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Entrevista

“Um negócio como o Laroc não pode durar menos de quatro anos, ou terá sido tempo e dinheiro perdidos”

Flávio Lerner

Publicado em

07/10/2016 - 12:24

O sócio-diretor do Laroc fala sobre proposta, trajetória e objetivos do “primeiro sunset club do Brasil” — que logo completa um ano —, além de crise, elitismo, funk carioca e mais.

Em junho, o Luckas Wagg, editor-chefe da Phouse, foi pra Valinhos, São Paulo, conferir de perto se todo o hype que recebia o Laroc — novo superclub fundado em outubro de 2015 e já muito elogiado por grandes DJs globais — se justificava. O Luckas foi numa tarde em que o headliner era o Eric Morillo, e conheceu de perto as dependências e estrutura daquele que se posiciona como o “primeiro sunset club do Brasil”.

Quem fez as vezes de anfitrião foi o Mario Sergio de Albuquerque, um dos sócio-fundadores da casa. O Mario Sergio trabalha no mercado clubber desde 2002, quando começou no Anzuclub, em Itu, e hoje, além do Laroc, é também diretor de produção na Plus Talent. Portanto, às vésperas do mês de aniversário da sua casa noturna — em que prometem uma programação especial —, tive a oportunidade de trocar uma ideia com o Mario para saber mais detalhes da trajetória e dos bastidores de um club que explodiu com muita força e muito rápido. Conceito e curadoria, mainstream X underground, crise econômica, elitismo e ostentação, baile funk e conflitos de interesse entre agências e clubs ou festivais foram alguns dos temas do nosso papo, que você confere a seguir.

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Mario Sergio, como surgiu o projeto do Laroc e quais os principais objetivos com essa empreitada?

O Silvio [Soldera], que é meu sócio no projeto, é proprietário de uma empresa de infraestrutura que atende grandes eventos como Rock in Rio, Lollapalooza, Tomorrowland, Olimpíadas, e em 2014 fizemos a primeira edição do Armin Only no Sambódromo do Anhembi em uma tenda, algo inédito. Ali começaram as conversas embrionárias do projeto.

O Silvio foi o cara que encontrou o local, fez o primeiro esboço e foi o idealizador do Laroc, inclusive do nome, que pouca gente sabe o significado. Laroc veio de “a rocha”, “la roc” [em francês], que remete a uma grande pedra que temos no local e é o nosso ícone. Após o início das obras, veio o convite oficial para ser parte do time de sócios. Hoje somos em cinco, cada um atua em diferentes áreas.

O objetivo principal, sem dúvida nenhuma, é ser um club de expressão mundial. Para isso temos um longo caminho, porém pelo fato de sempre ter trabalhado com o mercado de música eletrônica, desde 2002, quando ainda não era algo tão mainstream, vamos tentar encurtar os caminhos para atingirmos nossas metas.

E quais as principais referências para montar o “primeiro sunset club do Brasil”?

Hoje em dia, principalmente na cidade de São Paulo, nós acompanhamos praticamente o fim dos nightclubs. Nós temos o D-EDGE que se mantém vivo e é referencia, pois tem uma clientela fiel e preza pelo conteúdo musical. Fora isso, a cultura de clubs praticamente morreu.
Os eventos itinerantes tomaram conta da programação dos jovens, sempre em busca de novidades, temas, locais e contextos diferentes.

Além disso, grandes festivais, Ushuaïa, Day Clubs, em Las Vegas, acontecem durante o dia. Com essas premissas, somadas ao ambiente do Laroc que é rodeado por natureza, o pôr do sol, chegamos ao conceito Laroc, que transmite a sensação de um evento open air, coberto e com conforto de um club. O ânimo das pessoas é outro quando o evento se inicia à tarde, bem diferente de algo que começa na madrugada e vai até o amanhecer. O clima é outro, além da experiência de ver a mutação do club do dia para a noite.

 “Principalmente em São Paulo, a cultura de clubs praticamente morreu.”

Há algo que diferencie o Laroc dos outros grandes clubs do Brasil e do mundo?

O que nos diferencia dos demais clubs do Brasil, sem dúvida nenhuma, é o horário e o tempo de duração das aberturas. São quase 11 horas, bem diferente de um nightclub, que tem normalmente quatro horas de pico. Com os demais clubs do mundo? Somos um minifestival com sete atrações, efeitos especiais, dia e noite, fora dos grandes centros e envolto na natureza!

Uma pergunta que você já deve ter ouvido muito, mas é meio inevitável: como gerenciar um negócio que move tanto dinheiro em meio à crise econômica atual? Ainda mais porque o Laroc nasceu bem no meio dela…

Em época de crise, uns choram, outros vendem lenços. As coisas aconteceram rapidamente, desde encontrar o terreno, iniciar as obras e principalmente a definição da data de abertura que resolvemos, pois havia um artista disponível. Enxergamos como oportunidade. Talvez se tivéssemos pensado muito, não teríamos seguido em frente. Dos sócios iniciais, dois já saíram, justamente por não terem a mesma sinergia e crença dos que ficaram.

Pode parecer meio insano, mas a grande verdade é que existem momentos em que você tem que agir com a emoção e em outras com a razão; aqui a emoção, a realização de um sonho tomou conta e estamos muito satisfeitos em ter acreditado e seguido em frente. Hoje o Laroc é uma realidade. Vamos sempre analisar pelo lado bom. O fato de a crise estar à frente de todos fez com que tivéssemos maiores cuidados com despesas, o que no futuro pode ser benéfico ao nosso negócio, que ainda está em fase de maturação.

“O ânimo das pessoas é outro quando o evento se inicia à tarde.”

Por que você diria que a casa, em tão pouco tempo, tem sido referenciada por alguns dos DJs mais populares do planeta como o novo maior club do mundo?

Receber elogios de artistas como Hardwell, Axwell, Erick Morillo, Robin Schulz e tantos outros que estão em todos os lugares do mundo é realmente algo motivador. Sempre produzi eventos e estou acostumado a lidar com artistas do alto escalão e seus times, que são extremamente exigentes. Você tem que saber entender quais são os anseios desses caras e prover a eles exatamente o que esperam. Você imagina o quão desgastante é estar em tour, dormir pouco, chegar em um local e não ter as questões técnicas exigidas? Ter que discutir com fornecedores que normalmente não falam inglês? Este é somente um dos pontos que tentamos suprir com excelência: uma grande produção de som, luz, vídeo, efeitos, camarim, hospitalidade em geral. São esses caras que vão falar de nós para o mundo. Mas de nada adianta ter toda essa repercussão artística se a entrega não fosse boa para o nosso cliente. Prezamos pelo serviço diferenciado e o contato próximo. Todos nós somos acessíveis e temos canal aberto com público.

O Laroc trouxe DJs de vertentes e nichos: desde artistas do topo do mainstream, como Hardwell e Nicky Romero, brasileiros extremamente populares, como Alok e FTAMPA, expoentes do deep house, como Kolombo e Phonique, e “cabeçudos” do techno, como Junior C; este é residente, bem como o Marcelo Cic, que traz uma proposta bem mais popular. Afinal, qual o conceito musical da casa, e como ela o trabalha?

A última coisa que queremos é ser rotulados. Somos um club de música eletrônica que tem por obrigação disseminar a cultura. Por isso não podemos nos limitar à vertente A ou B. O mercado é cíclico, sabemos que os estilos vêm e vão na mesma velocidade, e o club tem que acompanhar isso. Faz parte da curadoria artística “educar” o público, sem julgamentos. Se você gosta de mainstream, tem uma noite para isso; se você é do underground também pode frequentar o club e viver a experiência Laroc. Talvez este seja um dos problemas do nosso mercado: muitos produtores não têm convicção sobre o que estão fazendo e simplesmente surfam na onda do momento.

“São raros os eventos que conseguem entregar uma pista grande como a nossa para artistas underground, e nós temos conseguido.”

Vocês não consideram o Laroc um club comercial?

Somos um club big room, e talvez por isso as pessoas entendam que somos do mainstream e comercial. São raros os países e os eventos que conseguem entregar uma pista grande como a nossa para artistas underground e conceituais, e nós temos conseguido. A ideia é que o público varie, assim como a atração, dependendo do conteúdo. Somos um superclub de música eletrônica e a prova disso é que tivemos, como você citou, artistas como Phonique, Lee Foss, Kolombo e outras novidades futuras como Luciano, por exemplo, que de comercial não tem nada.

Seguindo o modelo padrão de clubs do tipo no mundo, o Laroc tem altíssimo investimento e, naturalmente, visa o lucro, em um mercado em que atualmente gira muita grana. Por isso, cobra valores que são praticáveis a um seleto grupo de pessoas com alto poder aquisitivo. Nas ruas brasileiras, um movimento contracultural iniciado em São Paulo tem encrencado com os clubs por considerá-los elitistas, e então levou a cultura DJ para a rua, de graça, resgatando os valores democráticos da origem da cultura clubber. Como vocês encaram essa questão da diversidade versus a cultura dos VIPs e camarotes na cena DJ global?

Acho que não devemos separar dessa maneira. Tudo esta relacionado a investimento, como citado por você. Além do investimento para construção e concepção do negócio que obviamente deve retornar, existe outro variável que é o artístico. Em diversas situações a abertura não é rentável, mas faz parte de um planejamento assumir prejuízos pensando no longo prazo, na construção de marca, e isso acontece conosco no primeiro ano. Muita gente acha que o negócio já é rentável ao abrir e pelo contrário, existe um tempo de maturação para ter o inicio de retorno investido para daí então pensar no lucro. Um negócio como o Laroc não pode durar menos de três, quatro anos, ou caso contrário foi tempo e dinheiro perdido. Acho louvável o movimento cultural, até porque só fortalece a cena, mas acho errada essa categorização de que [o nosso negócio] é para um seleto grupo.

É um negócio como qualquer outro, que deve sempre analisar investimento X retorno para precificar ingresso. Nosso ingresso não aumenta substancialmente se temos uma atração de primeira linha. Nós subsidiamos muitas vezes para não inviabilizar. Outro ponto é de que infelizmente o brasileiro compra status; hoje em dia enxergam um demérito você estar na pista e não no camarote. E aí é a lei básica da economia — oferta X demanda. Porém no Laroc nós temos uma capacidade de área VIP, por exemplo, que não tem como aumentar. Se esgotar, acabou! E nem por isso aumentamos o preço pela demanda.

“Infelizmente o brasileiro compra status; enxergam um demérito você estar na pista e não no camarote.”

E por que abrir apenas de 15 a 20 vezes por ano? Não acaba sendo um desperdício ter uma estrutura tão grandiosa pra usar poucas vezes?

Pode parecer desperdício, mas abrir e sofrer prejuízo é pior. Justamente pelo tamanho do negócio, nosso ponto de equilíbrio é elevado. Às vezes é melhor ter uma abertura com quatro mil pessoas do que duas com duas mil. O custo fixo mensal é o mesmo, mas o operacional, de produção e artístico dobra. Além do fato de que é legal a expectativa que se cria para a próxima abertura. O cenário perfeito seriam duas aberturas por mês, com conteúdos musicais opostos [“mainstream” e “underground”] — vamos ver se com o tempo nós conseguimos implantar isso. Muita gente não conhece o Laroc, e uma coisa é fato, quem conhece volta! Com isso aumentamos nossa base de clientes, então há expectativa de um crescimento exponencial que sustente essa ideia.

Em fevereiro, o Laroc abriu as portas para o MC João, que estava estourando com “Baile de Favela”. Vemos, entre grande parte dos fãs brasileiros de EDM, um forte ódio ao funk carioca — quando o RMC anunciou o Baile do Dennis, por exemplo, houve muita reclamação. Em cima disso, imagino que tenha ocorrido com vocês algo semelhante. Como lidaram com isso? Pretendem seguir abrindo as portas pro baile funk e suas ramificações?

Eu não vejo produtos como o Baile do Dennis acontecendo no Laroc, são propostas completamente diferentes. O MC João foi um fato isolado. O Hardwell havia acabado de tocar pela primeira vez a versão não oficial do remix em Brasília no domingo anterior. Durante a semana de descanso ele se aprofundou na produção e inclusive obteve a autorização para lançar o remix oficial. O assunto da semana havia sido o “Baile de Favela”. Na sexta feira de carnaval, dia da apresentação do Hardwell no Laroc, recebi a ligação do MC João, que estaria em Jundiaí para um show e queria ir pro club. Abrimos as portas, não tem por que barrar. Ao mesmo tempo toda polêmica é bem-vinda, ainda mais em um momento de início de história como era o nosso. Viramos assunto. Isso se repetiu um mês depois com o Jack U e o Mc Bin Laden no Lollapalooza, por exemplo.

“Muitos produtores não têm convicção sobre o que estão fazendo e simplesmente surfam na onda do momento.”

Mario, você é sócio-diretor do Laroc, mas também trabalha na Plus Talent. Esse tipo de relação profissional no Brasil parece normal — um dirigente de uma casa ou um festival ter associação com outra marca/agência do ramo —, mas não acaba gerando conflito de interesses? O Tomorrowland Brasil, por exemplo, ativou certa polêmica por trazer muitos artistas da Plus Talent

Acho ótima essa pergunta, pois vou ter a oportunidade de explicar algo que gera dúvidas e ao mesmo tempo dar minha opinião. Eu não acredito em conflito de interesses. Hoje a Plus Talent não é somente uma agência de conteúdo — muito pelo contrário, se tornou um dos grandes players do mercado de eventos. Minha atuação dentro do grupo é como diretor de produção. São áreas de atuação distintas. E se você olhar a programação do Laroc, já recebi artista de outras agências sem nenhum problema. Não há nenhuma exclusividade. O próprio Vintage Culture, que é um artista muito solicitado, se apresenta dia 19 de novembro.

Sobre a polêmica que envolveu o Tomorrowland, eu acho uma grande hipocrisia. Isso acontece em qualquer segmento ou mercado. Não digo que é protecionismo, mas há uma preferência, sem dúvida nenhuma. Você vê artistas de outro empresário do sertanejo tocando no Villa Mix, por exemplo?

Por 2008 ou 2009, quando eu dirigia o Anzuclub, tinha grande dificuldade em conseguir conteúdo com a Plus Talent, que na época era parceira do grupo Pacha & Sirena. É algo normal, faz parte do mercado que vivemos. O Lolla na maioria das vezes prioriza talentos da WME, agência que é parceira da C3, e assim por diante.

O que você pode nos falar sobre essa celebração de um ano da casa?

Aniversário é sempre uma data especial, principalmente o primeiro. Nossa ideia é entregar algo diferente em termos de produção, intervenções artísticas e, óbvio, muita música boa. A premissa básica para essa comemoração é um artista emblemático, com bagagem musical e muita história na música eletrônica. Isso é o máximo que posso contar, senão vou acabar com a surpresa! ~

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ESPECIAL

“Fazíamos por amor e para os amigos, e foi o que fez a Dance Paradise ser o que é hoje”; a história e o legado de Richard Weber

Investigamos a trajetória do empresário curitibano que faleceu aos 42 anos

Phouse Staff

Publicado há

Foto: Reprodução
* Por Felicio Marmo
** Edição e revisão: Flávio Lerner

No dia 31 de outubro, perdemos um dos pioneiros da música eletrônica no Brasil. Ricardo Duarte de Mattos, mais conhecido como Richard Weber, faleceu em Curitiba, aos 42 anos, por complicações em uma cirurgia para corrigir um caso severo de apneia, deixando um legado histórico para a cena nacional: a rádio Dance Paradise, bem como suas ramificações DPmusic e DPmovie.

Do insight no trance ao programa piloto feito em casa, a postura de um líder e sua empatia são marcas registradas do cara que foi de DJ e empreendedor da cena local ao cargo mais atarefado daquele que veio a ser o programa de rádio sobre música eletrônica mais expressivo do país.

+ URGENTE: Fundador da Dance Paradise, Richard Weber morre em Curitiba

A paixão de Richard Weber pela música começou desde cedo, com um pai que ouvia de A-ha a Nat King Cole em casa. Na juventude, sua diversão foi regada aos melhores clubes da região de onde morava com seu irmão e sua família. Em casa, também tinha acesso a equipamentos da Technics. “Escutávamos música todo o santo dia. Richard gostava muito de Red Hot Chili Peppers, no meio dos anos 80”, conta à Phouse o irmão Flavio Noronha, que esteve presente na hora em que os sonhos se misturaram com realidade pelas primeiras vezes na carreira de Richard.

No estúdio da Jovem Pan. Foto: Reprodução

Com o levante da dance music no início dos anos 1990, as coisas mudaram de rumo, do rock para as pistas. “Pra sorte nossa, morávamos muito perto dos maiores clubes que a cidade e o Brasil já tiveram, o Studio 1250 e o Moustache. Naquela época, a música eletrônica dominou o meu irmão. Ele ia todo final de semana e ficava atrás da cabine dos DJs, só observando. Quando dava pra me levar, ele me levava”, lembra, citando que Richard gostava muito de Masterboy, DJ Bobo, Dr Album e Mr. Van, e que chegou a montar uma coleção de discos absurda — “temos até hoje na Dance Paradise”.

A família sempre apoiou os irmãos de dia ou de noite — não tinha tempo ruim. Por alguns anos, era apenas Flavio e Richard correndo atrás do rolê, pegando dinheiro emprestado da mãe pra colocar gasolina pra sair e divulgar as festas, ou contando com ajuda de parentes. “Minha cunhada nos ajudou muito também, comprou um fone v700 da Sony pra ele de Natal”, segue Noronha. “As festas quase não davam lucro, mas sempre bombavam. Fazíamos realmente por amor e para os amigos, e foi isso que fez a Dance Paradise crescer e ser o que é hoje, com certeza.”

O mindset da dupla sempre foi começar pequeno pensando grande, e assim o programa começou como uma web radio caseira, idealizada por Richard. O insight veio importado de uma viagem que os dois irmãos fizeram a um dos países de origem do trance. “A Dance Paradise começou mesmo com uma ideia que eu e ele tivemos em ver a Street Parade na Holanda. Esse evento era anual, rolava nas ruas de dia e os DJs tocavam nas carrocerias dos caminhões. Era uma mini Love Parade, mas só de trance. Aí pensamos: ‘temos que fazer alguma coisa de dia pro povo’”, continua Flavio.

Com Armin van Buuren, em 2011. Foto: Reprodução

Se hoje ainda não é das tarefas mais fáceis, imaginem nos anos 90. Nunca foi simples de trampar com órgãos públicos da cidade, mas a dupla foi bastante insistente, pra sorte do rebolado de muito curitibano. “Mandamos um projeto pra prefeitura e ficamos quase sete meses pra conseguir a resposta. Graça a Deus, a autorização veio. O evento no Barigui rolava das 14h até as 20h no parque, mas foi dureza. A prefeitura exigiu algumas coisas, e eu e meu irmão fomos de casa em casa ao redor do parque pra pegar autorização dos moradores. Foram mais de 50 casas, mais de cem assinaturas, ali foi o verdadeiro boom”, segue.

“Alguns artistas nacionais e internacionais de passagem em Curitiba passavam para dar uma palinha lá por saber que era muito legal. Uma pena que após dois ou três anos a prefeitura mudou tudo. Nunca mais aprovaram o projeto, que chegou a receber de duas mil a três mil pessoas”, explica em detalhes. Na época, Flavio retoma, já existia o evento do Eletrogralha nas ruas de Curitiba. “Era muito legal, mas a nossa ambição era promover algo no parque.”

Curtindo Paris. Foto: Reprodução

Em contato com a natureza, como a ideologia sugere, o som que mexeu com a cabeça dos irmãos na Holanda sempre esteve à tona nesse embrião. Fãs de Tiësto, Paul Oakenfold, Paul van Dyk e Armin van Buuren em um momento em que Curitiba era dominada pelo techno e o psytrance, os DJs educaram o público a gostar do som europeu — e “educar” é mesmo a palavra-chave que esteve presente na veia de Weber.

Nazen Carneiro, relações públicas curitibano que foi amigo do comunicador, o define como a representação do que é, de fato, um DJ. “O Richard representa ser DJ: um apaixonado pela música, um guia para muitos profissionais. Uma pessoa que foi sempre inovadora e líder do seu meio”, explica. Sérgio Maslowsky, relações internacionais, curador musical e cinegrafista, destaca a personalidade bem-humorada do colega:

“O Richard sempre foi uma pessoa de extremos. Ou ele amava muito algo, ou aquilo não prestava. Ele sempre foi muito bom em demonstrar do que ele gostava e do porquê ele gostava de algo, e fazia com que você quisesse fazer parte, viver o mesmo sonho que ele. Participar da magia, como ele gostava de dizer: ‘isso aqui é MAGIA, olha isso aqui lóóórde!’. E sempre era assim, com bom humor, muita piada de mau gosto (risos) e as melhores comparações possíveis: ‘meus deus cara, o que vocês comeram? Tá um cheiro de sela de cavalo aqui na sala!'”.

Com Tony McGuiness, do Above & Beyond. Foto: Reprodução

A apresentadora Juliana Faria, que trabalhou por dez anos ao lado de Weber ajudando no crescimento da Dance Paradise, segue uma linha parecida com a de Nazen, destacando o carinho que Richard tinha pela cultura eletrônica. “Ele sempre foi muito primoroso quando se trata de música eletrônica. Sempre o ouvia sobre reverenciar os clássicos e os mestres, conhecer a história. Em 2012, o programa de rádio estreou para todo o Brasil. Depois dessa conquista, justamente nasceu aí o interesse pelos vídeos, e em 2013 estávamos em quatro pessoas na Bélgica para gravar o Tomorrowland, que veio a ser o primeiro episódio do programa pro Canal BIS da Globosat”, resume.

“O que posso dizer é que o Richard é a cola de tudo. As pessoas muitas vezes projetam a imagem da Dance Paradise em mim, por ser a voz e estar na linha de frente, mas em todos esses anos, a minha voz só projetou a energia e as idealizações dele. Eu sempre fui um canal, mas a mensagem sempre foi dele. Ele realmente fez tudo que dava com a marca que teve na mão, explorou todas as possibilidades, está deixando muita coisa boa pra cena e pra muita gente, e não tem como deixar isso se perder”, continua.

Juliana conclui falando da importância de manter o projeto vivo, em honra ao seu criador. “O time está abalado, mas temos esse compromisso. O Richard esteve no rádio, na TV, nos maiores festivais do Brasil e do mundo, viveu a música, conheceu os seus ídolos, contribuiu com a cena. É muito claro o tanto que a Dance Paradise se tornou um canal relevante. Um dos grandes medos dele era perder tudo isso — o sonho e a magia, como ele falava —, mas ainda bem que, na verdade, ele viveu tudo isso intensamente.” 

No ADE em 2014, com os DJs Dave Clark e Chuckie. Foto: Reprodução

Um projeto que nasceu em Curitiba, e que hoje é transmitido em mais de 60 emissoras por todo o Brasil. Que evoluiu para uma produtora audiovisual e chegou à TV. Que começou voltando ao trance, mas hoje abrange as mais variadas vertentes do cenário nacional. A Dance Paradise perde seu diretor de comunicação, fundador e idealizador, mas o show precisa continuar.

“A família está em luto. Ainda não decidimos o que vai ser sem ele. A DP cresceu demais, tem sócios e faz parte de um grupo grande de uma rede de rádio FM nacional, então tem muita coisa a ser conversada. Mas tenho certeza que tudo vai dar certo, pelo bem do meu irmão”, conclui Noronha.

*Felicio Marmo é colaborador da Phouse.

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Lista

7 fatos que mostram que o Caos é um dos clubs underground mais legais do ano

Clube campineiro celebra seu primeiro aniversário nesta sexta-feira

Phouse Staff

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Caos 1 ano
Foto: Bill Ranier/Divulgação
* Por: Pollyanna Assumpção
** Edição e revisão: Flávio Lerner

Contradizendo todas as previsões pessimistas de alguns amantes da música eletrônica, 2018 foi um super ano para a cena brasileira. Mesmo com a perda de alguns festivais, como o Ultra Music Festival, ganhamos e crescemos em outros, como Dekmantel, DGTL e Time Warp, e tivemos o boom do dito underground nos principais festivais brasileiros, que fizeram questão de caprichar em estrutura e lineup. Pra quem também é fã de um lifestyle clubber, tivemos momentos incríveis, e o nascimento do Caos, em dezembro do ano passado, em Campinas, é um dos pontos altos do ano.

Seguindo o modelo de uma abertura mensal para o público da música eletrônica, o Caos teve um 2018 grandioso, trazendo alguns dos maiores nomes do techno e da house mundial, parte deles vindo com exclusividade. Além disso, o club ainda fez parte do processo de revitalização da noite de Campinas e arredores, se unindo a outras festas e clubes e transformando a área em um expoente da noite eletrônica do Brasil.

Em dezembro, a casa de Eli Iwasa e companhia comemora um ano de existência e sucesso com Ben Klock, o famigerado residente do Berghain, no dia 07. Por isso, listamos abaixo sete fatos que provam que o Caos foi um dos clubs underground mais legais do ano no país.

Foto: Bill Ranier/Reprodução

1 – Atrações imperdíveis e exclusivas

Poucos foram os clubes que trouxeram nomes tão grandiosos e consistentes como os que vieram ao Caos. Logo na sua inauguração, Carl Craig apresentou seu techno de Detroit cheio de influências. Marco Carola e Laurent Garnier fizeram as honras no verão. No inverno teve Chris Liebing, Ellen Allien e Speedy J. Também passaram por lá Nina Kraviz, Marcel Dettmann, Modeselektor, Recondite, Tijana T., Ryan Elliott, Efdemin e Guy J.

Houve uma abertura da casa 100% feminina comandada pela ucraniana Nastia, para uma edição que foi do pôr do sol ao seu nascer. E na última festa, em novembro, trouxe a multi-instrumentista italiana Giorgia Angiuli, que produz ao vivo, canta e transforma objetos aparentemente inúteis em verdadeiras máquinas de fazer música (como você viu aqui). Além disso o club confia no talento dos brasileiros, trazendo nomes como Gui Boratto, ANNA, L_cio, Renato Ratier e Gromma — além da própria Eli Iwasa, claro.

Foto: Image Dealers/Reprodução

2 – A festa nunca acaba — ou pelo menos, segue até o after

Construído em um belíssimo galpão revitalizado na área industrial de Campinas, o Caos não tem pressa de fechar as portas. Já houve festas que começaram ao entardecer e terminaram às 08h da manhã. Mas teve dias que também terminaram ao meio-dia, como na festa que Dixon comandou. Normalmente não se sai de lá antes das 10h. Devido à estrutura do galpão, é possível dançar e ver o amanhecer pelas janelas gigantes. Os próprios DJs ficam tão encantados com a vibe que se recusam a parar de tocar para aproveitar o momento. Só quem amanhece na pista e ama ver o Sol nascer com música boa ao fundo sabe que essa energia é inimitável.

Foto: Bill Ranier/Reprodução

3 – Qualidade do som e acústica perfeitos

Todo mundo tem aquele amigo que fica procurando o melhor lugar na pista pra ouvir o som, e se você não tem esse amigo, provavelmente essa pessoa é você. Não tem coisa pior do que ter que escolher entre ouvir a música perfeitamente ou ficar confortável no rolê. Pra quem gosta de dançar com espaço, é essencial que o som esteja bom em todos os cantos da festa, algo fácil de acontecer com um sistema tão bom — o L’acoustics —, a disponibilidade das caixas e a expertise da CPro, empresa que foi fundamental para proporcionar a experiência sonora que é o Caos.

Foto: Bill Ranier/Reprodução

4 – Iluminação

A sincronização das luzes com a música e o posicionamento delas no Caos muda a cada abertura, o que faz com que cada experiência seja realmente única, e cria uma atmosfera sempre muito comentada pelo público. De bastões de LED a jogo de holofotes e projeções, você sente que o trabalho foi cuidadosamente planejado por todos os envolvidos — a casa e o DJ. E não tem sensação melhor do que perceber que todos estão preocupados em fornecer a melhor experiência possível pro público.

   

5 – A identidade visual

Tem coisa mais legal que se sentir provocado visualmente? É assim que o Caos faz. O conteúdo de divulgação do club pode ser considerado uma instalação artística. Desde o início, o conceito da casa foi pensado de forma inédita, sugerindo sempre debates atuais. Por um tempo, o Estúdio Muto produziu peças criativas e imersivas. Agora, quem assume a comunicação visual do club é o coletivo esponja e Yusuf Etiman, trazendo sua visão aprofundada já para a próxima abertura da casa, que contará com instalações especiais e homenagens a Campinas.

Foto: Bill Ranier/Reprodução

6 – A verdadeira experiência underground

Estamos em uma era de grande atenção para os festivais, mas frequentar um club que sabe o que está fazendo tem igual valor ou até mais para alguns. Sair de uma pista com a sensação de “esse club é incrível” é bom demais. As longas horas da abertura dentro do Caos parece que voam, mesmo sendo uma pista só. O DJ parece estar mais próximo do público, que pode vê-lo tocando de frente ou de costas, já que a estrutura do palco permite que o frequentador tenha uma experiência meio Boiler Room. Além de tudo, o público que conhece e aprecia o som é o aspecto mais importante. Mais uma questão de energia que foi fundamental para o sucesso do Caos.

Foto: Bill Ranier/Reprodução

7 – A vibe warehouse do galpão revitalizado

A casa comporta tranquilamente uma média de mil pessoas em um ambiente bonito, mas sem firulas. Embora não seja pomposo, o local é grandioso, confortável e muito bem ventilado. Com bares super bem decorados, eficientes e sem filas, um fumódromo espaçoso, banheiros limpos e projeções nas paredes, o Caos em si já é um bom motivo para ser considerado um lugar maravilhoso de se frequentar. O cuidado com a imagem está perceptível em cada detalhe.

Foto: Image Dealers/Reprodução

BÔNUS – A atitude

Tem mais uma coisinha que não só transforma o Caos em um club verdadeiramente underground como um dos mais legais do Brasil. A atitude de toda a equipe e o posicionamento que a casa toma frente a assuntos importantíssimos, como a homofobia e o machismo. De reuniões frequentes com os seguranças a mensagens de conscientização nas redes sociais (e dentro do próprio club, como você pode ver na foto acima), o club nos lembra a cada abertura que o respeito deve imperar — e de onde a nossa música veio.

O primeiro aniversário do Caos rola nesta sexta, a partir das 23h, com Ben Klock, Caio T, Eli Iwasa e Lucas Freire.

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ENTREVISTA

“Achava que dance music era vulgar e fácil de se fazer, mas eu estava errada”

Uma das artistas mais interessantes do cenário techno atual, Giorgia Angiuli fala sobre o visual, a turnê no Brasil e o seu primeiro álbum solo

Flávio Lerner

Publicado há

Giorgia Angiuli
Foto: Divulgação

* Com a colaboração de Alan Medeiros

No cenário eletrônico, artistas que trazem uma bagagem de referências musicais plural, e que buscam fazer arte em vez de se contentar apenas com sons funcionais para as pistas, costumam ir além e se destacar em meio à massa. É o caso da italiana Giorgia Angiuli, que nos últimos anos explodiu no underground internacional.

Além de uma formação musical rica e de ter experimentado diversas vertentes como artista, a multi-instrumentista e cantora se destaca por um estilo muito particular: no cenário do techno, em que a norma é vestir preto e ser blasé, Giorgia usa roupas infantis e transforma brinquedos e chaveirinhos do Pikachu em controladores de som. Misture tudo isso com um talento grande pra compor, tocar e transmitir uma profundidade artística rara, e você consegue entender um pouquinho por que a garota faz tanto sucesso.

Neste final de semana, Angiuli estreia sua turnê sul-americana no Caos, em Campinas, onde toca nesta sexta, 09, e no dia seguinte já parte para Porto Alegre, onde toca na Warung Tour/Levels. Dali, na véspera do feriado volta a São Paulo, desta vez na capital, em mais uma data da turnê do Warung: dia 14, no Aeroporto Campo de Marte. Saindo do Brasil, encerra a turnê no Sónar Bogotá (17) e no clube The Atlantic Room, em San Juan, Porto Rico.

“Nothing to Lose” é um dos singles já conhecidos de In a Pink Bubble

No dia 23, lançará In a Pink Bubble, seu primeiro álbum solo, que segundo a própria, mistura indie eletrônico e techno melódico. Com 12 faixas, o LP é encarado como um dos lançamentos mais especiais do conceituado selo alemão Stil Vor Talent — e podem apostar que estará em boa parte das listas de melhores do ano.

Com tanta coisa importante rolando ao mesmo tempo, não poderíamos deixar passar a oportunidade de trocar uma palavrinha com ela. No papo que você lê abaixo, conhecemos mais sobre sua trajetória, relação com a música brasileira, descobrimos por que ela adota esse visual “kawaii”, que contrasta com o techno, e que por trás de toda essa aura fofa, seu primeiro álbum é marcado por uma história sombria.

Live incrível gravado em Ibiza, pela Cercle

Giorgia, após duas passagens bem interessantes pelo Brasil, com qual sentimento você chega para essa nova tour?

Vocês não imaginam o quanto estou feliz por estar de volta! Amo esse país, pois você pode respirar energia positiva em qualquer lugar. Amo as pessoas, a comida e a sua natureza!

Como enxerga o Brasil e o cenário cultural/eletrônico brasileiro?

Acho que os brasileiros têm música no sangue, tenho muito respeito pela sua cultura. Ontem à noite aproveitei um show de samba. Também gosto de bossa nova, no carro dos meus pais havia apenas CDs do Caetano Veloso. Adoro a sua intensidade e o seu charme.

Um dos principais instrumentos da música brasileira é o violão, e eu estudei violão, então é um som que também faz parte de mim. Sobre eletrônica, minha produtora preferida no momento é daqui, a ANNA. Adoro o seu techno poderoso e elegante, as produções dela são brilhantes.

“Amo brinquedos e roupas fofas. Com uma roupa preta e um equipamento simples as coisas poderiam ser mais fáceis, mas não quero mudar pelas regras do mercado.”

Ao Alataj, você falou há um ano que a cena eletrônica na Itália era complicada, com um mercado limitado e muitas restrições aos clubs. Isso continua assim? Você tem feito sua carreira mais fora de seu país do que na sua terra natal?

Amo a Itália e acho que é um país cheio de grandes artistas, mas, infelizmente, o governo não apoia a cena clubber. Na Itália, os clubes devem fechar no máximo às 04h da manhã. Não há muitos festivais, mas espero muito que as coisas mudem em um futuro próximo. Neste momento, estou tocando fora do meu país, porque amo viajar e tenho curiosidade em conhecer novas culturas.

Você tem uma trajetória bem interessante no meio musical. Conta melhor pra gente como foi a construção da sua carreira.

É difícil para mim falar sobre música e carreira e manter as coisas separadas. Sempre vivi com e pela música, então pra mim fazer música é natural e é uma necessidade para que eu me sinta bem.

Estudei música clássica, toquei rock e new metal, depois indie eletrônico, e comecei a trabalhar na cena techno há poucos anos. Tento ser sempre eu mesma e tudo aconteceu de uma forma natural. Isso é o que gosto na minha jornada, e ainda por cima, trabalho com uma equipe de amigos — meu booker e meu manager são, acima de tudo, meus amigos.

Assinei meu primeiro álbum no selo da Ellen Allien, Bpitch Control, com meu projeto anterior, We Love, e comecei meu projeto solo há cinco anos. Agora, vou lançar meu primeiro álbum pela Stil Vor Talent.

“O que eu realmente gosto da dance music é a reação do público — você consegue sentir imediatamente o que eles estão achando do seu som. É sobre reações instintivas e sentimentos, então se eles dançam, significa que estão gostando.”

E quais foram os principais desafios que você enfrentou ao começar a trabalhar com música eletrônica? Por vir de um universo diferente do usual, você não se sente um peixe fora d’água nesse cenário clubber?

Sim, às vezes me sinto um pouco como um peixe fora d’água, mas isso também é divertido. Não sei onde vou estar em cinco anos, talvez tocando com uma banda novamente. Amo música em todas as suas formas, e no momento estou apenas nadando em um novo oceano.

Na verdade, quando eu estudava, tinha muito preconceito com dance music. Achava que era algo vulgar e muito fácil de se fazer. Mas eu estava completamente errada, toda música tem suas próprias dificuldades. O que eu realmente gosto da dance music é a reação do público — você consegue sentir imediatamente o que eles estão achando do seu som. É sobre reações instintivas e sentimentos, então se eles dançam, significa que estão gostando.

Como foi que você decidiu usar brinquedos como controladores de som em seus lives? Foi uma alternativa que você encontrou para contrastar com o techno, que normalmente carrega essa aura de um som sério, rígido?

Coleciono brinquedos há muitos anos. Sei que muitas vezes as pessoas olham para o meu setup de uma forma estranha, mas eu não me importo. É quem eu sou: amo cores, adoro brinquedos, roupas fofas, essa onda “kawaii”… Até me sinto um pouco como uma garota japonesa. Sei que com uma roupa preta e um equipamento simples as coisas poderiam ser mais fáceis, mas não quero mudar pelas regras do mercado.

“A música me salvou de um estado de depressão.”

Você também tem falado sobre sinestesia em algumas de suas entrevistas. Você acha possível que, algum dia, seus shows possam apresentar uma experiência multissensorial? Como se daria essa relação de misturar música com cheiros em seus lives?

Quando comecei a tocar música eletrônica, eu costumava tocar em lugares muito pequenos, então eu sempre levava uma pequena máquina de fragrâncias. Tenho muitos sonhos, e um deles é construir um órgão e ligar uma fragrância a cada nota. Considero todas as linguagens artísticas conectadas entre si, e a arte tem o forte poder de nos conduzir a outra dimensão. É por causa disso que acho que todos deveríamos tentar explorar e aproveitar essa experiência o máximo que pudermos.

O que você pode nos contar sobre o processo criativo do seu primeiro álbum solo, que logo, logo está chegando?

Tudo aconteceu muito rápido e sem um plano próprio. Eu produzi o álbum inteiro em oito meses, trabalhando muito enquanto viajava, até mesmo nos voos. Não foi muito fácil encontrar tempo para me concentrar no estúdio. Senti uma forte necessidade de compor música, transmitir nos sons as minhas emoções, e decidi colocar todas essas músicas em um long play.

Este tem sido um ano muito especial para mim: minhas primeiras gigs pelo mundo, a descoberta de muitos países e a perda do grande amor da minha vida, minha mãe. A música me salvou de um estado de depressão. Percebi esse álbum como um presente para minha mãe, e eu agradeci a música por me fazer me sentir melhor, me dar energias para continuar.

Acompanhada por todas essas emoções, senti como se estivesse em uma bolha rosa [“pink bubble”, o título do álbum]. Compus quase todas as faixas no avião, coletando minhas ideias no Ableton, e depois gravei tudo no estúdio, no tempo que sobrava entre minhas turnês. Gravei minha guitarra, minha voz e meus synths preferidos: Moog Sub, Juno 106, OB-6 e Korg MS2000.

Flávio Lerner é editor da Phouse.

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