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Review

Mais relevante do que nunca, o Warung comemorou seus 15 anos com grandes perspectivas

Jonas Fachi

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Warung 15 anos review
Vivendo seu auge, o clube da Praia Brava recebeu Chris Liebing e um showcase da All Day I Dream no segundo dia de sua comemoração de aniversário.
Fotos por Gustavo Remor (à exceção da primeira)

Quantos clubs no mundo têm 15 anos de vida? Alguns poucos. No último dia 14, o Warung Beach Club alcançou essa marca estando mais relevante do que nunca. Ainda, se considerarmos que enfrentou todos os tipos de dificuldade que uma instituição poderia passar, ter chegado tão longe possivelmente é um feito único. E mais: conquistado completamente fora dos grandes centros geradores de conteúdo cultural eletrônico no mundo, mesmo assim, desde os primeiros anos o Templo recebeu reconhecimento da mídia internacional como um dos mais importantes do circuito global, algo inimaginável para o Brasil até então.

Porém, todas as pessoas que fazem parte dessa história — desde os DJs de todo o planeta que pedem para se apresentar a até quem o conheceu pela primeira vez na última festa — sabem que alguma coisa diferente acontece lá dentro. Desde o icônico título “Paradise Found”, concedido pela revista britânica DJ Mag em 2006, a “um dos lugares para se conhecer antes de morrer” (de outras publicações), o club reuniu noites e manhãs que poderiam ser facilmente recontadas em documentários ou livros, aqueles registros que irão permanecer na eternidade. Entretanto, não precisamos citar os diversos momentos emblemáticos ou fatos marcantes com algum DJ, afinal se tornaria algo injusto escolher um ou outro.

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que é importante destacar é que estar fora do eixo global eletrônico nunca foi nenhum demérito para a região do litoral norte de Santa Catarina. Todos que vivem a avançada cena desenvolvida em mais de três décadas sabem que o que foi construído não se deve em nada para o resto do mundo. Alguns clubs como Baturité e Ibiza, em Balneário Camboriú, tiveram relevância fundamental para o surgimento do Warung e em tudo que veio a criar mais tarde. Por isso, este review especial de aniversario é uma oportunidade para fazer algumas considerações que julgo serem importantes na contextualização do evento mais longo do ano, com comemorações se iniciando ainda às 16h do dia 18 de novembro.

Warung 15 anos review

Uma das imagens mais famosas do club, usada como capa do álbum Warung Brazil 001, produzido por 16 Bit Lolitas, em 2008 (foto por Fábio Mergulhão)

O Warung foi idealizado para absorver um cenário local efervescente, porém sua história ao longo desses 15 anos de atividade conta que ele fez um pouco mais. Muito além de oferecer algo inédito em uma região com fortes tendências à cultura de pista, o Templo passou a ditar o ritmo não apenas local, mas de toda a região Sul do país. Hoje, é possível perceber o impacto social profundo por gerações de clubbers quando se descobre que pessoas alteraram escolhas fundamentais de vida em função de poder fazer parte do estilo cultural que o club apoia e representa. Isso é algo que talvez em nenhum outro lugar tenha acontecido de forma tão brilhante, fazendo tudo parecer ainda mais surreal.

+ Warung celebra seus 15 anos com duas festas no final de semana

Qual o segredo? Não existe apenas um. Como tudo na vida, uma carreira bem-sucedida ou um fato marcante, o Warung é resultado de uma série de acontecimentos que não estavam nos scripts, somados a caminhos pensados estrategicamente sobre uma alta dose de coragem, tudo isso sem possibilidade de voltar atrás. Para manter uma instituição relevante por tanto tempo é preciso mais do que planejamento, investimento e vontade; é preciso perceber os diversos pontos-chave durante a trajetória, em que várias novas situações surgem em cima da mesa e não se pode deixar passar.

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Se hoje se tornou uma marca consolidada nacional e internacionalmente, realizando inclusive mais eventos fora do que em sua própria casa, é porque houve pessoas por trás que nunca deixaram de acreditar no potencial intrínseco que ela possuía. Um dos pontos mais admiráveis do relacionamento do Templo com o público é que em nenhum momento foi deixada transparecer toda a dificuldade que só quem trabalha na noite pode saber. A verdade é que a música sempre esteve acima de tudo.

Outro ponto de notoriedade é que, durante todos esses anos, a curadoria da casa fez e faz um trabalho excepcional. A busca por equilíbrio entre os estilos e a abertura por ouvir o que as pessoas desejam são fundamentais. Porém, o que chama atenção é a capacidade de sempre captarem o melhor timing para trazer os artistas, quase sempre alinhado com seus momentos de destaque no cenário global.

Pode parecer bobagem, mas em uma cena sul-americana, para uma casa trabalhar com a quantidade de artistas internacionais que o Warung apresenta quinzenalmente, não pode existir muitos espaços para erros. Como exemplo, por vezes é melhor você deixar algum nome fora por dois anos ou mais, para quando ele voltar, existir uma expectativa acumulada suficiente para lotar a casa.

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Quando observamos os artistas escolhidos para fazer parte da segunda noite de comemorações, fica evidente a tradição de captar o momento certo de cada um deles. Vamos pegar o caso de Lee Burridge. Ele fez parte dos primeiros anos do club quando esteve no seu auge, após a virada do século. Depois, passou um longo período distante de nossa cena, a ponto de os novos frequentadores nem saberem que já tinha se apresentado em outra era.

Lee renasceu em 2012 junto com Matthew Decay, iniciando uma nova era dos baixos BPMs. Seu estilo leve, tribal e emotivo foi impresso em músicas que serviram como ponto de partida, como “Für Die Liebe”, segundo lançamento da All Day I Dream, e “Lost in a Moment” — obra que ajudou a definir o estilo sonoro que Dixon apostaria para a Innervisions. De lá para cá, o inglês voltou à frente do cenário liderando um time de talentosos produtores que eram desconhecidos até então. Com eles, vem realizando eventos em diversas cidades, com maior destaque em Los Angeles e Nova Iorque, ajudando-as inclusive a reviver suas cenas locais. O mais legal é que Lee sempre liderou sua label/party lado a lado com seus produtores — prova disso é ter concedido o horário final do show case a YokoO, no Garden.

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A proposta de iniciar o evento ainda à tarde para o clima estar totalmente de acordo com a ideia das festas day/night da ADID foi um pouco arriscada, visto que já houve outras tentativas por parte do club de iniciar mais cedo, sem adesão do público. Desta vez, porém, os protagonistas da música iriam estar desde o início, e o conceito da label convidada ajudou na atratividade.

Lee era um dos poucos lendários que ainda faltava riscar de minha lista. Quando adentrei o Garden às 18h em ponto, ele estava se aprontando para assumir o comando após Lost Desert. O dia havia sido marcado por uma intensa chuva pela manhã e o sol estava coberto por nuvens no fim da tarde; mesmo assim, a surpresa de já ter uma ótima pista curtindo a sonoridade única proposta por eles foi impressionante.

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Sempre me entusiasmo quando ouço logo os primeiros minutos de set de artistas que pertencem à geração dos anos 90, como Burridge, em que mostram a sensibilidade na mixagem e um estilo de construção de set que só caras dessa época sabem fazer. A descontração por parte de todos e o clima mais próximo que ele estava criando, somados a seu carisma e a um sistema de som na medida, fizeram todos se esquecerem de que ainda era o começo da festa. Ninguém pôde se preservar, e o ritmo dançante do DJ fez todos vibrarem.

Na segunda hora, Lee entrou em uma onda inesperada, fugindo das melodias e pendendo para um lado sério e fechado, porém ainda com poderosos baixos e baterias tribais. Era talvez sua forma de “subir o ritmo”, não com a intensidade, mas dentro de um estilo que lembra sons destinados ao auge da noite. O interessante de ver um DJ desse nível é que você sempre pode esperar mais dele, pois em algum momento irá fugir um pouco do óbvio.

Primeira hora de set Lee Burridge, transmitida pela BE-AT.TV

Na terceira hora, seu set recebe maior introspecção e momentos de melodias cinematográficas ganham espaço. Era sua resposta diante da escuridão que havia chegado — um novo momento para os ouvintes. As decorações com flores por todos os lados perderam atenção para o sistema de leds pendurados na vertical, uma das iluminações mais criativas que já vi no club. Aliás, em noites comemorativas é tradição você encontrar decorações e iluminações diferentes. A felicidade estampada no rosto do artista dizia o quanto dessa proposta tinha dado certo, jogando luz sobre uma possibilidade de adaptação para o Warung no futuro.

Entrando na parte final de um set de três horas, mas que tranquilamente poderia ser de seis, é impossível não destacar a emoção de todos na faixa “Cocoon”, de Mirian Vaga, com uma reinterpretação fabulosa de Guy J — só poderia ser dele. Nas últimas faixas o ritmo estava estabelecido e YokoO parecia tranquilo para assumir o comando.

Quando você está prestes a assistir a um artista que só conhece pela qualidade das produções, é normal ficar um pouco reticente. Porém, o francês impôs um ritmo até mais rápido do que ocorria até então, talvez como uma forma de já quebrar o gelo em um ambiente novo. Aos poucos e com sabedoria, trouxe tudo novamente para o “estado ADID” de apreciar música. Quando falam que pegar um evento da label é uma verdadeira experiência musical, isso nada mais é do que a verdade. Guardadas as devidas proporções, é claro, entre os produtores que compuseram o lineup do showcase, você pode perceber que os seus elementos básicos, já citados aqui, sempre estarão presentes.

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YokoO alternou entre momentos super emocionais e outros carregados de energia. Enquanto isso, Lee fazia questão de descer junto ao público atrás do palco para conversar, bater fotos e trocar experiências sobre sua música. Ele é o tipo de cara que faz amizade com todos, gosta de ouvir o que você tem para falar — são poucos os artistas que têm essa disposição. Um exemplo para a cultura de superioridade que muitos novos artistas tentam impor junto a seus públicos.

Começando a segunda fase das comemorações à meia-noite, resolvi tirar um tempo para descansar e conversar com amigos. O club — que ainda recebia Stephan BodzinRenato RatierVolkoderBoghosianFlow & Zeo — não estava lotado, com público na medida ideal para aproveitar qualquer um dos espaços. Subi ao Inside para assistir à hora final de Mind Against. O duo estava aplicando uma sonoridade de muita personalidade. Sabe aquele clima de aniversário, quando você acha algum artista no meio da noite e se surpreende? Era com eles. Após isso, voltei a atentar-me à música somente na entrada de Chris Liebing, às 04h. O lendário DJ alemão é outro caso de escolha do momento ideal — nesse caso, para finalmente fazer seu debut.

Warung 15 anos review

Nos últimos anos ele estabeleceu uma ótima relação com o país, e aplicou um set muito elogiado no Warung Day Festival neste ano. Estava pronto para assumir a eterna pista principal, e de quebra, em um momento tão importante. Que estava à altura, ninguém tinha dúvidas. Chris conquistou uma legião de fãs ao redor do planeta com seu talento particular em calcular a intensidade do seu techno que cada pista deve receber.

Desde o começo, a sensação era de que ele já conhecia o Templo há anos, com ritmo e momentos explosivos calibrados para enfrentar o restante da noite até o amanhecer. Com o dia novamente em posição, Liebing cadenciou suas ações por meia hora, e depois voltou a fazer a pista vibrar. Às 08h, eu já estava realizado em também lhe assistir pela primeira vez, então resolvi me retirar um pouco antes do final — algo que poucas vezes fiz em tantos anos frequentando a casa.

Talvez o sentimento de sair um pouco antes do termino fale algo sobre o que podemos esperar do Warung para os próximos anos e, principalmente, o que representam esses 15 de atividade. Foram muitos acontecimentos para se guardar, mas o sentimento ainda é de que se pode evoluir mais. É cedo para falarmos em legado, ainda que ele já exista.

Warung 15 anos review

Momento mais aguardado: o nascimento do sol em frente ao mar (imagem de alguma noite durante os 15 anos de club)

Em um futuro distante, a história do Warung vai ser descoberta por alguma nova sociedade na prateleira mais alta dos registros, onde, ao verem do que se tratava, sentirão inveja do quão felizes eram as pessoas que tiveram a chance de frequentar o espaço de madeira conhecido por desafiar tudo para se colocar entre os maiores de todos os tempos. Sabe o que é melhor nesse review de aniversário? É que não somos o futuro, somos o presente; estamos fazendo parte de tudo.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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Notícia

Gui Boratto homenageia pioneiro do tango em show inusitado em Paris; assista!

Flávio Lerner

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Gui Boratto Tango
Em programa da TV francesa, o músico improvisou ao lado de instrumentista letã para uma plateia que contou até com um dos “robôs” do Daft Punk

Ao lado da importante instrumentista Ksenija Sidorova — original da Letônia e integrante da Orquestra Sinfônica de Viena —, o conceituado produtor e arquiteto brasileiro Gui Boratto protagonizou uma bela homenagem a um dos criadores do tango, o argentino Astor Piazzolla.

A apresentação, em formato live, rolou em outubro, em Paris, e teve direito até a convidado de honra: um dos “robôs” do Daft Punk. “Foi lindo, até o Thomas Bangalter do Daft Punk estava lá na plateia! Foi muito foda!”, resumiu o boss da D.O.C. Records, em contato com a coluna.

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O espetáculo durou quase meia hora, e agora, com vídeo disponibilizado ontem no YouTube, podemos assistir ao show na íntegra [veja abaixo]. O próprio Gui destaca que foi ele quem escolheu trabalhar com a música do Piazzolla, pois já havia um flerte antigo com o lendário jazzista que resultou na faixa de 2011 “Soledad”, do seu terceiro álbum.

O músico admite que levou quase dois meses pra tirar as harmonias do Piazzolla e fazer os arranjos da forma que queria, pensando em como criar as harmonias para encaixar com o acordeão de Sidorova.

O projeto faz parte da segunda temporada do Variations, conteúdo exclusivo que une música eletrônica e orgânica reunindo músicos das duas áreas para homenagear ídolos do jazz — em outras ocasiões, o programa já trouxe Marc Romboy e Kenny Larkin para, ao lado de instrumentistas famosos, interpretar John Coltrane e Miles Davis, respectivamente. Além deles, Dubfire e Rebotini também já participaram.

O Variations é apresentado pela Culturebox, canal cultural da tevê francesa, e sempre gravado ao vivo na sala de espetáculos La Cigale, clube parisiense que data da belle époque, nascido em 1887. “La Cigale é um lugar cheio de história que remonta ao começo do século: já pegou fogo e foi reinaugurado nos anos 90. Pra mim, foi um prazer sem igual me apresentar nessa obra arquitetônica, acima de tudo”, concluiu o Gui Boratto, que, também como arquiteto, está sempre atento a esses detalhes.

Flávio Lerner é editor da Phouse; leia mais artigos de sua coluna.

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Entrevista

Saiba tudo sobre o Caos, novo clube do underground de Campinas, que estreia com Carl Craig

Jonas Fachi

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Caos
Em entrevista exclusiva, Eli Iwasa, uma das fundadoras do novo clube campineiro, traz todos os detalhes do empreendimento e revela, em primeira mão, a atração especial de abril
* Com a colaboração de Flávio Lerner
* Foto de capa por Bill Ranier; artes e vídeos promocionais por Muto

Quando em 29 de maio de 2013 a “japa do techno” Eli Iwasa abriu as portas do Club 88 pela primeira vez — junto com seus sócios Rodolfo Salin, Antonio Carlos Diaz, Juka Pinsetta e João Mota —, era a concretização de um sonho que cresceu, transbordou, fomentou a cena local e dentro de uma semana se transforma em uma nova realização: o club Caos, que inaugura em Campinas no dia 22 trazendo pela primeira vez à cidade a lenda do techno de Detroit, Carl Craig.

E Carl é aquele artista para o qual a palavra “lenda” realmente se encaixa, sem cair em banalizações ou esvaziamentos. Tanto que foi escolhido a dedo pela DJ, empresária, sócia-proprietária e curadora Eliana Iwasa para ser a grande atração do primeiro ato desse novo empreendimento no interior de São Paulo.

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Eli possui mais de 15 anos de carreira na música eletrônica, e já passou por clubs como o lendário Lov.e em São Paulo, o Kraft em Campinas e diversos eventos e gigs pelo país afora — seja como produtora, curadora ou DJ. À frente do Club 88, que continua funcionando normalmente no belíssimo Jockey Club de Campinas, a artista bookou artistas como Mind Against e Michael Meyer, e agora o momento é de expansão.

O Caos é o segundo estabelecimento do grupo e foi desenhado para abrigar artistas de maior porte — além de Craig, já estão confirmados Marco Carola (12/01) e um grande artista israelense (para abril) que ainda não foi anunciado oficialmente, revelado em primeira mão por Eli nesta entrevista exclusiva que você lê abaixo.

+ Em turnê pela América Latina, Carl Craig volta ao Brasil neste fim de ano

Assim, o Caos promete estimular ainda mais a já movimentada cena do interior paulista, com seu espaço industrial aconchegante e ressignificado especialmente para que as pessoas sintam-se livres na pista, guiadas pela soberania musical.

Confira todos os detalhes que Eli nos revelou sobre o novo reduto underground campineiro:

Como mostrado na apresentação do projeto à imprensa, o Caos chega para cobrir uma demanda local por artistas de maior renome, devido à falta de capacidade no Club 88 atualmente. Quando vocês perceberam que existia esse potencial latente para um projeto maior?

Sempre houve um desejo de receber esses artistas, e o Caos nasceu justamente para possibilitar essa realização. Quando procuramos o local, pensamos no tamanho ideal que nos permitisse viabilizar esses nomes que sonhamos tanto em bookar, e que oferecesse uma experiência diferente do Club 88. Nós voltamos ao nosso começo, onde o que importava era a música sem muitas firulas — com apenas som e luz que proporcionassem algo bem intenso na pista.

Talvez um dos grandes diferenciais desse novo club é sua localização. Parece existir no Brasil uma tendência extraída da Europa por espaços com características industriais. O que o Caos vai apresentar de diferente em relação à estrutura, capacidade e, mais importante, atendimento e soundsystem?

O Caos ocupa um antigo galpão industrial, onde ficava uma siderúrgica — uma das características mais interessantes do espaço é que ele conta com diversas janelas, com luz natural inundando o club assim que amanhece. O ambiente é rústico, cru, mas é fundamental que as pessoas tenham conforto.

A pista conta com dois bares grandes, uma área externa bem ampla, e vamos trabalhar com o sistema cashless, que é super moderno e garante maior tranquilidade para você consumir na festa. Quanto ao soundsystem, vamos deixar para quem for à inauguração, mas posso te adiantar que é de uma marca que usamos em alguns de nossos eventos em Campinas.

“É simbólico ter na inauguração um artista que nos faz revisitar nosso passado ao mesmo tempo em que nos faz olhar para frente — porque Carl Craig é história, mas nunca deixou de ser um visionário.”

Não é qualquer clube que consegue inaugurar com uma das lendas de Detroit, Carl Craig. Qual a expectativa para sua vinda? O Caos tem pretensão de oferecer quantas horas de apresentação para os convidados?

O techno de Detroit sempre foi uma influência muito grande para mim, e Craig um dos meus produtores favoritos. É um artista que se manteve atualizado, atuando um diversas frentes, e  cuja música só reforçou sua relevância ao longo dos anos. Depois da apresentação arrebatadora no DGTL em São Paulo, a expectativa realmente é muito alta. Acho que é muito simbólico ter um artista como ele na noite de inauguração de um club que nos faz revisitar nosso passado ao mesmo tempo em que nos faz olhar para frente — porque Carl é história, mas nunca deixou de ser um visionário.

Além de você como anfitriã, teremos o lendário Mauricio Lopes e o duo campinense Black Sun na estreia do Caos. Em relação a residentes, existem nomes cotados?

O time de residentes de um club se forma conforme sua história é escrita, e os personagens importantes para ela aparecem nesse processo. Os residentes do Club 88 estão entre os melhores DJs de Campinas e região, em minha opinião, e conquistaram seu lugar com a qualidade de seus sets ali. No Caos, tenho certeza que este grupo também vai se formar no seu ritmo e tempo.

Caos

Antes de tudo, vem o Caos

Em janeiro, outro nome importante do circuito global chega a Campinas: Marco Carola. Nessas duas primeiras datas, podemos observar que o techno e o tech house prevalecem. É esse o estilo de música que o Caos vai focar, ou haverá abertura para outros nomes importantes de estilos como deep house ou house progressivo?

Um ponto importante é que não vamos levantar bandeira de estilo algum — o que importa é a qualidade musical. Temos o techno de Detroit de Carl Craig, o tech house cheio de classe de Marco Carola, mas também confirmamos o Guy J no dia 06 de abril, para quem gosta de progressive house, além de três artistas de techno que ainda não posso relevar, mas que estão entre os mais relevantes do estilo.

Além de uma data mensal fixa, o espaço irá receber outros gêneros de música, como o hip hop. Como vai funcionar exatamente esse diálogo entre estilos e públicos tão diferentes?

Já temos uma programação diversificada no Club 88, e nossos projetos de hip hop e pop (o Groove Urbano e a Wolf) também terão suas noites no Caos mensalmente. Cada noite e cada público servem para enriquecer nosso trabalho, nossa experiência, e o que podemos oferecer ao público.

“Não vamos levantar bandeira de estilo algum — o que importa é a qualidade musical.”

Parece haver uma tendência recente de novos clubes, com propostas cada vez mais nichadas, surgindo pelo Brasil. Como você enxerga esse atual momento do mercado dos clubes e da cena eletrônica em geral? Crises econômicas à parte, você diria que este é um dos melhores momentos para abrir esse tipo de negócio no país?

Sempre acreditei que crises trazem muitas oportunidades. O interior de SP abriga muitos dos maiores festivais do Estado, tem um público que consome avidamente música eletrônica, provou que é importante celeiro de talentos, com ótimos produtores e DJs, e conta com o Club 88 e o Laroc, que investem fortemente em sua direção artística de forma constante — assim, percebemos que havia demanda e espaço para um novo club. Num momento em que o mercado está tão retraído, por que não encarar mais um empreendimento se tudo conspirou a favor?

Como é o processo de estudo e incubação da ideia de criar um novo clube até, efetivamente, o seu nascimento? Conta pra gente o trabalho que envolve a criação de um empreendimento desse tipo.

Nosso trabalho é muito intuitivo — sempre falo que não servimos como modelo de negócio algum, de uma maneira mais tradicional assim falando [risos]. Lógico que todos esses anos de experiência servem como base para tomada de decisões, e no caso do Caos, foi apenas seguir um desejo latente em ter um espaço maior, para não termos que criar uma estrutura temporária cada vez que quiséssemos expandir nossas atividades para fora do Club 88. Todos nós temos uma inquietude que nos faz sempre pensar qual o próximo passo, o próximo negócio, evento…

Quando o 88 completou quatro anos, sentimos que era hora de crescer. A primeira coisa é encontrar o local adequado — ou no nosso caso, descobrir um local e pensar que seria incrível ter um club ali, como foi com o prédio do Jockey Club. Eu já tinha em mente que artistas gostaria de trazer, e corremos para a obra ser finalizada a tempo.

“Não há excessos: o Caos é uma grande pista de dança com um baita soundsystem e uma iluminação projetada para criar a atmosfera certa para dançar.”

Quais são as principais referências que nortearam o conceito e os princípios do Caos?

De alguma maneira, o Caos é como o final e início de um ciclo, e sentimos que é um retorno às nossas origens, quando o que realmente importava era apenas a música, mas com o olhar para o futuro. Tudo que era excesso foi retirado: o club é uma grande pista de dança com um baita soundsystem e uma iluminação projetada e pensada para criar a atmosfera certa para dançar. Desde a comunicação até a decoração, tudo foi simplificado, sem rodeios, sem exageros, para que você tenha a experiência e a percepção mais pessoais possíveis.

Espero que as pessoas realmente vivenciem uma imersão musical ao som de ótimos artistas, e possam compartilhar conosco a realização de mais um sonho.

Como o Caos vai se diferenciar de todos os outros clubes conceituais do mercado brasileiro?

Posso falar da estrutura, do espaço, dos bookings, mas o que na verdade sempre nos diferenciou, e espero que continue no Caos, é a relação que criamos com as pessoas que prestigiam nosso trabalho, com nossa equipe e com os artistas. Esse apreço pelo outro, por uma boa festa — é claro — e o amor genuíno ao que fazemos é o que vai tornar o Caos especial.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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Notícia

Ícone do house progressivo, Nick Warren é headliner de festa em São Paulo

Jonas Fachi

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Nick Warren São Paulo
O segundo evento do núcleo Unik ID traz o expoente britânico de volta à cidade que tem um peso especial em sua carreira

Nesta semana, uma longa espera chegará ao fim. Depois de quatro anos, um dos mais consagrados DJs da história da dance music desembarca novamente no Brasil. Quase 20 anos após ter marcado época em São Paulo ao escolher a cidade para gravar sua segunda compilação pela Global Underground (ouça abaixo), o inglês está de volta para consolidar um novo ciclo musical na capital financeira do Brasil.

Falar de Nick Warren não é uma tarefa fácil. Sua trajetória impressionante como DJ e brilhante como produtor musical o colocou frente a frente com o que já houve de melhor na cena clubber e festival no mundo. Podemos dizer que a apresentação do próximo sábado, em evento realizado pelo núcleo Unik ID, será algo emblemático. Por quê? Para entender, precisamos voltar um pouco no tempo e relembrar a estreita relação que o DJ de Bristol já teve com a cidade.

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Em 1998, durante a explosão do estilo house progressivo desenvolvido por ele e ícones como Sasha, John Digweed e Danny Howells no Reino Unido, Nick apostou na capital paulista para compilar um de seus álbuns mais interessantes e distintos. Foi um dos raros momentos em que o artista flertou com techno de maneira magistral, acabando por conceber um disco que poderia ser facilmente apresentado nos dias de hoje.

Vale ainda destacar que nenhum outro artista compilou tantos álbuns para a gravadora mais importante dos anos 90 e 2000. Foram oito cidades escolhidas a dedo por Nick para expressar sua música e também adaptá-la ao movimento local. A escolha por São Paulo serviu como uma pequena amostra do potencial que a cidade já apresentava em ser uma das lideres de desenvolvimento eletrônico no mundo, como mais tarde veio a se tornar. Durante todo esse tempo, o artista obteve grandes momentos por aqui, em clubs com o Warung, o Sirena e, mais recentemente, na Amazon.

Em 2017, o público paulista de apreciadores do estilo que o DJ ajudou a criar e consolidar pode dizer que teve um ano especial. A vinda de nomes como John Digweed, Guy J, Hernan Cattaneo e agora Nick Warren fecha uma temporada que deverá ser lembrada como de mudança e abertura de ideias para outros estilos. Nick estará dando uma volta na história quando iniciar seu long set em um dos eventos mais aguardados dos últimos tempos. Em recente publicação em sua página no Facebook, o artista demonstrou todo entusiasmo para voltar à cidade: “Brasil, eu já estava com saudades de vocês!”.

O núcleo Unik ID, uma das bandeiras mais fortes da capital para o house progressivo, chega para realizar sua segunda edição já contando com um artista do mais alto escalão do cenário conceitual. Tudo isso foi possível após o retorno positivo no primeiro evento, em que trouxeram dois produtores de destaque nos últimos anos — Cid Inc e Darin Epsilon.

Nick Warren São Paulo

Sábado, dia 16, a pista em anexo ao AUDIO Club receberá ainda um B2B com dois talentosos produtores que vêm se destacando em nossa cena: Luciano Scheffer e Goraieb. Completam o lineup Pedro Capelossi, Gui Milani e Pk Live. Você pode conferir mais informações no Facebook.

* Jonas Fachi é colunista na Phouse; leia mais de seus textos.

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