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Entrevista

Catarinense se reinventa e atrai olhares de gigantes do progressive house

Nayara Storquio

Publicado em

25/06/2018 - 13:59
ZAC
Foto: Divulgação
Depois de 13 anos no mercado, Thiago Zacchi explode como ZAC
* Com a colaboração, revisão e edição de Flávio Lerner

A cena underground catarinense parece ter um novo destaque: o DJ e produtor Thiago Zacchi, que vem ascendendo meteoricamente desde que lançou seu projeto ZAC. Com a vantagem de ter nascido próximo a um dos maiores polos brasileiros de dance music, o DJ natural de Mondaí, interior de Santa Catarina, já conta com 13 dos seus 30 anos de vida na profissão, mas foi nos últimos nove meses que começou a chamar a atenção dos principais expoentes do progressive house global.

Thiago iniciou sua trajetória em Chapecó, tocando em festas fechadas aos 17 anos, onde descobriu sua paixão. “Depois de ir na minha primeira festa de música eletrônica, decidi que queria ser DJ. Comprei um CDJ 100 e mixer e ficava o dia todo em casa mixando — era como jogar videogame. Comecei tocando em festas privadas, que chamávamos de ‘privates’. Na época eu tocava sozinho a noite toda, além de ajudar na montagem e desmontagem do som”, destaca o artista, em papo com a Phouse.

Set na Levels, em Porto Alegre

Depois de ter se estabelecido profissionalmente dentro do mercado catarinense, tornou-se sócio do famoso Amazon Club, na mesma Chapecó. Thiago acredita que ser parte do clube por quase dez anos tenha lhe trazido muita aprendizagem e oportunidades, porém ele não vincula o sucesso de seu novo projeto a ele.

“Meus êxitos como parte do clube não têm nada a ver com o que tenho feito como produtor musical e DJ. O Amazon me ajudou, mas de resto essa imagem ligada a ele me prejudica, porque às vezes as pessoas lembram do clube e acabam não escutando a minha música, que é o que realmente importa. Tive a felicidade de conhecer grandes nomes ali, ter contato com muitos artistas bons, mas o que impulsionou meu nome na cena global foram as músicas que produzi, as horas dentro do estúdio, e realmente fazer a música que amo.”

Faixa que agradou Cattaneo, “Crystal” ficou por 30 dias no Top 100 de progressive house do Beatport; ZAC a considera um divisor de águas na sua carreira

Thiago cria suas produções buscando incorporar elementos bem brasileiros — algo que era raro no cenário nacional, mas que vem crescendo. O produtor admite que carrega, de fato, uma forte veia progressiva, mas não gosta de se limitar a essa vertente. “Minhas faixas são carregadas de melodias progressivas, que é o estilo que mais me inspira. Ao mesmo tempo, elas têm percussões e baterias dos ritmos brasileiros. O samba, a rancheira, o maxixe, o maracatu, o candomblé, o calango e outras mais. Gosto de tudo que traz sensualidade”, continua.

O rapaz também acredita que parte do seu segredo está em justamente não pensar em fazer sucesso, além da experiência de anos como clubber. “O ZAC nada mais é que a verdade sobre mim mesmo — a mistura de todas as influências que recebi ao longo da minha vida musical. Eu faço som pra tocar. Não tô preocupado se algum selo vai lançar, se tá agradando os outros DJs… Eu quero agradar a mim mesmo. Sou um cara que veio da pista, e quando vou nas festas eu fico dançando e admirando o trabalho do DJ. São muitos anos discotecando, e essa leitura de pista ajuda muito na hora do show.”

Hernán Cattáneo tocando “Crystal” no Warung

Com muita dedicação, foco e originalidade, ZAC vai colhendo frutos expressivos em pouco tempo de atividade. Além de acumular sets em rádios internacionais, como BBC Radio 1, Beat FM e Progressive Beats, o cara já fez passou pelo crivo de alguns dos maiores peixes do cenário. No Warung Beach Club, ninguém menos que Hernán Cattáneo tocou sua música “Crystal”, com Gabriel Carminatti, além de tê-lo incluído três vezes no seu podcast no Resident Advisor.

O DJ acredita que foi o suporte de Hernán que fez com que ele passasse a atrair mais olhares e ser mais conhecido. “Foram quatro suportes seguidos em quatro meses, sendo que quando ele tocou a ‘Crystal’ no Warung, o clube simplesmente veio abaixo”, segue. Outro big name que o deu muita força é o alemão D-Nox, que já chegou a convidá-lo para um B2B surpresa.“Ganhei a admiração do D-Nox tocando em uma festa em Lages, fazendo warmup. Ele ficou vendo e disse que eu tocava boa música. Ele é uma lenda, eu tremia e fiquei muito nervoso para tocar junto com ele, mas no final deu tudo certo.” 

Trechinho do B2B com o D-Nox

De acordo com relatos de amigos, Marco Carola também tem tocado algumas de suas faixas. Mas mesmo com tudo isso, Zacchi destaca que o mais importante é sua relação com o público. “Principal para mim é ter saído de uma condição de um DJ de festas privadas, chegar ao Inside do Warung, tocando numa noite de Carnaval, com um lineup recheado de gringos, e escutar as pessoas dizendo que estavam ali pra me assistir, que viajaram quilômetros de distância pra ouvir meu set… Esse é o maior feito da minha carreira: conquistar fãs.”

Mas como um artista ainda no começo da sua carreira consegue atrair atenção dos gigantes? Segundo ZAC, a resposta está na persistência: “Eu realmente mandei as faixas para esses artistas, depois de conhecê-los pessoalmente. Para outros, mando sons por e-mail, Facebook, Instagram… Sou insistente, brasileiro, não desisto nunca”, brinca. Esse sucesso, entretanto, tem o seu preço. “Eu praticamente não tenho nenhum dia de folga. Segunda-feira, que é pra ser o day-off do DJ, pra mim não existe. Eu gosto de acordar, fazer um café e revisar as músicas que toquei no final de semana, e fazer alguns ajustes que julgo necessário”, disse ele, que ao lado de sua agência 4 Fly, também participa de sua rotina de agenda e administração da carreira.

Microdocumentário sobre sua gig no Carnaval do Warung

Assim, Zacchi vai acumulando performances em pistas expressivas pelo Brasil e a América Latina. Além do Warung, já tocou em clubes e festivais de peso como TribalTech, Creamfields, Colours, Levels, Beehive, Cultive, D-EDGE e Lotus (em Montevideo, no Uruguai). No caminho certo e com todos esses anos de experiência e visão privilegiada no mercado, o músico confia no seu taco, e garante que tem alma internacional.

“O futuro do ZAC acredito que está a caminho. Eu tenho muita música que está explodindo na pista e nem foi lançada ainda. Cada dia que passa fico mais otimista, porque o envolvimento dos fãs tem sido incrível. São pessoas de todo o Brasil e o mundo me chamando, dizendo palavras de motivação e me colocando pra cima. Fico feliz porque eu tô fazendo a música que amo, sem rótulos, sem preconceito. Quando vou tocar, me sinto a melhor pessoa do mundo — a troca de energia com a galera tem sido o combustível para tudo!”

Nayara Storquio é colaboradora da Phouse.

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Notícia

EXCLUSIVO: Conheça os residentes do Ame Club

Apuramos quem são os quatro residentes iniciais do novo clube underground do Grupo Laroc

Alan Medeiros

Publicado há

DJ Glen
DJ Glen é um dos residentes do Ame. Foto: Reprodução
* Edição e revisão: Flávio Lerner

Sempre que alguém dizer que a cena clubber brasileira precisa se reinventar, fale sobre o Laroc. O club paulista localizado no interior do estado, mais precisamente em Valinhos, é um dos grandes cases da eletrônica nacional na última década. O segredo? Entender que “apenas” soundsystem e iluminação de ponta não fazem mais o sucesso de um grande club. O público quer e precisa consumir experiência.

Ao longo desses primeiros anos de trabalho, o Laroc alternou eventos do mainstream, com headliners como Armin van Buuren e Kaskade, com nomes fortes do underground, como Yotto, Matador, Loco Dice e a realização do Diynamic Festival. Com o crescente interesse do público por essa faceta mais conceitual de artistas, a organização agiu rápido e anunciou o Ame Club, novo empreendimento que inaugura amanhã à tarde, em anexo no complexo que conta com a Folk Valley e o próprio Laroc.

+ CLIQUE AQUI para saber mais sobre o Ame Club

Diferentemente de seu club precursor, o Ame será 100% dedicado ao underground (como você já viu aqui). Com clima e estrutura de minifestival, o empreendimento promete ser um dos destaques da cena nacional nos próximos anos, e para consolidação de um perfil sonoro sólido e bem definido, que é tão importante para casas desse segmento, seus residentes serão fundamentais. O time já está definido, e abaixo você confere — em primeira mão aqui na Phouse — um pouco mais sobre cada um dos nomes escolhidos:

DJ Glen

 

Um dos profissionais mais consistentes da dance music nacional, DJ Glen é um artista completo. Produtor de mão cheia com releases em labels do primeiro escalão internacional e DJ famoso por seus long sets em vinil, Glen está confirmado para a festa de abertura. Clique aqui para ler mais notícias sobre ele.

Silvio Soul

Uma das mentes por trás de tudo o que envolve a concepção do Ame Club, Silvio Soul é aquele profissional responsável por unir com maestria bastidores e pista. Assim como Glen, está confirmado no lineup de inauguração do club.

 
 

Mascaro

 

Outro nome que possui um papel muito importante na história recente do Laroc e que agora passa a integrar o time de residentes do Ame. Mascaro representa a força dos talentos locais e tem nessa residência uma das grandes oportunidades de sua carreira. Ele será o responsável pelo primeiro play do club na tarde de amanhã.

Junior_C

 

Um dos grandes símbolos da música eletrônica no Brasil, Junior_C é mais que um DJ/produtor, é um ícone de transformação e um exemplo de vida para toda a indústria. Como parte da D.O.C. Records, lançou alguns trabalhos extremamente consistentes e ao longo da última década correu o Brasil tocando nos principais clubs e festivais do país. Clique aqui para ler mais notícias sobre ele.

Ao lado de Joris Voorn e Boghosian, Glen, Mascaro e Silvio estão confirmados para a abertura do Ame neste sábado, 17, a partir das 16h.

Alan Medeiros é colaborador da Phouse.

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ENTREVISTA

“Achava que dance music era vulgar e fácil de se fazer, mas eu estava errada”

Uma das artistas mais interessantes do cenário techno atual, Giorgia Angiuli fala sobre o visual, a turnê no Brasil e o seu primeiro álbum solo

Flávio Lerner

Publicado há

Giorgia Angiuli
Foto: Divulgação

* Com a colaboração de Alan Medeiros

No cenário eletrônico, artistas que trazem uma bagagem de referências musicais plural, e que buscam fazer arte em vez de se contentar apenas com sons funcionais para as pistas, costumam ir além e se destacar em meio à massa. É o caso da italiana Giorgia Angiuli, que nos últimos anos explodiu no underground internacional.

Além de uma formação musical rica e de ter experimentado diversas vertentes como artista, a multi-instrumentista e cantora se destaca por um estilo muito particular: no cenário do techno, em que a norma é vestir preto e ser blasé, Giorgia usa roupas infantis e transforma brinquedos e chaveirinhos do Pikachu em controladores de som. Misture tudo isso com um talento grande pra compor, tocar e transmitir uma profundidade artística rara, e você consegue entender um pouquinho por que a garota faz tanto sucesso.

Neste final de semana, Angiuli estreia sua turnê sul-americana no Caos, em Campinas, onde toca nesta sexta, 09, e no dia seguinte já parte para Porto Alegre, onde toca na Warung Tour/Levels. Dali, na véspera do feriado volta a São Paulo, desta vez na capital, em mais uma data da turnê do Warung: dia 14, no Aeroporto Campo de Marte. Saindo do Brasil, encerra a turnê no Sónar Bogotá (17) e no clube The Atlantic Room, em San Juan, Porto Rico.

“Nothing to Lose” é um dos singles já conhecidos de In a Pink Bubble

No dia 23, lançará In a Pink Bubble, seu primeiro álbum solo, que segundo a própria, mistura indie eletrônico e techno melódico. Com 12 faixas, o LP é encarado como um dos lançamentos mais especiais do conceituado selo alemão Stil Vor Talent — e podem apostar que estará em boa parte das listas de melhores do ano.

Com tanta coisa importante rolando ao mesmo tempo, não poderíamos deixar passar a oportunidade de trocar uma palavrinha com ela. No papo que você lê abaixo, conhecemos mais sobre sua trajetória, relação com a música brasileira, descobrimos por que ela adota esse visual “kawaii”, que contrasta com o techno, e que por trás de toda essa aura fofa, seu primeiro álbum é marcado por uma história sombria.

Live incrível gravado em Ibiza, pela Cercle

Giorgia, após duas passagens bem interessantes pelo Brasil, com qual sentimento você chega para essa nova tour?

Vocês não imaginam o quanto estou feliz por estar de volta! Amo esse país, pois você pode respirar energia positiva em qualquer lugar. Amo as pessoas, a comida e a sua natureza!

Como enxerga o Brasil e o cenário cultural/eletrônico brasileiro?

Acho que os brasileiros têm música no sangue, tenho muito respeito pela sua cultura. Ontem à noite aproveitei um show de samba. Também gosto de bossa nova, no carro dos meus pais havia apenas CDs do Caetano Veloso. Adoro a sua intensidade e o seu charme.

Um dos principais instrumentos da música brasileira é o violão, e eu estudei violão, então é um som que também faz parte de mim. Sobre eletrônica, minha produtora preferida no momento é daqui, a ANNA. Adoro o seu techno poderoso e elegante, as produções dela são brilhantes.

“Amo brinquedos e roupas fofas. Com uma roupa preta e um equipamento simples as coisas poderiam ser mais fáceis, mas não quero mudar pelas regras do mercado.”

Ao Alataj, você falou há um ano que a cena eletrônica na Itália era complicada, com um mercado limitado e muitas restrições aos clubs. Isso continua assim? Você tem feito sua carreira mais fora de seu país do que na sua terra natal?

Amo a Itália e acho que é um país cheio de grandes artistas, mas, infelizmente, o governo não apoia a cena clubber. Na Itália, os clubes devem fechar no máximo às 04h da manhã. Não há muitos festivais, mas espero muito que as coisas mudem em um futuro próximo. Neste momento, estou tocando fora do meu país, porque amo viajar e tenho curiosidade em conhecer novas culturas.

Você tem uma trajetória bem interessante no meio musical. Conta melhor pra gente como foi a construção da sua carreira.

É difícil para mim falar sobre música e carreira e manter as coisas separadas. Sempre vivi com e pela música, então pra mim fazer música é natural e é uma necessidade para que eu me sinta bem.

Estudei música clássica, toquei rock e new metal, depois indie eletrônico, e comecei a trabalhar na cena techno há poucos anos. Tento ser sempre eu mesma e tudo aconteceu de uma forma natural. Isso é o que gosto na minha jornada, e ainda por cima, trabalho com uma equipe de amigos — meu booker e meu manager são, acima de tudo, meus amigos.

Assinei meu primeiro álbum no selo da Ellen Allien, Bpitch Control, com meu projeto anterior, We Love, e comecei meu projeto solo há cinco anos. Agora, vou lançar meu primeiro álbum pela Stil Vor Talent.

“O que eu realmente gosto da dance music é a reação do público — você consegue sentir imediatamente o que eles estão achando do seu som. É sobre reações instintivas e sentimentos, então se eles dançam, significa que estão gostando.”

E quais foram os principais desafios que você enfrentou ao começar a trabalhar com música eletrônica? Por vir de um universo diferente do usual, você não se sente um peixe fora d’água nesse cenário clubber?

Sim, às vezes me sinto um pouco como um peixe fora d’água, mas isso também é divertido. Não sei onde vou estar em cinco anos, talvez tocando com uma banda novamente. Amo música em todas as suas formas, e no momento estou apenas nadando em um novo oceano.

Na verdade, quando eu estudava, tinha muito preconceito com dance music. Achava que era algo vulgar e muito fácil de se fazer. Mas eu estava completamente errada, toda música tem suas próprias dificuldades. O que eu realmente gosto da dance music é a reação do público — você consegue sentir imediatamente o que eles estão achando do seu som. É sobre reações instintivas e sentimentos, então se eles dançam, significa que estão gostando.

Como foi que você decidiu usar brinquedos como controladores de som em seus lives? Foi uma alternativa que você encontrou para contrastar com o techno, que normalmente carrega essa aura de um som sério, rígido?

Coleciono brinquedos há muitos anos. Sei que muitas vezes as pessoas olham para o meu setup de uma forma estranha, mas eu não me importo. É quem eu sou: amo cores, adoro brinquedos, roupas fofas, essa onda “kawaii”… Até me sinto um pouco como uma garota japonesa. Sei que com uma roupa preta e um equipamento simples as coisas poderiam ser mais fáceis, mas não quero mudar pelas regras do mercado.

“A música me salvou de um estado de depressão.”

Você também tem falado sobre sinestesia em algumas de suas entrevistas. Você acha possível que, algum dia, seus shows possam apresentar uma experiência multissensorial? Como se daria essa relação de misturar música com cheiros em seus lives?

Quando comecei a tocar música eletrônica, eu costumava tocar em lugares muito pequenos, então eu sempre levava uma pequena máquina de fragrâncias. Tenho muitos sonhos, e um deles é construir um órgão e ligar uma fragrância a cada nota. Considero todas as linguagens artísticas conectadas entre si, e a arte tem o forte poder de nos conduzir a outra dimensão. É por causa disso que acho que todos deveríamos tentar explorar e aproveitar essa experiência o máximo que pudermos.

O que você pode nos contar sobre o processo criativo do seu primeiro álbum solo, que logo, logo está chegando?

Tudo aconteceu muito rápido e sem um plano próprio. Eu produzi o álbum inteiro em oito meses, trabalhando muito enquanto viajava, até mesmo nos voos. Não foi muito fácil encontrar tempo para me concentrar no estúdio. Senti uma forte necessidade de compor música, transmitir nos sons as minhas emoções, e decidi colocar todas essas músicas em um long play.

Este tem sido um ano muito especial para mim: minhas primeiras gigs pelo mundo, a descoberta de muitos países e a perda do grande amor da minha vida, minha mãe. A música me salvou de um estado de depressão. Percebi esse álbum como um presente para minha mãe, e eu agradeci a música por me fazer me sentir melhor, me dar energias para continuar.

Acompanhada por todas essas emoções, senti como se estivesse em uma bolha rosa [“pink bubble”, o título do álbum]. Compus quase todas as faixas no avião, coletando minhas ideias no Ableton, e depois gravei tudo no estúdio, no tempo que sobrava entre minhas turnês. Gravei minha guitarra, minha voz e meus synths preferidos: Moog Sub, Juno 106, OB-6 e Korg MS2000.

Flávio Lerner é editor da Phouse.

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Entrevista

“Queremos saber o que o mundo acha do Rooftime”

Trio que chegou chegando na cena brasileira explica de onde veio e para onde vai

Flávio Lerner

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Rooftime
Gabriel Souza Pinto, Rodrigo Souza Pinto e Lisandro Carvalho formam o Rooftime. Foto: Lufre/Divulgação
* Com a colaboração de Lucio Morais Dorazio

Ter seu primeiro lançamento pela Spinnin’ Records e em parceria com um dos maiores nomes do seu país é um sonho praticamente inalcançável para muitos. Não para o Rooftime. O trio, formado pelos irmãos Gabriel e Rodrigo Souza Pinto (25 e 21 anos, respectivamente) com o amigo Lisandro Carvalho (21), fez sua estreia no final de setembro com “I Will Find”, collab com o Vintage Culture.

Pouco se sabe sobre o projeto, que não só nunca havia lançado uma música oficialmente, como também ainda não fez nenhuma apresentação ao vivo, nem no formato DJ set. Os caras, portanto, são novos não só na idade, como também estão chegando agora na cena — e dá pra dizer que já chegaram sentando na janelinha.

Além de ultrapassar um milhão de plays no Spotify e chegar a quase quatro milhões de visualizações no YouTube em questão de semanas, e de ser escolhida como música tema do Réveillon John John Rocks 2019 — que rola na praia de Jericoacoara, no Ceará —, a track indica uma sonoridade e um caminho repletos de potencial a serem seguidos pelo grupo.

Assim, entramos em contato com os rapazes, naturais de Itatiba–SP, para entender melhor de onde vieram e para onde vão daqui pra frente.

O clipe de “I Will Find” foi gravado em Jericoacoara, no cenário do John John Rocks

Contem pra gente um pouco sobre as origens de vocês e o primeiro contato com a música. Como surgiu o Rooftime?

Gabriel: Sempre fomos apaixonados pela música, mas sem grandes perspectivas. Eu já tinha acabado a faculdade de Administração com foco em Comércio Exterior na PUC–Campinas, havia trabalhado na área recentemente, mas não era o que me motivava. Nunca deixei que a música saísse da minha vida, então mantinha sempre o projeto com algumas bandas, junto com o Rodrigo todas as vezes.

Rodrigo: Na época, eu estava no segundo ano da faculdade, fazendo o mesmo curso que o meu irmão fez, mas também sentia que não era aquilo que eu queria. Sendo filhos de artistas, nós dois convivíamos com música desde o berço, então sabíamos que esse seria o nosso caminho também. Mas o grande problema era nos acharmos no meio musical e criar algo diferente.

Lisandro: Eu sempre tive essa preocupação também, porque comecei a produzir desde muito cedo, e queria encontrar algo totalmente fora da caixa. Tive um projeto antes, mas eu ainda sentia que não era o melhor em que eu poderia chegar. Tudo isso mudou quando eu conheci o Rodrigo na van, indo pra faculdade. Na época, eu fazia o mesmo curso de Administração. A gente começou a conversar sobre música, e todas as ideias bateram muito rápido!

Rodrigo: Não demorou muito para gente se reunir em casa, onde nos juntamos com o meu irmão. Isso foi no começo de 2017, no mês de maio, se eu não me engano. Afinamos o violão e saíram as primeiras melodias. Começamos na brincadeira, sem compromisso, como um hobby mesmo, sem muita ideia do que poderia acontecer. Desde então, a gente se reúne quase que diariamente pra fazer música, que é o que a gente ama fazer de verdade.

O nome “Rooftime” tem uma origem bem interessante. Contem melhor essa história pra gente.

Gabriel: No começo, não tínhamos um lugar reservado em casa pra poder criar. A gente se reunia no último andar de casa que, através de uma janela, dava acesso ao telhado. Subir lá, naquela época, era uma aventura, um mundo paralelo que encarávamos como um refúgio criativo, onde o mais importante era criar e ter ideias. Aos poucos isso foi se tornando rotina, e sempre que surgia alguma coisa nova, a gente dizia: “hora de subir no telhado”. Assim surgiu o nome “Rooftime”.

+ “I Will Find”, de Vintage Culture e Rooftime, é lançada pela Spinnin’

Quais são as maiores inspirações musicais de vocês?

Lisandro: Cada um de nós traz um pouco das nossas referências, mas pra compor nossa sonoridade, escutamos muita house music, indie rock, funk americano, soul, jazz e folk. Estamos sempre em busca de artistas novos e atentos a vários estilos, mas nossas inspirações hoje são Solomun, David August, RÜFÜS DU SOL, Claptone, Jan Blonqvist, Fatima Yamaha, Drake, Karmon, Milky Chance, Tube & Berger e alguns outros.

Podemos esperar que “I Will Find” seja uma boa amostra da identidade sonora do projeto? Uma coisa meio synth pop, mesclando elementos da house e do blues/rock — algo na linha do Elekfantz, mais ou menos

Rodrigo: A “I Will Find” é o melhor cartão de visitas possível. Nela, todo mundo pode ouvir e sentir a nossa intenção dentro da música eletrônica, com uma pegada acústica e sempre muito original. Acho que essa mistura de synth pop com um pouco da nossa essência é o que define nosso som, pois sempre sentimos que as faixas saem diferentes, mas também muito carregadas de emoção. Cada um dos três deposita tudo o que sente em cada música que criamos juntos, e acho que isso foge de qualquer denominação de estilo musical.

Rooftime
Foto: Lufre/Divulgação

Vocês nunca se apresentaram publicamente, mas sempre produziram. Como se dá esse processo de produção do trio?

Lisandro: A gente sempre tenta fazer algo com a nossa identidade, e na maioria das vezes o processo é bem orgânico, criativo e espontâneo. Não existe uma regra. Tudo começa no improviso: criamos juntos a harmonia, melodia e ritmo independente da aptidão musical de cada um. Temos bastante afinidade e as ideias acabando surgindo naturalmente.

Como surgiu a oportunidade de coproduzir com o Vintage Culture, logo no primeiro lançamento?

Gabriel: A “I Will Find” foi a primeira música que produzimos logo depois de nos conhecermos. Mal tínhamos um projeto formado, nem sequer um nome. Assim que terminamos, queríamos um feedback. Mandamos a música para o Lukas e ele abraçou a track na hora. Foi um ano de espera e de muita ansiedade, e agora, vendo a repercussão, não poderíamos estar mais felizes!

“Hoje conseguimos nos ver dentro do mundo musical de outra forma, muito diferente de antes, quando a única coisa em comum entre nós era um sonho” — Gabriel Souza Pinto.

E por que esperar um ano para esse lançamento? Foi uma estratégia de debutar o projeto já com o pé na porta?

Lisandro: Quando soubemos do interesse do Lukas pela faixa, tomamos a decisão de focar todos nossos esforços em produzir mais. Nem pensávamos mais na “I Will Find”, estávamos preocupados em consolidar nosso estilo musical e ficarmos cada vez mais entrosados no nosso processo criativo. Então, passamos todo esse tempo criando muitas outras músicas, trabalhando forte todo dia, muitas vezes até a madrugada, para que tivéssemos a certeza de que era o caminho certo.

Gabriel: Acho que tudo veio a calhar na hora certa. Por mais longa que tenha sido a espera para mostrar nosso trabalho para todos, sabemos que tudo foi muito proveitoso e necessário. Hoje conseguimos nos ver dentro do mundo musical de outra forma, muito diferente de antes, quando a única coisa em comum entre nós era um sonho.

Agora que o projeto foi lançado oficialmente, dá pra imaginar que vocês tenham já muitos outros lançamentos e gigs agendados pra logo mais. O que vem por aí?

Lisandro: Estamos nos preparando para lançar nossa segunda música, e a ansiedade não para de aumentar. Queremos lançá-la ainda neste ano, e estamos trabalhando forte nisso. Mas temos faixas preparadas para além do ano que vem, então tem muita coisa vindo por ai!

Gabriel: Também estamos estudando algumas possibilidades de gigs. Queremos ter certeza de nos apresentarmos na hora certa. Não podemos confirmar nada por enquanto, mas quem sabe no final do ano não surge alguma coisa?

Rodrigo: Estamos muito ansiosos pelo que está por vir. Temos colaborações com grandes artistas da cena a caminho, mas basicamente queremos que a nossa música ultrapasse as fronteiras e atinja um público cada vez maior. Queremos saber o que o mundo acha do Rooftime!

Flávio Lerner é editor da Phouse.

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