O sócio-diretor do Laroc fala sobre proposta, trajetória e objetivos do “primeiro sunset club do Brasil” — que logo completa um ano —, além de crise, elitismo, funk carioca e mais.

Em junho, o Luckas Wagg, editor-chefe da Phouse, foi pra Valinhos, São Paulo, conferir de perto se todo o hype que recebia o Laroc — novo superclub fundado em outubro de 2015 e já muito elogiado por grandes DJs globais — se justificava. O Luckas foi numa tarde em que o headliner era o Eric Morillo, e conheceu de perto as dependências e estrutura daquele que se posiciona como o “primeiro sunset club do Brasil”.

Quem fez as vezes de anfitrião foi o Mario Sergio de Albuquerque, um dos sócio-fundadores da casa. O Mario Sergio trabalha no mercado clubber desde 2002, quando começou no Anzuclub, em Itu, e hoje, além do Laroc, é também diretor de produção na Plus Talent. Portanto, às vésperas do mês de aniversário da sua casa noturna — em que prometem uma programação especial —, tive a oportunidade de trocar uma ideia com o Mario para saber mais detalhes da trajetória e dos bastidores de um club que explodiu com muita força e muito rápido. Conceito e curadoria, mainstream X underground, crise econômica, elitismo e ostentação, baile funk e conflitos de interesse entre agências e clubs ou festivais foram alguns dos temas do nosso papo, que você confere a seguir.

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Mario Sergio, como surgiu o projeto do Laroc e quais os principais objetivos com essa empreitada?

O Silvio [Soldera], que é meu sócio no projeto, é proprietário de uma empresa de infraestrutura que atende grandes eventos como Rock in Rio, Lollapalooza, Tomorrowland, Olimpíadas, e em 2014 fizemos a primeira edição do Armin Only no Sambódromo do Anhembi em uma tenda, algo inédito. Ali começaram as conversas embrionárias do projeto.

O Silvio foi o cara que encontrou o local, fez o primeiro esboço e foi o idealizador do Laroc, inclusive do nome, que pouca gente sabe o significado. Laroc veio de “a rocha”, “la roc” [em francês], que remete a uma grande pedra que temos no local e é o nosso ícone. Após o início das obras, veio o convite oficial para ser parte do time de sócios. Hoje somos em cinco, cada um atua em diferentes áreas.

O objetivo principal, sem dúvida nenhuma, é ser um club de expressão mundial. Para isso temos um longo caminho, porém pelo fato de sempre ter trabalhado com o mercado de música eletrônica, desde 2002, quando ainda não era algo tão mainstream, vamos tentar encurtar os caminhos para atingirmos nossas metas.

E quais as principais referências para montar o “primeiro sunset club do Brasil”?

Hoje em dia, principalmente na cidade de São Paulo, nós acompanhamos praticamente o fim dos nightclubs. Nós temos o D-EDGE que se mantém vivo e é referencia, pois tem uma clientela fiel e preza pelo conteúdo musical. Fora isso, a cultura de clubs praticamente morreu.
Os eventos itinerantes tomaram conta da programação dos jovens, sempre em busca de novidades, temas, locais e contextos diferentes.

Além disso, grandes festivais, Ushuaïa, Day Clubs, em Las Vegas, acontecem durante o dia. Com essas premissas, somadas ao ambiente do Laroc que é rodeado por natureza, o pôr do sol, chegamos ao conceito Laroc, que transmite a sensação de um evento open air, coberto e com conforto de um club. O ânimo das pessoas é outro quando o evento se inicia à tarde, bem diferente de algo que começa na madrugada e vai até o amanhecer. O clima é outro, além da experiência de ver a mutação do club do dia para a noite.

 “Principalmente em São Paulo, a cultura de clubs praticamente morreu.”

Há algo que diferencie o Laroc dos outros grandes clubs do Brasil e do mundo?

O que nos diferencia dos demais clubs do Brasil, sem dúvida nenhuma, é o horário e o tempo de duração das aberturas. São quase 11 horas, bem diferente de um nightclub, que tem normalmente quatro horas de pico. Com os demais clubs do mundo? Somos um minifestival com sete atrações, efeitos especiais, dia e noite, fora dos grandes centros e envolto na natureza!

Uma pergunta que você já deve ter ouvido muito, mas é meio inevitável: como gerenciar um negócio que move tanto dinheiro em meio à crise econômica atual? Ainda mais porque o Laroc nasceu bem no meio dela…

Em época de crise, uns choram, outros vendem lenços. As coisas aconteceram rapidamente, desde encontrar o terreno, iniciar as obras e principalmente a definição da data de abertura que resolvemos, pois havia um artista disponível. Enxergamos como oportunidade. Talvez se tivéssemos pensado muito, não teríamos seguido em frente. Dos sócios iniciais, dois já saíram, justamente por não terem a mesma sinergia e crença dos que ficaram.

Pode parecer meio insano, mas a grande verdade é que existem momentos em que você tem que agir com a emoção e em outras com a razão; aqui a emoção, a realização de um sonho tomou conta e estamos muito satisfeitos em ter acreditado e seguido em frente. Hoje o Laroc é uma realidade. Vamos sempre analisar pelo lado bom. O fato de a crise estar à frente de todos fez com que tivéssemos maiores cuidados com despesas, o que no futuro pode ser benéfico ao nosso negócio, que ainda está em fase de maturação.

“O ânimo das pessoas é outro quando o evento se inicia à tarde.”

Por que você diria que a casa, em tão pouco tempo, tem sido referenciada por alguns dos DJs mais populares do planeta como o novo maior club do mundo?

Receber elogios de artistas como Hardwell, Axwell, Erick Morillo, Robin Schulz e tantos outros que estão em todos os lugares do mundo é realmente algo motivador. Sempre produzi eventos e estou acostumado a lidar com artistas do alto escalão e seus times, que são extremamente exigentes. Você tem que saber entender quais são os anseios desses caras e prover a eles exatamente o que esperam. Você imagina o quão desgastante é estar em tour, dormir pouco, chegar em um local e não ter as questões técnicas exigidas? Ter que discutir com fornecedores que normalmente não falam inglês? Este é somente um dos pontos que tentamos suprir com excelência: uma grande produção de som, luz, vídeo, efeitos, camarim, hospitalidade em geral. São esses caras que vão falar de nós para o mundo. Mas de nada adianta ter toda essa repercussão artística se a entrega não fosse boa para o nosso cliente. Prezamos pelo serviço diferenciado e o contato próximo. Todos nós somos acessíveis e temos canal aberto com público.

O Laroc trouxe DJs de vertentes e nichos: desde artistas do topo do mainstream, como Hardwell e Nicky Romero, brasileiros extremamente populares, como Alok e FTAMPA, expoentes do deep house, como Kolombo e Phonique, e “cabeçudos” do techno, como Junior C; este é residente, bem como o Marcelo Cic, que traz uma proposta bem mais popular. Afinal, qual o conceito musical da casa, e como ela o trabalha?

A última coisa que queremos é ser rotulados. Somos um club de música eletrônica que tem por obrigação disseminar a cultura. Por isso não podemos nos limitar à vertente A ou B. O mercado é cíclico, sabemos que os estilos vêm e vão na mesma velocidade, e o club tem que acompanhar isso. Faz parte da curadoria artística “educar” o público, sem julgamentos. Se você gosta de mainstream, tem uma noite para isso; se você é do underground também pode frequentar o club e viver a experiência Laroc. Talvez este seja um dos problemas do nosso mercado: muitos produtores não têm convicção sobre o que estão fazendo e simplesmente surfam na onda do momento.

“São raros os eventos que conseguem entregar uma pista grande como a nossa para artistas underground, e nós temos conseguido.”

Vocês não consideram o Laroc um club comercial?

Somos um club big room, e talvez por isso as pessoas entendam que somos do mainstream e comercial. São raros os países e os eventos que conseguem entregar uma pista grande como a nossa para artistas underground e conceituais, e nós temos conseguido. A ideia é que o público varie, assim como a atração, dependendo do conteúdo. Somos um superclub de música eletrônica e a prova disso é que tivemos, como você citou, artistas como Phonique, Lee Foss, Kolombo e outras novidades futuras como Luciano, por exemplo, que de comercial não tem nada.

Seguindo o modelo padrão de clubs do tipo no mundo, o Laroc tem altíssimo investimento e, naturalmente, visa o lucro, em um mercado em que atualmente gira muita grana. Por isso, cobra valores que são praticáveis a um seleto grupo de pessoas com alto poder aquisitivo. Nas ruas brasileiras, um movimento contracultural iniciado em São Paulo tem encrencado com os clubs por considerá-los elitistas, e então levou a cultura DJ para a rua, de graça, resgatando os valores democráticos da origem da cultura clubber. Como vocês encaram essa questão da diversidade versus a cultura dos VIPs e camarotes na cena DJ global?

Acho que não devemos separar dessa maneira. Tudo esta relacionado a investimento, como citado por você. Além do investimento para construção e concepção do negócio que obviamente deve retornar, existe outro variável que é o artístico. Em diversas situações a abertura não é rentável, mas faz parte de um planejamento assumir prejuízos pensando no longo prazo, na construção de marca, e isso acontece conosco no primeiro ano. Muita gente acha que o negócio já é rentável ao abrir e pelo contrário, existe um tempo de maturação para ter o inicio de retorno investido para daí então pensar no lucro. Um negócio como o Laroc não pode durar menos de três, quatro anos, ou caso contrário foi tempo e dinheiro perdido. Acho louvável o movimento cultural, até porque só fortalece a cena, mas acho errada essa categorização de que [o nosso negócio] é para um seleto grupo.

É um negócio como qualquer outro, que deve sempre analisar investimento X retorno para precificar ingresso. Nosso ingresso não aumenta substancialmente se temos uma atração de primeira linha. Nós subsidiamos muitas vezes para não inviabilizar. Outro ponto é de que infelizmente o brasileiro compra status; hoje em dia enxergam um demérito você estar na pista e não no camarote. E aí é a lei básica da economia — oferta X demanda. Porém no Laroc nós temos uma capacidade de área VIP, por exemplo, que não tem como aumentar. Se esgotar, acabou! E nem por isso aumentamos o preço pela demanda.

“Infelizmente o brasileiro compra status; enxergam um demérito você estar na pista e não no camarote.”

E por que abrir apenas de 15 a 20 vezes por ano? Não acaba sendo um desperdício ter uma estrutura tão grandiosa pra usar poucas vezes?

Pode parecer desperdício, mas abrir e sofrer prejuízo é pior. Justamente pelo tamanho do negócio, nosso ponto de equilíbrio é elevado. Às vezes é melhor ter uma abertura com quatro mil pessoas do que duas com duas mil. O custo fixo mensal é o mesmo, mas o operacional, de produção e artístico dobra. Além do fato de que é legal a expectativa que se cria para a próxima abertura. O cenário perfeito seriam duas aberturas por mês, com conteúdos musicais opostos [“mainstream” e “underground”] — vamos ver se com o tempo nós conseguimos implantar isso. Muita gente não conhece o Laroc, e uma coisa é fato, quem conhece volta! Com isso aumentamos nossa base de clientes, então há expectativa de um crescimento exponencial que sustente essa ideia.

Em fevereiro, o Laroc abriu as portas para o MC João, que estava estourando com “Baile de Favela”. Vemos, entre grande parte dos fãs brasileiros de EDM, um forte ódio ao funk carioca — quando o RMC anunciou o Baile do Dennis, por exemplo, houve muita reclamação. Em cima disso, imagino que tenha ocorrido com vocês algo semelhante. Como lidaram com isso? Pretendem seguir abrindo as portas pro baile funk e suas ramificações?

Eu não vejo produtos como o Baile do Dennis acontecendo no Laroc, são propostas completamente diferentes. O MC João foi um fato isolado. O Hardwell havia acabado de tocar pela primeira vez a versão não oficial do remix em Brasília no domingo anterior. Durante a semana de descanso ele se aprofundou na produção e inclusive obteve a autorização para lançar o remix oficial. O assunto da semana havia sido o “Baile de Favela”. Na sexta feira de carnaval, dia da apresentação do Hardwell no Laroc, recebi a ligação do MC João, que estaria em Jundiaí para um show e queria ir pro club. Abrimos as portas, não tem por que barrar. Ao mesmo tempo toda polêmica é bem-vinda, ainda mais em um momento de início de história como era o nosso. Viramos assunto. Isso se repetiu um mês depois com o Jack U e o Mc Bin Laden no Lollapalooza, por exemplo.

“Muitos produtores não têm convicção sobre o que estão fazendo e simplesmente surfam na onda do momento.”

Mario, você é sócio-diretor do Laroc, mas também trabalha na Plus Talent. Esse tipo de relação profissional no Brasil parece normal — um dirigente de uma casa ou um festival ter associação com outra marca/agência do ramo —, mas não acaba gerando conflito de interesses? O Tomorrowland Brasil, por exemplo, ativou certa polêmica por trazer muitos artistas da Plus Talent

Acho ótima essa pergunta, pois vou ter a oportunidade de explicar algo que gera dúvidas e ao mesmo tempo dar minha opinião. Eu não acredito em conflito de interesses. Hoje a Plus Talent não é somente uma agência de conteúdo — muito pelo contrário, se tornou um dos grandes players do mercado de eventos. Minha atuação dentro do grupo é como diretor de produção. São áreas de atuação distintas. E se você olhar a programação do Laroc, já recebi artista de outras agências sem nenhum problema. Não há nenhuma exclusividade. O próprio Vintage Culture, que é um artista muito solicitado, se apresenta dia 19 de novembro.

Sobre a polêmica que envolveu o Tomorrowland, eu acho uma grande hipocrisia. Isso acontece em qualquer segmento ou mercado. Não digo que é protecionismo, mas há uma preferência, sem dúvida nenhuma. Você vê artistas de outro empresário do sertanejo tocando no Villa Mix, por exemplo?

Por 2008 ou 2009, quando eu dirigia o Anzuclub, tinha grande dificuldade em conseguir conteúdo com a Plus Talent, que na época era parceira do grupo Pacha & Sirena. É algo normal, faz parte do mercado que vivemos. O Lolla na maioria das vezes prioriza talentos da WME, agência que é parceira da C3, e assim por diante.

O que você pode nos falar sobre essa celebração de um ano da casa?

Aniversário é sempre uma data especial, principalmente o primeiro. Nossa ideia é entregar algo diferente em termos de produção, intervenções artísticas e, óbvio, muita música boa. A premissa básica para essa comemoração é um artista emblemático, com bagagem musical e muita história na música eletrônica. Isso é o máximo que posso contar, senão vou acabar com a surpresa! ~

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