente no segundo semestre de 2019. Enquanto isso não acontece, ouça na íntegra o seu mais recente lançamento:

  

Alan Medeiros é colaborador da Phouse.

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