Review

Uma viagem por 17 faixas: como Ferry Corsten faz ficção a partir do trance

Lançado nesta sexta-feira, “Blueprint”, o novo álbum de Ferry Corsten traz a história de um jovem e uma androide; em junho, o produtor traz a turnê do disco para São Paulo e Rio.

Hoje foi lançado o quinto álbum de estúdio daquele que é considerado um dos maiores (pra mim o maior) produtores de trance da história, Ferry Corsten. O produtor, que chega muito em breve para duas festas no Brasil (saiba mais no fim do artigo), nos presentou com Blueprint, uma viagem de 17 faixas que se interligam e contam uma história, mais ou menos como um audiobook musicado.

O projeto realmente lembra uma produção de cinema, já que Corsten contou com o roteirista David Miller (mais conhecido pelo trabalho nas séries Rosewood e House of Cards) para desenvolver a trama, e o ator Campbell Scott (The Amazing Spider-Man) como narrador.  Portanto, convido vocês pra analisar aqui comigo, faixa por faixa, essa nova experiência disco-literária-cinematográfica.

Reception: A voz de Scott introduz: “It begins with the sound, echoing from the depths of space, endless repeating. We couldn’t help, but listen. Scientists, academics, politicians and pratically everyone on Earth with no idea and the internet, none can explain the sound. Is it a pulse of a dying star? A rogue satellite? Or perhaps an interstelar S.O.S.?”. Depois, continua com uma mensagem sobre sinais recebidos do espaço que acreditam ser alienígenas. A faixa segue com uma temática cinematográfica, digna de filmes como Interestellar. Nota: 8,0.

Blueprint: Faixa-título, “Blueprint” já havia sido lançada anteriormente por Ferry e distribuída de graça aos fãs. Uma linda música, com progressão perfeita, e com uma voz continuando a explicar sobre o significado do som que vem do espaço, chamando-o de “the drum” (a batida). Conta a história do personagem Lucas, que, ouvindo esse som, faz um aparelho inspirado no que ele ouve, e cria algo com um corpo e uma face, o que nos leva à faixa seguinte. Nota: 8,0.

Your Face: Com vocais de Eric Lumiere, traz a continuação da história, falando sobre a criação de Lucas, incitando a busca pela descoberta dos mistérios de sua existência. Linda faixa — LINDA! Lembra muito a fase do Ferry em seu álbum WKND. Nota: 8,0.

Venera: Música de Ferry com seu alias Gouryella. Lucas descobre que a máquina que criou é uma androide, que ganha vida e conversa com ele — inicialmente, apenas repetindo suas falas, como um papagaio. Até que a androide responde seu nome: “I am Vee”. Como todas as faixas de Gouryella, “Venera” traz uma temática espacial e emocionante, como só Corsten é capaz de fazer. Impossível não se arrepiar ouvindo. Nota: 9,0.

Something to Believe in: Mais uma faixa com vocais de Eric Lumiere. Lucas fica com medo de sua criação cair em mãos erradas, então a esconde no porão de sua casa durante o dia, e durante a noite dá aulas a ela sobre o nosso mundo. Ao perceber a evolução de Vee, ele acaba tendo uma visão de “algo em que acreditar”. Esta é uma música com uma pegada mais tech e lenta, introspectiva. Eric canta sobre sentimentos e conhecer a si mesmo e ao outro. Nota: 7,0.

+ Com enredo de cinema, Ferry Corsten anuncia novo álbum

Waiting: Lucas se isola do mundo e fica fissurado em Vee, que pede pra conhecer outro lugar que não seja a garagem. O rapaz responde: “Em breve”, até ser questionado novamente pela androide: “Quando é em breve? O que estamos esperando?”. Com vocal de Niels Geusebroek, “Waiting” nos diz que “nós só temos uma chance na vida. Então o que estamos esperando para vivê-la?”. Belo vocal, energético e melódico! Nota: 7,5.

Here we Are: Lucas acorda com uma vibração vinda do porão, então corre até ele e encontra “Vee” dançando um som alienígena.  Ela reclama que sente falta de casa, uma casa que fica longe dali. O rapaz não entende, pois ele construiu a androide, que responde: “você me construiu, mas não me criou”. O “drumbeat” que deu a Lucas a ideia de criar Vee foi também o que a deu consciência. Vee tem lembranças de um lugar de outra parte do cosmo, e pergunta para Lucas se ele quer conhecer o mundo dela; ele diz que eles estão presos ali. A robô retruca, afirmando que o corpo está preso, mas a mente é livre, e então emite pulsações que envolvem a mente do personagem. Lucas, então, “se torna a batida” (the drum). Os vocais de Haliene narram essa viagem astral. Com uma pegada que lembra alguns sons de BT, a faixa sai do convencional e tem tons de breakbeat junto ao progressive. Nota: 7,0.

Edge of the Sky: Lucas chega a um mundo bem próximo ao mundo humano, com linguagem similar, mas sem mazelas; nada de doenças, dor ou medo. É um lugar com tecnologias que apenas sonhamos, “no limiar do céu”. Mais uma faixa cantada por Haliene, “Edge of the sky” tem uma pegada deliciosa, melódica, dançante, que traduz a sensação de se estar em um lugar como esse. Nota: 9,0.

A World Beyond: Lucas vê o planeta de Vee, com cidades flutuantes, em um mundo repleto de possibilidades. Ele pede a ela para aprender como viajar dessa forma, livre. A androide responde que todos já são livres, e que ela apenas abriu uma porta (a da mente de Lucas). Vee, por outro lado, quer entender como é sentir coisas simples, como neve caindo no rosto, e outras coisas do “mundo além”. Mais uma faixa introspectiva, calma, com um piano maravilhoso ao fundo. Nota: 7,0.

Trust: Lucas acorda de manhã, e encontra o mundo em chamas. Todos repetem a mesma palavra: “the drum”. Cientistas decodificam parte do som, que contém um aviso: “not safe” (não é seguro). O jovem pergunta a Vee quem ela é. Ela diz que é uma amiga, e quer viver. Lucas diz que não é seguro, e que ela precisa confiar nele; ela responde: “Você é quem precisa confiar em mim”. Faixa com profundidade, espacial, contemplativa. Típica música na qual se fecham os olhos e se estendem os braços ao ar. Uma mistura de Daft Punk com Eric Prydz. Ótima faixa! Nota: 7,5.

+ Ferry Corsten fará show gratuito no Rio de Janeiro

Lonely Inside: Lucas decide sair do porão com Vee, e ela tem uma noção do que é o mundo lá fora. Com frio, os dois se aproximam, e um beijo ocorre. Ela percebe uma mudança sem volta, e passa a querer viver no mundo externo, mas ele a detém, argumentando que o mundo a usaria para estudos. Vee afirma que ele não tem certeza disso, mas Lucas diz: “É o que eu faria”. Faixa calma e contemplativa. Nota: 7,0.

Piece of You: No dia seguinte, Lucas encontra o porão vazio, sem sua amiga. Sua mãe não viu nada. O rapaz sai pela rua e encontra carros parados, sirenes soando, e no fim de uma trilha de destroços: Vee está destruída, peça por peça. Haliene canta sobre corações partidos, e que permanecem parte um do outro. Lindo vocal, mas um remix deixará a track mais interessante. Nota: 6,5.

Wherever you Are: Semanas após o ocorrido, e de coração partido, Lucas ouve a transmissão da batida “the drum”, e Lucas espera por alguma mensagem dela, acreditando que sua consciência ainda está lá fora. Haliene canta sobre uma pessoa esperando por alguém, onde quer que ela esteja… Linda progressão! Linda melodia! Que voz linda de Haliene. Nota 7,0.

Drum’s a Weapon:  O som da batida muda, e Lucas corre para decifrar o código. É uma coordenada. Ele corre para o local indicado, e se encontra no meio de uma paisagem selvagem, no meio do nada. Lá, acha um cilindro que pulsa energia e música, e descobre que o som não vem do espaço; vem da Terra. Lucas acredita que não está mais sozinho, que há outros como ele, e uma multidão passa a rodear o cilindro. Mas helicópteros e pessoas aparecem, acreditando que “the drum” é uma arma, que precisa ser destruída. Há então um impasse entre governo e público: o primeiro querendo destruir, o segundo querendo proteger o que acredita ser um instrumento de paz.

A faixa é tensa, pesada, e reflete o momento da história. Tech trance! Nota: 7,0.

Reanimate: O cilindro vibra, mais alto do que antes, o chão vibra e mais uma mensagem ecoa. Lucas entende, e começa a bater palmas, influenciando o restante do público, que canta e dança. O cilindro racha, revelando um buraco de minhoca (uma fenda no espaço tempo); o outro lado — Vee, reanimada. Não um androide, mas a Vee real. A faixa é cantada por Clarity, e conta sobre quem você realmente é, seu real “eu”. Faixa mais pop do álbum. Nota: 7,0.

+ O auge, a derrocada, o retorno do trance e o que a EDM tem a ver com isso

Another Sunrise: Vee e Lucas conversam, e se reencontram durante o nascer do sol. O povo de Vee passa pelo buraco de minhoca, emanando uma música que destrói todas as armas do exército ao redor. Vitória e paz através da música. Eric Lumiere e Halime cantam juntos sobre o nascer do sol e estar em casa, um lar, em uma faixa muito bela! Nota: 7,5.

Eternity: Lucas e Vee se beijam, e as batidas de seus corações se tornam a batida de “the drum”. O rapaz se pergunta se o povo de Vee é o criador da raça humana. Faixa final do álbum, com uma profundidade incrível, eufórica e introspectiva ao mesmo tempo.

Um lindo fechamento de um álbum diferente, com uma história por trás de cada música, e um sentimento condizente com cada momento. Coisa de gênio! Nota: 9,0!

Ferry Corsten não necessariamente inova — já tivemos Daft Punk realizando um álbum todo baseado em uma história, como mostrado em Discovery, uma masterpiece da música eletrônica —, mas cria uma história superbacana, que tem como plano de fundo um álbum envolvente, que transpira energia, sentimento e magia. Algo que o trance consegue descrever bem.

Vale muito os 89 minutos de música e de ficção. Faça sua viagem!

A turnê brasileira de Blueprint se dará em dois eventos: em São Paulo, na Laroc, dia 10 de junho, e no dia seguinte no Rio de Janeiro, na Apoteose.

LEIA TAMBÉM:

“Um negócio como o Laroc não pode durar menos de quatro anos, ou terá sido tempo e dinheiro perdidos”

Grande festival de trance tem edição cancelada em São Paulo

O que o Daft Punk sampleou [ou não] pra fazer um dos álbuns mais importantes da história

Deixe um comentário

No Comments Yet

Comments are closed