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Uma viagem ao reino do King Cobra: o que aconteceu de melhor no palco principal do Electric Zoo Brasil

Pedro Fialdini

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Há exatamente uma semana, a cena raver de São Paulo e do Brasil de maneira geral se reuniu no Autódromo de Interlagos para celebrar a primeira edição brasileira do tradicional festival nova-iorquino Electric Zoo. A Phouse, é claro, esteve por lá e nas palavras da Julia Gardel, já relatou um pouco de como foi a experiência no palco Awakenings, o templo do techno no EZoo. Agora, contaremos um pouco mais do que aconteceu por lá, desta vez no imponente palco principal, o famoso King Cobra.

De uma maneira geral, a organização do festival estava muito boa. A entrada não pareceu apresentar problemas, os caixas tinham filas pequenas e os bares eram rápidos e com bom serviço. Havia banheiros em boa quantidade e mesmo a questão da chuva, que chegou a assustar muita gente durante o dia, não prejudicou tanto o terreno quanto era imaginado. Valeu muito a decisão de cobrir os dois palcos menores, diminuindo o impacto negativo do clima no evento.

O público foi bom e todos os palcos conseguiram se manter cheios durante a maior parte do festival. O mainstage, é claro, reunia a maior parte das pessoas. O palco em si se mostrou surpreendente pequeno para quem ficou acostumado com os mega-palcos do Tomorrowland, Ultra, etc, mas bonito, moderno e de tamanho adequado ao público do evento. A maior parte da tarde e início da noite correu em uma mistura de excelentes shows e fortes pancadas de chuva, com o primeiro elemento levando grande vantagem na influência sobre a galera, que curtia as apresentações sem medo da água.

Entre as atrações que tomaram conta do palco durante a primeira metade do festival, Bruno Martini e Illusionize chamaram bastante a atenção com excelentes sets, mantendo a galera muito animada mesmo debaixo da chuva. Foi o próprio Illusionize que deixou o público em ponto de bala para o surpreendente set de Alan Walker, um dos principais nomes do line-up. Quem esperava um set morno, com muitas música no estilo de “Faded”, teve uma grata surpresa na forma de um set bastante agitado e contagiante executado com maestria pelo norueguês.

A partir daí foi que o evento realmente pegou fogo de vez. Com a entrada de Vintage Culture o público foi simplesmente à loucura e pirou no excelente set. Sem dúvida neste momento o festival já se encontrava em seu auge. R3hab se apresentou em seguida, fazendo um set razoável, muito bom em algumas partes e morno demais em outras, mas falou bastante com a galera e conseguiu encerrar em bom nível, mantendo o público animado para as duas grandes atrações da noite.  

E se há uma certeza sobre o Electric Zoo Brasil, foi que estes dois astros da música internacional não decepcionaram. Quando KSHMR subiu ao palco, uma surpresa: a tradicional estória que permeia seu set, como uma espécie de transição entre os momentos de pico, estava traduzida para o português. Mesmo que a tradução estivesse bastante rudimentar e com forte sotaque, mostrou uma louvável consideração com o público local. KSHMR também se esforçou para falar com a plateia em português, embora muitas vezes acabasse apelando para um rústico portunhol.

Mesmo toda esta gentileza, porém, ficou em segundo plano diante do belíssimo espetáculo que o inglês de origem indiana trouxe ao E-Zoo. Um excelente set, com vários momentos marcantes como toda a galera cantando “Secrets” a plenos pulmões, ganhou para KSHMR um confortável lugar entre as melhores apresentações do festival. Recheada de produções próprias, a exibição dele foi de altíssimo nível e deixou o público mais do que satisfeito, à espera da última e grande atração do evento.

A expectativa pela entrada de Hardwell era imensa e palpável. Duas vezes eleito o melhor DJ do mundo, astro internacional e dono de inúmeros hits, o holandês era a principal razão de muitos estarem ali. Após uma hora e meia de set, não há nenhuma dúvida ao afirmar que as expectativas foram alcançadas e até mesmo superadas de longe. Mesmo para os fãs de longa data de Hardwell (como este que vos escreve) a apresentação foi incrivelmente boa. Com praticamente todas as novidades que revelou no Ultra Miami, Hardwell levou a galera ao delírio sem um minuto de folga.

Hardwell tocou diversas tracks ainda não lançadas, com destaque para as colaborações “We Are Legends”, em parceria com Kaaze, e “Badam”, parceria com Henry Fong . Apresentou também seus tradicionais mashups, que reúnem desde seus grandes clássicos até as músicas mais populares da atualidade. Um exemplo perfeito foi o mashup do clássico “Spaceman” com “Scared to Be Lonely”, lançamento recente de Martin Garrix, que levou a galera a loucura.

Naquele que sem dúvida foi um dos momentos mais marcantes, Hardwell chamou o próprio KSHMR para subir ao palco e apresentarem juntos sua nova colaboração. A existência dessa parceria já era bastante discutida entre os fãs e foi uma baita moral ao Brasil que ambos tenham escolhido o E-Zoo para oficializar a notícia. No encerramento, Hardwell foi quem mais fez uso dos efeitos pirotécnicos, com um belo espetáculo de fogos para fechar o festival com o ID “Creatures of the Night” e o devastador remix de Dr. Phunk para Apollo.

Sem dúvida, um encerramento digno daquele que provavelmente foi o maior evento da cena eletrônica no país este ano. Apesar do tamanho bem menor e da produção mais modesta, o Electric Zoo foi um substituto muito bom para os fãs que estavam desapontados com a ausência do Tomorrowland este ano. As atrações fizeram muito bonito e a organização estava de modo geral excelente, criando um evento muito agradável para o público.

A única reclamação relevante ouvida de alguns fãs e também constada in loco pela Phouse foi uma qualidade aquém do desejável no sistema de som. Muitas pessoas relataram um som “baixo” e “abafado” e realmente foi essa a sensação que ficou durante boa parte do tempo, mas nada que chegasse a ser um problema que comprometesse a qualidade do espetáculo. Estamos certos de que a primeira edição brasileira do Electric Zoo foi um sucesso tanto entre a crítica quanto entre o público.

Nós aqui da Phouse mal podemos esperar as notícias sobre uma possível volta do King Cobra ao Brasil em 2018 e temos apenas uma certeza: se ele vier, nós estaremos lá mais uma vez pra te contar tudo!

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Review

Vivenciando um Universo Paralello: Capítulo 2 – O festival

Júlia Gardel

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Universo Paralello o Festival
Vamos falar do que realmente importa agora: o festival

Seguimos hoje com o segundo capítulo da minha aventura na mais recente edição do Universo Paralello, que rolou entre o fim de 2017 e o começo de 2018 na praia de Pratigi, na Bahia. Depois de trazer, na semana passada, dicas importantes para se preparar para a viagem e o que esperar do UP, agora vamos direto ao coração do evento: a música, os palcos e a experiência do festival em si.

+ CLIQUE AQUI para ler a primeira parte deste review

CAPÍTULO 2 – O festival

Se você é novo no Universo Paralello, ao chegar lá você não entende nada, é normal. Eu demorei uns dois dias para me localizar lá dentro, principalmente porque o evento é montado enquanto ocorre. Não são todos os palcos que funcionam no primeiro dia, então ao chegar no UP você se depara com o Main Floor terminando de ser construído, assim como alguns bares e a praça de alimentação, mas tudo fica pronto bem rápido. Lá tem pouca sinalização ou placas, mas faz parte da aventura de experimentar um “universo paralelo”.

Palcos

Main Floor (Foto por Fernando Sigma)

Neste ano o evento contou com seis palcos: o UP Club, o Chillout, o 303 Stage, o Tortuga, o Palco Paralello e o Main Floor, além da área do Circulou.

O UP Club é mais voltado para o low BPM, onde se apresentaram diversos artistas brasileiros e internacionais, tocando do deep ao techno e tudo que há de melhor num visual voltado para o mar, numa estrutura toda de bambu e um palco de cabeça de índio gigantesco e sensacional!

Chillout (Foto por Fernando Sigma)

O 303 Stage é um palco voltado 100% ao high BPM das sub vertentes do trance, como o high tech. Já o Chillout possui um nome autoexplicativo. Cada dia você ouve um ritmo diferente: samba, reggae, música indiana, árabe… De tudo um pouco pra você relaxar de frente pro mar. A maioria das apresentações foram em live set.

O Tortuga teve bastante mistura também: hip hop, dubstep, trap… Foi um palco mais alternativo, decorado nesta última edição em formato de polvo. Enquanto isso, o Palco Paralello recebeu lendas da música brasileira, como Lenine e Gabriel Pensador. Um ambiente bem cultural e mais voltado para bandas, cantores e rappers.

303 Stage (Foto por Flashbang)

Já o Main Floor é histórico. Nesta edição o coração do festival contou com uma lona em decoração de escama de cobra referente ao conto de Adão e Eva, tema que foi abordado pelo flyer do evento. No quesito decoração, ele deixou a desejar aos antigos frequentadores do festival, que disseram tê-lo preferido nas edições anteriores. Aos novatos como eu, esse fator passou despercebido e tudo pareceu muito lindo e psicodélico. O palco contou com nomes ilustres da cena do trance, tanto nacionais quanto internacionais, passando por diversas das subvertentes do gênero.

No primeiro dia (27 de dezembro), apenas o Tortuga, o UP Club e o 303 Stage estavam abertos. O Main Floor abriu no dia 29 ao som da Ekanta, a mãe do Alok e do Bhaskar, anfitriã do UP. O Palco Paralello abriu no dia 28, e o Circulou deu início a suas atividades também no primeiro dia. No dia 04 de janeiro, nada acontece no evento; os portões fecham cedo e o som termina na noite anterior, data em que a maior parte das pessoas já foi embora. Se você está indo sozinho, voltar no dia 03 é uma boa sugestão.

Tortuga (Foto por SENSE)

O Circulou, pra quem não sabe, é uma Zona de Preservação das Culturas do Universo Paralello — um grupo fantástico de pessoas que realizam diversas oficinas e atividades culturais. Seus afazeres se iniciam antes mesmo do festival, com algumas pessoas da região de Ituberá ou próximas.

No espaço voltado para o Circulou, você encontra teatro, malabares, palhaços, danças, apresentações musicais de todos os tipos, oficinas de artesanato, aula de parada de mão, entre muitos outros (você pode conferir a programação completa das atividades do último ano aqui).

Circulou (Foto por Flashbang)

Em quase todos os dias, das 10h às 14h, ocorreram as sessões do Diksha, uma tradição do Universo Paralello que atrai muitas pessoas em busca de um estado meditativo para curtir ainda mais o festival. A Diksha é uma transmissão de energia que busca aquietar a atividade mental, propiciando experiências de transcendência e expansão da consciência. As pessoas que a aplicam são iniciadas pelos avatares Sri Amma e Sri Bhagavan para serem canais de energia.

Vale muito a pena participar, mas é preciso acreditar e liberar a mente pra que você possa experimentar ainda mais esse momento. Eu deveria ter feito isso mais vezes, foi o dia que eu mais curti e me soltei. Tirou toda a agitação e preocupação da minha mente, o que me fez focar apenas no momento que eu vivenciava.

Diksha no Circulou (Foto por Flashbang)

Comidas, bebidas e preços

Dentro do evento você encontra diversas opções de comida. Desde pratos feitos a pratos de arroz feijão, comida japonesa, pizza, opções veganas, wraps, crepes, churros, sorvete e tudo que você pode imaginar. Você tem opções até para o seu café da manhã. Há tendas de açaí com granola, opções de sucos da poupa, e tudo por um preço muito acessível. Eu não vi nenhuma opção que custasse mais do que R$ 25,00.

O açaí era servido em um copo bem grande e custava em torno de R$ 15,00. As pizzas tinham diversos tamanhos e custavam de R$ 15,00 a R$ 20,00. Eram vendidas por tamanho e inteiras, não em fatias únicas à parte, por isso achei um preço bem justo.

Um prato de arroz e feijão com frango ou carne grelhado era também R$ 20,00. Tudo girava em torno dessa faixa de preço, e outras opções como churros e sorvetes eram tudo a R$ 6,00. Dava para se alimentar muito bem, de forma saudável e a um preço justo. Além disso, existe no espaço do Circulou a cozinha comunitária, onde aqueles que levaram suas próprias panelas ou comidas se reúnem para cozinharem juntos em um fogão à lenha.

+ Assista ao set completo do Alok no Universo Paralello

O preço dos bares era também excelente, principalmente se comparado às festas de São Paulo:

Água – R$ 4,00

Refrigerantes e sucos – R$ 6,00

Gatorade e energético desenvolvido pelo próprio Universo Paralello – R$ 10,00

Catuaba – R$ 9,00

Drink de quiosque – R$15,00 o frozen de vodka sabor tangerina, limão, uva ou maracujá

As doses de vodka e whisky não eram assim tão caras também. Ainda é permitida a entrada, por pessoa, de uma garrafa de champanhe para a virada do ano — é a única bebida alcoólica permitida na revista do evento. Caso você não tenha levado, você encontra quiosques que realizam reservas de garrafas de champanhe para a virada, tudo em torno de R$ 120,00 e R$ 150,00.

Um pequeno imprevisto foi a questão do gelo. Após alguns dias devido à alta temperatura, houve falta de gelo, e por isso a entrega de copos com gelo para refrigerantes, sucos e energéticos foi proibida, sendo estes usados apenas para drinks como copos de catuaba. Porém, cada bar passava uma informação diferente. Uns diziam que eram só para sucos e drinks, outros para energéticos e sucos, outros somente para drinks, o que gerou um desconforto para alguns pelo fato de ter que tomar um guaraná às vezes quente num calor de 40º. Mas no fim tudo se ajeitou.

UP Club (Foto por Fernando Sigma)

Lojas

Muitas lojinhas se encontram no festival: lojas de roupa, de acessórios, a loja oficial do UP, entre muitas outras coisas, mas nem tudo é tão barato assim. Se você gosta de comprar, prepare os bolsos e preste atenção — algumas coisas parecidas você pode encontrar em lojas diferentes e por preços diferentes. Há desde saias artesanais lindas de R$ 300,00 a blusinhas e tops por R$ 40,00.

Você também encontra vendedores artesanais, os conhecidos hippies, de brincos, colares, pulseiras e as demais bugigangas de praia. Muitos cobram caro, alguns exageram um pouco por causa dos gringos, mas de tudo você encontra e muita coisa bonita!

Foto por Flashbang

Wi-fi

A proposta do UP é se desligar do mundo, e lá o sinal é realmente muito ruim, mas sabemos que passar oito dias sem contato com a família ou pessoas próximas pode ser um pouco complicado. Até para emergências é sempre bom você ter um meio de comunicação. Nesse caso o evento fornece wi-fi pago. Você tem a opção de pagar por um dia de uso ou pelo festival inteiro, e os preços se alternam.

No começo, um dia de internet saia por R$20,00, enquanto o pacote completo custava R$ 80,00. Esses preços vão diminuindo conforme o evento vai passando, até o ponto em que, por exemplo, três dias saia por R$ 40,00, e o festival todo R$ 60,00.

O wi-fi só funciona próximo ao local do stand, mas às vezes ele pega fora dali. Quando há muitas pessoas utilizando a internet o sinal vai cair muitas vezes, vai ser preciso reconectar toda hora, mas o sinal pega, você envia suas mensagens numa boa. Em horários em que quase ninguém se encontra por ali, ele flui perfeitamente.

Dica: Esse wi-fi é contado por horas, então se você o compra por um dia, você na verdade tem 24 horas de internet. Dificilmente você vai usar essas 24 horas de internet — você no máximo vai usar uma hora por dia, então às vezes um dia ou dois de pacote é suficiente.

Recomendação: Dificilmente seu power bank vai durar os oito dias, por isso você encontra uma solução dentro do UP: o guarda-volume eletrônico, um caminhãozinho repleto de tomadas que, por R$ 10,00, carrega o seu celular ou power bank. Tudo é nomeado e registrado por CPF, e funcionou perfeitamente bem.

Foto por Fernando Sigma

Cashless

Esta edição contou com o sistema cashless, abolindo as fichas de sua existência e evitando assim o gasto de papel e a perda de dinheiro. Cada um recebia, pelo valor de R$ 10,00, um cartão do Universo Paralello que você poderia recarregar quantas vezes necessário através dos caixas. Seu saldo era revelado a cada compra através de um cupom fiscal e do celular do atendente. Mas caso você esquecesse, era só solicitar no caixa mais próximo. O cuidado agora era não perdê-lo e não molhá-lo, para evitar o mau funcionamento do cartão e não perder todo o seu dinheiro.

RecomendaçãoNeste ano o evento passou a aceitar cartão de crédito e débito, mas apenas em alguns caixas. Leve sempre um cartão por garantia, mas ainda é melhor levar a maior parte do seu dinheiro em nota, para não correr risco de ficar sem.

Lineup

Logica (Foto por SENSE)

Meu propósito aqui não é falar sobre todos os nomes, nem todos os sets, até porque isso seria impossível e interminável. O que vale aqui é dizer que todos os DJs que pude ver fizeram um excelente trabalho, com sets de alguma forma notáveis ou inesquecíveis. A vibe do evento foi preenchida por muita música boa. Você acordava ouvindo clássicos e ia dormir ouvindo mais clássicos. A festa foi excelente do começo ao fim e citarei alguns dos momentos que mais me chamaram a atenção.

Sobre a escolha do lineup na virada, no palco do UP Club, não há nem o que comentar. A sequência de Patrice Baümel, Boris Brejcha e Guy J foi de longe a mais épica do palco, pra começar 2018 da melhor maneira possível. O Boris lotou o UP Club, criando mais uma vez uma atmosfera histórica. Guy J fez o primeiro amanhecer de 2018 ser eternamente memorável, e Baümel brindou a virada com seus melhores clássicos.

Gabe, Eli Iwasa ANNA marcaram presença no UP, assim como o Victor Ruiz em sua abertura ao som de Pink Floyd. Todos fizeram um set que marcou nossos corações. Além disso, Alok surpreendeu com um set bem underground e repleto de clássicos, fazendo todos dançarem do começo ao fim.

No Main Floor, Neelix foi uma das melhores apresentações. Além de ser um artista incrível, humilde e extremamente simpático, trouxe uma energia que emocionou a todos — assim como Zanon, Vegas, 4i20, Astrix e Vini Vici. O Infected Mushroom deixou a desejar no quesito set old school, como havia sido anunciado. A todos que pensaram ouvir a versão original de “Insane” e “I Wish” nesse UP, saibam que eu também senti a dor de vocês por ouvir na verdade dois remixes. Um momento que poderia ter entrado para a história, infelizmente não aconteceu. Enquanto isso, no mesmo ambiente, Alok e Bhaskar se reuniram através do seu antigo projeto Logica.

Eli Iwasa (Foto por Fernando Sigma)

A virada

A todo momento o UP te proporciona música e cultura, mas existem alguns breaks durante a festa, pausas no cronograma. O principal ocorre na virada do ano, quando todos os palcos param com o som por volta das 20h ou 21h, tirando o Main, que se mantém ativo por mais tempo. Nessa hora, todos se arrumam e a preparação dos palcos é feita. Só às 00h30 o restante volta à ativa.

Perto da meia-noite, todos se reúnem nas areias do Main Floor. Todo o festival reunido em um só lugar, uma energia contagiante perante a ansiedade do ano novo. Mas eu não vou contar o que ocorre na virada, ter a surpresa é muito melhor! É lindo, realmente marcante. Por mais simples que possa ser, é atrativo, intenso e emocionante. É aquele verdadeiro momento em que você percebe não só que o ano se passou, mas onde verdadeiramente você está.

Essa história não acaba por aqui: fiquem ligados na Phouse para o próximo e último capítulo sobre essa minha experiência no Universo Paralello: um relato final sobre a essência e o conceito do festival, junto a um guia de recomendações do que levar na sua bagagem.

Júlia Gardel cobre eventos para a Phouse.

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Review

Vivenciando um Universo Paralello: Capítulo 1 – A experiência

Júlia Gardel

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UNIVERSO PARALELLO EXPERIÊNCIA
Um festival que marcará sua vida para sempre

Hoje começo a contar aqui na Phouse minha experiência nessa última edição do Universo Paralello, que rolou agora entre 27 de dezembro e 04 de janeiro. Minha proposta com esse texto não é fazer um verdadeiro review formal, comentando e classificando o festival, mas narrar o que é vivenciar o UP, como é estar por lá, além de trazer algumas dicas. Venho aqui para dizer como é esse evento, que muito se fala e pouco se sabe, para fazer um guia e ao mesmo tempo um relato sobre a festa na famosa praia de Pratigi, em Ituberá, na Bahia. E lembre-se: não falo aqui como uma expert, já que esta foi apenas minha primeira edição.

Mais que um festival, o Universo Paralello é uma experiência de renovação. Cada um possui uma interpretação própria. A experiência vai além da curtição, é um aprendizado. Ir para lá é abrir o coração e praticar a lei do desapego.

O UP é uma experiência que todos deveriam vivenciar um dia na vida, não só por ser um lugar apaixonante para os amantes de música eletrônica, mas também por suas energias. A proposta é proporcionar o respeito ao próximo, à cultura em suas diversas formas, à expressão do amor, seja ele pelas pessoas, pela natureza ou pela música. É um mundo para expressar a liberdade do corpo, um universo que muitos compreendem como um estudo do eu interior. Diversas pessoas sentem suas vidas transformadas depois do festival.

Dre Guazzelli e sua namorada no palco Chillout (Foto por Fernando Sigma)

Eu fui sozinha vivenciar essa experiência e descobri que ela pode ter diversos significados e múltiplas interpretações. Tudo depende da sua energia e do que você atrai por lá, porque sim, Pratigi é um lugar de muitas energias. Vai de cada um como senti-las: através de gestos de respeito, de bondade, através da sintonia com a música, com a natureza, com o ambiente, com as pessoas ou da forma que for.

A ida ao Universo Paralello pede por uma mente aberta, caso contrário você vai acabar com o clima positivo da festa — o que pode ser revertido em um aprendizado ainda maior. Para  entrar na experiência é preciso estar de mente vazia, com zero preocupações, e esta é uma das maiores propostas do evento: se desligar do mundo, para não se distrair de todo o resto que deve ser aproveitado. Isso não significa relaxamento e descuido total, pois infelizmente não se pode dar bobeira, sempre existem pessoas com más intenções.

Foto por SENSE

CAPÍTULO 1 – A experiência

Existe um porquê de dizer que ir pro UP é praticar a lei do desapego, e isso não é um ponto negativo. Primeiro porque você vai passar perrengue. Não tem jeito! Você até tem formas de diminuir isso, claro, mas algum tipo de perrengue você vai passar. E não se importe com isso, faz parte da experiência. O legal de tudo é que bens materiais por lá são desnecessários.

Como o próprio festival diz, esqueça o look chique e invista no confortável. Você pode se vestir como quiser, mas há 90% de chances de em algum momento você desistir de tudo e simplesmente optar por ficar de biquíni porque lá é muito quente, mas com o tempo você até que acostuma um pouco — nada que entrar no mar não resolva por um tempo.

Foto por Fernando Sigma

Existem roubos, sim, mas como em qualquer lugar no mundo. Só não dê bobeira e não cisme com isso. Não deixe que coisas ruins tomem sua cabeça — invista no oposto e pare para pensar em tudo que está à sua volta, no momento único que você está vivendo. Se te preocupa, é só ficar ligado. Se levar algum bem de valor, deixe no locker oferecido pelo festival, no máximo leve seu celular ou uma câmera, e tenha esses itens andando sempre com você, inclusive seu dinheiro, de preferência na cartucheira. Na barraca, deixe apenas roupas e utensílios de uso pessoal. Não leve suas roupas mais caras ou difíceis de lavar, elas vão sujar. Mas fique tranquilo que a energia do evento não é essa.

A viagem

A viagem começa no meio de transporte escolhido. Para quem tem espírito aventureiro, ir de carro é uma opção interessante, viajando pelas praias conhecendo novos lugares — mas quem vem de longe tem que ter pique para mais de 20 horas na estrada. Ônibus é a mesma loucura e ainda demora um pouco mais. Envolve muito mais gente, sem paradas à vontade, mas muitos preferem essa opção. Eu confesso que não teria esse pique. De avião a chegada é mais rápida, pouco exaustiva e você enfrenta apenas seis horas de translado de Salvador até Ituberá.

Dica: Saiba com que companhia você está viajando. Transportes clandestinos podem trazer muitos riscos. Há várias histórias de ônibus clandestinos que quebram no meio do caminho, fura um pneu, ou translados de empresas desconhecidas, como vans, que não aparecem no aeroporto para te levar ao seu destino final. O barato pode sair caro.

Recomendação: Procure por opções de translados no site oficial do Universo Paralello, que indica empresas que trabalham com eles há anos. Tanto opções de transfers do aeroporto, quanto pacotes que incluem passagem. A Brasil Oriente é uma das empresas mais indicadas do evento, mas procure se informar melhor e se planeje com antecedência.

Detalhes importantes: Caso você volte de avião, não esqueça que o trajeto por terra vai de cinco a seis horas de viagem, por isso escolha um horário de volta do transfer com pelo menos oito horas de antecedência do seu horário de voo para evitar atrasos. Nem sempre o transfer sai no horário pontual. Além disso, Salvador não possui horário de verão: não esqueça de verificar se a companhia aérea de sua escolha já possui seu horário atualizado na hora de comprar.

Foto por Flashbang

O Universo

O Universo Paralello ocorre na praia de Pratigi, localizada na cidade de Ituberá. Próximo ao acesso do festival existe a Vila dos Pescadores, na famosa rotatória. Nela você encontra tendas de comida por um preço bom, mas não muito diferente dos do próprio evento. A água você consegue por um preço mais baixo, o que é bom para se abastecer dentro do festival, já que é permitida a entrada na revista.

Dica: Garrafas de 5L para necessidades pessoais, como escovar os dentes e lavar as mãos é bem útil, porque a água dos chuveiros não é própria para beber. Colocá-la na boca não é uma boa ideia, e lá você não encontra pias.

Foto por Flashbang

Da vila você chega ao festival de duas maneiras: no pau de arara ou nos buggys.

> Pau de arara: uma espécie de caminhãozinho. Por R$ 50,00, você pode usa-lo à vontade durante o evento.

> Buggy: R$20,00 a cada viagem, e se você for em mais pessoas vocês podem dividir.

Se você pretende ir muito à vila, o pau de arara compensa; se não, o buggy é uma boa opção. Eu paguei o pau de arara acreditando voltar muito à vila, mas vendo todo o trajeto a pé até a saída do evento, confesso que não o utilizei mais de uma segunda vez. Você anda muito no evento o dia todo.

Próximo à vila existem pousadas e casas a serem alugadas para quem prefere dormir em uma condição um pouco melhor, e dentro do festival há a Vila Mundo, mas se prepare para os custos e a caminhada para entrar no evento todos os dias — nesse caso recomendo o pau de arara! Em algumas casas a energia cai, mas faz parte também. Como eu disse, algum perrengue vai ter durante a viagem, não tem jeito!

Foto por Fernando Sigma

Acampar no UP

Se você quer a experiência ainda mais completa, bem-vindo ao camping do Universo Paralello!

O camping no UP não é uma área reservada ou separada do evento como um Dreamville no Tomorrowland. Não. Lá você acampa pelo festival inteiro. Existem alguns lugares proibidos de acampar, mas de resto, por onde você andar você vai ver uma barraca. Seja no caminho entre os palcos, seja na areia da praia, nas partes mais afastadas, na entrada ou até no meio do mato, tem barraca pra todo lado! Acampar próximo à vila dos artistas é uma boa opção por conta da quantidade de seguranças, e lugares de muito movimento são um pouco mais propícios a roubos.

Para achar uma sombra você vai ter que chegar lá bem cedo e nem sempre compensa essa correria toda. Tem gente que chega no dia 26 e fica na fila até a abertura do evento no dia 27 para isso. Vai com calma, enfrenta o sol e vida que segue. Muitos fizeram algo que nem sequer passou pela minha cabeça: levaram lonas ou lycras escuras para amarrarem entre os coqueiros e criar uma espécie de sombra. É muito eficiente, mas depende de bagagem, e para quem vem de avião trazer tudo isso não é tão simples assim, principalmente para quem vai sozinho.

Caso você não consiga uma sombra ou um jeitinho de não ficar 100% exposto ao sol, se prepare pra acordar às 06 horas da manhã todos os dias! Mas acredite, não é tão ruim assim. Você aproveita muito o dia, e quando pega o jeito da coisa, acorda mais tranquilo. Tudo isso depende muito do clima também. Algumas edições não foram tão quentes ou tiveram dias nublados. Os próprios funcionários do evento oferecem serviços: R$50,00 para carregar sua bagagem até o local de sua escolha e estruturas de bambu e folhas de coqueiro para uma sombra improvisada; vale a pena, mas custa R$150,00.

No primeiro dia você vai acordar correndo para fora da barraca porque você não está acostumado com aquele calor ainda, mas vou te contar uma coisa que muita gente faz: acorda, coloca sua roupa ou biquíni, passa um protetor, separa a canga e corre pro chillout; com sorte, você arruma um espaço na sombra e tem bons sonhos! O chillout na parte da manhã é o point da soneca do UP. Afinal, tem coisa melhor do que dormir ouvindo um reggae, um mantra, uma música indiana ou afins?

Palco Chillout (Foto por Fernando Sigma)

Banho

Tem quem prefira seguir acordado e opte apenas por um banho. Aqui entra mais um item para a lista mente aberta. A água do banho vem do mangue, é a única água de toda a região, por isso ela não cheira muito bem. Ela é fria e sempre será fria, e além disso o banho é comunitário entre homens e mulheres — não tem cortina. Ou seja, todo mundo se vê tomando banho. 98% das pessoas tomam banho de biquíni ou sunga, mas sempre, sempre vai ter alguém, um gringo ou alguém que simplesmente não liga e que vai tomar banho pelado. Conforme-se com isso, sério: relaxe, entre no espírito do UP, ali todo mundo se respeita.

DicaNão engula a água do chuveiro, ela não é pura para isso e pode te dar dor de estômago ou mal-estar. Não esqueça da bucha, porque você vai descobrir que mesmo depois do banho você ainda está cheio de terra. Este é um fator para se aceitar também: você vai conviver com muita terra e areia. A terra não sai tão fácil assim, e mesmo que saia, em menos de dez minutos você provavelmente estará sujo de novo. Mas relaxe, tudo isso faz parte!

Recomendação: Fique ligado com horários de banho, sempre tem os horários de pico. De manhã cedo é cheio, então vai ter fila, mas não demora tanto assim. E nem sempre todos os chuveiros funcionam. Banho à noite é preciso coragem, porque venta. Um banho de água fria no vento talvez não seja muito agradável, então fim da tarde pra noite é a hora que todos que não tomaram banho ainda correm pra tomar.

Foto por Flashbang

Isso tudo é parte do aprendizado da viagem: desapegar do calor, da água do banho, dos pertences caros, não ligar para a areia na barraca, para o pé sujo, não ligar para os perrengues, e encontrar uma forma de conviver com eles e fazer o que há de mais importante: aproveitar o lugar onde você está. Aproveitar a natureza, a aventura e se soltar nesse mundo de histórias deixando de lado as exigências e perfeições. Ali todos são iguais a você, todos estão vivenciando a mesma experiência. Então relaxe e aproveite, viva esse momento intensamente e verdadeiramente mesmo dentro das dificuldades que você vier a enfrentar. Não encane com eles, esqueça as preocupações e siga o ritmo da festa!

Essa história não acaba por aqui: fiquem ligados na Phouse para os próximos capítulos sobre essa minha experiência no Universo Paralello! O segundo capítulo vai tratar sobre o festival: preços, comidas, bebidas e palcos.

Júlia Gardel cobre eventos para a Phouse.

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Review

Hernan Cattaneo faz história com o primeiro “All Night Long” do Warung

Jonas Fachi

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Hernan Cattaneo All Night Long
Em seu tradicional set de fim de ano, El Maestro rompeu novas barreiras e se tornou o primeiro artista dos 15 anos de Warung a tocar pela noite inteira
* Fotos por Gustavo Remor e Ebraim Martini
* Vídeos por Fernando Hauenstein e Sebastian Tallon

Não existe data mais simbólica do que o dia 28 de dezembro no Warung Beach Club. O dia é reservado e sinônimo do desembarque de Hernan Cattaneo à Praia Brava. É fácil entender o porquê. Devido a sua consistência ao longo dos anos, o maestro argentino se tornou um embaixador da música que ajudou a criar. Aqui, sua ligação se fez por sua “experiência musical” se tratar de nada menos do que a identidade sonora que mais se enquadra com as expectativas do club, se tornando assim uma noite imprescindível para qualquer um que esteja em busca da famosa “mágica do Templo”.

O final de ano é estratégico porque consegue reunir elementos importantes: primeiro pelo verão no Hemisfério Sul ser uma das marcas do beach club. Segundo, pela quantidade de argentinos que estão de férias no litoral catarinense, somando-se aos fãs brasileiros que moram longe e que podem estar presentes. Para finalizar, turistas e público novo buscando conhecimento. Tudo isso forma uma das pistas mais divertidas e democráticas do ano na casa.

Após se apresentar no feriado de Independência do Brasil — data que tem se tornado sua referência também —, Hernan retornava sob expectativas que nunca diminuem. Neste review, como sempre, tentarei desvendar as ideias musicais e sua construção de set a fim de que todos possam ao mesmo tempo relembrar momentos marcantes, mas também entender a proposta musical para a noite. Ainda, buscarei mostrar a importância que ambos, artista e club, têm um para o outro. Veremos que é algo único.

O maior destaque dos meses pré-evento foi o pedido exclusivo de Cattaneo para ter a noite só para si, desde a abertura até o final. Todos sabem que a forma como conduz a pista de dança por longas horas é uma de suas marcas registradas, e ele estaria vindo do embalo de um back to back de espantosas 20 horas com Guy J no Canadá, em um club que mencionarei mais à frente.

Hernan Cattaneo All Night Long

Seu longset no Warung é considerado um clássico, porém para que tantas horas de música sejam bem-sucedidas, deve-se passar fundamentalmente por quão ambientado está o público antes de o artista principal iniciar. Hernan sabe tão bem disso que ele mesmo se propôs ao warmup dessa noite.

Tocar nesse ritmo de abertura é algo que ele adora, e fazia esse modelo de apresentação no início da carreira, quando a música eletrônica mal existia na América do Sul. Ao longo dos anos o Warung proporcionou ótimas aberturas a ele; nomes como Daniel Kuhnen, Leozinho e Danee são constantemente elogiados. Porém, Catta busca sempre ir além, se dispondo a fazer o que ninguém faria, e isso tem um motivo que entenderemos adiante.

Hernan Cattaneo All Night Long

Acertadamente, o club previu a abertura dos portões para as 21h, podendo assim deixar os mais interessados chegarem, se ambientarem e esperá-lo da melhor forma possível. Entretanto, o protocolo imaginado foi quebrado por volta das 21h25, quando ao chegar no club e ver que já havia pessoas a sua espera (cerca de 30), Hernan não hesitou e resolveu antecipar os trabalhos, sendo a primeira boa surpresa da noite.

O sistema de som ainda era tímido; ele propôs uma levada de deep house dançante com BPM bem baixo. Foi recebendo o público aos poucos, como se estivesse tocando na sala de casa. Que honra! Nesse começo, é impossível não destacar duas musicas de duas bandas eletrônicas icônicas. A primeira é “Damage Done” de Moderat, em um remix que não consegui descobrir, mas que seria algo aproximado com o do produtor Silinder. A segunda é nada menos que “Dream On”, do Depeche Mode — daquelas que você lembra pelo vocal inconfundível, em mais um remix não identificado. A partir das 23h, o sistema de som ganha seu devido ganho, e a pista que já estava cheia reage com a primeira euforia da noite. Agora era pra valer! Tocar desde o início é uma atitude que o público do Warung jamais esquecerá por duas razões: era algo que nunca havia ocorrido com um artista em 15 anos, e porque ficou evidente que o título de melhor warmup para o maestro já feito no club só poderia ser dele mesmo.

Hernan Cattaneo All Night Long

Se você está se perguntando se existe um motivo maior para esse pedido e desejo em abrir a própria noite, está correto. Vamos a ele. Existem certos clubs e eventos especiais na extensa carreira do argentino, alguns já extintos, outros ainda em atividade. A Stereo em Montreal, o Woodstock 69 em Amsterdã, a Moonpark e o Clubland (seu club formador) em Buenos Aires, o Cream de Liverpool e o Yellow de Tóquio são alguns dos quais Hernan tem registros de longsets históricos — como o de 12 horas no encerramento do club japonês em 2008.

Nesses “clubs para clubbers profissionais”, como ele costuma falar, criou laços mais profundos do que apenas apresentações marcantes de um DJ internacional para o público local. Porém, quando falamos de Warung, que é um desses lugares onde o frequentador recebe uma graduação musical, parece existir algo que transcende a todos e que honestamente não sei explicar.

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Pode parecer imprudência alguém fazer tamanha afirmação sem ter experimentado experiências musicais com ele nos lugares citados. Porém, olhando através de seu comportamento quando está dissipando o que tem de melhor na pista do Templo, arrisco dizer que em nenhum outro lugar sua música foi e tem sido recebida por um período tão extenso com tanta singularidade. Hernan tem sua figura tão em conformidade com a cabine, que a sensação de todos ao vê-lo ali em cima sob completa sintonia, repetindo os mesmos movimentos corporais e mentais necessários para se colocar músicas em sequência, é de que estamos diante algo mítico. O DJ que vemos no Warung parece ser daquele jeito somente ali.

Toda essa conexão ao longo do tempo gerou um resultado que poucos alcançaram dentro de toda indústria musical eletrônica: ser a figura central da criação de uma comunidade em torno do estilo musical que acredita e propaga desde quando ainda só ouvia discos de bandas de rock progressivo que suas irmãs colocavam para rodar. É claro que no final de tudo estamos tratando de entretenimento, porém com um nível de interação que é capaz de moldar ideias e visões das pessoas que decidem participar, e então colocá-las em união. Esse seu interesse em fazer o algo a mais, em tocar o máximo de tempo possível, é um tipo de realização que não se apaga tão fácil — ao contrário, se perpetua nas lembranças mais profundas dos participantes.

Hernan Cattaneo All Night Long

Considerações feitas, voltamos à música, e ela estava se desenvolvendo com toques viajantes moderados, temas com pequenos recortes emotivos e tribais, tudo bem cadenciado, sem exagero. Após a 01h, tive a sensação de que tínhamos atingido a velocidade de cruzeiro. Em navegação, é comum se falar sobre a relação da velocidade ideal e o perfeito equilíbrio do motor com o casco, ou seja, máximo desempenho aliado a maior economia. Hernan é especialista em estabelecer uma faixa sonora dentro da qual não se força a pista de dança, mas que nela atua naturalmente e em perfeito desempenho. O “ponto de cruzeiro” dessa relação é quando a música inserida pelas mãos do artista é capaz de extrair o máximo de cada individuo, mas sem que eles se desgastem antes do término.

Estava esperando mais alguma faixa para reconhecer, e então ouço uma melodia inconfundível para meus ouvidos. Procuro alguém para compartilhar a emoção de estar ouvindo “Take My Away”, de Fefo e Dario Arcas —  um dos melhores lançamentos da Sudbeat já feitos. Em 2010, ela marcou o décimo lançamento da gravadora de Hernan, recebendo inclusive um remix esplêndido do boss com Soundelixe. A faixa ainda fez parte de sua compilação The Masters Series – Parallel, para a Renaissance no mesmo ano. Novamente, se tratava de um edit que não consegui identificar.

Após isso, a construção musical começa a ganhar sua verdadeira cara, entrando em um tom mais dramático e infernal. Menos elementos, mais intensidade, e claro, as indispensáveis linhas de baixo aterrorizantes cortando e balançando toda a pista. No vídeo abaixo, que capturou momento próximo das 03h, está um daqueles sons que eu provavelmente não esquecerei até encontrar. Analisando o set inteiro, essa faixa seria uma espécie de previsão do que ele iria jogar nas horas que viriam.

Para mim, sempre foi impressionante como Hernan consegue ter amplitude musical dentro do seu estilo particular. Você pode dizer que esse é um dos papéis fundamentais de um DJ, porém conseguir executá-lo sem perder a essência é um dos grandes desafios da atualidade. Seguindo, outra faixa impressionante: “Robot Funk”, com remix de Phuture Phunk, fez todos entrarem em imersão. Essa música nada mais é que um ripping de “On The Run”, da banda Pink Floyd, adicionada a um baixo poderoso, um arranjo de bateria e um kick forte. Trata-se na verdade de um excelente remix, podendo ter sido apresentado pelo produtor Framewerk como tal, mesmo que não pudesse comercializá-lo.

Às 04h, entrou em ação “Strand”, de Stephan Bodzin — uma faixa com efeito progressivo e hipnótico, espécie de ponto de amostragem do que ele estava apresentando. A intensidade aumentava mais do que de costume. Comecei a imaginar que ele estava tocando por um bom tempo no mesmo ritmo para chegar em algo especial. Em meia-hora houve a quebra, não de ritmo, mas de sintonia. “Sirens”, remixada magistralmente por Patrice Bäumel, foi a escolhida para esse momento clássico dos sets de Hernan. Ele cantava sua maravilhosa letra tranquilamente enquanto todos ainda estavam se dando conta de que era um momento de pôr os pés no chão, mas só por uns minutos.

Hernan Cattaneo All Night Long

A partir das 05h, a sonoridade estava reta e nivelada, caracterizada pela maior altitude possível de energia e velocidade rítmica que El Maestro gosta de trabalhar, entregando para a pista de dança a melhor relação entre pessoas, ambiente e música. Sempre comento sobre esse momento do set até as 06h, que mostra o quão bem pensada e elaborada é sua construção. Havia nesse momento alguns aspectos mais obscuros, e sequência sem descanso.

Entramos na fase do amanhecer e era hora de algum clássico. A escolha foi por um que eu aguardava desde quando assisti ao vídeo dele o soltando no club Mamacas, em Atenas 2012. Tratava-se de “Eterna”, de Slam; uma faixa atemporal, produzida em 1991, e que recebeu um remix fantástico de John Digweed e Nick Muir 21 anos depois.

Próximo de chegar à fase da última hora, uma daquelas músicas que parecem já nascer clássicas. Seu vocal emitido como um mantra lembrou-me de um momento especial que tive em 2010, quando quase no mesmo horário, Hernan soltou “Love Stimulation”, de Humate, em remix de Tom Middleton — um momento que guardo até hoje de minha primeira experiência com o maestro. De alguma forma, isso surgiu em minha mente e tudo parecia ter voltado no tempo, reavivado por “Chanjira”, de Stuart King em remix de Mongo. Que momento!

Essa última hora é uma mistura de sentimentos. A já tradicional paradinha das 07h20 foi calculada com um lindo trabalho de um dos melhores produtores argentinos da atualidade: Kevin Di Serna, com “Horizons” — um arranjo limpo de piano, leves baterias e uma mensagem no vocal do break. Depois da calmaria, a volta é novamente cheia de intensidade, o sprint final para esgotar as últimas energias. A finaleira voltou-se novamente para o lado emocional com “Sofia” remixada por Guy Mantzur e, para minha maior surpresa, o encerramento veio com uma música que me fez pôr as mãos no rosto e apreciar sem querer que acabasse.

Eu já perdi as contas de quantas vezes assisti ao filme Inception. Além de elenco e direção brilhantes, ele tem uma das melhores trilhas sonoras da última década. E quando se fala em trilha sonora, hoje ninguém está no nível de Hans Zimmer. Sua composição chamada “Time” para o longa é algo que não se deve colocar em palavras. Felizmente, ela recebeu uma versão à altura para as pistas de dança, por Deeparture. A saudação mútua de agradecimento estava acontecendo junto do sentimento de maratona musical mais do que cumprida.

Hernan Cattaneo All Night Long

Escrevendo este review, pesquisando e relembrando faixas que foram apresentadas, notei que havia outras dezenas de detalhes especiais ainda para serem mencionados. Dar-me conta de que eu poderia simplesmente excluir tudo que tinha escrito e mesmo assim teria outras tantas coisas incríveis para contar, foi como uma cortina que se abriu em minha frente. Até onde vai a dedicação e o interesse de um artista para trazer ao seu público uma narrativa musical tão rica? Minha saída foi aceitar que algumas coisas vão e devem ficar apenas na lembrança.

Em 28 de dezembro, Hernan Cattaneo fez uma espécie de volta para casa, como quando ainda jogava no extinto Clubland de Buenos Aires. Agora, contudo, essa outra casa que ele descobriu e ajudou a formar tem um sentido diferente — afinal, seria como voltar, mas ainda estar jogando em um dos maiores palcos do planeta, um Camp Nou brasileiro, com sua grama (soundsystem) lisa, molhada, e um fundo de campo que parece não ter fim (mar). Seu conjunto musical estava nos dizendo isso o tempo todo: o Warung é um palco vivendo seu melhor momento, moldado por anos de uma identidade sonora inconfundível, onde, claro, só existe um camisa 10.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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